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Rm 5, 15

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Matos Soares

15Mas o dom gratuito não é como o delito, porque, se pelo delito de um só (homem) morreram todos os outros, muito mais a graça de Deus e o dom (que vem) pela graça de um só homem, (que é) Jesus Cristo, são abundantemente espalhados sobre todos os outros.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Pareceria que Deus se encarnou como remédio para os pecados atuais, antes que para o pecado original. Porque, quanto mais grave é o pecado, tanto mais se opõe à salvação do homem, para a qual Deus se encarnou. Ora, o pecado atual é mais grave que o original; pois ao pecado original se deve a pena mais leve, como diz Agostinho (Contra Juliano, V, 11). Logo, a Encarnação de Cristo visa principalmente a tirar os pecados atuais. **Objeção 2:** Ademais, a pena de sentido não é devida ao pecado original, mas somente a pena de dano, como se demonstrou (I-II, q. 87, a. 5). Ora, Cristo veio sofrer a pena de sentido na Cruz em satisfação pelos pecados — e não a pena de dano, pois não teve defeito nem da visão beatífica nem da fruição. Logo, veio para tirar o pecado atual, antes que o original. **Objeção 3:** Ademais, como diz Crisóstomo (Da Compunção do Coração, II, 3): "Esta deve ser a mente do servo fiel: considerar os benefícios de seu Senhor, que foram concedidos a todos igualmente, como se fossem concedidos só a ele. Pois, como se falasse de si só, Paulo escreve aos Gálatas 2,20: 'Cristo... me amou e se entregou por mim.'" Ora, nossos pecados individuais são os atuais; pois o pecado original é o pecado comum. Portanto, devemos ter esta convicção, de crer que Ele veio principalmente pelos pecados atuais. **Em contrário,** está escrito (Jo 1,29): "Eis o Cordeiro de Deus, eis Aquele que tira o pecado [Vulg.: 'pecado'] do mundo." **Respondo:** É certo que Cristo veio a este mundo não só para tirar aquele pecado que se transmite originalmente à posteridade, mas também para tirar todos os pecados que depois se lhe acrescentam; não que todos sejam tirados (e isto por culpa dos homens, porquanto não aderem a Cristo, conforme Jo 3,19: "A luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz"), mas porque ofereceu o que era suficiente para apagar todos os pecados. Por isso está escrito (Rm 5,15-16): "Mas não é assim a dádiva como a ofensa... Pois o juízo veio de uma só ofensa para condenação; mas a graça veio de muitas ofensas para justificação." Além disso, quanto mais grave é o pecado, tanto mais particularmente Cristo veio para o apagar. Mas "maior" se diz de dois modos: de um modo, "intensivamente", como se diz maior uma brancura mais intensa; e assim o pecado atual é maior que o original, pois tem mais da natureza do voluntário, como se mostrou (I-II, q. 81, a. 1). De outro modo, diz-se uma coisa maior "extensivamente", como se diz maior a brancura numa superfície mais vasta; e deste modo o pecado original, pelo qual todo o gênero humano está infectado, é maior que qualquer pecado atual, que é próprio de uma só pessoa. E, sob este aspecto, Cristo veio principalmente para tirar o pecado original, porquanto "o bem da raça é algo mais divino do que o bem de um indivíduo", como se diz na Ética, I, 2. **Resposta à objeção 1:** Esta razão atende à grandeza intensiva do pecado. **Resposta à objeção 2:** Na retribuição futura, a pena de sentido não será aplicada ao pecado original. Contudo, as penalidades, tais como a fome, a sede, a morte e outras do género, que sofremos sensivelmente nesta vida, provêm do pecado original. E, portanto, Cristo, para satisfazer plenamente pelo pecado original, quis sofrer a pena sensível, a fim de consumir em Si mesmo a morte e os males semelhantes. **Resposta à objeção 3:** Crisóstomo diz (Da Compunção do Coração, II, 6): "O Apóstolo usou estas palavras, não como que querendo diminuir os dons de Cristo, amplos como são e que se difundem por todo o mundo, mas para se considerar a si mesmo como a única ocasião deles. Pois que importa que sejam dados a outros, se o que vos é dado é tão completo e perfeito como se nenhum deles fosse dado a outro senão a vós?" E, portanto, embora o homem deva considerar os dons de Cristo como dados a si mesmo, não deve, contudo, considerá-los como não dados a outros. E assim não excluímos que Ele veio para apagar o pecado de toda a natureza, antes que o pecado de uma só pessoa. Mas o pecado da natureza é curado perfeitamente em cada um como se fosse curado só nele. Por isso, em razão da união da caridade, cada um deve considerar como seu o que é concedido a todos.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 4 - Whether God became incarnate in order to take away actual sin, rather than to take away original sin? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1.** Parece que a graça pela qual Cristo é Cabeça da Igreja e a graça individual do Homem não são a mesma. Porque diz o Apóstolo (Rm 5,15): "Se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom, pela graça de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos." Ora, o pecado atual de Adão é distinto do pecado original que ele transmitiu à sua posteridade. Logo, a graça pessoal que é própria de Cristo é distinta da sua graça, enquanto Ele é Cabeça da Igreja, a qual flui para os outros a partir d'Ele. **Objeção 2.** Ademais, os hábitos distinguem-se pelos atos. Ora, a graça pessoal de Cristo é ordenada a um ato, a saber, a santificação de sua alma; e a graça capital é ordenada a outro, a saber, a santificar os outros. Logo, a graça pessoal de Cristo é distinta de sua graça como Cabeça da Igreja. **Objeção 3.** Ademais, como se disse acima (q. 6, a. 6), em Cristo distinguimos uma tríplice graça: a graça de união, a graça capital e a graça individual do Homem. Ora, a graça individual de Cristo é distinta da graça de união. Logo, é também distinta da graça capital. **Em contrário,** está escrito (Jo 1,16): "Todos nós recebemos da sua plenitude." Ora, Ele é nossa Cabeça, na medida em que d'Ele recebemos. Portanto, Ele é nossa Cabeça, enquanto tem a plenitude da graça. Ora, Ele tinha a plenitude da graça, enquanto a graça pessoal estava n'Ele em sua perfeição, como se disse acima (q. 7, a. 9). Logo, sua graça capital e pessoal não são distintas. **Respondo que,** uma vez que tudo age na medida em que é ente em ato, deve ser o mesmo ato pelo qual algo é em ato e pelo qual age, assim como é o mesmo calor pelo qual o fogo é quente e pelo qual aquece. Contudo, nem todo ato pelo qual algo é em ato basta para que seja princípio de agir sobre outros. Pois, como o agente é mais nobre que o paciente, segundo diz Agostinho (Gen. ad lit. XII, 16) e o Filósofo (De Anima III, 19), o agente deve agir sobre outros em razão de uma certa preeminência. Ora, foi dito acima (a. 1; q. 7, a. 9) que a graça foi recebida pela alma de Cristo de modo sumo; e portanto, desta preeminência de graça que recebeu, procede que esta graça seja por Ele comunicada a outros — e isto pertence à natureza de cabeça. Logo, a graça pessoal, pela qual a alma de Cristo é justificada, é essencialmente a mesma que sua graça enquanto Ele é Cabeça da Igreja e justifica os outros; mas há entre elas uma distinção de razão. **Resposta à objeção 1.** O pecado original em Adão, que é pecado da natureza, deriva de seu pecado atual, que é pecado pessoal, porque nele a pessoa corrompeu a natureza; e por meio desta corrupção o pecado do primeiro homem é transmitido à posteridade, enquanto a natureza corrompida corrompe a pessoa. Ora, a graça não nos é concedida por meio da natureza humana, mas unicamente pela ação pessoal do próprio Cristo. Logo, não se deve distinguir em Cristo uma dupla graça, uma correspondente à natureza e outra à pessoa, como em Adão distinguimos o pecado da natureza e o da pessoa. **Resposta à objeção 2.** Atos diversos, dos quais um é a razão e a causa do outro, não diversificam um hábito. Ora, o ato da graça pessoal, que é formalmente santificar seu sujeito, é a razão da justificação dos outros, que pertence à graça capital. Por isso, a essência do hábito não é diversificada por essa diferença. **Resposta à objeção 3.** A graça pessoal e a capital são ordenadas a um ato; mas a graça de união não é ordenada a um ato, e sim ao ser pessoal. Logo, a graça pessoal e a capital concordam na essência do hábito; mas a graça de união não, embora a graça pessoal possa ser chamada, de certo modo, graça de união, enquanto torna apta para a união; e assim a graça de união, a capital e a pessoal são uma em essência, embora haja entre elas uma distinção de razão.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 5 - Whether the grace of Christ, as Head of the Church, is the same as His habitual grace, inasmuch as He is Man? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que as crianças que morreram em pecado original foram libertadas do inferno pela descida de Cristo a ele. Pois, como os santos Padres, as crianças estavam detidas no inferno tão-somente por causa do pecado original. Mas os santos Padres foram libertados do inferno, como foi dito acima (A[5]). Logo, as crianças foram igualmente libertadas do inferno por Cristo. Objeção 2: Além disso, o Apóstolo diz (Rm 5,15): "Se pela ofensa de um, muitos morreram; muito mais a graça de Deus e o dom, pela graça de um homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos." Mas as crianças que morrem apenas com o pecado original são detidas no inferno devido ao pecado do seu primeiro pai. Logo, muito mais foram elas libertadas do inferno pela graça de Cristo. Objeção 3: Além disso, assim como o Batismo obra em virtude da Paixão de Cristo, assim também a descida de Cristo aos infernos, como é claro pelo que foi dito (A[4], ad 2, AA[5],6). Mas pelo Batismo as crianças são libertadas do pecado original e do inferno. Logo, foram igualmente libertadas pela descida de Cristo aos infernos. Em contrário, o Apóstolo diz (Rm 3,25): "Deus propôs Cristo como propiciação, pela fé no Seu sangue." Mas as crianças que haviam morrido apenas com pecado original de modo algum participavam da fé em Cristo. Logo, não receberam os frutos da propiciação de Cristo, de modo a serem libertadas por Ele do inferno. Respondo que, como foi dito acima (A[6]), a descida de Cristo aos infernos produziu o seu efeito de libertação somente naqueles que pela fé e caridade estavam unidos à Paixão de Cristo, em virtude da qual a descida de Cristo aos infernos foi uma descida de libertação. Mas as crianças que haviam morrido em pecado original de modo algum estavam unidas à Paixão de Cristo pela fé e pelo amor: pois, não tendo uso do livre arbítrio, não podiam ter fé própria; nem foram purificadas do pecado original, quer pela fé de seus pais, quer por qualquer sacramento da fé. Consequentemente, a descida de Cristo aos infernos não libertou as crianças dali. E além disso, os santos Padres foram libertados do inferno por serem admitidos à glória da visão de Deus, à qual ninguém pode chegar senão pela graça, segundo Rm 6,23: "A graça de Deus é a vida eterna." Portanto, como as crianças que morreram em pecado original não tinham graça, não foram libertadas do inferno. Resposta à primeira objeção: Os santos Padres, embora ainda estivessem presos pelo débito do pecado original, na medida em que toca a natureza humana, foram contudo libertados de toda mancha de pecado pela fé em Cristo: consequentemente, foram capazes daquela libertação que Cristo trouxe ao descer aos infernos. Mas o mesmo não se pode dizer das crianças, como é evidente pelo que foi dito acima. Resposta à segunda objeção: Quando o Apóstolo diz que a graça de Deus "abundou sobre muitos", a palavra "muitos" [*A Vulgata lê 'plures', i.e., 'muitos mais'] deve ser tomada, não comparativamente, como se mais fossem salvos pela graça de Cristo do que perdidos pelo pecado de Adão, mas absolutamente, como se dissesse que a graça do único Cristo abundou sobre muitos, assim como o pecado de Adão foi contraído por muitos. Mas assim como o pecado de Adão foi contraído apenas por aqueles que dele descenderam seminalmente segundo a carne, assim a graça de Cristo alcançou apenas aqueles que se tornaram seus membros pela regeneração espiritual: o que não se aplica às crianças que morrem em pecado original. Resposta à terceira objeção: O Batismo é aplicado aos homens nesta vida, na qual o estado do homem pode ser mudado do pecado para a graça; mas a descida de Cristo aos infernos foi concedida às almas depois desta vida, quando já não são capazes da referida mudança. E, consequentemente, pelo Batismo as crianças são libertadas do pecado original e do inferno, mas não pela descida de Cristo aos infernos.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 7 - Whether the children who died in original sin were delivered by Christ? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objecção 1:** Parece que uma criança pode ser baptizada enquanto ainda está no ventre de sua mãe. Pois o dom de Cristo é mais eficaz para a salvação do que o pecado de Adão para a condenação, como diz o Apóstolo (Rom. 5:15). Ora, uma criança enquanto ainda está no ventre de sua mãe está sob sentença de condenação por causa do pecado de Adão. Por muito mais razão, portanto, pode ser salva mediante o dom de Cristo, que é concedido pelo Baptismo. Logo, uma criança pode ser baptizada enquanto ainda está no ventre de sua mãe. **Objecção 2:** Além disso, uma criança, enquanto ainda no ventre de sua mãe, parece ser parte de sua mãe. Ora, quando a mãe é baptizada, tudo o que está nela e é parte dela é baptizado. Portanto, parece que, quando a mãe é baptizada, a criança em seu ventre é baptizada. **Objecção 3:** Além disso, a morte eterna é um mal maior do que a morte do corpo. Ora, de dois males, deve-se escolher o menor. Se, portanto, a criança no ventre da mãe não pode ser baptizada, seria melhor que a mãe fosse aberta, e a criança retirada à força e baptizada, do que a criança ser eternamente condenada por morrer sem o Baptismo. **Objecção 4:** Além disso, acontece às vezes que alguma parte da criança sai primeiro, como lemos em Gn. 38:27: "No próprio parto dos infantes, um estendeu a mão, sobre a qual a parteira atou um fio escarlate, dizendo: Este sairá primeiro. Mas ele, recolhendo a mão, o outro saiu." Ora, algumas vezes, em tais casos, há perigo de morte. Portanto, parece que essa parte deveria ser baptizada, enquanto a criança ainda está no ventre de sua mãe. **Em contrário,** diz Agostinho (Ep. ad Dardan.): "Ninguém pode nascer segunda vez se primeiro não nascer." Ora, o Baptismo é uma regeneração espiritual. Logo, ninguém deve ser baptizado antes de nascer do ventre. **Respondo que:** É essencial ao Baptismo que alguma parte do corpo da pessoa baptizada seja de algum modo lavada com água, pois o Baptismo é uma espécie de lavagem, como foi dito acima (Q[66], A[1]). Ora, o corpo de um infante, antes de nascer do ventre, não pode de modo algum ser lavado com água; a menos que, porventura, se diga que a água baptismal, com a qual o corpo da mãe é lavado, atinge a criança enquanto ainda está no ventre de sua mãe. Mas isto é impossível: tanto porque a alma da criança, para cuja santificação o Baptismo é ordenado, é distinta da alma da mãe; como porque o corpo do infante animado já está formado e, consequentemente, distinto do corpo da mãe. Portanto, o Baptismo que a mãe recebe não transborda para a criança que está em seu ventre. Donde diz Agostinho (Cont. Julian. vi): "Se o que é concebido dentro de uma mãe pertencesse a seu corpo, de modo a ser considerado parte dele, não baptizaríamos um infante cuja mãe, por perigo de morte, foi baptizada enquanto o trazia em seu ventre. Visto que, então, ele," isto é, o infante, "é baptizado, certamente não pertencia ao corpo da mãe enquanto estava no ventre." Segue-se, portanto, que uma criança não pode de modo algum ser baptizada enquanto está no ventre de sua mãe. **Resposta à Objecção 1:** As crianças enquanto no ventre da mãe ainda não saíram para o mundo para viver entre outros homens. Consequentemente, não podem estar sujeitas à acção do homem, de modo a receber o sacramento, por mão de homem, para a salvação. Podem, contudo, estar sujeitas à acção de Deus, em cuja presença vivem, de modo a, por uma espécie de privilégio, receber a graça da santificação; como foi o caso daqueles que foram santificados no ventre. **Resposta à Objecção 2:** Um membro interno da mãe é algo dela por continuidade e união material da parte com o todo; ao passo que uma criança enquanto no ventre de sua mãe é algo dela por estar unida a ela, e contudo distinta dela. Portanto, não há comparação. **Resposta à Objecção 3:** Não devemos "fazer o mal para que venha o bem" (Rom. 3:8). Logo, é errado matar uma mãe para que seu filho seja baptizado. Se, todavia, a mãe morrer enquanto a criança vive ainda em seu ventre, ela deve ser aberta para que a criança seja baptizada. **Resposta à Objecção 4:** A menos que a morte seja iminente, deve-se esperar até que a criança tenha saído completamente do ventre antes de baptizá-la. Se, porém, a cabeça, na qual os sentidos estão radicados, aparecer primeiro, ela deve ser baptizada, em caso de perigo; nem deve ser baptizada novamente, se o nascimento perfeito se seguir. E, aparentemente, o mesmo deveria ser feito em casos de perigo, não importa que parte do corpo apareça primeiro. Mas como nenhuma das partes exteriores do corpo pertence à sua integridade no mesmo grau que a cabeça, alguns sustentam que, sendo a questão duvidosa, sempre que qualquer outra parte do corpo tiver sido baptizada, a criança, quando tiver ocorrido o nascimento perfeito, deve ser baptizada com a forma: "Se não estás baptizado, eu te baptizo," etc.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 11 - Whether a child can be baptized while yet in its mother's womb? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que nem todos os pecados são removidos pelo Batismo. Porque o Batismo é uma regeneração espiritual, que corresponde à geração carnal. Ora, pela geração carnal o homem contrai apenas o pecado original. Logo, pelo Batismo é removido apenas o pecado original. Objeção 2: Além disso, a Penitência é causa suficiente da remissão dos pecados atuais. Ora, a penitência é exigida dos adultos antes do Batismo, segundo Atos 2,38: «Fazei penitência e cada um de vós seja batizado.» Logo, o Batismo nada tem a ver com a remissão dos pecados atuais. Objeção 3: Além disso, diversas doenças exigem diversos remédios, porque, como diz Jerônimo sobre Mc 9,27-28: «O que é remédio para o calcanhar não o é para o olho.» Ora, o pecado original, que é removido pelo Batismo, é genericamente distinto do pecado atual. Logo, nem todos os pecados são removidos pelo Batismo. Em contrário, está escrito (Ez 36,25): «Derramarei sobre vós água pura, e sereis purificados de todas as vossas imundícies.» Respondo que, como diz o Apóstolo (Rm 6,3): «Todos nós, que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados na sua morte.» E mais adiante conclui (Rm 6,11): «Assim também vós considerai-vos como mortos ao pecado, e vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor.» Donde é claro que pelo Batismo o homem morre para a velhice do pecado e começa a viver para a novidade da graça. Ora, todo pecado pertence à primitiva velhice. Conseqüentemente, todo pecado é removido pelo Batismo. Resposta à objeção primeira: Como diz o Apóstolo (Rm 5,15-16), o pecado de Adão não foi tão abrangente quanto o dom de Cristo, que é concedido no Batismo: «porque o juízo veio de um só para condenação; mas a graça veio de muitas ofensas para justificação.» Por isso, Agostinho, em seu livro sobre o Batismo das Crianças (De Pecc. Merit. et Remiss. I), diz que «na geração carnal contrai-se apenas o pecado original; mas quando renascemos do Espírito, não só o pecado original, mas também o pecado voluntário é perdoado.» Resposta à objeção segunda: Nenhum pecado pode ser perdoado senão pelo poder da Paixão de Cristo; por isso o Apóstolo diz (Hb 9,22) que «sem derramamento de sangue não há remissão.» Conseqüentemente, nenhum movimento da vontade humana basta para a remissão do pecado, a não ser que haja fé na Paixão de Cristo e o propósito de nela participar, seja recebendo o Batismo, seja submetendo-se às chaves da Igreja. Portanto, quando um adulto se aproxima do Batismo, ele recebe de fato o perdão de todos os seus pecados por meio de seu propósito de ser batizado, mas de modo mais perfeito pela recepção efetiva do Batismo. Resposta à objeção terceira: Este argumento é verdadeiro para remédios especiais. Mas o Batismo opera pelo poder da Paixão de Cristo, que é o remédio universal para todos os pecados; e assim, pelo Batismo, todos os pecados são desatados.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether all sins are taken away by Baptism? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que o Batismo deve remover as penas do pecado que pertencem a esta vida. Pois, como diz o Apóstolo (Rm 5,15), o dom de Cristo é de maior alcance que o pecado de Adão. Ora, pelo pecado de Adão, como diz o Apóstolo (Rm 5,12), «entrou a morte neste mundo» e, consequentemente, todas as outras penas da vida presente. Logo, muito mais deveria o homem ser libertado das penas da vida presente pelo dom de Cristo, que se recebe no Batismo. Objeção 2: Além disso, o Batismo remove a culpa, tanto do pecado original como do atual. Ora, ele remove a culpa do pecado atual de tal modo que liberta o homem de toda dívida de pena daí resultante. Portanto, também o liberta das penas da vida presente, que são uma pena do pecado original. Objeção 3: Ademais, removida a causa, remove-se o efeito. Ora, a causa destas penas é o pecado original, que é removido pelo Batismo. Logo, tais penas não deveriam permanecer. Ao contrário, sobre Rm 6,6 — «para que o corpo do pecado seja destruído» — diz uma glosa: «O efeito do Batismo é que o homem velho é crucificado e o corpo do pecado destruído, não como se a carne viva do homem fosse libertada pela destruição daquela concupiscência com a qual foi salpicada desde o seu nascimento; mas sim para que não o prejudique, estando morto, embora estivesse nele quando nasceu.» Logo, pela mesma razão, nem as outras penas são removidas pelo Batismo. Respondo que o Batismo tem poder para remover as penas da vida presente, contudo não as remove durante a vida presente, mas pelo seu poder serão removidas dos justos na ressurreição, quando «este mortal se revestir da imortalidade» (1 Cor 15,54). E isto é razoável. Primeiro, porque, pelo Batismo, o homem é incorporado a Cristo e feito seu membro, como foi dito acima (A[3]; Q[68], A[5]). Por conseguinte, convém que o que se dá na Cabeça se dê também no membro incorporado. Ora, desde o início da sua conceição, Cristo foi «cheio de graça e verdade», mas teve um corpo passível, que, por meio da sua Paixão e morte, foi elevado a uma vida de glória. Por onde, o cristão recebe a graça no Batismo quanto à sua alma, mas conserva um corpo passível, para que nele possa padecer por Cristo; contudo, por fim, será elevado a uma vida de impassibilidade. Daí o Apóstolo dizer (Rm 8,11): «Aquele que ressuscitou a Jesus Cristo dos mortos vivificará também os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós»; e mais adiante, no mesmo capítulo (Rm 8,17): «Herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo: contanto que padeçamos com Ele, para que também com Ele sejamos glorificados.» Segundo, isto é conveniente para a nossa instrução espiritual: a saber, para que, lutando contra a concupiscência e outros defeitos a que está sujeito, o homem receba a coroa da vitória. Por isso, sobre Rm 6,6 — «para que o corpo do pecado seja destruído» — diz uma glosa: «Se o homem, depois do Batismo, vive na carne, tem concupiscência para combater e vencer com o auxílio de Deus.» Em sinal do que está escrito (Jz 3,1-2): «Estas são as nações que o Senhor deixou, para por elas instruir a Israel… para que depois seus filhos aprendessem a pelejar com seus inimigos e se acostumassem à guerra.» Terceiro, isto foi conveniente para que os homens não buscassem o Batismo por causa da impassibilidade na vida presente, mas sim por causa da glória da vida eterna. Por isso o Apóstolo diz (1 Cor 15,19): «Se esperamos em Cristo somente nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens.» Resposta à Objeção 1: Como diz uma glosa sobre Rm 6,6 — «para que não sirvamos mais ao pecado» — «assim como um homem que, tendo capturado um inimigo temível, não o mata imediatamente, mas o deixa viver por um pouco de tempo em vergonha e sofrimento; assim Cristo primeiro atou a nossa pena, mas num tempo futuro a destruirá.» Resposta à Objeção 2: Como diz a glosa sobre o mesmo passo (cf. ad 1), «a pena do pecado é dupla: a pena do inferno e a pena temporal. Cristo aboliu inteiramente a pena do inferno, de modo que os que são batizados e verdadeiramente se arrependem não estejam sujeitos a ela. Porém, não aboliu totalmente a pena temporal por enquanto; pois a fome, a sede e a morte ainda permanecem. Mas derrubou o seu reino e o seu poder» no sentido de que o homem não deve mais temê-los: «e por fim a exterminará totalmente no derradeiro dia.» Resposta à Objeção 3: Como dissemos na FS, Q[81], A[1]; FS, Q[82], A[1], ad 2, o pecado original se difundiu desta maneira: primeiro a pessoa infectou a natureza, e depois a natureza infectou a pessoa. Ao passo que Cristo, em ordem inversa, primeiro repara o que diz respeito à pessoa, e depois reparará simultaneamente o que pertence à natureza em todos os homens. Consequentemente, pelo Batismo Ele tira do homem imediatamente a culpa do pecado original e a pena de ser privado da visão celestial. Mas as penas da vida presente, como a morte, a fome, a sede e semelhantes, pertencem à natureza, dos princípios da qual procedem, porquanto ela está privada da justiça original. Portanto, estes defeitos não serão removidos até a restauração última da natureza mediante a gloriosa ressurreição.

Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether Baptism should take away the penalties of sin that belong to this life? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que o pecado do primeiro progenitor não é transmitido, por via de origem, a todos os homens. Porque a morte é uma pena consequente ao pecado original. Mas nem todos os que nascem da semente de Adão morrerão, pois os que ainda estiverem vivos por ocasião da vinda de nosso Senhor nunca morrerão, como, ao que parece, pode depreender-se de 1 Tessalonicenses 4,14: «Nós, que vivemos até à vinda do Senhor, não precederemos os que dormiram». Logo, não contraem o pecado original. **Objeção 2:** Além disso, ninguém dá a outrem o que não tem em si mesmo. Ora, um homem que foi batizado não tem pecado original. Logo, não o transmite a seus filhos. **Objeção 3:** Além disso, o dom de Cristo é maior do que o pecado de Adão, como declara o Apóstolo (Rm 5,15 e segs.). Mas o dom de Cristo não é transmitido a todos os homens; logo, tampouco o pecado de Adão. **Ao contrário,** o Apóstolo diz (Rm 5,12): «A morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram». **Respondo que,** segundo a Fé Católica, devemos firmemente crer que, exceto Cristo unicamente, todos os homens descendentes de Adão contraem dele o pecado original; do contrário, todos não teriam necessidade da redenção [*Cf. Nota do Tradutor inserida antes de TP, Q[27]], a qual é por Cristo; e isto é erróneo. A razão disto pode colher-se do que foi dito (A[1]), a saber: que o pecado original, em virtude do pecado de nosso primeiro progenitor, é transmitido à sua posteridade, assim como, pela vontade da alma, o pecado atual é transmitido aos membros do corpo, pelo fato de serem movidos pela vontade. Ora, é evidente que o pecado atual pode ser transmitido a todos os membros que têm aptidão inata para ser movidos pela vontade. Portanto, o pecado original é transmitido a todos aqueles que são movidos por Adão pelo movimento de geração. **Resposta à Objeção 1:** Sustenta-se com maior probabilidade e mais comumente que todos os que estiverem vivos por ocasião da vinda de nosso Senhor morrerão e ressuscitarão em breve, como exporemos mais plenamente na TP (XP, Q[78], A[1], OBJ[1]). Se, porém, for verdade, como outros sustentam, que nunca morrerão (opinião que Jerônimo menciona entre outras numa carta a Minério, sobre a Ressurreição do Corpo — Ep. cxix), então devemos dizer, em resposta à objeção, que, embora não venham a morrer, o débito da morte não é menor neles, e que a pena da morte será remitida por Deus, pois Ele pode também perdoar a pena devida aos pecados atuais. **Resposta à Objeção 2:** O pecado original é tirado pelo Batismo quanto à culpa, na medida em que a alma recupera a graça quanto à mente. Todavia, permanece o pecado original em seu efeito quanto ao «fomes», que é a desordem das partes inferiores da alma e do próprio corpo, com respeito ao qual, e não da mente, o homem exerce seu poder de geração. Consequentemente, os que são batizados transmitem o pecado original, pois não geram como renovados no Batismo, mas como retendo ainda algo da velhice do primeiro pecado. **Resposta à Objeção 3:** Assim como o pecado de Adão é transmitido a todos os que nascem de Adão corporalmente, assim também a graça de Cristo é transmitida a todos os que são gerados d'Ele espiritualmente, pela fé e pelo Batismo; e isto não somente para a remoção do pecado de seu primeiro progenitor, mas também para a remoção dos pecados atuais e para a obtenção da glória.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 3 - Whether the sin of the first parent is transmitted, by the way of origin, to all men? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que a perseverança não necessita do auxílio da graça. Pois a perseverança é uma virtude, como foi dito acima (A.1). Ora, segundo Túlio (De Invent. Rhet. ii), a virtude age à maneira da natureza. Logo, só a inclinação da virtude basta para perseverar. Portanto, não necessita do auxílio da graça. **Objeção 2:** Ademais, o dom da graça de Cristo é maior que o dano causado por Adão, como se vê em Rm 5,15 e seguintes. Ora, “antes do pecado, o homem foi de tal modo constituído que podia perseverar pelo que recebera”, como diz Agostinho (De Correp. et Grat. xi). Muito mais, portanto, pode o homem, depois de restaurado pela graça de Cristo, perseverar sem o auxílio de uma graça ulterior. **Objeção 3:** Além disso, as ações pecaminosas são às vezes mais difíceis que as ações virtuosas; por isso se diz, na pessoa dos ímpios (Sb 5,7): “Andamos por caminhos árduos.” Ora, alguns perseveram em ações pecaminosas sem o auxílio de outrem. Logo, também o homem pode perseverar em ações virtuosas sem o auxílio da graça. **Em contrário,** diz Agostinho (De Persev. i): “Afirmamos que a perseverança é um dom de Deus, pelo qual perseveramos até o fim em Cristo.” **Respondo:** Como foi dito acima (A.1, ad 2; A.2, ad 3), a perseverança tem dupla significação. Primeiro, designa o hábito da perseverança, considerado como virtude. Deste modo, necessita do dom da graça habitual, como as demais virtudes infusas. Segundo, pode ser tomada como o ato de perseverar até a morte; e neste sentido necessita não só da graça habitual, mas também do auxílio gratuito de Deus que sustém o homem no bem até o fim da vida, como foi dito acima (I-II, Q.109, A.10), quando tratávamos da graça. Porque, sendo o livre-arbítrio mutável por sua própria natureza — mutabilidade que não lhe é tirada pela graça habitual concedida na vida presente —, não está no poder do livre-arbítrio, embora restaurado pela graça, permanecer imutavelmente no bem, embora esteja em seu poder escolhê-lo; pois muitas vezes está em nosso poder escolher, mas não realizar. **Resposta à primeira objeção:** A virtude da perseverança, quanto a si, inclina a perseverar; mas, sendo um hábito, e o hábito algo de que usamos à vontade, não se segue que quem tem o hábito da virtude dele use imutavelmente até a morte. **Resposta à segunda objeção:** Como diz Agostinho (De Correp. et Grat. xi), “ao primeiro homem foi dado não perseverar, mas poder perseverar pelo seu livre-arbítrio; porque então nenhuma corrupção havia na natureza humana que tornasse difícil a perseverança. Agora, porém, pela graça de Cristo, os predestinados recebem não só a possibilidade de perseverar, mas a própria perseverança. Por isso o primeiro homem, a quem ninguém ameaçava, rebelando-se por seu livre-arbítrio contra um Deus ameaçador, perdeu tão grande felicidade e tão grande facilidade de evitar o pecado; ao passo que estes, embora o mundo se enfureça contra a sua constância, perseveraram na fé.” **Resposta à terceira objeção:** O homem pode, por si mesmo, cair no pecado, mas não pode, por si mesmo, levantar-se do pecado sem o auxílio da graça. Logo, caindo no pecado, quanto a si, o homem se torna perseverante no pecado, a menos que seja libertado pela graça de Deus. Ao contrário, fazendo o bem, não se torna perseverante no bem, porque pode, por si mesmo, pecar; por isso necessita, para esse fim, do auxílio da graça.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 4 - Whether perseverance needs the help of grace? [*Cf. FS, Q[109], A[10]] · séc. XIII

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Rm 5, 15 nos Padres da Igreja | Aurea