Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que o sacerdócio de Cristo não perdura para sempre. Porque, como se disse acima (A. 4, ad 1 e 3), só necessitam do efeito do sacerdócio aqueles que têm a fraqueza do pecado, a qual pode ser expiada pelo sacrifício do sacerdote. Ora, isto não será para sempre. Pois nos Santos não haverá fraqueza, conforme Isaías 60,21: «O teu povo será todo justo»; e para a fraqueza do pecado não será possível expiação, visto que «não há redenção no inferno» (Ofício dos Mortos, Responsório VII). Logo, o sacerdócio de Cristo não perdura para sempre. Objeção 2: Ademais, o sacerdócio de Cristo se manifestou sobretudo na sua paixão e morte, quando «pelo seu próprio sangue entrou nos Santos» (Heb 9,12). Ora, a paixão e morte de Cristo não perdurarão para sempre, como está escrito (Rom 6,9): «Cristo, ressuscitado dos mortos, já não morre.» Logo, o sacerdócio de Cristo não perdurará para sempre. Objeção 3: Ademais, Cristo é sacerdote, não como Deus, mas como homem. Ora, houve um tempo em que Cristo não era homem, a saber, durante os três dias em que jazia morto. Portanto, o sacerdócio de Cristo não perdura para sempre. Em contrário, está escrito (Sl 109,4): «Tu és sacerdote para sempre.» Respondo: No ofício sacerdotal podemos considerar duas coisas: primeiro, a oferenda do sacrifício; segundo, a consumação do sacrifício, que consiste em que aqueles por quem o sacrifício é oferecido obtenham o fim do sacrifício. Ora, o fim do sacrifício que Cristo ofereceu não consistia num bem temporal, mas num bem eterno, que alcançamos por meio da sua morte, conforme Hebreus 9,11: «Cristo é pontífice dos bens futuros»; por isso o sacerdócio de Cristo é dito eterno. Ora, esta consumação do sacrifício de Cristo foi prefigurada no fato de que o sumo sacerdote da Lei Antiga, uma vez por ano, entrava no Santo dos Santos com o sangue de um bode e de um bezerro, como se prescreve em Levítico 16,11, e contudo oferecia o bode e o bezerro não dentro do Santo dos Santos, mas fora. Do mesmo modo, Cristo entrou no Santo dos Santos — isto é, no céu — e preparou-nos o caminho para que entremos pela virtude do seu sangue, que por nós derramou na terra. Resposta à Objeção 1: Os Santos que estarão no céu não necessitarão de nenhuma expiação ulterior pelo sacerdócio de Cristo, mas, uma vez expiados, necessitarão da consumação por meio do próprio Cristo, de quem depende a sua glória, como está escrito (Ap 21,23): «A glória de Deus a iluminou» — isto é, a cidade dos Santos — «e o Cordeiro é a sua lâmpada.» Resposta à Objeção 2: Embora a paixão e a morte de Cristo não se devam repetir, contudo a virtude dessa Vítima perdura para sempre, pois, como está escrito (Hb 10,14), «com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados.» Donde fica clara a resposta à terceira objeção. Quanto à unidade deste sacrifício, foi prefigurada na Lei pelo fato de que, uma vez por ano, o sumo sacerdote da Lei entrava nos Santos com uma solene oblação de sangue, como se estabelece em Levítico 16,11. Mas a figura ficava aquém da realidade, porque a vítima não tinha virtude eterna, razão pela qual esses sacrifícios se renovavam cada ano.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 5 - Whether the priesthood of Christ endures for ever? · séc. XIII
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