Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que foi dado um nome inconveniente a Cristo. Pois a realidade evangélica deve corresponder à predição profética. Ora, os profetas predisseram outro nome para Cristo; porque está escrito (Is 7,14): «Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o seu nome será chamado Emanuel»; e (Is 8,3): «Chama o seu nome: Apressa-te a tomar os despojos; apressa-te a repartir a presa»; e (Is 9,6): «O seu nome será chamado Admirável, Conselheiro, Deus Forte, Pai do século futuro, Príncipe da Paz»; e (Zc 6,12): «Eis um homem, o seu nome é Oriente». Logo, foi inconveniente que o seu nome se chamasse Jesus. **Objeção 2:** Demais, está escrito (Is 62,2): «E serás chamada por um nome novo, que a boca do Senhor há de nomear». Ora, o nome Jesus não é nome novo, mas foi dado a vários no Antigo Testamento, como se vê na genealogia de Cristo (Lc 3,29). Parece, portanto, que foi inconveniente que o seu nome se chamasse Jesus. **Objeção 3:** Demais, o nome Jesus significa «salvação», como é claro por Mt 1,21: «Ela dará à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados». Ora, a salvação por Cristo se realizou não só na circuncisão, mas também na incircuncisão, como declara o Apóstolo (Rm 4,11-12). Logo, este nome não foi convenientemente dado a Cristo na sua circuncisão. **Em contrário,** está a autoridade da Escritura, na qual está escrito (Lc 2,21): «Completados que foram oito dias para circuncidar o menino, foi-lhe posto o nome de Jesus». **Respondo.** O nome deve responder à natureza da coisa. Isto é claro nos nomes dos gêneros e das espécies, como se diz na Metafísica IV: «Pois o nome não é senão a expressão da definição», a qual designa a natureza própria da coisa. Ora, os nomes dos homens individuais são sempre tomados de alguma propriedade dos homens a quem são dados. Ou em relação ao tempo: assim os homens são nomeados pelos Santos em cujas festas nascem; ou em respeito a alguma relação de sangue: assim o filho é nomeado por seu pai ou por algum outro parente; e assim os parentes de João Batista queriam chamá-lo «pelo nome de seu pai, Zacarias», e não pelo nome João, porque «nenhum de sua parentela havia que se chamasse por este nome», como se relata em Lc 1,59-61. Ou, ainda, de algum acontecimento: assim José «pôs ao primogênito o nome de Manassés, dizendo: Deus me fez esquecer de todos os meus trabalhos» (Gn 41,51). Ou, também, de alguma qualidade da pessoa que recebe o nome: assim está escrito (Gn 25,25) que «o que saiu primeiro era vermelho e todo peludo como uma pele; e foi chamado o seu nome Esaú», que se interpreta «vermelho». Mas os nomes dados aos homens por Deus significam sempre algum dom gratuito que lhes é concedido por Ele; assim foi dito a Abraão (Gn 17,5): «Não se chamará mais o teu nome Abrão, mas Abraão, porque te constituí pai de muitas nações»; e foi dito a Pedro (Mt 16,18): «Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja». Visto, portanto, que esta prerrogativa de graça foi concedida ao Homem Cristo, que por Ele todos os homens fossem salvos, por isso foi convenientemente chamado Jesus, isto é, Salvador; tendo o anjo predito este nome não só a sua Mãe, mas também a José, que havia de ser seu pai nutrício. **Resposta à Objeção 1.** Todos estes nomes significam de algum modo o mesmo que Jesus, que significa «salvação». Pois o nome «Emanuel, que interpretado é: Deus conosco», designa a causa da salvação, que é a união das naturezas divina e humana na Pessoa do Filho de Deus, da qual união resultou que «Deus está conosco». Quando foi dito «Chama o seu nome: Apressa-te a tomar», etc., estas palavras indicam de que Ele nos salvou, isto é, do diabo, cujos despojos tomou, segundo Cl 2,15: «Despojando os principados e potestades, os expôs confiadamente». Quando foi dito «O seu nome será chamado Admirável», etc., indica-se o modo e o termo da nossa salvação: enquanto «pelo admirável conselho e poder da Divindade somos levados à herança da vida futura», na qual os filhos de Deus gozarão de «perfeita paz» sob «Deus, seu Príncipe». Quando foi dito «Eis um homem, o seu nome é Oriente», faz-se referência ao mesmo, como no primeiro, isto é, ao mistério da Encarnação, por cuja razão «aos justos nasceu uma luz nas trevas» (Sl 111,4). **Resposta à Objeção 2.** O nome Jesus podia convir por alguma outra razão àqueles que viveram antes de Cristo — por exemplo, porque foram salvadores em sentido particular e temporal. Mas no sentido da salvação espiritual e universal, este nome é próprio de Cristo, e assim é chamado um «nome novo». **Resposta à Objeção 3.** Como se relata em Gn 17, Abraão recebeu de Deus ao mesmo tempo o seu nome e o mandamento da circuncisão. Por esta razão era costume entre os judeus dar nome aos filhos no próprio dia da circuncisão, como se antes de serem circuncidados ainda não tivessem existência perfeita; assim como também agora as crianças recebem os seus nomes no Batismo. Por isso, sobre Pv 4,3: «Fui filho de meu pai, tenro e único aos olhos de minha mãe», diz a glosa: «Por que se chama Salomão filho único aos olhos de sua mãe, quando a Escritura testifica que teve um irmão mais velho da mesma mãe, senão porque este morreu sem nome logo após o nascimento?» Por isso foi que Cristo recebeu o seu nome no tempo da sua circuncisão.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 2 - Whether His name was suitably given to Christ? · séc. XIII
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