Santo Thomas Aquinas
Objecção 1: Parece que a Bem-aventurada Virgem não foi purificada da infecção do fomes. Porque, assim como o fomes, que consiste na rebelião das potências inferiores contra a razão, é uma pena do pecado original, também o são a morte e outras penas corporais. Logo, o fomes não foi inteiramente removido dela. Objecção 2: Além disso, está escrito (2 Cor 12,9): «O poder se aperfeiçoa na fraqueza», o que se refere à fraqueza do fomes, pela qual ele (o Apóstolo) sentia o «estímulo da carne». Ora, não era conveniente que fosse tirado da Bem-aventurada Virgem algo que pertencesse à perfeição da virtude. Logo, não foi conveniente que o fomes lhe fosse inteiramente tirado. Objecção 3: Além disso, Damasceno diz (De Fide Orth. iii) que «o Espírito Santo veio sobre» a Bem-aventurada Virgem, «purificando-a», antes que ela concebesse o Filho de Deus. Mas isto só pode ser entendido da purificação do fomes: porque ela não cometeu pecado algum, como diz Agostinho (De Nat. et Grat. xxvi). Logo, pela santificação no ventre, ela não foi absolutamente purificada do fomes. Em contrário, está escrito (Ct 4,7): «Tu és toda formosa, ó minha amada, e em ti não há mancha!» Ora, o fomes implica uma mácula, ao menos na carne. Logo, o fomes não estava na Bem-aventurada Virgem. Respondo que, a este respeito, há várias opiniões. Alguns sustentaram que o fomes foi inteiramente removido naquela santificação pela qual a Bem-aventurada Virgem foi santificada no ventre. Outros dizem que ele permaneceu quanto ao que causa dificuldade para o bem, mas foi removido quanto ao que causa propensão para o mal. Outros, ainda, que foi removido quanto à corrupção pessoal, pela qual nos torna prontos para o mal e lentos para o bem, mas permaneceu quanto à corrupção da natureza, enquanto é causa da transmissão do pecado original à prole. Finalmente, outros dizem que, na sua primeira santificação, o fomes permaneceu essencialmente, mas foi atado; e que, quando ela concebeu o Filho de Deus, foi inteiramente removido. Para entender a questão em causa, deve-se observar que o fomes não é senão uma certa concupiscência desordenada, mas habitual, do apetite sensitivo. Pois a concupiscência atual é um movimento pecaminoso. Ora, a concupiscência sensual é dita desordenada na medida em que se rebela contra a razão; e isto ela faz inclinando para o mal ou impedindo o bem. Por conseguinte, é essencial ao fomes inclinar para o mal ou impedir o bem. Portanto, dizer que o fomes estava na Bem-aventurada Virgem sem inclinação para o mal é combinar duas afirmações contraditórias. Do mesmo modo, parece implicar contradição dizer que o fomes permaneceu quanto à corrupção da natureza, mas não quanto à corrupção pessoal. Pois, segundo Agostinho (De Nup. et Concup. i.), é a concupiscência que transmite o pecado original à prole. Ora, a concupiscência implica uma concupiscência desordenada, não inteiramente sujeita à razão; e, portanto, se o fomes fosse inteiramente removido quanto à corrupção pessoal, não poderia permanecer quanto à corrupção da natureza. Resta, portanto, dizer, ou que o fomes foi inteiramente removido dela pela sua primeira santificação, ou que foi atado. Ora, que o fomes foi inteiramente removido pode ser entendido deste modo: pela abundância de graça concedida à Bem-aventurada Virgem, foi-lhe dada tal disposição das potências da alma que as potências inferiores nunca eram movidas sem o comando da sua razão; assim como afirmamos ter sido o caso de Cristo (Q. 15, a. 2), que certamente não teve o fomes do pecado; como também foi o caso de Adão, antes de pecar, por causa da justiça original; de modo que, a este respeito, a graça da santificação na Virgem teve a força da justiça original. E embora isto pareça fazer parte da dignidade da Virgem Mãe, é todavia algo derrogatório da dignidade de Cristo, sem cujo poder ninguém teria sido liberto da primeira sentença de condenação. E embora, pela fé em Cristo, alguns tenham sido libertos dessa condenação, segundo o espírito, antes da Encarnação de Cristo, não parece, contudo, conveniente que alguém fosse liberto dessa condenação segundo a carne, senão depois da sua Encarnação, pois então é que a imunidade da condenação devia aparecer pela primeira vez. Consequentemente, assim como antes da imortalidade da carne de Cristo ressuscitado ninguém obteve a imortalidade da carne, assim parece inconveniente dizer que antes de Cristo aparecer em carne sem pecado, a carne da sua Virgem Mãe ou de outro alguém estivesse sem o fomes, que é chamado «lei da carne» ou «lei dos membros» (Rm 7,23.25). Portanto parece melhor dizer que, pela santificação no ventre, a Virgem não foi liberta do fomes na sua essência, mas que ele permaneceu atado: não certamente por um ato da sua razão, como nos homens santos, pois ela não teve o uso da razão desde o primeiro momento da sua existência no ventre materno, porque este foi o privilégio singular de Cristo; mas pela abundante graça que lhe foi concedida na sua santificação, e ainda mais perfeitamente pela Divina Providência que preservava a sua alma sensitiva, de modo singular, de todo movimento desordenado. Depois, porém, na conceição da carne de Cristo, na qual pela primeira vez a imunidade do pecado devia ser conspicua, deve-se crer que a inteira liberdade do fomes redundou do Filho para a Mãe. Isto é significado (Ez 43,2): «Eis que a glória do Deus de Israel vinha pelo caminho do oriente», isto é, pela Bem-aventurada Virgem, «e a terra», isto é, a sua carne, «resplandecia com a sua majestade», isto é, de Cristo. Resposta à Objeção 1: A morte e outras penas semelhantes não nos inclinam por si mesmas ao pecado. Pelo que, embora Cristo as assumisse, não assumiu o fomes. Consequentemente, para que a Bem-aventurada Virgem se conformasse ao seu Filho, de «cuja plenitude» lhe veio a graça, o fomes foi primeiramente atado e depois tirado; mas ela não foi liberta da morte e de outras penas tais. Resposta à Objeção 2: A «fraqueza» da carne, que pertence ao fomes, é de fato para os homens santos uma causa ocasional de virtude perfeita: mas não a condição indispensável da perfeição: e é suficiente atribuir à Bem-aventurada Virgem virtude perfeita e graça abundante; nem é necessário atribuir-lhe toda causa ocasional de perfeição. Resposta à Objeção 3: O Espírito Santo operou uma dupla purificação na Bem-aventurada Virgem. A primeira foi, por assim dizer, preparatória para a conceição de Cristo: a qual não a purificou da mancha do pecado ou do fomes, mas antes deu à sua mente unidade de propósito e a desapegou da multiplicidade das coisas (cf. Dionísio, Div. Nom. iv), pois até os anjos são ditos purificados, nos quais não há mancha, como diz Dionísio (Eccl. Hier. vi). A segunda purificação nela operada pelo Espírito Santo foi por meio da conceição de Cristo, que foi obra do Espírito Santo. E a este respeito, pode-se dizer que Ele a purificou inteiramente do fomes.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 3 - Whether the Blessed Virgin was cleansed from the infection of the fomes? · séc. XIII
tradução automática