Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Pareceria que Deus se encarnou como remédio para os pecados atuais, antes que para o pecado original. Porque, quanto mais grave é o pecado, tanto mais se opõe à salvação do homem, para a qual Deus se encarnou. Ora, o pecado atual é mais grave que o original; pois ao pecado original se deve a pena mais leve, como diz Agostinho (Contra Juliano, V, 11). Logo, a Encarnação de Cristo visa principalmente a tirar os pecados atuais. **Objeção 2:** Ademais, a pena de sentido não é devida ao pecado original, mas somente a pena de dano, como se demonstrou (I-II, q. 87, a. 5). Ora, Cristo veio sofrer a pena de sentido na Cruz em satisfação pelos pecados — e não a pena de dano, pois não teve defeito nem da visão beatífica nem da fruição. Logo, veio para tirar o pecado atual, antes que o original. **Objeção 3:** Ademais, como diz Crisóstomo (Da Compunção do Coração, II, 3): "Esta deve ser a mente do servo fiel: considerar os benefícios de seu Senhor, que foram concedidos a todos igualmente, como se fossem concedidos só a ele. Pois, como se falasse de si só, Paulo escreve aos Gálatas 2,20: 'Cristo... me amou e se entregou por mim.'" Ora, nossos pecados individuais são os atuais; pois o pecado original é o pecado comum. Portanto, devemos ter esta convicção, de crer que Ele veio principalmente pelos pecados atuais. **Em contrário,** está escrito (Jo 1,29): "Eis o Cordeiro de Deus, eis Aquele que tira o pecado [Vulg.: 'pecado'] do mundo." **Respondo:** É certo que Cristo veio a este mundo não só para tirar aquele pecado que se transmite originalmente à posteridade, mas também para tirar todos os pecados que depois se lhe acrescentam; não que todos sejam tirados (e isto por culpa dos homens, porquanto não aderem a Cristo, conforme Jo 3,19: "A luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz"), mas porque ofereceu o que era suficiente para apagar todos os pecados. Por isso está escrito (Rm 5,15-16): "Mas não é assim a dádiva como a ofensa... Pois o juízo veio de uma só ofensa para condenação; mas a graça veio de muitas ofensas para justificação." Além disso, quanto mais grave é o pecado, tanto mais particularmente Cristo veio para o apagar. Mas "maior" se diz de dois modos: de um modo, "intensivamente", como se diz maior uma brancura mais intensa; e assim o pecado atual é maior que o original, pois tem mais da natureza do voluntário, como se mostrou (I-II, q. 81, a. 1). De outro modo, diz-se uma coisa maior "extensivamente", como se diz maior a brancura numa superfície mais vasta; e deste modo o pecado original, pelo qual todo o gênero humano está infectado, é maior que qualquer pecado atual, que é próprio de uma só pessoa. E, sob este aspecto, Cristo veio principalmente para tirar o pecado original, porquanto "o bem da raça é algo mais divino do que o bem de um indivíduo", como se diz na Ética, I, 2. **Resposta à objeção 1:** Esta razão atende à grandeza intensiva do pecado. **Resposta à objeção 2:** Na retribuição futura, a pena de sentido não será aplicada ao pecado original. Contudo, as penalidades, tais como a fome, a sede, a morte e outras do género, que sofremos sensivelmente nesta vida, provêm do pecado original. E, portanto, Cristo, para satisfazer plenamente pelo pecado original, quis sofrer a pena sensível, a fim de consumir em Si mesmo a morte e os males semelhantes. **Resposta à objeção 3:** Crisóstomo diz (Da Compunção do Coração, II, 6): "O Apóstolo usou estas palavras, não como que querendo diminuir os dons de Cristo, amplos como são e que se difundem por todo o mundo, mas para se considerar a si mesmo como a única ocasião deles. Pois que importa que sejam dados a outros, se o que vos é dado é tão completo e perfeito como se nenhum deles fosse dado a outro senão a vós?" E, portanto, embora o homem deva considerar os dons de Cristo como dados a si mesmo, não deve, contudo, considerá-los como não dados a outros. E assim não excluímos que Ele veio para apagar o pecado de toda a natureza, antes que o pecado de uma só pessoa. Mas o pecado da natureza é curado perfeitamente em cada um como se fosse curado só nele. Por isso, em razão da união da caridade, cada um deve considerar como seu o que é concedido a todos.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 4 - Whether God became incarnate in order to take away actual sin, rather than to take away original sin? · séc. XIII
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