Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a caridade pode diminuir. Pois os contrários, por sua natureza, afetam o mesmo sujeito. Ora, aumento e diminuição são contrários. Logo, se a caridade aumenta, como foi dito acima (A[4]), parece que também pode diminuir. Objeção 2: Além disso, Agostinho, falando a Deus, diz (Confissões X): "Ama-Te menos quem ama algo além de Ti"; e (Quest. LXXXIII, q. 36) diz que "o que acende a caridade, apaga a cupidez". Disto parece seguir-se que, ao contrário, o que desperta a cupidez apaga a caridade. Mas a cupidez, pela qual o homem ama algo além de Deus, pode aumentar no homem. Logo, a caridade pode diminuir. Objeção 3: Além disso, como diz Agostinho (Gen. ad lit. VIII, 12): "Deus faz o homem justo, justificando-o, mas de tal modo que, se o homem se aparta de Deus, já não conserva o efeito da operação divina." Disto podemos coligir que, quando Deus conserva a caridade no homem, opera do mesmo modo que quando primeiro a infunde nele. Ora, na primeira infusão da caridade, Deus infunde menos caridade naquele que se prepara menos. Logo, também conservando a caridade, Ele conserva menos caridade naquele que se prepara menos. Portanto, a caridade pode diminuir. Ao contrário, na Escritura, a caridade é comparada ao fogo, segundo Cant 8,6: "As suas lâmpadas", isto é, da caridade, "são fogo e chamas". Ora, o fogo sempre se eleva enquanto dura. Logo, enquanto a caridade perdura, pode ascender, mas não pode descer, isto é, diminuir. Respondo que a quantidade que a caridade tem em comparação com o seu objeto próprio não pode diminuir, como também não pode aumentar, conforme foi dito acima (A[4], ad 2). Contudo, como ela aumenta na quantidade que tem em comparação com o sujeito, cabe aqui considerar se pode diminuir deste modo. Ora, se diminui, isso deve necessariamente ser ou por um ato, ou pela mera cessação do ato. É verdade que as virtudes adquiridas por atos diminuem e às vezes cessam totalmente pela cessação dos atos, como foi dito acima (FS, Q[53], A[3]). Por isso o Filósofo diz, a respeito da amizade (Ética VIII, 5), que "a falta de convívio", isto é, o descuido em visitar ou falar com os amigos, "destruiu muitas amizades". Ora, isso se dá porque a conservação de uma coisa depende de sua causa, e a causa da virtude humana é um ato humano, de modo que, cessando os atos humanos, a virtude adquirida por eles diminui e por fim cessa totalmente. Mas isso não ocorre com a caridade, porque ela não é resultado de atos humanos, mas é causada somente por Deus, como foi dito acima (A[2]). Donde se segue que, mesmo quando cessa o seu ato, por isso não diminui ou cessa totalmente, a menos que a cessação envolva pecado. Por conseguinte, a diminuição da caridade não pode ser causada senão por Deus ou por algum ato pecaminoso. Ora, nenhum defeito é causado em nós por Deus senão a modo de castigo, na medida em que Ele retira a sua graça em punição do pecado. Logo, Ele não diminui a caridade senão a modo de castigo; e este castigo é devido por causa do pecado. Segue-se, portanto, que, se a caridade diminui, a causa dessa diminuição deve ser o pecado, ou efetivamente ou a modo de mérito. Mas o pecado mortal não diminui a caridade de nenhum desses modos, mas a destrói inteiramente, tanto efetivamente, porque todo pecado mortal é contrário à caridade, como adiante diremos (A[12]), quanto a modo de mérito, pois, quando alguém, pecando mortalmente, age contra a caridade, merece que Deus lhe retire a caridade. Do mesmo modo, nem o pecado venial pode diminuir a caridade efetivamente ou a modo de mérito. Não efetivamente, porque não atinge a caridade, já que a caridade diz respeito ao fim último, enquanto o pecado venial é uma desordem acerca das coisas ordenadas ao fim; e o amor do homem pelo fim não diminui por ele praticar um ato desordenado quanto às coisas ordenadas ao fim. Assim, às vezes, os doentes, embora amem muito a saúde, são irregulares na observância da dieta; e assim também, nas ciências especulativas, as opiniões falsas que derivam dos princípios não diminuem a certeza dos princípios. Do mesmo modo, o pecado venial não merece a diminuição da caridade; pois quando alguém ofende em matéria pequena, não merece ser punido em matéria grande. Porque Deus não se afasta do homem mais do que o homem se afasta d'Ele; por isso, aquele que está desordenado em relação às coisas ordenadas ao fim não merece ser punido na caridade pela qual está ordenado ao fim último. Consequentemente, a caridade de modo algum pode diminuir, se falamos de causalidade direta; contudo, o que dispõe para a sua corrupção pode dizer-se que conduz indiretamente à sua diminuição, e tais são os pecados veniais, ou mesmo a cessação das obras de caridade. Resposta à primeira objeção: Os contrários afetam o mesmo sujeito quando este sujeito está igualmente relacionado a ambos. Mas a caridade não está igualmente relacionada ao aumento e à diminuição. Pois ela pode ter causa de aumento, mas não de diminuição, como foi dito acima. Logo, o argumento não prova. Resposta à segunda objeção: A cupidez é dupla: uma, pela qual o homem coloca o seu fim nas criaturas, e esta mata totalmente a caridade, pois é o seu veneno, como diz Agostinho (Confissões X). Esta faz-nos amar menos a Deus (isto é, menos do que devemos amá-Lo pela caridade), não diminuindo a caridade, mas destruindo-a totalmente. É assim que se deve entender a afirmação: "Ama-Te menos quem ama algo além de Ti", pois ele acrescenta estas palavras: "que não ama por Ti". Isso não se aplica ao pecado venial, mas somente ao pecado mortal; pois aquilo que amamos no pecado venial é amado por Deus habitualmente, embora não atualmente. Há outra cupidez, a do pecado venial, que é sempre diminuída pela caridade; e, contudo, esta cupidez não pode diminuir a caridade, pela razão já dada. Resposta à terceira objeção: Requer-se um movimento do livre-arbítrio na infusão da caridade, como foi dito acima (FS, Q[113], A[3]). Por isso, aquilo que diminui a intensidade do livre-arbítrio conduz dispositivamente a uma diminuição na caridade a ser infundida. Por outro lado, nenhum movimento do livre-arbítrio é requerido para a conservação da caridade; do contrário, ela não permaneceria em nós enquanto dormimos. Logo, a caridade não diminui por causa de um obstáculo da parte da intensidade do movimento do livre-arbítrio.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 10 - Whether charity can decrease? · séc. XIII
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