Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que os amigos são necessários para a Felicidade. Porque a Felicidade futura é frequentemente designada nas Escrituras sob o nome de "glória". Ora, a glória consiste em que o bem do homem seja levado ao conhecimento de muitos. Logo, a comunhão de amigos é necessária para a Felicidade. Objeção 2: Além disso, Boécio [*Sêneca, Ep. 6] diz que "não há deleite em possuir qualquer bem, sem alguém que o compartilhe conosco". Ora, o deleite é necessário para a Felicidade. Logo, a comunhão de amigos também é necessária. Objeção 3: Além disso, a caridade é aperfeiçoada na Felicidade. Mas a caridade inclui o amor de Deus e do próximo. Logo, parece que a comunhão de amigos é necessária para a Felicidade. Em contrário, está escrito (Sab. 7,11): "Todos os bens me vieram juntamente com ela", isto é, com a sabedoria divina, que consiste em contemplar a Deus. Logo, nenhuma outra coisa é necessária para a Felicidade. Respondo que, se falamos da felicidade desta vida, o homem feliz necessita de amigos, como diz o Filósofo (Ética, IX, 9), não, na verdade, para usá-los, pois ele basta a si mesmo; nem para neles deleitar-se, porque possui perfeito deleite na operação da virtude; mas para o fim de uma boa operação, a saber, que lhes faça o bem; que se deleite em vê-los fazer o bem; e também que seja ajudado por eles em sua boa obra. Pois para que o homem aja bem, quer nas obras da vida ativa, quer nas da vida contemplativa, necessita da comunhão de amigos. Mas se falamos da Felicidade perfeita que será na nossa Pátria celestial, a comunhão de amigos não é essencial à Felicidade; porque o homem tem toda a plenitude de sua perfeição em Deus. Mas a comunhão de amigos conduz ao bem-estar da Felicidade. Donde Agostinho diz (Gên. ad lit., VIII, 25) que "as criaturas espirituais não recebem outro auxílio interior para a felicidade senão a eternidade, a verdade e a caridade do Criador. Mas se podem ser ditas ajudadas exteriormente, talvez seja apenas por isto: que se veem umas às outras e se alegram em Deus pela sua comunhão." Resposta à objeção 1: Essa glória que é essencial à Felicidade é aquela que o homem tem, não com o homem, mas com Deus. Resposta à objeção 2: Essa afirmação deve ser entendida a respeito da posse de um bem que não satisfaz plenamente. Isso não se aplica à questão em consideração; porque o homem possui em Deus uma suficiência de todo bem. Resposta à objeção 3: A perfeição da caridade é essencial à Felicidade quanto ao amor de Deus, mas não quanto ao amor do próximo. Por isso, se houvesse uma só alma gozando de Deus, seria feliz, embora não tivesse nenhum próximo para amar. Mas supondo que haja um próximo, o amor dele resulta do perfeito amor de Deus. Consequentemente, a amizade é, por assim dizer, concomitante com a Felicidade perfeita.
Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 8 - Whether the fellowship of friend is necessary for happiness? · séc. XIII
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