Referência

Rm 8, 15

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Matos Soares

15Com efeito, não recebestes o espírito de escravidão para estardes novamente com temor, mas recebestes o espírito de adopção (de filhos), mercê do qual clamamos: "Abba, Pai."

Matos Soares · domínio público

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Santo Agostinho

Contudo, esta indagação é muito misteriosa. Busquemos, pois, do Senhor a luz da exposição. Digo-vos, amados, que em toda a Sagrada Escritura não há talvez questão tão grande nem tão difícil como esta. Primeiramente, peço-vos que noteis que o Senhor não disse: Toda a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada, nem: Quem falar qualquer palavra contra — mas: "Quem falar a palavra." Pelo que não é necessário pensar que toda blasfêmia e toda palavra falada contra o Espírito Santo fique sem perdão; é necessário somente que haja alguma palavra que, se falada contra o Espírito Santo, fique sem perdão. Pois tal é o modo da Escritura, que, quando algo nela é declarado sem que se declare se é dito do todo ou de uma parte, não é necessário que, porque pode aplicar-se ao todo, por isso se entenda da parte. Como quando o Senhor disse aos judeus: "Se eu não viera e lhes falara, não teriam pecado" (Jo 15,22), isto não significa que os judeus seriam de todo sem pecado, mas que haveria um pecado que não teriam, se Cristo não viera. O que é, pois, esta maneira de falar contra o Espírito Santo, vem agora a ser explicado. Ora, no Pai nos é representado o Autor de todas as coisas, no Filho o nascimento, no Espírito Santo a comunhão do Pai e do Filho. Que é, então, o que é comum ao Pai e ao Filho, por meio do qual eles querem que tenhamos comunhão entre nós e com eles? "O amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Rm 5,5); e, porque por nossos pecados estávamos alienados da posse dos verdadeiros bens, "a caridade cobrirá a multidão dos pecados" (1Pd 4,8). E, porque Cristo perdoa pecados por meio do Espírito Santo, daí se pode entender como, ao dizer a seus discípulos: "Recebei o Espírito Santo" (Jo 20,22), acrescentou logo: "Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados." Portanto, o primeiro benefício dos que creem é a remissão dos pecados no Espírito Santo. Contra este dom da graça gratuita fala o coração impenitente; a própria impenitência é, pois, a blasfêmia contra o Espírito que não será perdoada, nem neste mundo, nem no vindouro. Porquanto, na verdade, fala a palavra má contra o Espírito Santo, seja em seu pensamento, seja com sua língua, aquele que, por seu coração duro e impenitente, entesoura para si ira contra o dia da ira. Tal impenitência, verdadeiramente, não tem perdão, nem neste mundo nem no vindouro, pois a penitência obtém perdão neste mundo, o qual terá valor no mundo vindouro. Mas essa impenitência, enquanto alguém vive na carne, não pode ser julgada, porque não devemos desesperar de ninguém enquanto a paciência de Deus nos conduz à penitência. Pois que será se aqueles que descobris em qualquer sorte de pecado e condenais como os mais desesperados, antes de fecharem esta vida, se voltarem à penitência e encontrarem a verdadeira vida no mundo vindouro? Mas esta espécie de blasfêmia, ainda que seja longa e composta de muitas palavras, contudo a Escritura costuma falar de muitas palavras como uma só palavra. Foi mais do que uma só palavra a que o Senhor falou pelo profeta, e contudo lemos: A palavra que veio a este ou àquele profeta. Talvez alguém possa indagar se somente o Espírito Santo perdoa pecados, ou também o Pai e o Filho. Respondemos que também o Pai e o Filho; porque o próprio Filho diz do Pai: " Vosso Pai vos perdoará vossos pecados" (Mt 6,14), e diz de si mesmo: "O Filho do Homem tem poder na terra para perdoar pecados" (Mt 9,6). Por que, então, aquela impenitência que jamais é perdoada é dita blasfêmia somente contra o Espírito Santo? Porquanto aquele que cai neste pecado de impenitência parece resistir ao dom do Espírito Santo, porque nesse dom é transmitida a remissão do pecado. Mas os pecados, porque não são remitidos fora da Igreja, devem ser remitidos naquele Espírito pelo qual a Igreja é congregada em unidade. Assim, esta remissão dos pecados, que é dada por toda a Trindade, diz-se ser o ofício próprio só do Espírito Santo, pois é Ele "o Espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai" (Rm 8,15), de modo que a Ele possamos rogar: "Perdoa-nos os nossos pecados;" e por isto sabemos — diz João — "que Cristo permanece em nós, pelo Espírito Santo que nos deu" (1Jo 4,13). Porque a Ele pertence aquele vínculo pelo qual somos feitos um só corpo do unigênito Filho de Deus; pois o próprio Espírito Santo é, de certo modo, o vínculo do Pai e do Filho. Quem, pois, for culpado de impenitência contra o Espírito Santo, pelo qual a Igreja é congregada em unidade e um só vínculo de comunhão, jamais lhe será remetido.

Serm. · Serm., 71, 8 · séc. V

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Santo Agostinho

Visto que em toda súplica havemos primeiro de propiciar o benévolo favor daquele a quem suplicamos, e depois mencionar aquilo pelo qual suplicamos; e isto comumente fazemos dizendo algo em louvor daquele a quem suplicamos, e o colocamos no frontispício de nossa petição; nisto o Senhor nos manda não dizer mais que somente: "Pai nosso que estais nos céus". Muitas coisas se disseram deles para louvor de Deus, contudo nunca achamos que se ensinasse aos filhos de Israel dirigir-se a Deus como "Pai nosso"; antes lhes é proposto como um Senhor sobre escravos. Mas do povo de Cristo diz o Apóstolo: "Recebemos o Espírito de adoção, pelo qual clamamos: Abba, Pai", e isto não por nossos merecimentos, mas pela graça. Isto, pois, exprimimos na oração quando dizemos "Pai"; nome que também desperta o amor. Pois que pode ser mais querido do que os filhos são para um pai? E um espírito suplicante, em que os homens digam a Deus "Pai nosso". E certa presunção de que havemos de obter; pois que não dará ele a seus filhos quando lhe pedem, ele que primeiro lhes deu isto: que fossem filhos? Por fim, quão grande ansiedade possui o ânimo daquele que, tendo chamado a Deus seu Pai, não deve ser indigno de tal Pai. Por isto são admoestados os ricos e os nobres, quando se tornaram cristãos, a não serem altivos para com os pobres ou os de baixa estirpe, que, como eles, podem dirigir-se a Deus como "Pai nosso"; e por isso não podem dizer isto verdadeira ou piamente, a não ser que reconheçam tais como irmãos.

Serm. in Mont. · Serm. in Mont., ii, 4 · séc. V

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Rm 8, 15 nos Padres da Igreja | Aurea