Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que não há ordem na caridade. Pois a caridade é uma virtude. Ora, nenhuma ordem é atribuída às outras virtudes. Logo, também não se deve atribuir nenhuma ordem à caridade. Objeção 2: Ademais, assim como o objeto da fé é a Primeira Verdade, assim o objeto da caridade é o Sumo Bem. Ora, na fé não se estabelece ordem alguma, mas todas as coisas são igualmente cridas. Logo, também na caridade não deve haver ordem alguma. Objeção 3: Ademais, a caridade está na vontade; ordenar, porém, não pertence à vontade, mas à razão. Logo, nenhuma ordem deve ser atribuída à caridade. Ao contrário, está escrito (Ct 2,4): "Introduziu-me na adega do vinho, pôs em ordem em mim a caridade." Respondo que, como diz o Filósofo (Metaf. V, texto 16), os termos "antes" e "depois" são empregados com referência a algum princípio. Ora, a ordem implica que certas coisas estejam, de algum modo, antes ou depois. Portanto, onde quer que haja um princípio, necessariamente também há algum tipo de ordem. Mas já foi dito acima (q.23, a.1; q.25, a.12) que o amor de caridade tende a Deus como ao princípio da bem-aventurança, na comunhão da qual se funda a amizade da caridade. Por conseguinte, é necessário que haja alguma ordem nas coisas amadas por caridade, ordem essa que se refere ao primeiro princípio desse amor, que é Deus. Resposta à objeção 1: A caridade tende ao fim último considerado como fim último; e isso não se aplica a nenhuma outra virtude, como foi dito acima (q.23, a.6). Ora, o fim tem caráter de princípio nas coisas do apetite e da ação, como foi demonstrado acima (q.23, a.7, ad 2; FS, a.1, ad 1). Por onde, a caridade, acima de tudo, implica relação ao Primeiro Princípio e, consequentemente, na caridade, acima de tudo, encontramos uma ordem referente ao Primeiro Princípio. Resposta à objeção 2: A fé pertence à potência cognitiva, cuja operação depende de a coisa conhecida estar no conhecedor. A caridade, ao contrário, está numa potência apetitiva, cuja operação consiste na alma tender para as próprias coisas. Ora, a ordem encontra-se nas próprias coisas e delas flui para o nosso conhecimento. Por isso, a ordem é mais apropriada à caridade do que à fé. E, no entanto, há certa ordem também na fé, enquanto ela diz respeito principalmente a Deus e secundariamente às coisas referidas a Deus. Resposta à objeção 3: A ordem pertence à razão como à faculdade que ordena, e à potência apetitiva como à faculdade que é ordenada. É dessa maneira que se diz que a ordem está na caridade.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether there is order in charity? · séc. XIII
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