Santo Thomas Aquinas
Objecção 1: Parece que a vontade de Deus não é a causa das coisas. Porque Dionísio diz (Div. Nom. iv, 1): "Assim como o nosso sol, não por razão nem por pre-eleição, mas pelo seu próprio ser, ilumina todas as coisas que podem participar da sua luz, assim o bem divino pela sua própria essência derrama os raios da bondade sobre tudo o que existe." Ora, todo agente voluntário age por razão e por pre-eleição. Logo, Deus não age por vontade; e portanto a sua vontade não é a causa das coisas. Objecção 2: Além disso, o primeiro em qualquer ordem é aquilo que o é essencialmente; assim, na ordem das coisas que queimam, o primeiro é o fogo pela sua essência. Ora, Deus é o primeiro agente. Logo, Ele age pela sua essência; e esta é a sua natureza. Age, portanto, por natureza, e não por vontade. Logo, a vontade divina não é a causa das coisas. Objecção 3: Além disso, tudo o que é causa de alguma coisa por ser "tal" coisa, é causa por natureza, e não por vontade. Porque o fogo é causa do calor, por ser ele mesmo quente; ao passo que um arquiteto é causa de uma casa, porque quer construí-la. Ora, Agostinho diz (De Doctr. Christ. i, 32): "Porque Deus é bom, existimos." Logo, Deus é causa das coisas pela sua natureza, e não pela sua vontade. Objecção 4: Além disso, de uma só coisa há uma só causa. Ora, as coisas criadas são o conhecimento de Deus, como se disse antes (Q[14], A[8]). Logo, a vontade de Deus não pode ser considerada a causa das coisas. Em contrário, diz-se (Sab. 11, 26): "Como poderia alguma coisa durar, se Tu não quisesses?" Respondo que é necessário sustentar que a vontade de Deus é a causa das coisas; e que Ele age pela vontade, e não, como alguns supuseram, por uma necessidade da sua natureza. Isto pode ser mostrado de três modos: Primeiro, pela própria ordem das causas agentes. Pois tanto o intelecto como a natureza agem por um fim, como se prova na Física ii, 49; o agente natural deve ter o fim e os meios necessários predeterminados para ele por algum intelecto superior; assim como o fim e o movimento determinado são predeterminados para a flecha pelo arqueiro. Logo, o agente intelectual e voluntário deve preceder o agente que age por natureza. Portanto, como Deus é o primeiro na ordem dos agentes, Ele deve agir por intelecto e vontade. Isto mostra-se, segundo, pelo caráter de um agente natural, cuja propriedade é produzir um mesmo efeito; porque a natureza opera sempre do mesmo modo, a menos que seja impedida. Isto porque a natureza do ato está de acordo com a natureza do agente; e portanto, enquanto este tiver essa natureza, os seus atos estarão de acordo com ela; pois todo agente natural tem um ser determinado. Ora, como o Ser Divino é indeterminado e contém em Si mesmo a plenitude total do ser, não pode ser que Ele aja por uma necessidade da sua natureza, a menos que viesse a causar algo indeterminado e indefinido no ser; e que isto é impossível já se mostrou antes (Q[7], A[2]). Não age, portanto, por uma necessidade da sua natureza, mas os efeitos determinados procedem da sua própria perfeição infinita segundo a determinação da sua vontade e do seu intelecto. Terceiro, mostra-se pela relação dos efeitos com a sua causa. Pois os efeitos procedem do agente que os causa, enquanto preexistem no agente; visto que todo agente produz o seu semelhante. Ora, os efeitos preexistem na sua causa segundo o modo da causa. Portanto, como o Ser Divino é o seu próprio intelecto, os efeitos preexistem n'Ele segundo o modo do intelecto, e por isso procedem d'Ele segundo o mesmo modo. Consequentemente, procedem d'Ele segundo o modo da vontade, pois a sua inclinação a pôr em ato o que o seu intelecto concebeu pertence à vontade. Logo, a vontade de Deus é a causa das coisas. Resposta à Objecção 1: Dionísio, nestas palavras, não tenciona excluir totalmente a eleição de Deus; mas apenas em certo sentido, enquanto Ele comunica a sua bondade não apenas a certas coisas, mas a todas; e porque a eleição implica uma certa distinção. Resposta à Objecção 2: Porque a essência de Deus é o seu intelecto e a sua vontade; do facto de Ele agir pela sua essência, segue-se que age segundo o modo do intelecto e da vontade. Resposta à Objecção 3: O bem é o objeto da vontade. As palavras, portanto, "Porque Deus é bom, existimos", são verdadeiras na medida em que a sua bondade é a razão de Ele querer todas as outras coisas, como se disse antes (A[2], ad 2). Resposta à Objecção 4: Mesmo em nós, a causa de um mesmo efeito é o conhecimento como dirigindo-o, pelo qual a forma da obra é concebida, e a vontade como mandando-o, pois a forma como está apenas no intelecto não é determinada a existir ou não existir no efeito, senão pela vontade. Por isso, o intelecto especulativo nada tem a ver com a operação. Mas a potência é causa como executando o efeito, pois designa o princípio imediato da operação. Ora, em Deus, todas estas coisas são uma só.
Summa Theologiae — First Part · Article. 4 - Whether the will of God is the cause of things? · séc. XIII
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