Santo Thomas Aquinas
**Artigo 6 — Se a sétima bem-aventurança corresponde ao dom da sabedoria?** **Objeção 1:** Parece que a sétima bem-aventurança não corresponde ao dom da sabedoria. Pois a sétima bem-aventurança é: "Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus". Ora, ambas estas coisas pertencem à caridade; visto que da paz está escrito (Sl 118,165): "Muita paz têm os que amam a Tua lei", e, como diz o Apóstolo (Rm 5,5), "a caridade de Deus é derramada em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado", o qual é "o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Abba, Pai" (Rm 8,15). Logo, a sétima bem-aventurança deve ser atribuída antes à caridade do que à sabedoria. **Objeção 2:** Ademais, uma coisa é declarada pelo seu efeito próximo antes que pelo efeito remoto. Ora, o efeito próximo da sabedoria parece ser a caridade, conforme Sb 7,27: "Por meio das nações ela se transfere para as almas santas; torna os amigos de Deus e profetas"; ao passo que a paz e a adoção de filhos parecem ser efeitos remotos, já que resultam da caridade, como foi dito acima (Q. 29, a. 3). Logo, a bem-aventurança correspondente à sabedoria deveria ser determinada quanto ao amor da caridade antes do que quanto à paz. **Objeção 3:** Ademais, está escrito (Tg 3,17): "A sabedoria que é do alto, primeiro é casta, depois pacífica, modesta, fácil de ser persuadida, consentânea ao bem, cheia de misericórdia e de bons frutos, que julga sem dissimulação [*Vulg.: 'sem julgar, sem dissimulação']". Logo, a bem-aventurança correspondente à sabedoria não deveria referir-se à paz antes que aos outros efeitos da sabedoria celeste. **Ao contrário,** Agostinho diz (De Serm. Dom. in Monte i, 4) que "a sabedoria é própria dos pacificadores, nos quais não há movimento de rebelião, mas somente obediência à razão". **Respondo:** A sétima bem-aventurança é convenientemente atribuída ao dom da sabedoria, tanto quanto ao mérito quanto ao prêmio. O mérito é indicado nas palavras: "Bem-aventurados os pacificadores". Ora, pacificador é aquele que faz a paz, seja em si mesmo, seja nos outros; e em ambos os casos isso resulta de ordenar devidamente aquelas coisas em que a paz se estabelece, pois "a paz é a tranquilidade da ordem", segundo Agostinho (De Civ. Dei xix, 13). Ora, pertence à sabedoria ordenar as coisas, como declara o Filósofo (Metaph. i, 2), donde a pacificabilidade é convenientemente atribuída à sabedoria. O prêmio é expresso nas palavras: "serão chamados filhos de Deus". Ora, os homens são chamados filhos de Deus na medida em que participam da semelhança do Filho unigênito e natural de Deus, segundo Rm 8,29: "Aos que de antemão conheceu... para serem conformes à imagem de Seu Filho", que é a Sabedoria Gerada. Portanto, participando do dom da sabedoria, o homem atinge a filiação divina. **Resposta à Objeção 1:** Pertence à caridade estar em paz, mas pertence à sabedoria fazer a paz ordenando as coisas. Da mesma forma, o Espírito Santo é chamado "Espírito de adoção" na medida em que recebemos d'Ele a semelhança do Filho natural, que é a Sabedoria Gerada. **Resposta à Objeção 2:** Estas palavras referem-se à Sabedoria Incriada, a qual em primeiro lugar se une a nós pelo dom da caridade, e consequentemente nos revela os mistérios cujo conhecimento é a sabedoria infusa. Portanto, a sabedoria infusa, que é um dom, não é a causa, mas o efeito da caridade. **Resposta à Objeção 3:** Como foi dito acima (A[3]), pertence à sabedoria, como dom, não só contemplar as coisas divinas, mas também regular os atos humanos. Ora, a primeira coisa a ser efetuada nesta direção dos atos humanos é a remoção dos males opostos à sabedoria: por isso se diz que o temor é "o princípio da sabedoria", porque nos faz evitar o mal, enquanto a última coisa é como um fim, pelo qual todas as coisas são reduzidas à sua devida ordem; e é isto que constitui a paz. Por isso, Tiago disse com razão que "a sabedoria que é do alto" (e esta é o dom do Espírito Santo) "primeiro é casta", porque evita a corrupção do pecado, e "depois pacífica", onde reside o efeito último da sabedoria, razão pela qual a paz é enumerada entre as bem-aventuranças. Quanto às coisas que se seguem, elas declaram em ordem conveniente os meios pelos quais a sabedoria conduz à paz. Pois quando um homem, pela castidade, evita a corrupção do pecado, a primeira coisa que tem a fazer é, tanto quanto pode, ser moderado em todas as coisas, e a este respeito a sabedoria é dita modesta. Em segundo lugar, naquelas matérias em que não é suficiente por si mesmo, deve ser guiado pelo conselho de outros, e quanto a isto nos é dito ainda que a sabedoria é "fácil de ser persuadida". Estas duas são condições requeridas para que o homem esteja em paz consigo mesmo. Mas para que o homem esteja em paz com os outros, requer-se além disso, primeiro, que não se oponha ao bem deles; isto é o que significa "consentânea ao bem". Segundo, que ele traga às deficiências do próximo, compaixão no coração e socorro nas ações, e isto é denotado pelas palavras "cheia de misericórdia e de bons frutos". Terceiro, que ele se esforce em toda caridade por corrigir os pecados dos outros, e isto é indicado pelas palavras "que julga sem dissimulação [*Vulg.: 'A sabedoria que é do alto... é... sem julgar, sem dissimulação']", para que não pretenda saciar o seu ódio sob o pretexto da correção.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 6 - Whether the seventh beatitude corresponds to the gift of wisdom? · séc. XIII
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