Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que os artigos de fé são formulados inconvenientemente. Porque aquelas coisas que podem ser conhecidas por demonstração não pertencem à fé como objeto de crença para todos, como se disse acima (A. 5). Ora, pode ser conhecido por demonstração que há um só Deus; donde o Filósofo o prova (Metaf. XII, texto 52) e muitos outros filósofos demonstraram a mesma verdade. Logo, o "que há um só Deus" não devia ser estabelecido como artigo de fé. Objeção 2: Assim como é necessário para a fé que creiamos que Deus é onipotente, assim também o é que creiamos que Ele é "onissciente" e "providente sobre todas as coisas", acerca de ambas as quais alguns erraram. Portanto, entre os artigos de fé, deveria ter sido feita menção da sabedoria e providência de Deus, assim como da Sua onipotência. Objeção 3: Conhecer o Pai é o mesmo que conhecer o Filho, segundo Jo 14,9: "Quem me vê a mim, vê também ao Pai". Logo, deveria haver apenas um artigo sobre o Pai e o Filho, e, pela mesma razão, sobre o Espírito Santo. Objeção 4: A Pessoa do Pai não é menor que a Pessoa do Filho e do Espírito Santo. Ora, há vários artigos sobre a Pessoa do Espírito Santo, e igualmente sobre a Pessoa do Filho. Logo, deveria haver vários artigos sobre a Pessoa do Pai. Objeção 5: Assim como certas coisas são ditas por apropriação da Pessoa do Pai e da Pessoa do Espírito Santo, assim também algo é apropriado à Pessoa do Filho quanto à Sua Divindade. Ora, entre os artigos de fé, dá-se lugar a uma obra apropriada ao Pai, a saber, a criação, e igualmente uma obra apropriada ao Espírito Santo, a saber, que "falou pelos profetas". Logo, os artigos de fé deveriam conter alguma obra apropriada ao Filho quanto à Sua Divindade. Objeção 6: O sacramento da Eucaristia apresenta uma dificuldade especial, além dos outros artigos. Portanto, deveria ter sido mencionado num artigo especial; e, consequentemente, parece que não há número suficiente de artigos. Em contrário, está a autoridade da Igreja, que assim formula os artigos. Respondo: Como foi dito acima (AA. 4, 6), pertencem à fé, em si mesmas, aquelas coisas cuja visão gozaremos na vida eterna, e pelas quais somos conduzidos à vida eterna. Ora, duas coisas nos são propostas para serem vistas na vida eterna: a saber, o segredo da Divindade, cuja visão é possuir a felicidade; e o mistério da Encarnação de Cristo, "por quem temos acesso" à glória dos filhos de Deus, segundo Rm 5,2. Por isso está escrito (Jo 17,3): "A vida eterna é que eles conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste". Donde a primeira distinção nas matérias de fé é que umas dizem respeito à majestade da Divindade, enquanto outras pertencem ao mistério da natureza humana de Cristo, que é o "mistério de piedade" (1 Tm 3,16). Ora, quanto à majestade da Divindade, três coisas nos são propostas para crer: primeiramente, a unidade da Divindade, à qual se refere o primeiro artigo; em segundo lugar, a trindade das Pessoas, à qual se referem três artigos, correspondentes às três Pessoas; em terceiro lugar, as obras próprias da Divindade, das quais a primeira se refere à ordem da natureza, em relação à qual nos é proposto o artigo acerca da criação; a segunda se refere à ordem da graça, em relação à qual todas as matérias relativas à santificação do homem são incluídas num só artigo; a terceira se refere à ordem da glória, e em relação a esta nos é proposto outro artigo acerca da ressurreição dos mortos e da vida eterna. Assim, há sete artigos referentes à Divindade. Do mesmo modo, quanto à natureza humana de Cristo, há sete artigos: o primeiro refere-se à encarnação ou concepção de Cristo; o segundo, ao Seu nascimento virginal; o terceiro, à Sua Paixão, morte e sepultura; o quarto, à Sua descida aos infernos; o quinto, à Sua ressurreição; o sexto, à Sua ascensão; o sétimo, à Sua vinda para o juízo, de modo que, ao todo, são catorze artigos. Alguns, porém, distinguem doze artigos, seis pertencentes à Divindade e seis à humanidade. Pois incluem num só artigo os três acerca das três Pessoas, porque temos um só conhecimento das três Pessoas; e dividem o artigo referente à obra de glorificação em dois, a saber, a ressurreição do corpo e a glória da alma. Do mesmo modo, unem a concepção e o nascimento num só artigo. Resposta à Objeção 1: Pela fé, sustentamos muitas verdades acerca de Deus que os filósofos não puderam descobrir pela razão natural, por exemplo, Sua providência e onipotência, e que só Ele deve ser adorado, tudo o que está contido no único artigo da unidade de Deus. Resposta à Objeção 2: O próprio nome de Divindade implica uma espécie de vigilância sobre as coisas, como se disse na Primeira Parte, Q. 13, A. 8. Ora, nos seres dotados de intelecto, o poder não opera senão pela vontade e pelo conhecimento. Portanto, a onipotência de Deus inclui, de certo modo, o conhecimento universal e a providência. Pois Ele não poderia fazer tudo o que quer nas coisas inferiores, se não as conhecesse e exercesse sobre elas a Sua providência. Resposta à Objeção 3: Temos um só conhecimento do Pai, do Filho e do Espírito Santo quanto à unidade da Essência, à qual se refere o primeiro artigo; mas, quanto à distinção das Pessoas, que se dá pelas relações de origem, o conhecimento do Pai inclui, de certo modo, o conhecimento do Filho, pois não seria Pai se não tivesse Filho; sendo o vínculo entre eles o Espírito Santo. Deste ponto de vista, houve motivo suficiente para aqueles que referiram um só artigo às três Pessoas. Contudo, visto que, em relação a cada Pessoa, certos pontos devem ser observados, acerca dos quais alguns podem cair em erro, considerando as coisas deste modo, podemos distinguir três artigos acerca das três Pessoas. Pois Ário cria na onipotência e eternidade do Pai, mas não cria que o Filho fosse coigual e consubstancial ao Pai; daí a necessidade de um artigo sobre a Pessoa do Filho para estabelecer este ponto. Do mesmo modo, foi necessário estabelecer um terceiro artigo sobre a Pessoa do Espírito Santo, contra Macedônio. Da mesma forma, a concepção e o nascimento de Cristo, assim como a ressurreição e a vida eterna, podem, de um ponto de vista, ser unidos num só artigo, na medida em que se ordenam a um mesmo fim; enquanto, de outro ponto de vista, podem ser artigos distintos, na medida em que cada um separadamente apresenta uma dificuldade especial. Resposta à Objeção 4: Pertence ao Filho e ao Espírito Santo serem enviados para santificar a criatura; e acerca disso há muitas coisas que devem ser cridas. Por isso há mais artigos sobre as Pessoas do Filho e do Espírito Santo do que sobre a Pessoa do Pai, que nunca é enviado, como dissemos na Primeira Parte, Q. 43, A. 4. Resposta à Objeção 5: A santificação da criatura pela graça e sua consumação pela glória é também efetuada pelo dom da caridade, que é apropriado ao Espírito Santo, e pelo dom da sabedoria, que é apropriado ao Filho; de modo que cada obra pertence por apropriação, mas sob aspectos diferentes, tanto ao Filho como ao Espírito Santo. Resposta à Objeção 6: Duas coisas podem ser consideradas no sacramento da Eucaristia. Uma é o fato de ser um sacramento, e, a este respeito, é semelhante aos outros efeitos da graça santificante. A outra é que o corpo de Cristo está nele contido miraculosamente; e, assim, está incluído sob a onipotência de Deus, como todos os outros milagres que são atribuídos ao poder onipotente de Deus.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 8 - Whether the articles of faith are suitably formulated? · séc. XIII
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