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Rm 9, 19

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Matos Soares

19Dir-me-ás, porém : "De que se queixa, pois. Deus? Quem pode resistirá sua vontade?"

Matos Soares · domínio público

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Citações internas

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Pareceria que a vontade é movida necessariamente por Deus. Pois todo agente que não pode ser resistido move necessariamente. Ora, Deus não pode ser resistido, porque o Seu poder é infinito; por isso está escrito (Rm 9,19): "Quem resiste à sua vontade?" Portanto, Deus move a vontade necessariamente. Objeção 2: Ademais, a vontade é movida necessariamente para tudo o que quer naturalmente, como se disse acima (A[2], ad 3). Ora, "tudo o que Deus faz numa coisa é-lhe natural", como diz Agostinho (Contra Fausto, xxvi, 3). Logo, a vontade quer necessariamente tudo para o que Deus a move. Objeção 3: Ademais, uma coisa é possível, se nada de impossível se segue da sua suposição. Ora, algo impossível se segue da suposição de que a vontade não queira aquilo para que Deus a move: porque nesse caso a operação de Deus seria ineficaz. Logo, não é possível que a vontade não queira aquilo para que Deus a move. Portanto, quer necessariamente. Ao contrário, está escrito (Eclo 15,14): "Deus fez o homem desde o princípio e deixou-o na mão do seu próprio conselho". Logo, não move a vontade do homem necessariamente. Respondo que, como diz Dionísio (Sobre os Nomes Divinos, iv), "pertence à divina providência não destruir, mas preservar a natureza das coisas". Pelo que move todas as coisas segundo as suas condições; de modo que, a partir de causas necessárias, pelo movimento divino, os efeitos seguem necessariamente; mas, a partir de causas contingentes, os efeitos seguem contingentemente. Portanto, como a vontade é um princípio ativo, não determinado a uma coisa, mas tendo uma relação indiferente a muitas, Deus a move de tal modo que não a determina necessariamente a uma coisa, mas o seu movimento permanece contingente e não necessário, exceto naquelas coisas para as quais é movida naturalmente. Resposta à objeção 1: A vontade divina estende-se não só a fazer algo pela coisa que move, mas também a que isso seja feito de um modo que convém à natureza dessa coisa. E, portanto, seria mais repugnante ao movimento divino que a vontade fosse movida necessariamente, o que não convém à sua natureza, do que fosse movida livremente, o que é conveniente à sua natureza. Resposta à objeção 2: É natural a uma coisa aquilo que Deus nela obra de modo a que lhe seja natural: pois assim algo se torna conveniente a uma coisa, conforme Deus quer que lhe seja conveniente. Ora, Ele não quer que tudo o que obra nas coisas lhes seja natural, por exemplo, que os mortos ressuscitem. Mas isto quer que seja natural a cada coisa — que esteja sujeita ao poder divino. Resposta à objeção 3: Se Deus move a vontade para algo, é incompatível com esta suposição que a vontade não seja movida para isso. Mas não é impossível simplesmente. Consequentemente, não se segue que a vontade seja movida por Deus necessariamente.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 4 - Whether the will is moved of necessity by the exterior mover which is God? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que a vontade de Deus impõe necessidade às coisas queridas. Porque diz Agostinho (Enchirídio, 103): "Ninguém se salva, senão aquele a quem Deus quis salvar. Deve-se, portanto, rogar-lhe que o queira; porque, se Ele o quer, necessariamente se há de cumprir." Objeção 2: Além disso, toda causa que não pode ser impedida produz necessariamente o seu efeito; porque, como diz o Filósofo (Fís. ii, 84), "a natureza obra sempre do mesmo modo, se nada a impedir". Ora, a vontade de Deus não pode ser impedida. Pois diz o Apóstolo (Rom. 9,19): "Quem resiste à sua vontade?" Logo, a vontade de Deus impõe necessidade às coisas queridas. Objeção 3: Ademais, tudo o que é necessário pela sua causa antecedente é necessário absolutamente; assim, é necessário que os animais morram, por serem compostos de elementos contrários. Ora, as coisas criadas por Deus estão para a vontade divina como para uma causa antecedente, pela qual têm necessidade. Porque é verdadeiro o condicional: se Deus quer uma coisa, ela acontece; e todo condicional verdadeiro é necessário. Segue-se, portanto, que tudo o que Deus quer é necessário absolutamente. Ao contrário, todos os bens que existem, Deus quer que existam. Se, portanto, a sua vontade impõe necessidade às coisas queridas, segue-se que todo bem acontece necessariamente; e assim findam o livre-arbítrio, o conselho e todas as outras coisas semelhantes. Respondo que a vontade divina impõe necessidade a algumas coisas queridas, mas não a todas. A razão disto alguns quiseram atribuir às causas intermediárias, sustentando que o que Deus produz por causas necessárias é necessário; e o que produz por causas contingentes é contingente. Isto não parece ser uma explicação suficiente, por duas razões. Primeiro, porque o efeito de uma causa primeira é contingente em razão da causa secundária, pelo fato de o efeito da causa primeira ser impedido por defeito da causa segunda, como a força do sol é impedida por um defeito na planta. Ora, nenhum defeito de uma causa secundária pode impedir a vontade de Deus de produzir o seu efeito. Segundo, porque, se a distinção entre o contingente e o necessário deve ser referida apenas às causas secundárias, isto teria de ser independente da intenção e vontade divinas; o que é inadmissível. Melhor é, portanto, dizer que isto acontece por causa da eficácia da vontade divina. Pois, quando uma causa é eficaz para agir, o efeito segue-se da causa, não só quanto à coisa feita, mas também quanto ao seu modo de ser feito ou de ser. Assim, por defeito do poder ativo na semente, pode acontecer que uma criança nasça diferente de seu pai em pontos acidentais, que pertencem ao seu modo de ser. Visto que, pois, a vontade divina é perfeitamente eficaz, segue-se não só que as coisas são feitas, que Deus quer que sejam feitas, mas também que são feitas do modo que Ele quer. Ora, Deus quer que algumas coisas sejam feitas necessariamente, outras contingentemente, para a boa ordenação das coisas, para a edificação do universo. Por isso, a alguns efeitos Ele ligou causas necessárias, que não podem falhar; mas a outros, causas defectíveis e contingentes, das quais surgem efeitos contingentes. Portanto, não é porque as causas próximas são contingentes que os efeitos queridos por Deus acontecem contingentemente, mas porque Deus preparou para eles causas contingentes, sendo sua vontade que eles acontecessem contingentemente. Resposta à Objeção 1: Pelas palavras de Agostinho devemos entender uma necessidade nas coisas queridas por Deus que não é absoluta, mas condicional. Porque é necessariamente verdadeiro o condicional: se Deus quer uma coisa, ela deve necessariamente acontecer. Resposta à Objeção 2: Do próprio fato de que nada resiste à vontade divina, segue-se não só que acontecem aquelas coisas que Deus quer que aconteçam, mas que acontecem necessária ou contingentemente, segundo a sua vontade. Resposta à Objeção 3: Os consequentes têm necessidade dos seus antecedentes segundo o modo dos antecedentes. Por isso, as coisas efeitas pela vontade divina têm aquele tipo de necessidade que Deus quer que tenham, absoluta ou condicional. Nem todas as coisas, portanto, são necessárias absolutamente.

Summa Theologiae — First Part · Article. 8 - Whether the will of God imposes necessity on the things willed? · séc. XIII

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