Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que Deus não pode ser temido. Porque o objeto do temor é um mal futuro, como foi dito acima (I-II, Q. 41, A. 2 e 3). Ora, Deus é isento de todo mal, pois é a própria bondade. Logo, Deus não pode ser temido. Objeção 2: Ademais, o temor se opõe à esperança. Ora, esperamos em Deus. Logo, não podemos temê-Lo ao mesmo tempo. Objeção 3: Ademais, como afirma o Filósofo (Retórica, II, 5), "tememos aquelas coisas de onde nos vem o mal". Ora, o mal nos vem, não de Deus, mas de nós mesmos, segundo Oseias 13,9: "A tua perdição é de ti, ó Israel; o teu auxílio está em mim." Logo, Deus não deve ser temido. Ao contrário, está escrito (Jr 10,7): "Quem não te temerá, ó Rei das nações?" e (Ml 1,6): "Se eu sou senhor, onde está o meu temor?" Respondo que: Assim como a esperança tem dois objetos – um dos quais é o próprio bem futuro que se espera alcançar, e o outro é o auxílio de alguém por meio de quem se espera alcançar o que se espera –, assim também o temor pode ter dois objetos: um dos quais é o próprio mal que o homem evita, e o outro é aquilo de onde o mal pode provir. Portanto, do primeiro modo, Deus, que é a própria bondade, não pode ser objeto de temor; mas pode sê-lo do segundo modo, na medida em que de Deus ou em relação a Ele pode provir para nós algum mal. De Deus provém o mal da pena, mas este não é mal absoluto, e sim relativo; e, falando absolutamente, é um bem. Pois, sendo uma coisa dita boa por estar ordenada a um fim, e o mal importando falta dessa ordem, aquilo que exclui a ordem para o fim último é absolutamente mal, e tal é o mal da culpa. Por outro lado, o mal da pena é realmente um mal, enquanto privação de algum bem particular; contudo, absolutamente falando, é um bem, enquanto ordenado para o fim último. Em relação a Deus, o mal da culpa pode vir a nós, se nos separarmos d'Ele; e desse modo Deus pode e deve ser temido. Resposta à objeção 1: Esta objeção considera o objeto do temor como sendo o mal que o homem evita. Resposta à objeção 2: Em Deus podemos considerar tanto a sua justiça, pela qual pune os que pecam, quanto a sua misericórdia, pela qual nos liberta; em nós, a consideração da sua justiça gera o temor, mas a consideração da sua misericórdia gera a esperança. Por conseguinte, Deus é objeto tanto da esperança quanto do temor, mas sob aspectos diversos. Resposta à objeção 3: O mal da culpa não vem de Deus como seu autor, mas de nós, na medida em que abandonamos a Deus; enquanto o mal da pena vem de Deus como seu autor, na medida em que tem caráter de bem, por ser algo justo, enquanto nos é infligido justamente; embora, originalmente, isso se deva ao demérito do pecado. Assim está escrito (Sb 1,13.16): "Deus não fez a morte... mas os ímpios, com obras e palavras, a chamaram."
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether God can be feared? · séc. XIII
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