Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que pode haver verdadeira virtude sem caridade. Porque é próprio da virtude produzir um ato bom. Ora, os que não têm caridade praticam algumas ações boas, como quando vestem os nus, ou alimentam os famintos, e assim por diante. Logo, a verdadeira virtude é possível sem caridade. Objeção 2: Além disso, a caridade não é possível sem a fé, pois procede de “uma fé não fingida”, como diz o Apóstolo (1 Tm 1,5). Ora, nos infiéis pode haver verdadeira castidade, se refreiam suas concupiscências, e verdadeira justiça, se julgam retamente. Logo, a verdadeira virtude é possível sem caridade. Objeção 3: Além disso, a ciência e a arte são virtudes, segundo a Ética vi. Mas elas se encontram nos pecadores, que carecem de caridade. Portanto, a verdadeira virtude pode existir sem caridade. Em contrário, O Apóstolo diz (1 Cor 13,3): “Se eu distribuir todos os meus bens aos pobres, e se entregar o meu corpo para ser queimado, e não tiver caridade, nada disso me aproveita”. Ora, a verdadeira virtude é muito proveitosa, segundo Sb 8,7: “Ela ensina a temperança, e a prudência, e a justiça, e a fortaleza, coisas tais que os homens nada podem ter de mais proveitoso na vida”. Logo, nenhuma verdadeira virtude é possível sem caridade. Respondo que, A virtude é ordenada para o bem, como se disse acima (I II, Q. 55, A. 4). Ora, o bem é principalmente o fim; pois as coisas que se ordenam para o fim não são ditas boas senão em relação ao fim. Por conseguinte, assim como o fim é duplo, o fim último e o fim próximo, assim também o bem é duplo: um, o bem último e universal; outro, o bem próximo e particular. O bem último e principal do homem é o gozo de Deus, segundo o Sl 72,28: “O meu bem é estar unido a Deus”; e para este bem o homem é ordenado pela caridade. O bem secundário e, por assim dizer, particular do homem pode ser duplo: um é verdadeiramente bom, porque, considerado em si mesmo, pode ser dirigido ao bem principal, que é o fim último; o outro é bom aparentemente e não verdadeiramente, porque nos afasta do bem final. Por conseguinte, é evidente que a virtude simplesmente verdadeira é aquela que se dirige ao bem principal do homem; assim também o Filósofo diz (Física vii, text. 17) que “a virtude é a disposição de uma coisa perfeita para aquilo que é o melhor”; e deste modo, nenhuma verdadeira virtude é possível sem caridade. Se, porém, tomarmos a virtude como ordenada a algum fim particular, então falamos de virtude onde não há caridade, na medida em que se dirige a algum bem particular. Mas se este bem particular não é um bem verdadeiro, mas aparente, não é uma verdadeira virtude a que se ordena a tal bem, mas uma virtude falsa. Assim como, diz Agostinho (Contra Julian. iv, 3), “a prudência do avarento, pela qual ele inventa vários caminhos para ganhar, não é verdadeira virtude; nem a justiça do avarento, pela qual ele despreza a propriedade alheia por medo de severo castigo; nem a temperança do avarento, pela qual ele refreia o desejo de prazeres caros; nem a fortaleza do avarento, pela qual, como diz Horácio, ‘enfrenta o mar, transpõe montanhas, atravessa o fogo, para evitar a pobreza’” (Epis. lib, 1; Ep. i, 45). Se, por outro lado, este bem particular for um bem verdadeiro, por exemplo, o bem-estar do Estado, ou outro semelhante, será certamente uma verdadeira virtude, porém imperfeita, a menos que seja referida ao bem final e perfeito. Por conseguinte, nenhuma virtude estritamente verdadeira é possível sem caridade. Resposta à objeção 1: O ato de quem carece de caridade pode ser de dois modos: um, de acordo com a sua falta de caridade, como quando faz algo que é referido àquilo pelo qual carece de caridade. Esse ato é sempre mau: assim, Agostinho diz (Contra Julian. iv, 3) que as ações que um infiel pratica como infiel são sempre pecaminosas, mesmo quando veste os nus ou faz algo semelhante, e as dirige para a sua infidelidade como fim. Há, porém, outro ato de quem carece de caridade, não de acordo com a sua falta de caridade, mas de acordo com a posse de algum outro dom de Deus, seja a fé, a esperança, ou mesmo o seu bem natural, que não é completamente tirado pelo pecado, como se disse acima (Q. 10, A. 4; I II, Q. 85, A. 2). Desse modo, é possível que um ato, sem caridade, seja genericamente bom, mas não perfeitamente bom, porque lhe falta a devida ordenação para o fim último. Resposta à objeção 2: Visto que o fim, nas coisas práticas, é o que o princípio é nas coisas especulativas, assim como não pode haver ciência estritamente verdadeira se faltar a reta apreensão dos primeiros princípios indemonstráveis, assim também não pode haver justiça ou castidade estritamente verdadeiras sem aquela devida ordenação para o fim, que é efetuada pela caridade, por mais retamente que alguém se disponha em relação a outras matérias. Resposta à objeção 3: A ciência e a arte implicam, por sua própria natureza, uma relação com algum bem particular, e não com o bem último da vida humana, como fazem as virtudes morais, que tornam o homem simplesmente bom, como se disse acima (I II, Q. 56, A. 3). Logo, a comparação não procede.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 7 - Whether any true virtue is possible without charity? · séc. XIII
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