Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que não é lícito matar coisa alguma viva. Porque o Apóstolo diz (Rm 13,2): «Os que resistem à ordenação de Deus compram para si a condenação.» Ora, a providência divina ordenou que todos os seres vivos sejam preservados, segundo o Sl 146,8-9: «Ele faz crescer a erva nos montes... Ele dá aos animais o seu alimento.» Logo, parece que não é lícito tirar a vida a coisa alguma viva. Objeção 2: Ademais, o homicídio é pecado porque priva um homem da vida. Ora, a vida é comum a todos os animais e plantas. Logo, pela mesma razão, aparentemente é pecado matar animais mudos e plantas. Objeção 3: Ademais, na lei divina não é determinada uma pena especial senão para o pecado. Ora, uma pena especial teve de ser infligida, segundo a lei divina, a quem matasse o boi ou a ovelha de outrem (Ex 22,1). Logo, a matança de animais mudos é pecado. Em contrário, Agostinho diz (Cidade de Deus I,20): «Quando ouvimos dizer: 'Não matarás', não entendemos que se refere às árvores, porque não têm sentido, nem aos animais irracionais, porque não têm comunhão connosco. Donde se segue que as palavras 'Não matarás' se referem à matança de um homem.» Respondo que não há pecado em usar uma coisa para o fim para o qual existe. Ora, a ordem das coisas é tal que os imperfeitos são para os perfeitos, assim como no processo de geração a natureza procede da imperfeição para a perfeição. Por isso, assim como na geração de um homem há primeiro um ser vivo, depois um animal, e por fim um homem, assim também as coisas, como as plantas, que meramente têm vida, são todas para os animais, e todos os animais são para o homem. Pelo que não é ilícito que o homem use as plantas para o bem dos animais, e os animais para o bem do homem, como diz o Filósofo (Política I,3). Ora, o uso mais necessário parece consistir no facto de os animais usarem as plantas, e os homens usarem os animais, para alimento, e isto não pode fazer-se a menos que sejam privados da vida; pelo que é lícito tirar a vida às plantas para uso dos animais, e aos animais para uso dos homens. Na verdade, isto está de acordo com o mandamento do próprio Deus: pois está escrito (Gn 1,29-30): «Eis que vos tenho dado toda a erva... e todas as árvores... para vos serem por mantimento, e a todos os animais da terra»; e ainda (Gn 9,3): «Todo o que se move e vive vos será por mantimento.» Resposta à Objeção 1: Segundo a ordenança divina, a vida dos animais e das plantas é preservada não para si mesmos, mas para o homem. Por isso, como diz Agostinho (Cidade de Deus I,20), «por uma justíssima ordenança do Criador, tanto a sua vida como a sua morte estão sujeitas ao nosso uso.» Resposta à Objeção 2: Os animais mudos e as plantas são desprovidos da vida da razão, pela qual se movem a si mesmos; são movidos, por assim dizer, por outro, por uma espécie de impulso natural, sinal do qual é que são naturalmente servos e acomodados aos usos de outros. Resposta à Objeção 3: Quem mata o boi de outrem peca, não por matar o boi, mas por injuriar outro homem nos seus bens. Pelo que isto não é uma espécie do pecado de homicídio, mas do pecado de furto ou roubo.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether it is unlawful to kill any living thing? · séc. XIII
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