Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que Deus Pai não entregou Cristo à Paixão. Porque é ato mau e cruel entregar um homem inocente ao tormento e à morte. Mas, como está escrito (Dt 32,4): «Deus é fiel, e sem nenhuma iniqüidade.» Logo, Ele não entregou o inocente Cristo à sua Paixão e morte. Objeção 2: Ademais, não é verossímil que um homem seja entregue à morte por si mesmo e também por outro. Ora, Cristo se entregou por nós, como está escrito (Is 53,12): «Entregou a sua alma à morte.» Logo, não parece que Deus Pai o tenha entregado. Objeção 3: Ademais, Judas é tido por culpado por ter traído Cristo aos judeus, conforme Jo 6,71: «Um de vós é um diabo», aludindo a Judas, que o havia de trair. Os judeus também são vituperados por o terem entregue a Pilatos; como lemos em Jo 18,35: «A tua nação e os príncipes dos sacerdotes te entregaram a mim.» Além disso, como se narra em Jo 19,16: Pilatos «o entregou a eles para ser crucificado»; e segundo 2 Cor 6,14: não há «participação da justiça com a injustiça». Parece, portanto, que Deus Pai não entregou Cristo à sua Paixão. Em contrário, está escrito (Rm 8,32): «Deus não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós.» Respondo que, como se observou acima (A[2]), Cristo sofreu voluntariamente por obediência ao Pai. Por isso, de três modos Deus Pai entregou Cristo à Paixão. Primeiro, porque por sua vontade eterna preordenou a Paixão de Cristo para a libertação do gênero humano, segundo as palavras de Isaías (53,6): «O Senhor carregou sobre ele as iniqüidades de todos nós»; e também (Is 53,10): «Aprouve ao Senhor esmagá-lo na enfermidade.» Segundo, enquanto, pela infusão da caridade, inspirou-lhe a vontade de sofrer por nós; por isso lemos no mesmo trecho: «Foi oferecido porque ele mesmo quis» (Is 53,7). Terceiro, por não o proteger da Paixão, mas abandoná-lo a seus perseguidores: assim lemos (Mt 27,46) que Cristo, pendente na cruz, clamou: «Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?» porque, a saber, deixou-o ao poder de seus perseguidores, como diz Agostinho (Ep. cxl). Resposta à objeção 1: E, na verdade, é ato mau e cruel entregar um homem inocente ao tormento e à morte contra sua vontade. Todavia, Deus Pai não entregou assim a Cristo, mas inspirou-lhe a vontade de sofrer por nós. Mostra-se aí a «severidade» de Deus (cf. Rm 11,22), pois não quis remir o pecado sem pena; e o Apóstolo o indica quando diz (Rm 8,32): «Deus não poupou nem a seu próprio Filho.» Igualmente reluz a sua «bondade» (Rm 11,22), visto que por nenhuma pena suportada poderia o homem dar-lhe satisfação suficiente; e o Apóstolo o denota quando diz: «Entregou-o por todos nós»; e novamente (Rm 3,25): «Ao qual» — isto é, a Cristo — Deus «propôs como propiciação pela fé no seu sangue.» Resposta à objeção 2: Cristo, como Deus, entregou-se à morte pela mesma vontade e ação pelas quais o Pai o entregou; mas, como homem, entregou-se por uma vontade inspirada pelo Pai. Por conseguinte, não há contrariedade em o Pai o entregar e Cristo entregar-se a si mesmo. Resposta à objeção 3: O mesmo ato, para o bem ou para o mal, é julgado de modo diferente conforme procede de fonte diferente. O Pai entregou a Cristo, e Cristo se entregou a si mesmo, por caridade, e por isso louvamos a ambos; mas Judas traiu Cristo por avareza, os judeus por inveja, e Pilatos por temor mundano, pois temia a César; e esses, por conseguinte, são tidos por culpados.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether God the Father delivered up Christ to the Passion? · séc. XIII
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