Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que o diabo não é a cabeça dos ímpios. Pois pertence à cabeça difundir o sentido e o movimento nos membros, como diz uma glosa sobre Efés. 1,22: «E o constituiu cabeça», etc. Mas o diabo não tem poder de espalhar o mal do pecado, que procede da vontade do pecador. Logo, o diabo não pode ser chamado cabeça dos ímpios. Objeção 2: Além disso, por todo pecado o homem se torna mau. Mas nem todo pecado vem do diabo; e isto é claro quanto aos demônios, que não pecaram por persuasão de outrem; assim também nem todo pecado do homem procede do diabo, pois se diz (De Eccles. Dogm. lxxxii): «Nem todos os nossos maus pensamentos são sempre suscitados pela sugestão do diabo; mas às vezes brotam do movimento de nossa vontade.» Portanto, o diabo não é cabeça de todos os ímpios. Objeção 3: Além disso, uma cabeça é colocada sobre um corpo. Mas toda a multidão dos ímpios não parece ter nada em que esteja unida, pois o mal é contrário ao mal e provém de diversos defeitos, como diz Dionísio (Div. Nom. iv). Logo, o diabo não pode ser chamado cabeça de todos os ímpios. Pelo contrário, uma glosa [*S. Gregório, Moral. xiv] sobre Jó 18,17: «Pereça a sua memória da terra», diz: «Isto se diz de todo ímpio, mas de modo a ser referido à cabeça», isto é, o diabo. Respondo que, como se disse acima (A[6]), a cabeça não só influi interiormente nos membros, mas também os governa exteriormente, dirigindo suas ações a um fim. Por isso pode-se dizer que alguém é cabeça de uma multidão, ou quanto a ambos, isto é, pela influência interior e pelo governo exterior, e assim Cristo é a Cabeça da Igreja, como foi dito (A[6]); ou quanto ao governo exterior, e assim todo príncipe ou prelado é cabeça da multidão a ele sujeita. E desta maneira o diabo é cabeça de todos os ímpios. Pois, como está escrito (Jó 41,25): «Ele é rei sobre todos os filhos da soberba.» Ora, pertence ao governante conduzir aqueles que governa ao seu fim. Mas o fim do diabo é a aversão da criatura racional de Deus; desde o princípio ele se esforçou por levar o homem a desobedecer ao preceito divino. Mas a aversão de Deus tem natureza de fim, na medida em que é buscada sob a aparência de liberdade, segundo Jer. 2,20: «Desde outrora quebraste o meu jugo, rompeste as minhas cadeias e disseste: Não servirei.» Portanto, na medida em que alguns são levados a este fim pelo pecado, caem sob o domínio e governo do diabo, e por isso ele é chamado sua cabeça. Resposta à Objeção 1: Embora o diabo não influa interiormente na mente racional, contudo a engana para o mal pela persuasão. Resposta à Objeção 2: Um governante nem sempre sugere aos seus súditos que obedeçam à sua vontade; mas propõe a todos o sinal da sua vontade, em consequência do qual uns são incitados por induzimento, e outros por seu próprio livre-arbítrio, como é claro no chefe de um exército, cujo estandarte todos os soldados seguem, embora ninguém os persuada. Portanto, do mesmo modo, o primeiro pecado do diabo, que «peca desde o princípio» (1 João 3,8), é proposto a todos para ser seguido, e uns o imitam por sugestão dele, e outros por vontade própria, sem sugestão alguma. E assim o diabo é cabeça de todos os ímpios, na medida em que o imitam, segundo Sab. 2,24-25: «Pela inveja do diabo entrou a morte no mundo. E os que são da sua parte o seguem.» Resposta à Objeção 3: Todos os pecados concordam na aversão de Deus, embora difiram pela conversão a diferentes bens mutáveis.
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 7 - Whether the devil is the head of all the wicked? · séc. XIII
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