Santo Thomas Aquinas
Objecção 1: Parece que não convinha que Cristo orasse por Si mesmo. Porque Hilário diz (De Trin. x): «Ainda que a Sua palavra de súplica não aproveitasse a Si mesmo, falou todavia para proveito da nossa fé.» Logo parece que Cristo não orou por Si, mas por nós. Objecção 2: Além disso, ninguém ora senão pelo que deseja; porque, como se disse (A[1]), a oração é o desdobramento da nossa vontade a Deus para que a cumpra. Ora Cristo quis padecer o que padeceu. Pois Agostinho diz (Contra Fausto, xxvi): «Um homem, embora não queira, muitas vezes se ira; embora não queira, se entristece; embora não queira, dorme; embora não queira, tem fome e sede. Mas Ele» (isto é, Cristo) «fez todas estas coisas porque quis.» Logo não convinha que orasse por Si mesmo. Objecção 3: Além disso, Cipriano diz (De Oratione Dominica): «O Doutor da Paz e Mestre da Unidade não quis que as orações se oferecessem individual e privadamente, para que, quando orássemos, não orássemos só por nós mesmos.» Ora Cristo fez o que ensinou, segundo Actos I, 1: «Jesus começou a fazer e a ensinar.» Portanto, Cristo nunca orou só por Si. Em contrário, o próprio Senhor disse orando (Jo. XVII, 1): «Glorifica a Teu Filho.» Respondo que Cristo orou por Si mesmo de dois modos. Primeiro, exprimindo o desejo da Sua sensibilidade, como acima se disse (A[2]); ou também da Sua vontade simples, considerada como natureza; como quando orou que o cálice da Sua Paixão se afastasse d'Ele (Mt. XXVI, 39). Segundo, exprimindo o desejo da Sua vontade deliberada, que é considerada como razão; como quando orou pela glória da Sua Ressurreição (Jo. XVII, 1). E isto é razoável. Pois, como dissemos acima (A[1], ad 1), Cristo quis orar ao Pai para nos dar exemplo de orar; e também para mostrar que o Pai é o autor tanto da Sua processão eterna na Natureza Divina, como de todos os bens que possui na natureza humana. Ora, assim como na Sua natureza humana já recebera certos dons do Pai, assim havia outros dons que ainda não recebera, mas que esperava receber. E portanto, assim como deu graças ao Pai pelos dons já recebidos na Sua natureza humana, reconhecendo-O como autor deles, como lemos (Mt. XXVI, 27; Jo. XI, 41), assim também, em reconhecimento do Seu Pai, Lhe suplicou em oração pelos dons ainda devidos à Sua natureza humana, tais como a glória do Seu corpo e semelhantes. E nisto deu-nos exemplo, para que demos graças pelos benefícios recebidos e peçamos em oração pelos que ainda não temos. Resposta à Objecção 1: Hilário fala da oração vocal, que não Lhe era necessária por Si mesmo, mas só por nós. Donde diz propositadamente que «a Sua palavra de súplica não aproveitava a Si mesmo.» Pois, se «o Senhor ouve o desejo dos pobres», como se diz no Sl. IX, 38, muito mais a simples vontade de Cristo tem força de oração junto do Pai; pelo que Ele disse (Jo. XI, 42): «Eu sei que sempre me ouves, mas por causa do povo que está ao redor o disse, para que creiam que Tu me enviaste.» Resposta à Objecção 2: Cristo quis, na verdade, padecer o que padeceu, naquele tempo particular; contudo quis obter, após a Sua paixão, a glória do Seu corpo, que ainda não tinha. Esta glória esperava receber de Seu Pai como autor dela, e portanto convinha que Lho pedisse em oração. Resposta à Objecção 3: Esta mesma glória que Cristo, orando, pedia para Si, pertencia à salvação dos outros, segundo Rom. IV, 25: «Ressuscitou para nossa justificação.» Por conseguinte, a oração que ofereceu por Si mesmo foi também, de certo modo, oferecida pelos outros. Assim também qualquer que pede uma graça a Deus para a usar em bem dos outros, ora não só por si, mas também pelos outros.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether it was fitting that Christ should pray for Himself? · séc. XIII
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