Etapa 1 de 6
Tentação no deserto — combate espiritual
Objetivo da etapa
Compreender as três tentações de Cristo como mapa do combate espiritual humano, e como os Padres usaram esse texto para ensinar o discernimento.
Síntese
As três tentações — pão, poder, espetáculo — são os três eixos do desvio espiritual: saciar o corpo ignorando a Palavra, buscar domínio sem serviço, e forçar Deus a confirmar o nosso plano. Os Padres leram a vitória de Cristo como antecipação da vitória de todo cristão tentado, desde que armado com a Palavra e o jejum.
Pergunta de reflexão
Qual das três tentações de Cristo você reconhece como a que mais te atinge — e como Cristo a venceu?
Perguntar sobre esta etapaFontes para ler
MAT 4,1
Então Jesus foi conduzido pelo Espírito (Santo) ao deserto, para ser tentado pelo demônio.
São Gregório Magno
PatrísticoSão Gregório Magno · séc. VII
Devemos saber que há três modos de tentação: sugestão, deleite e consentimento; e nós, quando somos tentados, comumente caímos no deleite ou no consentimento, porque, nascidos do pecado da carne, trazemos connosco aquilo pelo que damos força ao combate; mas Deus, que Se incarnou no seio da Virgem e veio ao mundo sem pecado, não trouxe em Si coisa alguma de natureza contrária. Podia, pois, ser tentado pela sugestão; mas o deleite do pecado jamais corroeu a Sua alma, e por isso toda aquela tentação do Diabo estava fora dEle e não dentro.
Glossa Ordinária
PatrísticoGlossa Ordinária · Glossa · ap. Anselm
Este deserto é aquele que fica entre Jerusalém e Jericó, onde os salteadores costumavam refugiar-se. Chama-se Hammaim, isto é, «do sangue», por causa do derramamento de sangue que ali esses salteadores causavam; daí ter-se dito (na parábola) que o homem caíra entre salteadores ao descer de Jerusalém para Jericó, sendo figura de Adão, que foi vencido pelos demônios. Era, pois, conveniente que o lugar onde Cristo venceu o Diabo fosse o mesmo em que, na parábola, o Diabo vence o homem.
São João Crisóstomo
PatrísticoSão João Crisóstomo · Opus Imperfectum in Matthaeum · séc. V
O Senhor conhecia os pensamentos do Diabo, que pretendia tentá-Lo; havia ouvido que Cristo nascera neste mundo com a pregação dos Anjos, o testemunho dos pastores, a indagação dos Magos e o testemunho de João. Assim o Senhor foi ao seu encontro, não como Deus, mas como homem, ou melhor, ao mesmo tempo como Deus e como homem. Pois não ter sentido fome em quarenta dias de jejum não era próprio do homem; ter fome perpetuamente não era próprio de Deus. Teve, pois, fome para que a Divindade não fosse manifestada com certeza, e assim a esperança do Diabo em tentá-Lo não se apagasse, e a Sua própria vitória não fosse impedida.