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Matos Soares
25Sejam dadas graças a Deus, por Jesus Cristo Nosso Senhor. Assim, pois, eu mesmo sirvo à lei de Deus com o espírito; e sirvo à lei do pecado com a carne.
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Citações internas
5
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A
Santo Agostinho
Ou então: como pelos justos, assim pelos pecadores; como se dissesse: Assim como os justos fazem a vossa vontade, assim também a façam os pecadores; quer convertendo-se a Vós, quer recebendo cada homem a sua justa recompensa, o que se dará no último juízo. Ou então, pelo céu e pela terra podemos entender o espírito e a carne. Como diz o Apóstolo: «Com a mente sirvo à lei de Deus», vemos a vontade de Deus feita no espírito. Mas naquela mudança que ali é prometida aos justos: «Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu»; isto é, como o espírito não resiste a Deus, assim o corpo não resista ao espírito. Ou então: «assim na terra como no céu», como no próprio Cristo Jesus, assim na sua Igreja; como no Homem que fez a vontade de seu Pai, assim na mulher que com Ele está desposada. E o céu e a terra podem convenientemente entender-se como esposo e esposa, visto que é do céu que a terra produz os seus frutos.
séc. V
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TA
Santo Tomás de Aquino
**Objeção 1:** Parece que o homem pode evitar o pecado sem a graça. Porque, como diz Agostinho (De Duab. Anim. x, xi; De Libero Arbit. iii, 18), "ninguém peca no que não pode evitar". Se, portanto, o homem em pecado mortal não pode evitar o pecado, pareceria que, pecando, não peca, o que é impossível.
**Objeção 2:** Ademais, os homens são corrigidos para que não pequem. Se, pois, o homem em pecado mortal não pode evitar o pecado, a correção pareceria dada em vão; o que é absurdo.
**Objeção 3:** Ademais, está escrito (Ecli 15,18): "Diante do homem está a vida e a morte, o bem e o mal; o que ele escolher, isso lhe será dado". Ora, ninguém, pecando, deixa de ser homem. Logo, ainda está em seu poder escolher o bem ou o mal; e, assim, o homem pode evitar o pecado sem a graça.
**Em contrário,** diz Agostinho (De Perfect. Just. xxi): "Quem quer que negue que devemos dizer a oração 'Não nos induzas à tentação' (e negam-na aqueles que sustentam que a ajuda da graça de Deus não é necessária ao homem para a salvação, mas que o dom da lei é bastante para a vontade humana) deve, sem dúvida, ser removido de toda audiência e ser anatematizado por todas as línguas."
**Respondo:** Podemos falar do homem de dois modos: primeiro, no estado de natureza perfeita; segundo, no estado de natureza corrompida. Ora, no estado de natureza perfeita, o homem, sem a graça habitual, poderia evitar pecar, quer mortal, quer venialmente; pois pecar não é senão desviar-se do que é conforme à nossa natureza — e, no estado de natureza perfeita, o homem podia evitar isso. Contudo, não o poderia ter feito sem o auxílio de Deus para sustentá-lo no bem, porque, se este lhe fosse retirado, sua mesma natureza teria recaído no nada.
Mas, no estado de natureza corrompida, o homem necessita da graça para curar sua natureza, a fim de que possa abster-se inteiramente do pecado. E, na vida presente, esta cura é operada na mente — não estando ainda restaurado o apetite carnal. Por isso, o Apóstolo (Rm 7,25) diz na pessoa do que é restaurado: "Eu mesmo, com a mente, sirvo à lei de Deus, mas, com a carne, à lei do pecado." E, neste estado, o homem pode abster-se de todo pecado mortal, o qual tem sua sede na razão, como se disse acima (Q. 74, A. 5); mas o homem não pode abster-se de todo pecado venial, por causa da corrupção do seu apetite inferior da sensualidade. Pois o homem pode, de fato, reprimir cada um dos seus movimentos (e, por isso, são eles pecaminosos e voluntários), mas não todos, porque, enquanto resiste a um, outro pode surgir, e também porque a razão nem sempre está alerta para evitar esses movimentos, como se disse acima (Q. 74, A. 3, ad 2).
Assim também, antes de a razão do homem, na qual está o pecado mortal, ser restaurada pela graça justificante, ele pode evitar cada pecado mortal, e por algum tempo, pois não é necessário que esteja sempre pecando atualmente. Mas não pode permanecer por muito tempo sem pecado mortal. Por isso, Gregório diz (Super Ezech. Hom. xi) que "um pecado não removido imediatamente pela penitência, pelo seu peso nos arrasta a outros pecados": e isto porque, assim como o apetite inferior deve estar sujeito à razão, assim a razão deve estar sujeita a Deus, e nEle colocar o fim da sua vontade. Ora, é pelo fim que todos os atos humanos devem ser regulados, assim como é pelo juízo da razão que os movimentos do apetite inferior devem ser regulados. E, portanto, assim como movimentos desordenados do apetite sensitivo não podem deixar de ocorrer, pois o apetite inferior não está sujeito à razão, assim também, porque a razão do homem não está inteiramente sujeita a Deus, segue-se que muitas desordens ocorrem na razão. Pois, quando o coração do homem não está tão fixo em Deus que não queira separar-se dEle para encontrar algum bem ou evitar algum mal, ocorrem muitas coisas para alcançar ou evitar as quais o homem se desvia de Deus e quebra Seus mandamentos, e assim peca mortalmente: especialmente porque, quando surpreendido, o homem age segundo seu fim preconcebido e seus hábitos preexistentes, como diz o Filósofo (Ética III); embora com premeditação da razão, o homem possa fazer algo fora da ordem de seu fim preconcebido e da inclinação de seu hábito. Mas porque o homem nem sempre pode ter esta premeditação, não pode deixar de acontecer que ele aja conforme sua vontade desviada de Deus, a menos que, pela graça, seja rapidamente trazido de volta à devida ordem.
**Resposta à Objeção 1:** O homem pode evitar cada ato de pecado, mas não todos, exceto pela graça, como se disse acima. Contudo, visto que é por sua própria falta que ele não se prepara para ter a graça, o fato de não poder evitar o pecado sem a graça não o desculpa do pecado.
**Resposta à Objeção 2:** A correção é útil "a fim de que, da tristeza da correção, nasça o desejo de ser regenerado; se, de fato, aquele que é corrigido é filho da promessa, de tal modo que, enquanto o ruído da correção ressoa externamente e castiga, Deus, por inspirações ocultas, interiormente faz querer", como diz Agostinho (De Corr. et Gratia vi). A correção é, portanto, necessária, pelo fato de que a vontade do homem é requerida para abster-se do pecado; contudo, não é suficiente sem o auxílio de Deus. Por isso está escrito (Ecle 7,14): "Considera as obras de Deus, que ninguém pode corrigir a quem Ele desprezou."
**Resposta à Objeção 3:** Como diz Agostinho (Hypognosticon iii [*Entre as obras espúrias de Santo Agostinho]), esta palavra deve ser entendida do homem no estado de natureza perfeita, quando ainda não era escravo do pecado. Por isso, ele podia pecar e não pecar. Agora também, tudo o que o homem quer, lhe é dado; mas o querer o bem, ele o tem pelo auxílio de Deus.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 8 - Whether man without grace can avoid sin? · séc. XIII
tradução automática
TA
Santo Tomás de Aquino
Artigo 9 — Se aquele que já obteve a graça pode, por si mesmo e sem ulterior auxílio da graça, fazer o bem e evitar o pecado?
Objeção 1. Parece que todo aquele que já obteve a graça pode, por si mesmo e sem ulterior auxílio da graça, fazer o bem e evitar o pecado. Pois uma coisa é inútil ou imperfeita, se não cumpre aquilo para que foi dada. Ora, a graça nos é dada para que façamos o bem e nos guardemos do pecado. Logo, se com a graça o homem não pode fazer isto, parece que a graça é ou inútil ou imperfeita.
Objeção 2. Além disso, pela graça o Espírito Santo habita em nós, segundo 1 Cor 3,16: «Não sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?» Ora, sendo o Espírito de Deus onipotente, Ele é suficiente para assegurar que façamos o bem e nos guardemos do pecado. Logo, um homem que obteve a graça pode fazer as duas coisas acima sem qualquer outro auxílio da graça.
Objeção 3. Além disso, se um homem que obteve a graça necessita de ulterior auxílio da graça para viver retamente e conservar-se livre do pecado, com igual razão necessitará de ainda outra graça, mesmo tendo obtido este primeiro socorro da graça. Portanto, devemos ir ao infinito; o que é impossível. Logo, quem está na graça não necessita de outro auxílio da graça para fazer o bem e conservar-se livre do pecado.
Em contrário, Agostinho diz (De Natura et Gratia, xxvi) que «assim como o olho do corpo, ainda que seja sadíssimo, não pode ver se não é ajudado pelo esplendor da luz, assim também o homem, ainda que seja justíssimo, não pode viver retamente se não é ajudado pela luz eterna da justiça.» Ora, a justificação é pela graça, segundo Rom 3,24: «Sendo justificados gratuitamente por Sua graça.» Logo, até o homem que já possui a graça necessita de um ulterior auxílio da graça para viver retamente.
Respondo que, como foi dito acima (A[5]), para viver retamente o homem necessita de um duplo auxílio de Deus — primeiro, um dom habitual pelo qual a natureza humana corrompida é curada e, depois de curada, é elevada para praticar obras meritórias da vida eterna, que excedem a capacidade da natureza. Segundo, o homem necessita do auxílio da graça para ser movido por Deus a agir.
Ora, quanto ao primeiro gênero de auxílio, o homem não necessita de um ulterior auxílio da graça, como, por exemplo, um hábito infuso adicional. Contudo, necessita do auxílio da graça de outro modo, isto é, para ser movido por Deus a agir retamente, e isto por duas razões: primeira, pela razão geral de que nenhuma criatura pode produzir qualquer ato senão pela virtude do movimento divino. Segunda, por esta razão especial — a condição do estado da natureza humana. Pois, embora curada pela graça quanto ao espírito, permanece corrompida e envenenada na carne, pela qual serve «à lei do pecado», Rom 7,25. No intelecto também parece haver a escuridão da ignorância, pela qual, como está escrito (Rom 8,26): «Não sabemos o que havemos de pedir como convém»; visto que, por causa das várias mudanças de circunstâncias e porque não nos conhecemos perfeitamente, não podemos conhecer plenamente o que é para o nosso bem, segundo Sab 9,14: «Porque os pensamentos dos homens mortais são temerosos e os nossos conselhos incertos.» Por isso devemos ser guiados e guardados por Deus, que sabe e pode todas as coisas. Pelo que também convém que aqueles que renasceram como filhos de Deus digam: «Não nos deixeis cair em tentação», e «Seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu», e tudo o mais que contém a Oração Dominical a este respeito.
Resposta à primeira objeção. O dom da graça habitual não nos é dado para que não mais necessitemos do auxílio divino; pois toda criatura necessita ser conservada no bem recebido dEle. Portanto, se depois de receber a graça o homem ainda necessita do auxílio divino, não se pode concluir que a graça seja dada em vão, ou que seja imperfeita, visto que o homem necessitará do auxílio divino até no estado de glória, quando a graça estiver plenamente aperfeiçoada. Mas aqui a graça é, em certa medida, imperfeita, na medida em que não cura completamente o homem, como foi dito acima.
Resposta à segunda objeção. A operação do Espírito Santo, que move e protege, não se circunscreve ao efeito da graça habitual que Ele causa em nós; mas, além deste efeito, Ele, juntamente com o Pai e o Filho, nos move e protege.
Resposta à terceira objeção. Este argumento apenas prova que o homem não necessita de ulterior graça habitual.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 9 - Whether one who has already obtained grace, can, of himself and without further help of grace, do good and avoid sin? · séc. XIII
tradução automática
TA
Santo Tomás de Aquino
**Objeção 1:** Parece que sem a graça o homem pode evitar o pecado. Porque "ninguém peca no que não pode evitar", como diz Agostinho (De Duab. Anim. x, xi; De Libero Arbit. iii, 18). Logo, se o homem em pecado mortal não pode evitar o pecado, parece que, ao pecar, não peca — o que é impossível.
**Objeção 2:** Ademais, os homens são corrigidos para que não pequem. Se, portanto, o homem em pecado mortal não pode evitar o pecado, a correção parece ser dada em vão — o que é absurdo.
**Objeção 3:** Ademais, está escrito (Eclo 15,18): "Diante do homem está a vida e a morte, o bem e o mal; o que ele escolher, isso lhe será dado." Ora, pelo pecado ninguém deixa de ser homem. Logo, ainda está em seu poder escolher o bem ou o mal; e, assim, o homem pode evitar o pecado sem a graça.
**Ao contrário,** Agostinho diz (De Perfect Just. xxi): "Quem quer que negue que devemos dizer a oração 'Não nos induzas à tentação' (e negam-na aqueles que sustentam que a ajuda da graça de Deus não é necessária ao homem para a salvação, mas que o dom da lei é suficiente para a vontade humana), deve, sem dúvida, ser removido para além de todo ouvido e ser anatematizado por todas as línguas."
**Respondo que:** Podemos falar do homem de dois modos: primeiro, no estado de natureza íntegra; segundo, no estado de natureza corrupta. Ora, no estado de natureza íntegra, o homem, sem a graça habitual, poderia evitar pecar, quer mortal quer venialmente; pois pecar nada mais é do que desviar-se do que é segundo a nossa natureza — e, no estado de natureza íntegra, o homem poderia evitar isso. Contudo, não o poderia ter feito sem o auxílio de Deus que o sustivesse no bem, pois, se este fosse retirado, até mesmo a sua natureza teria recaído no nada.
Mas, no estado de natureza corrupta, o homem necessita da graça para curar a sua natureza, a fim de que possa abster-se inteiramente do pecado. E, na vida presente, esta cura é operada na mente — não estando ainda restaurado o apetite carnal. Daí o Apóstolo (Rm 7,25) dizer, na pessoa de quem é restaurado: "Eu mesmo, com a mente, sirvo à lei de Deus, mas, com a carne, à lei do pecado." E, neste estado, o homem pode abster-se de todo pecado mortal, que tem sua sede na razão, como foi dito acima (q. 74, a. 5); mas o homem não pode abster-se de todo pecado venial, por causa da corrupção do seu apetite inferior da sensualidade. Pois, na verdade, o homem pode reprimir cada um dos seus movimentos (e, por isso, eles são pecaminosos e voluntários), mas não todos, porque, enquanto resiste a um, outro pode surgir, e também porque a razão nem sempre está alerta para evitar estes movimentos, como foi dito acima (q. 74, a. 3, ad 2).
Assim também, antes de a razão do homem — na qual reside o pecado mortal — ser restaurada pela graça justificante, ele pode evitar cada pecado mortal, e por um tempo, visto que não é necessário que esteja sempre pecando atualmente. Mas não é possível que permaneça por muito tempo sem pecado mortal. Por isso, Gregório diz (Super Ezech. Hom. xi) que "um pecado não removido de imediato pela penitência, pelo seu peso nos arrasta para outros pecados": e isto porque, assim como o apetite inferior deve estar sujeito à razão, assim a razão deve estar sujeita a Deus, e deve pôr n'Ele o fim da sua vontade. Ora, é pelo fim que todos os atos humanos devem ser regulados, assim como é pelo juízo da razão que os movimentos do apetite inferior devem ser regulados. E, portanto, assim como movimentos desordenados do apetite sensitivo não podem deixar de ocorrer, uma vez que o apetite inferior não está sujeito à razão, assim também, uma vez que a razão do homem não está inteiramente sujeita a Deus, segue-se que ocorrem muitos distúrbios na razão. Pois, quando o coração do homem não está tão fixo em Deus que se recuse a ser d'Ele separado para obter algum bem ou evitar algum mal, acontecem muitas coisas para cuja consecução ou evitação o homem se desvia de Deus e quebra os Seus mandamentos, e assim peca mortalmente; especialmente porque, quando surpreendido, o homem age segundo o seu fim preconcebido e os seus hábitos preexistentes, como diz o Filósofo (Ethic. iii); ainda que, com a premeditação da sua razão, o homem possa fazer algo fora da ordem do seu fim preconcebido e da inclinação do seu hábito. Mas, porque o homem nem sempre pode ter esta premeditação, não pode deixar de acontecer que aja conforme a sua vontade desviada de Deus, a menos que, pela graça, seja rapidamente reconduzido à devida ordem.
**Resposta à objeção 1:** O homem pode evitar cada ato de pecado, mas não todo ato, senão pela graça, como foi dito acima. Contudo, visto que é por sua própria deficiência que ele não se prepara para ter a graça, o fato de não poder evitar o pecado sem a graça não o desculpa do pecado.
**Resposta à objeção 2:** A correção é útil "a fim de que, da tristeza da correção, nasça o desejo de ser regenerado; se, na verdade, aquele que é corrigido é filho da promessa, de tal modo que, enquanto o ruído da correção ressoa externamente e castiga, Deus, por inspirações ocultas, faz interiormente querer", como diz Agostinho (De Corr. et Gratia vi). A correção é, portanto, necessária, pelo fato de que a vontade do homem é requerida para abster-se do pecado; contudo, não é suficiente sem o auxílio de Deus. Por isso está escrito (Ecle 7,14): "Considera as obras de Deus, que ninguém pode corrigir a quem Ele desprezou."
**Resposta à objeção 3:** Como diz Agostinho (Hypognosticon iii [*Entre as obras espúrias de Santo Agostinho]), esta sentença deve ser entendida do homem no estado de natureza íntegra, quando ainda não era escravo do pecado. Por isso, podia pecar e não pecar. Agora também, o que o homem quiser, lhe é dado; mas o querer o bem, ele o tem pelo auxílio de Deus.
Summa Theologiae — First Part · Article. 8 - Whether man without grace can avoid sin? · séc. XIII
tradução automática
TA
Santo Tomás de Aquino
Objeção 1: Parece que aquele que já obteve a graça pode, por si mesmo e sem mais auxílio da graça, fazer o bem e evitar o pecado. Pois uma coisa é inútil ou imperfeita, se não cumpre aquilo para que foi dada. Ora, a graça nos é dada para que façamos o bem e nos abstenhamos do pecado. Logo, se com a graça o homem não pode fazer isto, parece que a graça é ou inútil ou imperfeita.
Objeção 2: Ademais, pela graça o Espírito Santo habita em nós, segundo 1 Coríntios 3,16: "Não sabeis vós que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?" Ora, como o Espírito de Deus é onipotente, é suficiente para assegurar que façamos o bem e nos guardemos do pecado. Logo, o homem que obteve a graça pode fazer as duas coisas acima sem qualquer outro auxílio da graça.
Objeção 3: Ademais, se o homem que obteve a graça precisa de mais auxílio da graça para viver retamente e se conservar livre do pecado, com igual razão necessitará de ainda outra graça, mesmo tendo obtido este primeiro socorro da graça. Portanto, teríamos que prosseguir ao infinito, o que é impossível. Logo, quem está na graça não precisa de mais auxílio da graça para agir retamente e se conservar livre do pecado.
Em contrário, diz Agostinho (De Natura et Gratia, cap. 26): "Assim como o olho do corpo, ainda que sadíssimo, não pode ver sem o auxílio do clarão da luz, assim também o homem, ainda que justíssimo, não pode viver retamente sem o auxílio da luz eterna da justiça." Ora, a justificação é pela graça, segundo Romanos 3,24: "Sendo justificados gratuitamente por sua graça." Logo, mesmo o homem que já possui a graça necessita de um auxílio ulterior da graça para viver retamente.
Respondo que, como se disse acima (art. 5), para viver retamente o homem necessita de um duplo auxílio de Deus: primeiro, um dom habitual pelo qual a natureza humana corrompida é curada e, depois de curada, é elevada a praticar obras meritórias da vida eterna, que excedem a capacidade da natureza. Segundo, o homem necessita do auxílio da graça para ser movido por Deus a agir.
Quanto ao primeiro gênero de auxílio, o homem não necessita de mais um auxílio de graça, como, por exemplo, de um novo hábito infuso. Contudo, necessita do auxílio da graça de outro modo, isto é, para ser movido por Deus a agir retamente, e isto por duas razões: primeira, pela razão geral de que nenhuma coisa criada pode produzir algum ato senão pela virtude da moção divina. Segunda, por esta razão especial: a condição do estado da natureza humana. Pois, embora curada pela graça quanto ao espírito, permanece ainda corrompida e envenenada na carne, pela qual serve "à lei do pecado", Romanos 7,25. Também no intelecto parece haver as trevas da ignorância, pelas quais, como está escrito (Romanos 8,26): "Não sabemos o que havemos de pedir como convém"; porque, devido às várias mudanças das circunstâncias e por não nos conhecermos perfeitamente a nós mesmos, não podemos conhecer plenamente o que nos é útil, segundo Sabedoria 9,14: "Porque os pensamentos dos homens mortais são tímidos e incertos os nossos conselhos." Por isso, devemos ser guiados e guardados por Deus, que sabe e pode todas as coisas. Pelo que também é conveniente que aqueles que renasceram como filhos de Deus digam: "Não nos induzas à tentação" e "Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu", e tudo o mais que está contido na Oração Dominical relativo a isto.
Resposta à primeira objeção: O dom da graça habitual não nos é dado para que não precisemos mais do auxílio divino; porque toda criatura necessita ser conservada no bem recebido dele. Portanto, se depois de recebida a graça o homem ainda necessita do auxílio divino, não se pode concluir que a graça é dada em vão ou que é imperfeita, pois o homem necessitará do auxílio divino mesmo no estado de glória, quando a graça estiver plenamente perfeita. Mas aqui a graça é de certo modo imperfeita, enquanto não cura completamente o homem, como foi dito acima.
Resposta à segunda objeção: A operação do Espírito Santo, que move e protege, não está circunscrita ao efeito da graça habitual que ele causa em nós; mas além deste efeito, ele, juntamente com o Pai e o Filho, nos move e protege.
Resposta à terceira objeção: Este argumento prova apenas que o homem não necessita de outra graça habitual.
Summa Theologiae — First Part · Article. 9 - Whether one who has already obtained grace, can, of himself and without further help of grace, do good and avoid sin? · séc. XIII