Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que Cristo foi sepultado de maneira indigna. Pois a sua sepultura devia ser condigna da sua morte. Mas Cristo sofreu uma morte vergonhosíssima, segundo Sab. 2,20: «Condenemo-lo a uma morte vergonhosíssima.» Logo, parece inconveniente que se concedesse a Cristo uma sepultura honorífica, visto que foi sepultado por homens de posição — a saber, por José de Arimateia, que era «nobre conselheiro», segundo a expressão de Marcos (Mc 15,43), e por Nicodemos, que era «príncipe dos judeus», como João declara (Jo 3,1). **Objeção 2:** Ademais, nada se devia fazer a Cristo que pudesse servir de exemplo de desperdício. Ora, parece cheirar a desperdício que, para sepultar Cristo, Nicodemos viesse «trazendo uma mistura de mirra e aloés, cerca de cem libras», conforme registra João (Jo 19,39), especialmente porque uma mulher viera antes para ungir o seu corpo para a sepultura, como refere Marcos (Mc 14,28). Portanto, isso não foi feito condignamente em relação a Cristo. **Objeção 3:** Ademais, não é condigno que algo feito seja incoerente consigo mesmo. Ora, a sepultura de Cristo, por um lado, foi simples, porque «José envolveu o seu corpo num lençol limpo de linho», como relata Mateus (Mt 27,59), «mas não com ouro, nem gemas, nem seda», como observa Jerônimo; por outro lado, parece ter havido algum aparato, visto que o sepultaram com especiarias aromáticas (Jo 19,40). Logo, a maneira da sepultura de Cristo não parece ter sido condigna. **Objeção 4:** Ademais, «tudo quanto foi escrito», especialmente de Cristo, «foi escrito para nossa instrução», segundo Rom. 15,4. Ora, algumas das coisas escritas nos Evangelhos a respeito da sepultura de Cristo de modo algum parecem pertencer à nossa instrução — como que foi sepultado «num jardim»… «num sepulcro que não era seu», que era «novo» e «cavado na rocha». Portanto, a maneira da sepultura de Cristo não foi condigna. **Em contrário,** está escrito (Is 11,10): «E o seu sepulcro será glorioso.» **Respondo que** a maneira da sepultura de Cristo se mostra condigna em três aspectos. Primeiro, para confirmar a fé na sua morte e ressurreição. Segundo, para recomendar a devoção daqueles que lhe deram sepultura. Por isso Agostinho diz (Civ. Dei i): «O Evangelho menciona como louvável o feito daqueles que receberam o seu corpo da cruz e, com o devido cuidado e reverência, o envolveram e sepultaram.» Terceiro, quanto ao mistério pelo qual são moldados aqueles que «são sepultados juntamente com Cristo na morte» (Rom 6,4). **Resposta à objeção 1:** Quanto à morte de Cristo, louva-se a sua paciência e constância em sofrer a morte, e tanto mais quanto a sua morte foi mais desprezível; mas na sua sepultura honorífica podemos ver o poder do Homem moribundo, que, mesmo na morte, frustrou o intento dos seus assassinos e foi sepultado com honra; e nisso se prefigura a devoção dos fiéis que no tempo futuro haviam de servir a Cristo morto. **Resposta à objeção 2:** Sobre aquela expressão do Evangelista (Jo 19,40) de que o sepultaram «como é costume dos judeus sepultar», diz Agostinho (Trat. sobre João cxix): «Ele nos adverte que, nestes ofícios que se prestam aos mortos, se deve observar o costume de cada nação.» Ora, era costume deste povo ungir os corpos com várias especiarias, para preservá-los por mais tempo da corrupção [*Cf. Catena Aurea sobre João xix]. Por isso se diz em Doutr. Crist. iii que «em todas essas coisas, não é o uso, mas a luxúria do usuário que é culpada»; e, mais adiante: «O que em outras pessoas é frequentemente criminoso, numa pessoa divina ou profética é sinal de algo grande.» Pois a mirra e o aloés, pela sua amargura, denotam a penitência, pela qual o homem conserva Cristo dentro de si sem a corrupção do pecado; enquanto o odor dos ungüentos exprime a boa reputação. **Resposta à objeção 3:** A mirra e o aloés foram usados no corpo de Cristo para que fosse preservado da corrupção, o que parecia implicar certa necessidade (no corpo); portanto, dá-se-nos o exemplo de que podemos usar licitamente coisas preciosas medicinalmente, pela necessidade de preservar o nosso corpo. Mas o envolver o corpo foi apenas uma questão de decoro conveniente. E devemos contentar-nos com a simplicidade nessas coisas. Contudo, como observa Jerônimo, por este ato foi significado que «envolve Jesus em linho limpo aquele que o recebe com alma pura». Por isso, como diz Beda sobre Mc 15,46: «Prevaleceu o costume da Igreja de que o sacrifício do altar seja oferecido não sobre seda, nem sobre pano tinturado, mas sobre linho da terra; assim como o corpo do Senhor foi sepultado num sudário limpo.» **Resposta à objeção 4:** Cristo foi sepultado «num jardim» para exprimir que, pela sua morte e sepultura, somos libertos da morte que incorremos pelo pecado de Adão cometido no jardim do paraíso. Mas «para isso foi o nosso Senhor sepultado no sepulcro de um estrangeiro», como diz Agostinho num sermão (ccxlviii), «porque morreu para a salvação de outros; e o sepulcro é a morada da morte». Também se pode avaliar por aí a extensão da pobreza sofrida por nós: pois Aquele que, vivo, não tinha casa, depois de morto foi depositado em sepulcro alheio, e estando nu foi vestido por José. Mas foi depositado num sepulcro «novo», como observa Jerônimo sobre Mt 27,60, «para que depois da ressurreição não se pudesse fingir que outro ressuscitara, ficando os outros corpos». O sepulcro novo pode também denotar o ventre virginal de Maria. E além disso pode entender-se que todos nós somos renovados pela sepultura de Cristo, destruída a morte e a corrupção. Além disso, foi sepultado num monumento «cavado na rocha», como diz Jerônimo sobre Mt 27,64, «para que, se fosse construído de muitas pedras, não dissessem que fora roubado cavando os alicerces do túmulo». Por isso a «grande pedra» que foi posta mostra que «o túmulo não podia ser aberto senão com o auxílio de muitas mãos. Ainda, se tivesse sido sepultado na terra, poderiam dizer: Cavaram o solo e o roubaram», como observa Agostinho [*Cf. Catena Aurea]. Hilário (Coment. sobre Mat., cap. xxxiii) dá a interpretação mística, dizendo que «pelo ensino dos apóstolos, Cristo é levado ao coração pedregoso do gentio; pois é cavado pelo processo do ensino, rude e novo, desocupado e aberto à entrada do temor de Deus. E, porque nada além dele deve entrar em nossos corações, uma grande pedra é rolada contra a porta». Além disso, como diz Orígenes (Trat. xxxv sobre Mat.): «Não foi por acaso que se escreveu: "José envolveu o corpo de Cristo num sudário limpo e o colocou num monumento novo", e que "rolou uma grande pedra", porque todas as coisas ao redor do corpo de Jesus são limpas, e novas, e grandíssimas.»
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 2 - Whether Christ was buried in a becoming manner? · séc. XIII
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