Santo Agostinho
Isto é o que está significado no salmo undécimo: "Agirei poderosamente em favor dele; as palavras do Senhor são palavras puras, prata acrisolada no fogo, purificada da terra, depurada sete vezes." A menção deste número adverte-me aqui a referir todos estes preceitos àquelas sete sentenças que Ele pôs no princípio deste Sermão; aquelas, digo, concernentes às bem-aventuranças. Pois irar-se contra o irmão sem causa, ou dizer-lhe Raca, ou chamá-lo de louco, é pecado de extrema soberba, contra o qual há um só remédio, que é, com espírito suplicante, buscar o perdão e não inchar-se com espírito de jactância. "Bem-aventurados", portanto, "os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus." Concorda com o seu adversário, isto é, mostrando reverência à palavra de Deus, aquele que vai ao desvendamento da vontade de seu Pai não com a contenciosidade da lei, mas com a mansidão da religião; por isso, "Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra." Também todo aquele que sentir o deleite carnal rebelar-se contra a sua reta vontade clamará: "Ó homem infeliz que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?" E, assim chorando, implorará o auxílio do consolador; donde: "Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados." Que coisa pode ser pensada como mais laboriosa do que, ao vencer um mau hábito, cortar aqueles membros dentro de nós que impedem o reino dos céus, e não desfalecer com a dor de assim fazer? Suportar no fiel matrimônio todas as coisas, até as mais penosas, e contudo evitar toda acusação de fornicação. Dizer a verdade, e comprová-la não por frequentes juramentos, mas pela probidade da vida. Mas quem ousaria suportar tais labores, a não ser que ardesse no amor da justiça como por fome e sede? "Bem-aventurados", portanto, "os que têm fome e sede, porque serão fartos." Quem pode estar pronto a receber injúria dos fracos, a oferecer-se a quem lho pedir, a amar os seus inimigos, a fazer o bem aos que o odeiam, a orar pelos que o perseguem, senão aquele que é perfeitamente misericordioso? Portanto, "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia." Conserva puro o olho do seu coração aquele que põe o fim das suas boas ações não em agradar aos homens, nem em obter as coisas necessárias a esta vida, e que não condena temerariamente o coração de nenhum homem, e tudo o que dá a outrem dá com aquela intenção com que quereria que outros lhe dessem. "Bem-aventurados", portanto, "os puros de coração, porque verão a Deus." É necessário, além disso, que pelo coração puro se descubra o caminho estreito da sabedoria, ao qual a astúcia dos homens corruptos é obstáculo; "Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus." Mas, quer adotemos esta disposição, quer qualquer outra, as coisas que ouvimos do Senhor devem ser praticadas, se quisermos edificar sobre a rocha.
Serm. in Mont. ii · Serm. in Mont. ii, 40. i. 10. et. seq · séc. V
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