Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que não é próprio de Cristo ser o Mediador de Deus e dos homens. Porque um sacerdote e um profeta parecem ser mediadores entre Deus e os homens, conforme Dt 5,5: "Eu fui o mediador e estive entre Deus [Vulg.: 'o Senhor'] e vós naquele tempo." Mas não é próprio de Cristo ser sacerdote e profeta. Logo, também não Lhe é próprio ser Mediador. Objeção 2: Além disso, o que convém aos anjos, tanto bons como maus, não pode ser dito próprio de Cristo. Ora, estar entre Deus e os homens convém aos anjos bons, como diz Pseudo-Dionísio (Div. Nom. iv). Convém também aos anjos maus — isto é, os demônios: pois eles têm algo em comum com Deus — a saber, a "imortalidade"; e algo têm em comum com os homens — a saber, a "passibilidade da alma" e consequentemente a infelicidade; como se vê pelo que diz Agostinho (De Civ. Dei ix, 13,15). Logo, não é próprio de Cristo ser Mediador de Deus e dos homens. Objeção 3: Ademais, pertence ao ofício do Mediador suplicar a um daqueles entre os quais medeia, pelo outro. Ora, o Espírito Santo, como está escrito (Rm 8,26), "intercede" por nós diante de Deus "com gemidos inefáveis". Logo, o Espírito Santo é Mediador entre Deus e os homens. Portanto, isso não é próprio de Cristo. Ao contrário, está escrito (1 Tm 2,5): "Há um só Mediador de Deus e dos homens, o homem Cristo Jesus." Respondo que, propriamente falando, o ofício de mediador é unir e ligar aqueles entre os quais medeia: pois os extremos se unem no meio [medio]. Ora, unir os homens a Deus perfectivamente pertence a Cristo, por meio de Quem os homens são reconciliados com Deus, conforme 2 Cor 5,19: "Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo." E, consequentemente, só Cristo é o perfeito Mediador de Deus e dos homens, na medida em que, pela Sua morte, reconciliou o gênero humano com Deus. Por isso o Apóstolo, depois de dizer "Mediador de Deus e dos homens, o homem Cristo Jesus", acrescentou: "Que Se deu a Si mesmo como redenção por todos." Todavia, nada impede que alguns outros sejam chamados mediadores, em certo aspecto, entre Deus e os homens, na medida em que cooperam para unir os homens a Deus, dispositiva ou ministerialmente. Resposta à objeção 1: Os profetas e sacerdotes da Antiga Lei foram chamados mediadores entre Deus e os homens, dispositiva e ministerialmente: na medida em que predisseram e prefiguraram o verdadeiro e perfeito Mediador de Deus e dos homens. Quanto aos sacerdotes da Nova Lei, eles podem ser chamados mediadores de Deus e dos homens, na medida em que são ministros do verdadeiro Mediador, administrando, em Seu lugar, os sacramentos salutares aos homens. Resposta à objeção 2: Os anjos bons, como diz Agostinho (De Civ. Dei ix, 13), não podem ser corretamente chamados mediadores entre Deus e os homens. "Pois, uma vez que têm em comum com Deus a beatitude e a imortalidade, e nada disso têm em comum com o homem infeliz e mortal, quanto mais não estão eles distantes dos homens e próximos de Deus, do que colocados entre eles?" No entanto, Pseudo-Dionísio diz que eles ocupam um lugar médio, porque, na ordem da natureza, estão estabelecidos abaixo de Deus e acima do homem. Além disso, eles cumprem o ofício de mediador, não principal e perfectivamente, mas ministerial e dispositivamente: donde (Mt 4,11) se diz que "os anjos vieram e O serviram" — isto é, a Cristo. Quanto aos demônios, é verdade que têm a imortalidade em comum com Deus e a infelicidade em comum com os homens. "Portanto, para este fim intervém o demônio imortal e infeliz, a fim de impedir os homens de passar para uma imortalidade feliz," e para atraí-los a uma imortalidade infeliz. Donde ele é como "um mau mediador, que separa os amigos" [*Agostinho, De Civ. Dei xv]. Mas Cristo tinha a beatitude em comum com Deus, a mortalidade em comum com os homens. Logo, "para este fim interveio, para que, cumprido o espaço da Sua mortalidade, fizesse dos homens mortos imortais — o que mostrou em Si mesmo ao ressuscitar; e para que conferisse beatitude àqueles que dela estavam privados — razão pela qual nunca nos abandonou." Por isso Ele é "o bom Mediador, que reconcilia os inimigos" (De Civ. Dei xv). Resposta à objeção 3: Visto que o Espírito Santo é em tudo igual a Deus, não se pode dizer que está entre, ou é Mediador de, Deus e dos homens; mas só Cristo, que, embora igual ao Pai na Sua Divindade, é menor que o Pai na Sua natureza humana, como foi dito acima (Q[20], A[1]). Por isso, sobre Gl 3,20, "Cristo é um Mediador [Vulg.: 'Ora, o mediador não é de um só, mas Deus é um']", a glosa diz: "Nem o Pai nem o Espírito Santo." Diz-se, porém, que o Espírito Santo "intercede por nós", porque nos faz interceder.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 1 - Whether it is proper to Christ to be the Mediator of God and man? · séc. XIII
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