Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que o efeito do sacerdócio de Cristo não é a expiação dos pecados. Porque pertence só a Deus apagar os pecados, conforme Is 43,25: «Eu sou Aquele que por amor de Mim apago as tuas iniquidades.» Ora, Cristo é sacerdote, não como Deus, mas como homem. Logo, o sacerdócio de Cristo não expia os pecados. Objeção 2: Além disso, o Apóstolo diz (Heb 10,1-3) que as vítimas do Antigo Testamento não podiam «tornar perfeitos» (os que a elas se chegavam); «porque, se o pudessem, teriam cessado de ser oferecidas, visto que os adoradores, uma vez purificados, já não teriam consciência de pecado algum; mas nelas cada ano se faz comemoração dos pecados.» Ora, de igual modo, sob o sacerdócio de Cristo se faz comemoração dos pecados nas palavras: «Perdoa-nos as nossas dívidas» (Mt 6,12). Além disso, o Sacrifício é oferecido continuamente na Igreja; por isso também dizemos: «Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia.» Logo, os pecados não são expiados pelo sacerdócio de Cristo. Objeção 3: Ademais, nos sacrifícios pelo pecado da Antiga Lei, oferecia-se geralmente um bode pelo pecado de um príncipe, uma cabra pelo pecado de um particular, um bezerro pelo pecado de um sacerdote, como se colhe de Lv 4,3.23.28. Ora, Cristo não é comparado a nenhum destes, mas ao cordeiro, conforme Jr 11,19: «Eu era como um manso cordeiro, que é levado para ser vítima.» Portanto, parece que o seu sacerdócio não expia os pecados. Em contrário, o Apóstolo diz (Heb 9,14): «O sangue de Cristo, que pelo Espírito Santo se ofereceu a Si mesmo imaculado a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo.» Ora, obras mortas significam pecados. Logo, o sacerdócio de Cristo tem poder de purificar dos pecados. Respondo que, para a perfeita purificação dos pecados, duas coisas são necessárias, correspondentes aos dois elementos que o pecado encerra: a mácula do pecado e a dívida da pena. A mácula do pecado é, na verdade, apagada pela graça, pela qual o coração do pecador se converte a Deus; a dívida da pena é removida inteiramente pela satisfação que o homem oferece a Deus. Ora, o sacerdócio de Cristo produz ambos os efeitos. Pois, pela sua virtude, é-nos dada a graça pela qual os nossos corações se convertem a Deus, segundo Rm 3,24-25: «Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs como propiciação, pela fé no seu sangue.» Além disso, satisfez plenamente por nós, enquanto «tomou sobre Si as nossas enfermidades e carregou as nossas dores» (Is 53,4). Por onde fica claro que o sacerdócio de Cristo tem pleno poder de expiar os pecados. Resposta à Objeção 1: Embora Cristo fosse sacerdote, não como Deus, mas como homem, contudo, um só e mesmo era sacerdote e Deus. Por isso, no Concílio de Éfeso [*Parte III, cap. I, anátema 10] lemos: «Se alguém disser que o próprio Verbo de Deus não se fez nosso Sumo Sacerdote e Apóstolo quando se fez carne e homem como nós, mas um outro, o homem nascido de mulher, seja anátema.» Por conseguinte, enquanto a sua natureza humana operava pela virtude da Divina, aquele sacrifício foi eficacíssimo para a remissão dos pecados. Por esta razão diz Agostinho (De Trin. IV, 14): «De modo que, devendo-se considerar quatro coisas em todo sacrifício — a quem é oferecido, por quem é oferecido, o que é oferecido, por quem é oferecido —, o mesmo único verdadeiro Mediador, reconciliando-nos com Deus pelo sacrifício da paz, era um com Aquele a quem era oferecido, unia em Si mesmo aqueles por quem o oferecia, ao mesmo tempo que o oferecia Ele mesmo e era Ele mesmo o que oferecia.» Resposta à Objeção 2: Os pecados são comemorados na Nova Lei, não por ineficácia do sacerdócio de Cristo, como se não fossem suficientemente expiados por Ele, mas em relação àqueles que, ou não querem ser participantes do seu sacrifício, como os infiéis, por cujos pecados oramos pedindo que se convertam; ou que, depois de participarem deste sacrifício, dele caem por qualquer espécie de pecado. O Sacrifício que se oferece todos os dias na Igreja não é distinto daquele que o próprio Cristo ofereceu, mas é uma comemoração dele. Por isso diz Agostinho (De Civ. Dei X, 20): «O próprio Cristo é o sacerdote que o oferece e a vítima; do que quis que o sinal fosse o sacrifício diário da Igreja.» Resposta à Objeção 3: Como diz Orígenes (Sup. Joan. I, 29), embora vários animais fossem oferecidos na Antiga Lei, o sacrifício diário, que se oferecia de manhã e à tarde, era um cordeiro, como se vê de Nm 38,3-4. Com o que se significava que a oferta do verdadeiro cordeiro, isto é, Cristo, era o sacrifício culminante de todos. Por isso (Jo 1,29) está escrito: «Eis o Cordeiro de Deus, eis Aquele que tira os pecados [Vulg.: 'o pecado'] do mundo.»
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether the effect of Christ's priesthood is the expiation of sins? · séc. XIII
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