Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a ciência de Deus não é a causa das coisas. Pois Orígenes diz, sobre Rom. 8,30: "Aos que chamou, a esses também justificou", etc.: "Uma coisa acontecerá não porque Deus a conhece como futura; mas porque é futura, é por isso conhecida por Deus, antes que exista." Objeção 2: Além disso, dada a causa, segue-se o efeito. Ora, a ciência de Deus é eterna. Portanto, se a ciência de Deus é a causa das coisas criadas, parece que as criaturas são eternas. Objeção 3: Além disso, "A coisa conhecida é anterior ao conhecimento e é sua medida", como diz o Filósofo (Metaf., X). Ora, o que é posterior e medido não pode ser causa. Portanto, a ciência de Deus não é a causa das coisas. Em contrário, diz Agostinho (De Trin., XV): "Não é porque elas são que Deus conhece todas as criaturas espirituais e temporais, mas porque Ele as conhece, portanto elas são." Respondo que a ciência de Deus é a causa das coisas. Pois a ciência de Deus está para todas as criaturas assim como a ciência do artífice está para as coisas feitas por sua arte. Ora, a ciência do artífice é a causa das coisas feitas por sua arte pelo fato de o artífice operar por seu intelecto. Portanto, a forma do intelecto deve ser o princípio da ação; assim como o calor é o princípio do aquecimento. Contudo, devemos observar que uma forma natural, sendo uma forma que permanece naquilo a que dá existência, denota um princípio de ação apenas enquanto tem uma inclinação para um efeito; e, da mesma forma, a forma inteligível não denota um princípio de ação enquanto reside no ente que entende, a menos que se lhe acrescente a inclinação para um efeito, inclinação que se dá pela vontade. Pois, uma vez que a forma inteligível tem relação com coisas opostas (na medida em que o mesmo conhecimento se relaciona com opostos), ela não produziria um efeito determinado a menos que fosse determinada a uma coisa pelo apetite, como diz o Filósofo (Metaf., IX). Ora, é manifesto que Deus causa as coisas por Seu intelecto, pois Seu ser é Seu ato de entender; e, portanto, Sua ciência deve ser a causa das coisas, na medida em que Sua vontade se lhe une. Por isso, a ciência de Deus como causa das coisas costuma ser chamada "ciência de aprovação". Resposta à Objeção 1: Orígenes falou em referência àquele aspecto da ciência ao qual a ideia de causalidade não pertence a menos que a vontade se lhe una, como se disse acima. Mas quando ele diz que a razão pela qual Deus prevê algumas coisas é porque elas são futuras, isso deve ser entendido segundo a causa da consequência, e não segundo a causa da essência. Pois, se as coisas são futuras, segue-se que Deus as conhece; mas não que a futuridade das coisas seja a causa por que Deus as conhece. Resposta à Objeção 2: A ciência de Deus é a causa das coisas conforme as coisas estão em Sua ciência. Ora, que as coisas fossem eternas não estava na ciência de Deus; logo, embora a ciência de Deus seja eterna, não se segue que as criaturas sejam eternas. Resposta à Objeção 3: As coisas naturais estão no meio-termo entre a ciência de Deus e a nossa ciência: pois recebemos conhecimento das coisas naturais, das quais Deus é a causa por Sua ciência. Portanto, assim como os objetos naturais do conhecimento são anteriores ao nosso conhecimento e são sua medida, assim a ciência de Deus é anterior às coisas naturais e é a medida delas; como, por exemplo, uma casa está no meio-termo entre a ciência do construtor que a fez e a ciência daquele que colhe seu conhecimento da casa a partir da casa já construída.
Summa Theologiae — First Part · Article. 8 - Whether the knowledge of God is the cause of things? · séc. XIII
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