Santo Thomas Aquinas
**Objecção 1:** Parece que a concupiscência não está só no apetite sensitivo. Pois há uma concupiscência da sabedoria, segundo Sab. 6,21: «A concupiscência da sabedoria conduz ao reino eterno.» Ora, o apetite sensitivo não pode ter tendência para a sabedoria. Logo, a concupiscência não está só no apetite sensitivo. **Objecção 2:** Além disso, o desejo dos mandamentos de Deus não está no apetite sensitivo; com efeito, o Apóstolo diz (Rom. 7,18): «Não habita em mim, isto é, na minha carne, o bem.» Ora, o desejo dos mandamentos de Deus é um acto de concupiscência, segundo o Sl. 118,20: «A minha alma cobiçou desejar as tuas justificações.» Logo, a concupiscência não está só no apetite sensitivo. **Objecção 3:** Além disso, a cada potência é objecto de concupiscência o seu bem próprio. Logo, a concupiscência está em cada potência da alma, e não só no apetite sensitivo. **Em contrário,** diz Damasceno (De Fide Orth. II,12) que «a parte irracional, que está sujeita e é dócil à razão, divide-se nas faculdades da concupiscência e da ira. Esta é a parte irracional da alma, passiva e apetitiva.» Portanto, a concupiscência está no apetite sensitivo. **Respondo que,** como diz o Filósofo (Rhet. I,11), «a concupiscência é um anelo pelo que é prazeroso.» Ora, o prazer é duplo, como adiante se dirá (Q.31, AA.3 e 4): um, no bem inteligível, que é o bem da razão; outro, no bem perceptível pelos sentidos. O primeiro prazer parece pertencer só à alma; o segundo, porém, pertence à alma e ao corpo, porque o sentido é uma potência radicada num órgão corporal; por onde, o bem sensível é o bem do composto todo. Ora, a concupiscência parece ser o anelo por este último prazer, pois pertence à alma e ao corpo unidos, como o implica a palavra latina «concupiscentia». Portanto, propriamente falando, a concupiscência está no apetite sensitivo, e na faculdade concupiscível, que dela toma o nome. **Resposta à objecção 1:** O anelo pela sabedoria, ou por outros bens espirituais, chama-se algumas vezes concupiscência; ou por certa semelhança; ou por causa do anelo na parte superior da alma ser tão veemente que transborda para o apetite inferior, de modo que também este, a seu modo, tende ao bem espiritual, seguindo o impulso do apetite superior, resultando daí que o próprio corpo presta serviço nas coisas espirituais, segundo o Sl. 83,3: «O meu coração e a minha carne exultaram no Deus vivo.» **Resposta à objecção 2:** Propriamente falando, o desejo pode estar não só no apetite inferior, mas também no superior. Pois ele não implica comunhão no anelo, como a concupiscência; mas simplesmente movimento para a coisa desejada. **Resposta à objecção 3:** Pertence a cada potência da alma buscar o seu bem próprio pelo apetite natural, que não nasce da apreensão. Mas o anelo pelo bem, pelo apetite animal, que nasce da apreensão, pertence só à potência apetitiva. E anelar uma coisa sob a razão de algo deleitável aos sentidos, no que consiste propriamente a concupiscência, pertence à potência concupiscível.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 1 - Whether concupiscence is in the sensitive appetite only? · séc. XIII
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