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Sb 7, 28

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Matos Soares

28Com efeito. Deus sòmente ama aquele que habita com a sabedoria.

Matos Soares · domínio público

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que a sabedoria não está em todos os que têm graça. Pois é mais possuir sabedoria do que ouvir a sabedoria. Ora, ouvir a sabedoria é próprio dos perfeitos, segundo 1 Cor. 2,6: “Falamos sabedoria entre os perfeitos”. Logo, nem todos os que têm graça são perfeitos; por conseguinte, muito menos todos os que têm graça possuem sabedoria. Objeção 2: Ademais, “O sábio ordena as coisas”, como diz o Filósofo (Metaf. I, 2), e está escrito (Tiago 3,17) que o sábio “julga sem dissimulação” [Vulg.: “A sabedoria que vem do alto… é… sem julgar, sem dissimulação”]. Ora, não é próprio de todos os que têm graça julgar ou ordenar os outros, mas somente daqueles que estão em autoridade. Portanto, a sabedoria não está em todos os que têm graça. Objeção 3: Ademais, “A sabedoria é um remédio contra a loucura”, como diz Gregório (Moral. II, 49). Ora, muitos que têm graça são naturalmente loucos, por exemplo, os loucos que são batizados ou aqueles que, sem culpa de pecado mortal, enlouqueceram. Logo, a sabedoria não está em todos os que têm graça. Ao contrário, Todo aquele que está sem pecado mortal é amado de Deus, porque tem caridade, pela qual ama a Deus, e Deus ama os que O amam (Prov. 8,17). Ora, está escrito (Sab. 7,28) que “Deus não ama senão aquele que habita com a sabedoria”. Portanto, a sabedoria está em todos os que têm caridade e estão sem pecado mortal. Respondo que a sabedoria de que falamos, como se disse acima (A[4]), denota uma certa retidão de juízo na contemplação e consulta das coisas divinas; e, quanto a ambas, os homens obtêm diversos graus de sabedoria pela união com as coisas divinas. Com efeito, a medida de juízo reto que alguns alcançam, seja na contemplação das coisas divinas seja na direção dos assuntos humanos segundo as regras divinas, não ultrapassa o que basta para a sua salvação. Esta medida não falta a nenhum daqueles que, por terem a graça santificante, estão sem pecado mortal, pois, se a natureza não falha no necessário, muito menos falha a graça; por isso está escrito (1 Jo. 2,27): “A unção dEle vos ensina todas as coisas”. Alguns, porém, recebem um grau mais elevado do dom da sabedoria, tanto quanto à contemplação das coisas divinas (conhecendo mistérios mais sublimes e podendo comunicar esse conhecimento a outros) como quanto à direção dos assuntos humanos segundo as regras divinas (podendo dirigir não só a si mesmos, mas também os outros segundo essas regras). Este grau de sabedoria não é comum a todos os que têm a graça santificante, mas pertence antes às graças gratuitas, que o Espírito Santo distribui como quer, segundo 1 Cor. 12,8: “A um, com efeito, pelo Espírito é dada a palavra de sabedoria”, etc. Resposta à objeção 1: O Apóstolo fala ali da sabedoria enquanto se estende aos mistérios ocultos das coisas divinas, como ele mesmo diz (2 Cor. 1,7): “Falamos a sabedoria de Deus em mistério, uma sabedoria oculta”. Resposta à objeção 2: Embora dirigir e julgar outros homens pertença àqueles que estão em autoridade, todo homem é capaz de dirigir e julgar as suas próprias ações, como declara Dionísio (Ep. a Demófilo). Resposta à objeção 3: Os idiotas batizados, como as criancinhas, têm o hábito da sabedoria, que é um dom do Espírito Santo, mas não têm o ato, por causa do impedimento corporal que neles obsta ao uso da razão.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 5 - Whether wisdom is in all who have grace? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que os dons não são necessários ao homem para a salvação. Porque os dons são ordenados a uma perfeição que excede a perfeição ordinária da virtude. Ora, não é necessário para a salvação do homem que ele atinja uma perfeição que exceda o padrão ordinário da virtude; porque tal perfeição não cai sob o preceito, mas sob um conselho. Logo, os dons não são necessários ao homem para a salvação. **Objeção 2:** Demais. Basta, para a salvação do homem, que ele se porte bem nas coisas que dizem respeito a Deus e nas coisas que dizem respeito ao homem. Ora, o comportamento do homem para com Deus é suficientemente dirigido pelas virtudes teologais; e o seu comportamento para com os homens, pelas virtudes morais. Logo, os dons não são necessários ao homem para a salvação. **Objeção 3:** Demais. Gregório diz (Moral. ii, 26) que «o Espírito Santo dá a sabedoria contra a estultícia, o entendimento contra a obtusidade, o conselho contra a temeridade, a fortaleza contra os temores, a ciência contra a ignorância, a piedade contra a dureza do nosso coração, e o temor contra a soberba». Ora, um remédio suficiente para todas estas coisas se encontra nas virtudes. Logo, os dons não são necessários ao homem para a salvação. **Em contrário,** De todos os dons, a sabedoria parece ser o mais alto, e o temor o mais baixo. Ora, cada um destes é necessário para a salvação: pois da sabedoria está escrito (Sab. 7, 28): «Deus não ama senão àquele que habita com a sabedoria»; e do temor (Eclo. 1, 28): «Aquele que está sem temor não pode ser justificado». Logo, os outros dons que estão colocados entre estes também são necessários para a salvação. **Respondo que,** Como foi dito acima (A[1]), os dons são perfeições do homem, pelas quais ele é disposto de modo a ser dócil às moções de Deus. Por onde, naquelas matérias em que a moção da razão não é suficiente, e há necessidade da moção do Espírito Santo, há, por consequência, necessidade de um dom. Ora, a razão do homem é aperfeiçoada por Deus de duas maneiras: primeiro, com a sua perfeição natural, a saber, a luz natural da razão; segundo, com uma perfeição sobrenatural, a saber, as virtudes teologais, como foi dito acima (Q[62], A[1]). E, embora esta última perfeição seja maior que a primeira, contudo, o homem possui a primeira de maneira mais perfeita do que a última: porque o homem tem a primeira em sua plena posse, enquanto que ele possui a última imperfeitamente, já que amamos e conhecemos a Deus imperfeitamente. Ora, é evidente que qualquer coisa que possui perfeitamente uma natureza, ou uma forma, ou uma virtude, pode por si mesma operar segundo elas; não excluindo, todavia, a operação de Deus, que obra interiormente em toda natureza e em toda vontade. Por outro lado, aquilo que possui imperfeitamente uma natureza, ou forma, ou virtude, não pode por si mesmo operar, a menos que seja movido por outro. Assim, o sol, que possui a luz perfeitamente, pode brilhar por si mesmo; ao passo que a lua, que possui a natureza da luz imperfeitamente, só difunde uma luz emprestada. Outrossim, um médico, que conhece perfeitamente a arte médica, pode operar por si mesmo; mas o seu discípulo, que ainda não está plenamente instruído, não pode operar por si mesmo, mas precisa receber instruções dele. Por conseguinte, nas matérias sujeitas à razão humana e ordenadas ao fim connatural do homem, o homem pode operar mediante o juízo da sua razão. Se, todavia, mesmo nestas coisas o homem receber ajuda na forma de moções especiais de Deus, isso será por superabundante bondade de Deus: por isso, segundo os filósofos, nem todo aquele que possuía as virtudes morais adquiridas possuía também as virtudes heroicas ou divinas. Mas nas matérias ordenadas ao fim sobrenatural, para o qual a razão do homem o move, conforme é, de certo modo e imperfeitamente, informada pelas virtudes teologais, a moção da razão não basta, a menos que receba adicionalmente a moção ou o impulso do Espírito Santo, segundo Rom. 8, 14. 17: «Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus... e, se filhos, também herdeiros»; e Sal. 142, 10: «O teu bom Espírito me guiará para a terra direita», porque, a saber, ninguém pode receber a herança daquela terra dos Bem-aventurados, a menos que seja movido e guiado para lá pelo Espírito Santo. Portanto, para alcançar este fim, é necessário que o homem tenha o dom do Espírito Santo. **Resposta à objeção 1:** Os dons excedem a perfeição ordinária das virtudes, não quanto ao gênero de obras (como os conselhos excedem os mandamentos), mas quanto ao modo de operar, no tocante a ser o homem movido por um princípio mais alto. **Resposta à objeção 2:** Pelas virtudes teologais e morais, o homem não é tão aperfeiçoado em relação ao seu fim último, que não necessite continuamente de ser movido pelas moções ainda mais altas do Espírito Santo, pela razão já dada. **Resposta à objeção 3:** Quer consideremos a razão humana como aperfeiçoada na sua perfeição natural, quer como aperfeiçoada pelas virtudes teologais, ela não conhece todas as coisas, nem todas as coisas possíveis. Consequentemente, não pode evitar a estultícia e outras coisas semelhantes mencionadas na objeção. Deus, porém, a cujo conhecimento e poder todas as coisas estão sujeitas, pela sua moção nos guarda de toda estultícia, ignorância, obtusidade da mente e dureza de coração, e do resto. Por isso, os dons do Espírito Santo, que nos tornam dóceis às suas moções, são ditos ser dados como remédios para estes defeitos.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 2 - Whether the gifts are necessary to man for salvation? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que não se pode atribuir causa conveniente às cerimônias pertinentes aos sacrifícios. Pois aquelas coisas que se ofereciam em sacrifício são as necessárias para sustentar a vida humana, como certos animais e certos pães. Mas Deus não necessita de tal sustento, segundo o Salmo 49,13: «Acaso comerei eu a carne de touros? Ou beberei o sangue de bodes?» Logo, tais sacrifícios eram oferecidos a Deus inconvenientemente. Objeção 2: Ademais, apenas três espécies de quadrúpedes eram oferecidas em sacrifício a Deus, a saber: bois, ovelhas e cabras; das aves, geralmente a rola e a pomba; mas especialmente, na purificação de um leproso, ofereciam-se pardais. Ora, muitos outros animais são mais nobres que estes. Portanto, visto que o que é melhor deve ser oferecido a Deus, parece que não só destes três se Lhe deveriam oferecer sacrifícios. Objeção 3: Ademais, assim como o homem recebeu de Deus o domínio sobre as aves e os animais, também o recebeu sobre os peixes. Consequentemente, era inconveniente que os peixes fossem excluídos dos divinos sacrifícios. Objeção 4: Ademais, indistintamente se manda oferecer rolas e pombas. Portanto, assim como se manda oferecer os pombinhos, também se deveriam oferecer os filhotes da rola. Objeção 5: Ademais, Deus é o Autor da vida, não só dos homens, mas também dos animais, como se vê em Gn 1,20 e seguintes. Ora, a morte é oposta à vida. Logo, era conveniente que animais vivos, e não mortos, fossem oferecidos a Deus, especialmente porque o Apóstolo nos admoesta (Rm 12,1) a apresentar nossos corpos «como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus». Objeção 6: Ademais, se somente animais mortos eram oferecidos em sacrifício a Deus, parece que não importava como eram mortos. Logo, era inconveniente que se determinasse o modo de imolação, especialmente quanto às aves (Lv 1,15 e seguintes). Objeção 7: Ademais, todo defeito em um animal é um passo para a corrupção e a morte. Se, portanto, animais mortos eram oferecidos a Deus, não era razoável proibir a oferta de um animal imperfeito, como coxo, cego ou com outro defeito. Objeção 8: Ademais, aqueles que oferecem vítimas a Deus devem delas participar, segundo as palavras do Apóstolo (1Cor 10,18): «Não são porventura participantes do altar os que comem dos sacrifícios?» Era, pois, inconveniente que se negassem aos ofertantes certas partes das vítimas, a saber, o sangue, a gordura, o peito e a espádua direita. Objeção 9: Ademais, assim como os holocaustos eram oferecidos em honra de Deus, também o eram os sacrifícios pacíficos e os pelo pecado. Ora, nenhum animal fêmea era oferecido a Deus como holocausto, embora holocaustos fossem oferecidos tanto de quadrúpedes como de aves. Logo, era inconsistente que animais fêmeas fossem oferecidas nos sacrifícios pacíficos e pelo pecado, e que, no entanto, não se oferecessem aves nos sacrifícios pacíficos. Objeção 10: Ademais, todos os sacrifícios pacíficos parecem ser de uma só espécie. Portanto, era inconveniente fazer distinção entre eles, proibindo-se comer a carne de certos sacrifícios pacíficos no dia seguinte, enquanto se permitia comer a carne de outros, conforme o estabelecido em Lv 7,15 e seguintes. Objeção 11: Ademais, todos os pecados concordam em afastar-nos de Deus. Portanto, para nos reconciliar com Deus, um só tipo de sacrifício deveria ter sido oferecido por todos os pecados. Objeção 12: Ademais, todos os animais que se ofereciam em sacrifício eram oferecidos de um mesmo modo, a saber, mortos. Logo, não parece conveniente que os produtos do solo fossem oferecidos de modos diversos; pois umas vezes se ofereciam espigas, outras farinha, outras pão, cozido este ora no forno, ora na frigideira, ora na grelha. Objeção 13: Ademais, todas as coisas que nos são úteis devem ser reconhecidas como vindas de Deus. Era, portanto, inconveniente que, além dos animais, somente se oferecessem a Deus pão, vinho, azeite, incenso e sal. Objeção 14: Ademais, os sacrifícios corporais significam o sacrifício interior do coração, pelo qual o homem oferece a sua alma a Deus. Ora, no sacrifício interior, a doçura, significada pelo mel, supera a picância que o sal representa; pois está escrito (Eclo 24,27): «O meu espírito é doce sobre o mel.» Logo, era inconveniente que se proibisse o uso do mel e do fermento, que torna o pão saboroso, no sacrifício, enquanto se prescrevia o uso do sal, que é picante, e do incenso, que tem gosto amargo. Consequentemente, parece que as coisas pertencentes às cerimônias dos sacrifícios não têm causa razoável. Pelo contrário, está escrito (Lv 1,13): «O sacerdote oferecerá tudo e queimará tudo sobre o altar, em holocausto, e aroma de suavidade para o Senhor.» Ora, segundo Sb 7,28, «Deus não ama senão aquele que habita com a sabedoria»; donde parece seguir-se que tudo o que é aceito a Deus é feito sabiamente. Logo, estas cerimônias dos sacrifícios foram sabiamente feitas, por terem causas razoáveis. Respondo que, como se disse acima (A[2]), as cerimônias da Lei Antiga tinham dupla causa: uma causa literal, segundo eram ordenadas ao culto divino; e uma causa figurativa ou mística, segundo eram ordenadas a prefigurar Cristo; e de ambos os lados se podem atribuir causas convenientes às cerimônias dos sacrifícios. Porque, segundo as cerimônias dos sacrifícios eram ordenadas ao culto divino, as causas dos sacrifícios podem-se tomar de dois modos. Primeiro, na medida em que o sacrifício representava a ordenação da mente para Deus, à qual o ofertante do sacrifício era estimulado. Ora, para ordenar retamente a mente para Deus, o homem deve reconhecer que tudo quanto tem vem de Deus como de seu primeiro princípio, e ordená-lo para Deus como seu último fim. Isto se significava nas oblações e sacrifícios, pelo fato de o homem oferecer algumas de suas próprias coisas em honra de Deus, como que em reconhecimento de as ter recebido de Deus, conforme o dito de Davi (1Cr 29,14): «Todas as coisas são tuas; e o que recebemos de tua mão, isso te damos.» Por onde, ao oferecer sacrifícios, o homem protestava que Deus é o primeiro princípio da criação de todas as coisas e o seu último fim, para o qual todas as coisas devem ser ordenadas. E porque, para que a mente humana se ordene retamente para Deus, é mister que não reconheça outro autor primeiro das coisas senão Deus, nem ponha o seu fim em outro; por isso foi proibido na Lei oferecer sacrifício a outro senão a Deus, segundo Êx 22,20: «Quem sacrificar a deuses, será morto, exceto só ao Senhor.» Por onde, pode-se atribuir outra causa razoável às cerimônias dos sacrifícios, pelo fato de que por elas os homens eram afastados de oferecer sacrifícios aos ídolos. Daí também vem que os preceitos acerca dos sacrifícios não foram dados ao povo judeu senão depois de terem caído na idolatria, adorando o bezerro de fundição; como se aqueles sacrifícios fossem instituídos para que o povo, estando disposto a oferecer sacrifícios, os oferecesse a Deus antes que aos ídolos. Assim está escrito (Jr 7,22): «Não falei a vossos pais e não lhes ordenei, no dia em que os tirei da terra do Egito, acerca de holocaustos e sacrifícios.» Ora, de todos os dons que Deus concedeu ao gênero humano depois que este caiu pelo pecado, o principal é que deu o seu Filho; por onde está escrito (Jo 3,16): «Deus amou de tal modo o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.» Consequentemente, o principal sacrifício é aquele pelo qual o próprio Cristo «se entregou a Deus em odor de suavidade» (Ef 5,2). E por esta razão todos os outros sacrifícios da Lei Antiga eram oferecidos para prefigurar este único e supremo sacrifício — o imperfeito prefigurando o perfeito. Por isso o Apóstolo diz (Hb 10,11) que o sacerdote da Lei Antiga «oferecia muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem tirar os pecados; mas» Cristo ofereceu «um único sacrifício pelos pecados, para sempre». E como a razão da figura se toma daquilo que a figura representa, por isso as razões dos sacrifícios figurados da Lei Antiga devem ser tomadas do verdadeiro sacrifício de Cristo. Resposta à Objeção 1: Deus não queria que estes sacrifícios Lhe fossem oferecidos por causa das próprias coisas oferecidas, como se delas necessitasse; por onde está escrito (Is 1,11): «Não desejo holocaustos de carneiros, nem gordura de cevados, nem sangue de bezerros, de cordeiros e de bodes.» Mas, como se disse acima, queria que Lhe fossem oferecidos para evitar a idolatria; para significar a reta ordenação da mente do homem para Deus; e para representar o mistério da Redenção do homem por Cristo. Resposta à Objeção 2: Em todos os aspectos mencionados acima (ad 1), houve razão conveniente para que estes animais, mais do que outros, fossem oferecidos em sacrifício a Deus. Primeiro, para evitar a idolatria. Porque os idólatras ofereciam todos os outros animais aos seus deuses, ou deles se serviam nas suas feitiçarias; enquanto os egípcios (entre os quais o povo estivera morando) consideravam abominável matar estes animais, por isso não costumavam oferecê-los em sacrifício aos seus deuses. Daí está escrito (Êx 8,26): «Sacrificaremos as abominações dos egípcios ao Senhor nosso Deus.» Pois eles adoravam a ovelha; reverenciavam o carneiro (porque os demônios apareciam sob sua forma); e empregavam os bois para a agricultura, o que era por eles tido como algo sagrado. Segundo, isto era conveniente para a mencionada reta ordenação da mente do homem para Deus; e de dois modos. Primeiro, porque é principalmente por meio destes animais que a vida humana se sustenta; além disso, são muito limpos e se alimentam de comida muito limpa; ao passo que outros animais ou são selvagens e não destinados ao uso comum entre os homens; ou, se são domésticos, têm comida impura, como os porcos e os gansos; e nada senão o que é limpo deve ser oferecido a Deus. Estas aves especialmente eram oferecidas em sacrifício porque havia abundância delas na terra da promessa. Segundo, porque o sacrifício destes animais representava a pureza do coração. Porque, como diz a glosa sobre Lv 1, «Oferecemos um bezerro, quando vencemos a soberba da carne; um cordeiro, quando refreamos nossos movimentos desordenados; um cabrito, quando vencemos a lascívia; uma rola, quando guardamos a castidade; pão ázimo, quando nos saciamos com o pão da sinceridade.» E é evidente que a pomba significa a caridade e a simplicidade do coração. Terceiro, era conveniente que estes animais fossem oferecidos para prefigurar a Cristo. Porque, como observa a glosa, «Cristo é oferecido no bezerro, para significar a força da cruz; no cordeiro, para significar a sua inocência; no carneiro, para prefigurar a sua chefia; e no cabrito, para significar a semelhança da 'carne do pecado' [Alusão a Cl 2,11 (Texto Recebido)]. A rola e a pomba significavam a união das duas naturezas»; ou então a rola significava a castidade, enquanto a pomba era figura da caridade. «A farinha de trigo prefigurava a aspersão dos crentes com a água do Batismo.» Resposta à Objeção 3: Os peixes, por viverem na água, estão mais afastados do homem do que os outros animais, que, como o homem, vivem no ar. Além disso, os peixes morrem logo que são tirados da água; por isso não podiam ser oferecidos no templo como os outros animais. Resposta à Objeção 4: Entre as rolas, as mais velhas são melhores que as novas; ao passo que com as pombas se dá o contrário. Por onde, como observa o rabi Moisés (Doct. Perplex. iii), mandam-se oferecer rolas e pombinhos, porque nada se deve oferecer a Deus senão o que é melhor. Resposta à Objeção 5: Os animais que se ofereciam em sacrifício eram mortos, porque é sendo mortos que se tornam úteis ao homem, visto que Deus os deu ao homem para alimento. Por onde também eram queimados com fogo: porque é sendo cozidos que se tornam aptos para o consumo humano. Além disso, a morte dos animais significava a destruição dos pecados; e também que o homem merecia a morte por causa dos seus pecados; como se aqueles animais fossem mortos em lugar do homem, para significar a expiação dos pecados. Igualmente, a morte destes animais significava a morte de Cristo. Resposta à Objeção 6: A Lei fixou o modo especial de matar os animais sacrificiais para excluir outras maneiras de matar, pelas quais os idólatras sacrificavam animais aos ídolos. Ou ainda, como diz o rabi Moisés (Doct. Perplex. iii), «a Lei escolheu aquele modo de matar que era menos doloroso para o animal morto.» Isto excluía a crueldade por parte dos ofertantes e qualquer mutilação dos animais mortos. Resposta à Objeção 7: É porque os animais impuros costumam ser tidos em desprezo entre os homens, que se proibiu oferecê-los em sacrifício a Deus; e por esta razão também se proibiu (Dt 23,18) oferecer «o salário de prostituta ou o preço de um cão na casa de... Deus». Pela mesma razão, não ofereciam animais antes do sétimo dia, porque estes eram como que abortivos, não estando ainda firme a carne devido à sua excessiva moleza. Resposta à Objeção 8: Havia três espécies de sacrifícios. Havia um em que a vítima era totalmente consumida pelo fogo; chamava-se «holocausto, i.e., tudo queimado». Pois esta espécie de sacrifício era oferecida a Deus especialmente para mostrar reverência à sua majestade e amor à sua bondade; e tipificava o estado de perfeição quanto ao cumprimento dos conselhos. Por onde tudo era queimado; de modo que, assim como o animal todo, dissolvendo-se em vapor, se elevava ao alto, significava que o homem todo e tudo o que lhe pertence estão sujeitos à autoridade de Deus e devem ser-Lhe oferecidos. Outro sacrifício era o «pelo pecado», que se oferecia a Deus por causa da necessidade que o homem tem do perdão dos pecados; e este tipifica o estado dos penitentes na satisfação pelos pecados. Dividia-se em duas partes: pois uma parte era queimada; a outra era concedida ao uso dos sacerdotes para significar que a remissão dos pecados é concedida por Deus mediante o ministério dos seus sacerdotes. Quando, porém, este sacrifício era oferecido pelos pecados de todo o povo, ou especialmente pelo pecado do sacerdote, a vítima toda era queimada. Pois não era conveniente que os sacerdotes tivessem o uso daquilo que era oferecido pelos seus próprios pecados, para significar que neles não devia permanecer nada de pecaminoso. Além disso, isto não seria satisfação pelo pecado: pois se a oferta fosse concedida ao uso daqueles por cujos pecados era oferecida, pareceria o mesmo que se não tivesse sido oferecida. O terceiro tipo de sacrifício chamava-se «pacífico», que se oferecia a Deus, ou em ação de graças, ou pelo bem-estar e prosperidade dos ofertantes, em reconhecimento de benefícios já recebidos ou a receber; e este tipifica o estado daqueles que são proficientes na observância dos mandamentos. Estes sacrifícios dividiam-se em três partes: pois uma parte era queimada em honra de Deus; outra parte era atribuída ao uso dos sacerdotes; e a terceira parte, ao uso dos ofertantes; para significar que a salvação do homem vem de Deus, pela direção dos ministros de Deus e pela cooperação dos que são salvos. Mas era regra universal que o sangue e a gordura não fossem atribuídos ao uso nem dos sacerdotes nem dos ofertantes; sendo o sangue derramado ao pé do altar, em honra de Deus, enquanto a gordura era queimada sobre o altar (Lv 9,9.10). A razão disto era, primeiro, para evitar a idolatria: porque os idólatras costumavam beber o sangue e comer a gordura das vítimas, segundo Dt 32,38: «Da gordura de cujas vítimas comiam, e bebiam o vinho das suas libações.» Segundo, para os formar a um reto modo de viver. Pois era-lhes proibido o uso do sangue para que abominassem o derramamento de sangue humano; por onde está escrito (Gn 9,4.5): «Carne com sangue não comereis; porque eu requererei o sangue das vossas almas»; e era-lhes proibido comer a gordura, para os afastar da lascívia; daí está escrito (Ez 34,3): «Matastes o que era gordo.» Terceiro, por causa da reverência devida a Deus: porque o sangue é o mais necessário para a vida, pelo que se diz que «a vida está no sangue» (Lv 17,11.14); enquanto a gordura é sinal de abundante nutrição. Por onde, para mostrar que a Deus devemos tanto a vida como a suficiência de todos os bens, o sangue era derramado e a gordura queimada em sua honra. Quarto, para prefigurar o derramamento do sangue de Cristo e a abundância da sua caridade, pela qual se ofereceu a Deus por nós. Nos sacrifícios pacíficos, o peito e a espádua direita eram atribuídos ao uso do sacerdote, para evitar uma certa espécie de adivinhação conhecida como «spatulamantia», assim chamada porque era costume, na adivinhação, usar a omoplata [spatula] e o peito dos animais oferecidos em sacrifício; por onde estas coisas eram tiradas aos ofertantes. Isto também significava a necessidade que o sacerdote tem de sabedoria no coração, para instruir o povo — o que era significado pelo peito, que cobre o coração; e a sua necessidade de fortaleza, para suportar a fraqueza humana — o que era significado pela espádua direita. Resposta à Objeção 9: Porque o holocausto era o mais perfeito tipo de sacrifício, por isso somente um macho era oferecido em holocausto: porque a fêmea é um animal imperfeito. A oferta de rolas e pombas era por causa da pobreza dos ofertantes, que não podiam oferecer animais maiores. E como as vítimas pacíficas eram oferecidas livremente, e ninguém era obrigado a oferecê-las contra a sua vontade, por isso estas aves não eram oferecidas entre as vítimas pacíficas, mas entre os holocaustos e as vítimas pelo pecado, que o homem era obrigado a oferecer por vezes. Além disso, estas aves, devido ao seu voo elevado, são adequadas à perfeição dos holocaustos; e eram convenientes para os sacrifícios pelo pecado porque o seu canto é lastimoso. Resposta à Objeção 10: O holocausto era o principal de todos os sacrifícios: porque tudo era queimado em honra de Deus, e nada dele se comia. O segundo lugar em santidade pertence ao sacrifício pelos pecados, que era comido somente no átrio e no mesmo dia do sacrifício (Lv 7,6.15). O terceiro lugar deve ser dado aos sacrifícios pacíficos de ação de graças, que eram comidos no mesmo dia, mas em qualquer lugar de Jerusalém. Quarto na ordem estavam os sacrifícios pacíficos «ex voto», cuja carne podia ser comida até o dia seguinte. A razão desta ordem é que o homem está obrigado a Deus, principalmente por causa da sua majestade; em segundo lugar, por causa dos pecados que cometeu; em terceiro lugar, por causa dos benefícios que já recebeu dele; em quarto lugar, por causa dos benefícios que espera receber dele. Resposta à Objeção 11: Os pecados são mais graves pela condição do pecador, como se disse acima (Q[73], A[10]); por isso se mandam oferecer diferentes vítimas pelo pecado de um sacerdote, de um príncipe ou de algum outro particular. «Mas», como diz o rabi Moisés (Doct. Perplex. iii), «devemos notar que, quanto mais grave o pecado, mais baixa é a espécie de animais oferecida por ele. Por onde, o cabrito, que é um animal muito baixo, era oferecido pela idolatria; enquanto um bezerro era oferecido pela ignorância do sacerdote, e um carneiro pela negligência do príncipe.» Resposta à Objeção 12: Na matéria dos sacrifícios, a Lei tinha em vista a pobreza dos ofertantes; de modo que aqueles que não podiam dispor de um animal quadrúpede pudessem ao menos oferecer uma ave; e que aquele que não pudesse ter uma ave pudesse ao menos oferecer pão; e que, se alguém nem pão tivesse, pudesse oferecer farinha ou espigas. A causa figurativa é que o pão significa Cristo, que é o «pão vivo» (Jo 6,41.51). Ele era como uma espiga, por assim dizer, durante o estado da lei da natureza, na fé dos patriarcas; era como farinha na doutrina da Lei dos profetas; e era como pão perfeito depois que assumiu a natureza humana; cozido no fogo, i.e., formado pelo Espírito Santo no forno do ventre virginal; cozido outra vez numa frigideira, pelos trabalhos que sofreu no mundo; e consumido pelo fogo na cruz como numa grelha. Resposta à Objeção 13: Os produtos da terra são úteis ao homem, ou como alimento, e destes oferecia-se pão; ou como bebida, e destes oferecia-se vinho; ou como tempero, e destes oferecia-se azeite e sal; ou como remédio, e destes oferecia-se incenso, que tanto cheira bem como se liga facilmente. Ora, o pão prefigurava a carne de Cristo; e o vinho, o seu sangue, pelo qual fomos redimidos; o azeite significa a graça de Cristo; o sal, o seu conhecimento; o incenso, a sua oração. Resposta à Objeção 14: O mel não era oferecido nos sacrifícios a Deus, tanto porque costumava ser oferecido nos sacrifícios aos ídolos, como para significar a ausência de toda doçura e prazer carnal naqueles que pretendem sacrificar a Deus. O fermento não era oferecido, para significar a exclusão da corrupção. Talvez também costumasse ser oferecido nos sacrifícios aos ídolos. O sal, porém, era oferecido, porque afasta a corrupção da putrefação: pois os sacrifícios oferecidos a Deus devem ser incorruptos. Além disso, o sal significa a discrição da sabedoria, ou ainda a mortificação da carne. O incenso era oferecido para significar a devoção do coração, que é necessária no ofertante; e ainda para significar o odor de boa fama: pois o incenso é composto de matéria rica e fragrante. E porque o sacrifício «de ciúmes» não procedia da devoção, mas antes da suspeita, por isso nele não se oferecia incenso (Nm 5,15).

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 3 - Whether a suitable cause can be assigned for the ceremonies which pertained to sacrifices? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objeção 1: Parece que o uso do vinho é totalmente ilícito. Porque sem a sabedoria ninguém pode estar em estado de salvação, pois está escrito (Sab 7,28): «Deus não ama senão a quem habita com a sabedoria», e mais adiante (Sab 9,19): «Pela sabedoria foram curados todos os que desde o princípio Vos agradaram, Senhor». Ora, o uso do vinho é impedimento para a sabedoria, porque está escrito (Ecle 2,3): «Pensei em meu coração retirar a minha carne do vinho, para aplicar o meu espírito à sabedoria». Logo, beber vinho é totalmente ilícito. Objeção 2: Demais, o Apóstolo diz (Rm 14,21): «Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer coisa alguma em que teu irmão se ofenda, ou se escandalize, ou se enfraqueça». Ora, é pecaminoso abandonar o bem da virtude, como também escandalizar os irmãos. Portanto, é ilícito usar do vinho. Objeção 3: Demais, Jerônimo diz [*Contra Jovin. i] que «depois do dilúvio foram permitidos o vinho e a carne; mas Cristo veio no último dos tempos e reconduziu o fim ao princípio». Logo, parece ilícito usar o vinho sob a Lei cristã. Ao contrário, diz o Apóstolo (1Tm 5,23): «Não continues a beber só água, mas usa de um pouco de vinho por causa do teu estômago e das tuas frequentes fraquezas»; e está escrito (Eclo 31,36): «O vinho tomado com moderação é alegria da alma e do coração». Respondo que nenhum alimento ou bebida, considerado em si mesmo, é ilícito, segundo Mt 15,11: «Não o que entra pela boca contamina o homem». Portanto, não é ilícito beber vinho enquanto tal. Contudo, pode tornar-se ilícito acidentalmente. Isto se deve, às vezes, a uma circunstância da parte do bebedor, ou porque facilmente se ressente com a ingestão de vinho, ou porque está vinculado por voto a não beber vinho; outras vezes resulta do modo de beber, isto é, por exceder a medida no beber; e outras vezes, por causa de outrem que seria escandalizado com isso. Resposta à primeira objeção: O homem pode ter a sabedoria de dois modos. Primeiro, de modo geral, conforme é suficiente para a salvação; e deste modo, para ter sabedoria, não se exige que o homem se abstenha totalmente do vinho, mas que se abstenha do seu uso imoderado. Segundo, o homem pode ter a sabedoria em certo grau de perfeição; e deste modo, para receber perfeitamente a sabedoria, é necessário para certas pessoas que se abstenham totalmente do vinho, e isto depende das circunstâncias de certas pessoas e lugares. Resposta à segunda objeção: O Apóstolo não declara simplesmente que é bom abster-se de vinho, mas que é bom no caso em que isso escandalizasse a certas pessoas. Resposta à terceira objeção: Cristo nos afasta de algumas coisas como totalmente ilícitas, e de outras como obstáculos à perfeição. É deste último modo que Ele afasta alguns do uso do vinho, para que visem à perfeição, assim como das riquezas e coisas semelhantes.

Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 3 - Whether the use of wine is altogether unlawful? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

Objecção 1: Parece que os dons não são necessários ao homem para a salvação. Porque os dons são ordenados a uma perfeição que excede a perfeição ordinária da virtude. Ora, não é necessário para a salvação do homem que ele alcance uma perfeição que exceda a medida ordinária da virtude; porque tal perfeição não cai sob o preceito, mas sob o conselho. Portanto, os dons não são necessários ao homem para a salvação. Objecção 2: Ademais, basta para a salvação do homem que ele se porte bem nas coisas que dizem respeito a Deus e nas coisas que dizem respeito ao homem. Ora, o proceder do homem para com Deus é suficientemente dirigido pelas virtudes teologais; e o seu proceder para com os homens, pelas virtudes morais. Logo, os dons não são necessários ao homem para a salvação. Objecção 3: Ademais, Gregório diz (Moral. ii, 26) que «o Espírito Santo dá a sabedoria contra a estultícia, o entendimento contra o embotamento, o conselho contra a temeridade, a fortaleza contra os temores, a ciência contra a ignorância, a piedade contra a dureza do nosso coração, e o temor contra a soberba». Mas um remédio suficiente para todas estas coisas encontra-se nas virtudes. Portanto, os dons não são necessários ao homem para a salvação. Em contrário, De todos os dons, a sabedoria parece ser o mais alto, e o temor o mais baixo. Ora, cada um destes é necessário para a salvação: pois da sabedoria está escrito (Sab. 7:28): «Deus não ama senão aquele que habita com a sabedoria»; e do temor (Eclo. 1:28): «Aquele que está sem temor não pode ser justificado». Portanto, também os outros dons que estão colocados entre estes são necessários para a salvação. Respondo que, como foi dito acima (A[1]), os dons são perfeições do homem, pelas quais ele é disposto a ser dócil às inspirações de Deus. Por isso, naquelas matérias em que a inspiração da razão não é suficiente, e há necessidade da inspiração do Espírito Santo, consequentemente há necessidade de um dom. Ora, a razão do homem é aperfeiçoada por Deus de dois modos: primeiro, com a sua perfeição natural, a saber, a luz natural da razão; segundo, com uma perfeição sobrenatural, a saber, as virtudes teologais, como foi dito acima (Q[62], A[1]). E, embora esta última perfeição seja maior do que a primeira, contudo a primeira é possuída pelo homem de modo mais perfeito do que a última: porque o homem possui a primeira em plena posse, ao passo que possui a última imperfeitamente, pois amamos e conhecemos a Deus imperfeitamente. Ora, é evidente que tudo o que possui perfeitamente uma natureza, ou forma, ou virtude, pode por si mesmo operar segundo elas: não excluindo, todavia, a operação de Deus, que obra interiormente em toda natureza e em toda vontade. Por outro lado, aquilo que possui imperfeitamente uma natureza, ou forma, ou virtude, não pode por si mesmo operar, a menos que seja movido por outro. Assim, o sol, que possui perfeitamente a luz, pode brilhar por si mesmo; ao passo que a lua, que possui imperfeitamente a natureza da luz, só derrama uma luz emprestada. Outrossim, um médico, que conhece perfeitamente a arte médica, pode operar por si mesmo; mas o seu discípulo, que ainda não está plenamente instruído, não pode operar por si mesmo, mas necessita receber instruções dele. Por conseguinte, nas matérias sujeitas à razão humana e ordenadas ao fim conatural do homem, o homem pode operar mediante o juízo da sua razão. Se, todavia, mesmo nestas coisas o homem receber ajuda em forma de inspirações especiais de Deus, isso será por superabundante bondade de Deus: por isso, segundo os filósofos, nem todo aquele que possuía as virtudes morais adquiridas possuía também as virtudes heróicas ou divinas. Mas nas matérias ordenadas ao fim sobrenatural, para o qual a razão do homem o move, conforme é, de certo modo e imperfeitamente, informada pelas virtudes teologais, o movimento da razão não basta, a menos que receba adicionalmente a inspiração ou moção do Espírito Santo, segundo Rom. 8:14, 17: «Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus… e, se filhos, também herdeiros»; e Sal. 142:10: «O teu bom Espírito me guiará para a terra direita», porque, a saber, ninguém pode receber a herança daquela terra dos Bem-aventurados, a menos que seja movido e guiado para lá pelo Espírito Santo. Portanto, para alcançar este fim, é necessário ao homem ter o dom do Espírito Santo. Resposta à Objecção 1: Os dons superam a perfeição ordinária das virtudes, não quanto ao género das obras (como os conselhos superam os preceitos), mas quanto ao modo de operar, no que diz respeito ao homem ser movido por um princípio mais elevado. Resposta à Objecção 2: Pelas virtudes teologais e morais, o homem não é tão aperfeiçoado em relação ao seu fim último, que não necessite continuamente de ser movido pelas inspirações ainda mais elevadas do Espírito Santo, pela razão já dada. Resposta à Objecção 3: Quer consideremos a razão humana como aperfeiçoada na sua perfeição natural, quer como aperfeiçoada pelas virtudes teologais, ela não conhece todas as coisas, nem todas as coisas possíveis. Consequentemente, não pode evitar a estultícia e outras coisas semelhantes mencionadas na objecção. Deus, porém, a cujo conhecimento e poder todas as coisas estão sujeitas, pela sua moção nos protege de toda estultícia, ignorância, embotamento da mente e dureza de coração, e do resto. Por conseguinte, os dons do Espírito Santo, que nos tornam dóceis às suas inspirações, dizem-se dados como remédios para estes defeitos.

Summa Theologiae — First Part · Article. 2 - Whether the gifts are necessary to man for salvation? · séc. XIII

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Sb 7, 28 nos Padres da Igreja | Aurea