Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Pareceria que a vontade é movida necessariamente por Deus. Pois todo agente que não pode ser resistido move necessariamente. Ora, Deus não pode ser resistido, porque o Seu poder é infinito; por isso está escrito (Rm 9,19): "Quem resiste à sua vontade?" Portanto, Deus move a vontade necessariamente. Objeção 2: Ademais, a vontade é movida necessariamente para tudo o que quer naturalmente, como se disse acima (A[2], ad 3). Ora, "tudo o que Deus faz numa coisa é-lhe natural", como diz Agostinho (Contra Fausto, xxvi, 3). Logo, a vontade quer necessariamente tudo para o que Deus a move. Objeção 3: Ademais, uma coisa é possível, se nada de impossível se segue da sua suposição. Ora, algo impossível se segue da suposição de que a vontade não queira aquilo para que Deus a move: porque nesse caso a operação de Deus seria ineficaz. Logo, não é possível que a vontade não queira aquilo para que Deus a move. Portanto, quer necessariamente. Ao contrário, está escrito (Eclo 15,14): "Deus fez o homem desde o princípio e deixou-o na mão do seu próprio conselho". Logo, não move a vontade do homem necessariamente. Respondo que, como diz Dionísio (Sobre os Nomes Divinos, iv), "pertence à divina providência não destruir, mas preservar a natureza das coisas". Pelo que move todas as coisas segundo as suas condições; de modo que, a partir de causas necessárias, pelo movimento divino, os efeitos seguem necessariamente; mas, a partir de causas contingentes, os efeitos seguem contingentemente. Portanto, como a vontade é um princípio ativo, não determinado a uma coisa, mas tendo uma relação indiferente a muitas, Deus a move de tal modo que não a determina necessariamente a uma coisa, mas o seu movimento permanece contingente e não necessário, exceto naquelas coisas para as quais é movida naturalmente. Resposta à objeção 1: A vontade divina estende-se não só a fazer algo pela coisa que move, mas também a que isso seja feito de um modo que convém à natureza dessa coisa. E, portanto, seria mais repugnante ao movimento divino que a vontade fosse movida necessariamente, o que não convém à sua natureza, do que fosse movida livremente, o que é conveniente à sua natureza. Resposta à objeção 2: É natural a uma coisa aquilo que Deus nela obra de modo a que lhe seja natural: pois assim algo se torna conveniente a uma coisa, conforme Deus quer que lhe seja conveniente. Ora, Ele não quer que tudo o que obra nas coisas lhes seja natural, por exemplo, que os mortos ressuscitem. Mas isto quer que seja natural a cada coisa — que esteja sujeita ao poder divino. Resposta à objeção 3: Se Deus move a vontade para algo, é incompatível com esta suposição que a vontade não seja movida para isso. Mas não é impossível simplesmente. Consequentemente, não se segue que a vontade seja movida por Deus necessariamente.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 4 - Whether the will is moved of necessity by the exterior mover which is God? · séc. XIII
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