Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a essência e a existência não são o mesmo em Deus. Pois, se assim fosse, então o ser divino nada teria de acrescentado. Ora, o ser ao qual nenhum acréscimo se faz é o ser universal, que se predica de todas as coisas. Logo, segue-se que Deus é o ser em geral, que pode ser predicado de tudo. Mas isto é falso: “Porque os homens deram o nome incomunicável às pedras e à madeira” (Sab. 14,21). Portanto, a existência de Deus não é a sua essência. Objeção 2: Ademais, podemos conhecer “se” Deus existe, como se disse acima (Q. 2, A. 2); mas não podemos conhecer “o que” Ele é. Logo, a existência de Deus não é o mesmo que a sua essência — isto é, que a sua quididade ou natureza. Em contrário, diz Hilário (Trin. VII): “Em Deus, a existência não é uma qualidade acidental, mas a verdade subsistente.” Portanto, o que subsiste em Deus é a sua existência. Respondo que Deus não é apenas a sua própria essência, como se mostrou no artigo precedente, mas também a sua própria existência. Isto pode ser demonstrado de várias maneiras. Primeiro, tudo o que uma coisa possui além da sua essência deve ser causado ou pelos princípios constitutivos dessa essência (como uma propriedade que acompanha necessariamente a espécie — assim a faculdade de rir é própria do homem — e é causada pelos princípios constitutivos da espécie), ou por algum agente exterior — como o calor é causado na água pelo fogo. Portanto, se a existência de uma coisa difere da sua essência, essa existência deve ser causada ou por algum agente exterior ou pelos seus princípios essenciais. Ora, é impossível que a existência de uma coisa seja causada pelos seus princípios constitutivos essenciais, pois nada pode ser a causa suficiente da sua própria existência, se a sua existência é causada. Logo, aquela coisa cuja existência difere da sua essência deve ter a sua existência causada por outro. Mas isto não pode ser verdadeiro de Deus; porque chamamos a Deus a primeira causa eficiente. Portanto, é impossível que em Deus a sua existência difira da sua essência. Segundo, a existência é aquilo que torna atual toda forma ou natureza; pois a bondade e a humanidade só são ditas atuais porque são ditas existentes. Portanto, a existência deve ser comparada à essência, se esta é uma realidade distinta, como a atualidade à potencialidade. Logo, como em Deus não há potencialidade, conforme se mostrou acima (A. 1), segue-se que nele a essência não difere da existência. Por conseguinte, a sua essência é a sua existência. Terceiro, porque, assim como o que tem fogo, mas não é fogo, está em fogo por participação; assim também o que tem existência, mas não é existência, é um ente por participação. Ora, Deus é a sua própria essência, como se mostrou acima (A. 3); se, portanto, Ele não é a sua própria existência, será não um ser essencial, mas um ser participado. Não será, portanto, o primeiro ser — o que é absurdo. Logo, Deus é a sua própria existência, e não apenas a sua própria essência. Resposta à objeção 1: Uma coisa à qual nada é acrescentado pode ser de dois modos. Ou a sua essência impede qualquer acréscimo; assim, por exemplo, é da essência de um animal irracional ser sem razão. Ou podemos entender que uma coisa nada tem de acrescentado, enquanto a sua essência não exige que nada lhe seja acrescentado; assim, o gênero animal é sem razão, porque não é da essência do animal em geral ter razão; mas também não é da sua essência carecer de razão. E assim o ser divino nada tem de acrescentado no primeiro sentido; ao passo que o ser universal nada tem de acrescentado no segundo sentido. Resposta à objeção 2: “Ser” pode significar duas coisas. Pode significar o ato da essência, ou pode significar a composição do enunciado efetuada pela mente ao juntar o predicado ao sujeito. Tomando “ser” no primeiro sentido, não podemos entender a existência de Deus nem a sua essência; mas apenas no segundo sentido. Sabemos que é verdadeira esta proposição que formamos acerca de Deus quando dizemos “Deus é”; e isto sabemos pelos seus efeitos (Q. 2, A. 2).
Summa Theologiae — First Part · Article. 4 - Whether essence and existence are the same in God? · séc. XIII
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