Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a beatitude pode ser alcançada nesta vida. Pois está escrito (Sl 118,1): «Bem-aventurados os imaculados no caminho, que andam na lei do Senhor». Ora, isso acontece nesta vida. Logo, pode-se ser bem-aventurado nesta vida. **Objeção 2:** Além disso, a participação imperfeita no Sumo Bem não destrói a natureza da beatitude; do contrário, um não seria mais bem-aventurado que outro. Ora, os homens podem participar do Sumo Bem nesta vida, conhecendo e amando a Deus, ainda que imperfeitamente. Logo, o homem pode ser bem-aventurado nesta vida. **Objeção 3:** Além disso, o que é dito por muitos não pode ser totalmente falso, pois o que está em muitos parece vir da natureza; e a natureza não falha totalmente. Ora, muitos dizem que a beatitude pode ser alcançada nesta vida, como aparece no Sl 143,15: «Chamaram bem-aventurado o povo que tem estas coisas», a saber, os bens desta vida. Logo, pode-se ser bem-aventurado nesta vida. **Em sentido contrário,** está escrito (Jó 14,1): «O homem nascido de mulher, vivendo por pouco tempo, é cheio de muitas misérias». Ora, a beatitude exclui a miséria. Logo, o homem não pode ser bem-aventurado nesta vida. **Respondo.** Uma certa participação da beatitude pode ser tida nesta vida, mas a beatitude perfeita e verdadeira não pode ser tida nesta vida. Isto se vê por uma dupla consideração. Primeiro, pela noção geral de beatitude. Pois, sendo a beatitude um «bem perfeito e suficiente», exclui todo mal e satisfaz todo desejo. Ora, nesta vida não se pode excluir todo mal, pois esta vida presente está sujeita a muitos males inevitáveis: à ignorância da parte do intelecto, à afeição desordenada da parte do apetite e a muitas penalidades da parte do corpo, como Agostinho expõe em *De Civ. Dei* XIX, 4. Do mesmo modo, também não se pode saciar nesta vida o desejo do bem. Pois o homem naturalmente deseja que o bem que possui seja duradouro. Ora, os bens da vida presente passam, como passa a própria vida, a qual naturalmente desejamos ter e que gostaríamos de conservar permanentemente, pois o homem naturalmente foge da morte. Por isso é impossível ter a verdadeira beatitude nesta vida. Segundo, pela consideração da natureza específica da beatitude, isto é, a visão da Essência Divina, que o homem não pode obter nesta vida, como foi mostrado na Primeira Parte (Q. 12, A. 11). Por conseguinte, fica evidente que ninguém pode alcançar nesta vida a beatitude verdadeira e perfeita. **Resposta à objeção 1:** Alguns são ditos bem-aventurados nesta vida, ou por causa da esperança de obter a beatitude na vida futura, segundo Rm 8,24: «Pela esperança fomos salvos», ou por causa de uma certa participação da beatitude, em razão de um certo gozo do Sumo Bem. **Resposta à objeção 2:** A imperfeição da beatitude participada se deve a uma de duas causas. Primeiro, da parte do objeto da beatitude, que não é visto em sua Essência; e essa imperfeição destrói a natureza da verdadeira beatitude. Segundo, a imperfeição pode ser da parte do participante, que atinge o objeto da beatitude em si mesmo, isto é, Deus, mas imperfeitamente, em comparação com o modo pelo qual Deus goza de Si mesmo. Essa imperfeição não destrói a verdadeira natureza da beatitude, porque, sendo a beatitude uma operação, como foi dito acima (Q. 3, A. 2), a verdadeira natureza da beatitude é tomada do objeto, que especifica o ato, e não do sujeito. **Resposta à objeção 3:** Os homens julgam que haja alguma espécie de beatitude nesta vida, por causa de uma certa semelhança com a verdadeira beatitude. E assim não falham totalmente em seu juízo.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 3 - Whether one can be happy in this life? · séc. XIII
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