Referência

Rm 14, 23

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Matos Soares

23Mas, o que come, apesar das suas dúvidas, é condenado, porque não agiu segundo uma convicção. E tudo o que não é segundo a convicção, é pecado.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que cada ato de um infiel é pecado. Porque uma glosa sobre Rom. 14,23: «Tudo o que não é de fé é pecado», diz: «Toda a vida dos infiéis é pecado». Ora, a vida dos infiéis consiste nas suas ações. Logo, toda ação de um infiel é pecado. Objeção 2: Ademais, a fé dirige a intenção. Ora, não pode haver bem senão o que provém de uma reta intenção. Portanto, entre os infiéis, nenhuma ação pode ser boa. Objeção 3: Ademais, quando o que precede é corrompido, o que segue também é corrompido. Ora, o ato de fé precede os atos de todas as virtudes. Logo, como não há ato de fé nos infiéis, eles não podem fazer nenhuma obra boa, mas pecam em todas as suas ações. Em contrário, Diz-se de Cornélio, quando ainda infiel (At 10,4.31), que as suas esmolas eram aceitáveis a Deus. Portanto, nem toda ação de um infiel é pecado, mas algumas das suas ações são boas. Respondo que, Como foi dito acima (I-II, q.85, a.2 e 4), o pecado mortal tira a graça santificante, mas não corrompe totalmente o bem da natureza. Visto que, portanto, a infidelidade é um pecado mortal, os infiéis estão, na verdade, sem graça, mas permanece neles algum bem da natureza. Consequentemente, é evidente que os infiéis não podem realizar aquelas obras boas que procedem da graça, isto é, obras meritórias; contudo, podem, até certo ponto, fazer aquelas obras boas para as quais o bem da natureza é suficiente. Donde não se segue que peque em tudo o que fazem; mas sempre que fazem algo por sua infidelidade, então pecam. Pois, assim como aquele que tem a fé pode cometer um pecado atual, venial ou mesmo mortal, que não refere ao fim da fé, assim também um infiel pode praticar uma boa ação numa matéria que não refere ao fim de sua infidelidade. Resposta à Objeção 1: As palavras citadas devem ser entendidas ou como significando que a vida dos infiéis não pode ser isenta de pecado, porque sem fé nenhum pecado é removido, ou que tudo o que fazem por infidelidade é pecado. Por isso, a mesma autoridade acrescenta: «Porque todo aquele que vive ou age segundo a sua infidelidade, peca gravemente». Resposta à Objeção 2: A fé dirige a intenção quanto ao fim último sobrenatural; mas também a luz da razão natural pode dirigir a intenção em relação a um bem conatural. Resposta à Objeção 3: A infidelidade não destrói tão totalmente a razão natural nos infiéis que neles não permaneça algum conhecimento da verdade, pelo qual são capazes de praticar ações genericamente boas. Quanto a Cornélio, porém, deve-se observar que ele não era infiel, do contrário suas obras não seriam aceitáveis a Deus, a quem ninguém pode agradar sem fé. Ora, ele tinha fé implícita, pois a verdade do Evangelho ainda não se manifestara; por isso, Pedro foi enviado a ele para lhe dar uma instrução mais plena na fé.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 4 - Whether every act of an unbeliever is a sin? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Artigo 5 – Se a vontade é má quando discorda da razão errante?** **Objeção 1:** Parece que a vontade não é má quando discorda da razão errante. Porque a razão é a regra da vontade humana, enquanto deriva da lei eterna, como se disse acima (A[4]). Ora, a razão errante não deriva da lei eterna. Logo, a razão errante não é a regra da vontade humana. Portanto, a vontade não é má se discorda da razão errante. **Objeção 2:** Ademais, segundo Agostinho, a ordem de uma autoridade inferior não obriga se for contrária à ordem de uma autoridade superior; por exemplo, se um governador provincial ordena algo que o imperador proíbe. Ora, a razão errante às vezes propõe o que é contrário à ordem de um poder superior, a saber, Deus, cujo poder é supremo. Logo, o juízo de uma razão errante não obriga. Consequentemente, a vontade não é má se discorda da razão errante. **Objeção 3:** Ademais, toda vontade má se reduz a alguma espécie de malícia. Ora, a vontade que discorda da razão errante não se reduz a alguma espécie de malícia. Por exemplo, se a razão de um homem erra ao lhe ordenar que cometa fornicação, sua vontade, ao não querer fazê-lo, não pode ser reduzida a nenhuma espécie de malícia. Logo, a vontade não é má quando discorda da razão errante. **Em contrário,** como se disse na Primeira Parte (Q[79], A[13]), a consciência nada mais é do que a aplicação do conhecimento a uma ação. Ora, o conhecimento está na razão. Portanto, quando a vontade discorda da razão errante, ela é contra a consciência. Ora, toda vontade assim é má; pois está escrito (Rm 14,23): "Tudo o que não é da fé" — isto é, tudo o que é contra a consciência — "é pecado". Logo, a vontade é má quando discorda da razão errante. **Respondo que,** visto que a consciência é uma espécie de ditame da razão (pois é a aplicação do conhecimento à ação, como se disse na Primeira Parte, Q[19], A[13]), inquirir se a vontade é má quando discorda da razão errante é o mesmo que inquirir "se a consciência errante obriga". A este respeito, alguns distinguiram três tipos de ações: pois algumas são boas genericamente; outras, indiferentes; outras, más genericamente. E dizem que, se a razão ou a consciência nos ordena fazer algo que é bom genericamente, não há erro; e, de modo semelhante, se nos ordena não fazer algo que é mau genericamente; pois é a mesma razão que prescreve o bem e proíbe o mal. Por outro lado, se a razão ou a consciência de um homem lhe diz que ele está obrigado por preceito a fazer o que é mau em si mesmo; ou que o que é bom em si mesmo é proibido, então sua razão ou consciência erra. De modo semelhante, se a razão ou a consciência de um homem lhe diz que o que é indiferente em si mesmo, por exemplo, levantar uma palha do chão, é proibido ou mandado, sua razão ou consciência erra. Dizem, portanto, que a razão ou a consciência, quando erra em matérias indiferentes, seja mandando-as ou proibindo-as, obriga; de modo que a vontade que discorda dessa razão errante é má e pecaminosa. Mas dizem que quando a razão ou a consciência erra ao mandar o que é mau em si mesmo, ou ao proibir o que é bom em si mesmo e necessário para a salvação, ela não obriga; por isso, nesses casos, a vontade que discorda da razão ou consciência errante não é má. Mas isto é irrazoável. Pois, nas matérias indiferentes, a vontade que discorda da razão ou consciência errante é má de certo modo por causa do objeto, do qual depende a bondade ou a malícia da vontade; não, na verdade, por causa do objeto conforme ele é em sua própria natureza; mas conforme é acidentalmente apreendido pela razão como algo mau de se fazer ou de se evitar. E, visto que o objeto da vontade é aquilo que é proposto pela razão, como se disse acima (A[3]), pelo próprio fato de uma coisa ser proposta pela razão como má, a vontade, tendendo para ela, torna-se má. E isto se dá não apenas nas matérias indiferentes, mas também naquelas que são boas ou más em si mesmas. Pois não apenas as matérias indiferentes podem receber a característica de bondade ou malícia acidentalmente; mas também o que é bom pode receber a característica de mal, ou o que é mau pode receber a característica de bem, por causa da razão que o apreende como tal. Por exemplo, abster-se da fornicação é bom; contudo, a vontade não tende a esse bem senão na medida em que é proposto pela razão. Se, portanto, a razão errante o propõe como um mal, a vontade tende para ele como para algo mau. Consequentemente, a vontade é má, porque quer o mal, não, na verdade, o que é mau em si mesmo, mas o que é mau acidentalmente, por ser apreendido como tal pela razão. De modo semelhante, crer em Cristo é bom em si mesmo e necessário para a salvação; mas a vontade não tende para isso senão na medida em que é proposto pela razão. Consequentemente, se for proposto pela razão como algo mau, a vontade tende para isso como para algo mau: não como se fosse mau em si mesmo, mas porque é mau acidentalmente, pela apreensão da razão. Por isso o Filósofo diz (Ética, VII, 9) que "propriamente falando, o incontinente é aquele que não segue a razão reta; mas, acidentalmente, ele é também aquele que não segue a razão falsa". Devemos, portanto, concluir que, absolutamente falando, toda vontade em desacordo com a razão, seja reta ou errante, é sempre má. **Resposta à objeção 1:** Embora o juízo de uma razão errante não derive de Deus, contudo a razão errante apresenta seu juízo como sendo verdadeiro e, consequentemente, como derivando de Deus, de Quem procede toda verdade. **Resposta à objeção 2:** A afirmação de Agostinho vale quando se sabe que a autoridade inferior prescreve algo contrário à ordem da autoridade superior. Mas se um homem acreditasse que a ordem do procônsul é a ordem do imperador, ao desprezar a ordem do procônsul, desprezaria a ordem do imperador. De modo semelhante, se um homem soubesse que a razão humana estava ditando algo contrário ao mandamento de Deus, ele não estaria obrigado a seguir a razão; mas, então, a razão não seria totalmente errônea. Ora, quando a razão errante propõe algo como sendo mandado por Deus, então desprezar o ditame da razão é desprezar o mandamento de Deus. **Resposta à objeção 3:** Sempre que a razão apreende algo como mau, ela o apreende sob alguma espécie de mal; por exemplo, como algo contrário a um preceito divino, ou como causador de escândalo, ou por alguma razão semelhante. E, então, esse mal se reduz àquela espécie de malícia.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 5 - Whether the will is evil when it is at variance with erring reason? · séc. XIII

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