Santo Agostinho
Os Católicos não se encontram em dificuldade alguma por causa deste capítulo, como se eles não observassem a Lei e os Profetas; pois eles cultivam o amor a Deus e ao próximo, «do qual dependem toda a Lei e os Profetas». E tudo quanto na Lei e nos Profetas foi prefigurado, seja nas coisas feitas, na celebração dos ritos sacramentais, ou nas formas de discurso, tudo isto eles sabem que se cumpre em Cristo e na Igreja. Por isso nem nos submetemos a uma falsa superstição, nem rejeitamos o capítulo, nem negamos ser discípulos de Cristo. Aquele, pois, que diz que, a menos que Cristo tivesse destruído a Lei e os Profetas, os ritos mosaicos teriam continuado juntamente com as ordenanças cristãs, pode ainda afirmar que, a menos que Cristo tivesse destruído a Lei e os Profetas, Ele ainda seria apenas prometido como estando para nascer, para padecer, para ressuscitar. Mas porquanto Ele não os destruiu, antes os cumpriu, o seu nascimento, paixão e ressurreição já não são mais prometidos como coisas futuras, que eram significadas pelos Sacramentos da Lei; mas Ele é pregado como já nascido, crucificado e ressuscitado, o que é significado pelos Sacramentos agora celebrados pelos cristãos. Fica claro, pois, quão grande é o erro daqueles que supõem que, quando os sinais ou sacramentos são mudados, as próprias coisas são diferentes, ao passo que as mesmas coisas que a ordenança profética havia apresentado como promessas, a ordenança evangélica aponta como cumpridas. Fausto: Supondo que estas sejam genuínas palavras de Cristo, deveríamos indagar qual foi o seu motivo para falar assim: se para suavizar a cega hostilidade dos judeus, que, ao verem as suas coisas santas por Ele pisadas, nem sequer lhe dariam ouvidos; ou se realmente Ele as disse para nos instruir, a nós que dos gentios havíamos de crer, a que nos submetêssemos ao jugo da Lei. Se este último não foi o seu desígnio, então o primeiro deve ter sido; nem houve qualquer engano ou fraude em tal propósito. Pois há três tipos de leis. A primeira, a dos hebreus, chamada por Paulo de «lei do pecado e da morte» (Rm 8,2); a segunda, a dos gentios, que ele chama de lei da natureza, dizendo: «Os gentios fazem naturalmente as coisas da lei» (Rm 2,14); a terceira, a lei da verdade, que ele designa como «a lei do Espírito da vida». Há também Profetas, alguns dos judeus, como são bem conhecidos; outros dos gentios, como Paulo diz: «Um profeta deles mesmos disse» (Tt 1,12); e outros da verdade, de quem Jesus fala: «Envio-vos sábios e profetas» (Mt 23,34). Ora, se Jesus, na parte seguinte deste Sermão, tivesse apresentado alguma das observâncias hebraicas para mostrar como as havia cumprido, ninguém duvidaria que era da Lei e dos Profetas judaicos que Ele estava falando agora; mas quando Ele apresenta deste modo apenas aqueles preceitos mais antigos, «Não matarás, Não cometerás adultério», que foram promulgados outrora a Enoque, Sete e aos outros justos, quem não vê que Ele está falando aqui da Lei e dos Profetas da verdade? Sempre que tem ocasião de falar de algo meramente judaico, Ele o arranca pelas próprias raízes, dando preceitos diretamente contrários; por exemplo, no caso daquele preceito: «Olho por olho, dente por dente».
séc. V
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