Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que nenhuma outra Pessoa Divina poderia ter assumido a natureza humana senão a Pessoa do Filho. Pois por esta assunção se deu que Deus é o Filho do Homem. Ora, não era conveniente que o Pai ou o Espírito Santo fossem chamados de Filho; porque isto tenderia à confusão das Pessoas Divinas. Portanto, o Pai e o Espírito Santo não poderiam ter assumido a carne. **Objeção 2:** Além disso, pela Encarnação Divina os homens entraram na posse da adoção de filhos, conforme Rom. 8,15: «Porque não recebestes o espírito de servidão para viverdes ainda no temor, mas o espírito de adoção de filhos.» Ora, a filiação por adoção é uma semelhança participada da filiação natural, que não pertence ao Pai nem ao Espírito Santo; donde se diz (Rom. 8,29): «Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho.» Portanto, parece que nenhuma outra Pessoa, senão a Pessoa do Filho, poderia ter-Se encarnado. **Objeção 3:** Além disso, diz-se que o Filho foi enviado e foi gerado pela natividade temporal, enquanto Se encarnou. Ora, não pertence ao Pai ser enviado, porque Ele é inascível, como foi dito acima (I Parte, q. 32, a. 3; I Parte, q. 43, a. 4). Portanto, ao menos a Pessoa do Pai não pode encarnar-Se. **Em contrário**, tudo o que o Filho pode fazer, também o Pai e o Espírito Santo o podem; de outro modo, o poder das três Pessoas não seria uno. Ora, o Filho pôde encarnar-Se. Logo, o Pai e o Espírito Santo puderam encarnar-Se. **Respondo que**, como foi dito acima (aa. 1, 2, 4), a assunção implica duas coisas, a saber: o ato de quem assume e o termo da assunção. Ora, o princípio do ato é o poder divino, e o termo é uma Pessoa. Mas o poder divino está indiferente e comumente em todas as Pessoas. Além disso, a natureza da personalidade é comum a todas as Pessoas, embora as propriedades pessoais sejam diferentes. Ora, sempre que um poder se refere indiferentemente a várias coisas, pode terminar sua ação em qualquer delas indiferentemente, como é manifesto nos poderes racionais, que se referem a contrários e podem fazer um ou outro. Portanto, o poder divino pôde unir a natureza humana à Pessoa do Pai ou do Espírito Santo, assim como a uniu à Pessoa do Filho. E por isso devemos dizer que o Pai ou o Espírito Santo poderiam ter assumido a carne, assim como o Filho. **Resposta à objeção 1:** A filiação temporal, pela qual se diz que Cristo é o Filho do Homem, não constitui a Sua Pessoa, como a filiação eterna; mas é algo que se segue à natividade temporal. Por isso, se o nome de filho fosse transferido para o Pai ou para o Espírito Santo desta maneira, não haveria confusão das Pessoas Divinas. **Resposta à objeção 2:** A filiação adotiva é uma certa participação da filiação natural; mas ela se realiza em nós, por apropriação, pelo Pai, que é o princípio da filiação natural, e pelo dom do Espírito Santo, que é o amor do Pai e do Filho, conforme Gál. 4,6: «E porque sois filhos, Deus enviou ao vosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Abba, Pai.» E, portanto, assim como pela Encarnação do Filho recebemos a filiação adotiva à semelhança de Sua filiação natural, do mesmo modo, se o Pai Se tivesse encarnado, receberíamos a filiação adotiva dEle, como do princípio da filiação natural, e do Espírito Santo como do vínculo comum do Pai e do Filho. **Resposta à objeção 3:** Pertence ao Pai ser inascível quanto ao nascimento eterno, e o nascimento temporal não destruiria isso. Mas o Filho de Deus é dito ser enviado quanto à Encarnação, enquanto Ele é de outro, sem o que a Encarnação não bastaria para a natureza da missão.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 5 - Whether each of the Divine Persons could have assumed human nature? · séc. XIII
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