Santo Hilário de Poitiers
Pois para a pregação de João, nenhum lugar mais adequado, nenhuma vestimenta mais útil, nenhum alimento mais conveniente.
séc. IV
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Matos Soares
4Este mesmo João trazia um vestido feito de peles de camelo e um cinto de couro em volta dos rins; e o seu alimento era gafanhotos e mel silvestre.
Matos Soares · domínio público
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Pois para a pregação de João, nenhum lugar mais adequado, nenhuma vestimenta mais útil, nenhum alimento mais conveniente.
séc. IV
tradução automáticaO pregador de Cristo está vestido com peles de animais imundos, aos quais os gentios são comparados, e assim, pelo traje dos Profetas, é santificado quanto neles havia de inútil ou imundo. O cinto é coisa de muita eficácia para toda boa obra, para que estejamos cingidos para todo ministério de Cristo. Pois para seu alimento são escolhidos gafanhotos, que fogem do rosto do homem e escapam de toda aproximação, significando a nós mesmos, que, arrebatados de toda palavra ou fala de bem por um movimento espontâneo do corpo, fracos na vontade, estéreis nas obras, inquietos na fala, estrangeiros na morada, agora nos tornamos o alimento dos Santos, escolhidos para encher o desejo do Profeta, fornecendo nosso dulcíssimo alimento não dos favos da Lei, mas dos troncos das árvores silvestres.
séc. IV
tradução automáticaContente com parco alimento: a saber, pequenos insectos e mel colhido dos troncos das árvores. Nos ditos de Arnulpho, Bispo da Gália, encontramos que havia uma espécie muito pequena de gafanhotos nos desertos da Judeia, com corpos da grossura de um dedo e curtos; são facilmente apanhados entre as ervas, e, cozidos em óleo, formam uma comida pobre. Relata também que, no mesmo deserto, há uma espécie de árvore, com folha grande e redonda, da cor do leite e sabor de mel, tão friável que se esfarela na mão, e é isto o que se entende por mel silvestre.
séc. IX
tradução automáticaSua vestidura e seu alimento exprimem a qualidade de sua conversação interior. Sua vestidura era de qualidade austera, porque repreendia a vida do pecador.
séc. IX
tradução automáticaEle comia gafanhotos e mel, porque a sua pregação era doce para a multidão, mas de breve duração; e o mel tem doçura, os gafanhotos um voo rápido, mas logo caem ao chão.
séc. IX
tradução automáticaSua vestidura de pelo de camelo, não de lã — aquela, sinal de austeridade no traje; esta, de um luxo delicado.
séc. V
tradução automáticaAlimento, além disso, próprio de um habitante do deserto, não iguarias escolhidas, mas tais que satisfizessem as necessidades do corpo.
séc. V
tradução automáticaO seu cinto de pele, que também Elias usava, é o sinal da mortificação.
séc. V
tradução automáticaNesta vestimenta e neste humilde alimento, ele mostra que se entristece pelos pecados de todo o gênero humano.
séc. X
tradução automáticaEm João (cujo nome se interpreta «a graça de Deus») é figurado Cristo, que trouxe a graça ao mundo; nas suas vestes, a Igreja dos Gentios.
séc. X
tradução automáticaHavendo dito que ele é a voz do que clama no deserto, bem acrescenta o Evangelista: «João tinha o seu vestido de pêlos de camelo»; mostrando assim qual era a sua vida; porque ele, na verdade, testemunhou de Cristo, mas a sua vida testemunhou dele mesmo. Ninguém é apto para ser testemunha de outro enquanto não o tiver sido primeiro de si mesmo.
Opus Imperfectum in Matthaeum · séc. V
tradução automáticaConvém aos servos de Deus usar um vestido, não para elegante aparência, nem para mimo do corpo, mas para cobertura da nudez. Assim João usa uma veste não mole e delicada, mas peluda, pesada, áspera, antes ferindo a pele que a mimando, para que até a própria vestidura de seu corpo manifestasse a virtude de sua mente. Era costume dos judeus usar cintos de lã; porém ele, desejando algo menos indulgente, usava um de pele.
Opus Imperfectum in Matthaeum · séc. V
tradução automáticaTrechos em que este versículo aparece citado dentro de outro argumento patrístico.
**Objeção 1:** Pareceria que era conveniente que Cristo levasse vida austera neste mundo. Pois Cristo pregou a perfeição da vida muito mais do que João. Mas João levou vida austera para persuadir os homens pelo seu exemplo a abraçar a vida perfeita; porque está escrito (Mat. 3,4): "E o mesmo João tinha a sua veste de pelos de camelo, e um cinto de couro em torno dos seus lombos; e o seu alimento eram gafanhotos e mel silvestre"; sobre o que Crisóstomo comenta assim (Hom. 10): "Era coisa maravilhosa e estranha ver tal austeridade num corpo humano; o que também especialmente atraía os judeus." Portanto, parece que uma vida austera era muito mais conveniente a Cristo. **Objeção 2:** Além disso, a abstinência ordena-se à continência; pois está escrito (Os. 4,10): "Eles comerão e não se fartarão; cometeram fornicação e não cessaram." Mas Cristo observou a continência em Si mesmo e propôs que fosse observada por outros, quando disse (Mat. 19,12): "Há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do reino dos céus: quem pode entender, entenda." Portanto, parece que Cristo deveria ter observado vida austera, tanto em Si mesmo como nos seus discípulos. **Objeção 3:** Além disso, parece absurdo que um homem comece um gênero de vida mais rigoroso e depois volte a um mais brando; pois poder-se-ia lançar-lhe em rosto o que está escrito, Luc. 14,30: "Este homem começou a edificar e não pôde acabar." Ora, Cristo começou uma vida muito rigorosa após o seu batismo, permanecendo no deserto e jejuando "quarenta dias e quarenta noites". Logo, parece inconveniente que, depois de ter levado uma vida tão rigorosa, voltasse ao modo comum de viver. **Em contrário,** está escrito (Mat. 11,19): "Veio o Filho do Homem comendo e bebendo." **Respondo.** Como foi dito acima (A. 1), convinha ao fim da Encarnação que Cristo não levasse vida solitária, mas convivesse com os homens. Ora, é sumamente conveniente que aquele que convive com outros se conforme ao seu modo de viver, segundo as palavras do Apóstolo (1 Cor. 9,22): "Fiz-me tudo para todos." E, portanto, foi sumamente conveniente que Cristo se conformasse aos outros no comer e no beber. Donde diz Agostinho (Contra Fausto, XVI) que "João é descrito como 'nem comendo nem bebendo', porque não tomava o mesmo alimento que os judeus. Por isso, se o Senhor nosso não o tomasse, não se diria dele, em contraste, 'comendo e bebendo'." **Resposta à Objeção 1:** Nosso Senhor, no seu modo de viver, deu exemplo de perfeição quanto a todas as coisas que, por si mesmas, se referem à salvação. Ora, a abstinência no comer e no beber não se refere por si mesma à salvação, segundo Rom. 14,17: "O reino de Deus não é comida nem bebida." E Agostinho (De Qq. Evang. II, q. 11), explicando Mat. 11,19: "A sabedoria foi justificada pelos seus filhos", diz que isso se dá porque os santos apóstolos "entenderam que o reino de Deus não consiste em comer e beber, mas em sofrer a indigência com equanimidade", pois nem se elevam pela abundância nem se angustiam pela falta. E ainda (De Doctr. Christ. III) diz que, em todas essas coisas, "não é o uso delas, mas a cobiça do usuário que é pecado". Ora, ambas as vidas são lícitas e louváveis — a saber, que um homem se retire da companhia dos outros homens e observe abstinência, e que conviva com outros homens e viva como eles. E, portanto, nosso Senhor quis dar aos homens exemplo de ambos os gêneros de vida. Quanto a João, segundo Crisóstomo (Hom. 37 sobre Mat.), "ele não exibia senão a sua vida e conduta justa... mas Cristo tinha também o testemunho dos milagres. Deixando, pois, João ilustrar-se pelo seu jejum, Ele mesmo veio pelo caminho oposto, indo às mesas dos publicanos e comendo e bebendo." **Resposta à Objeção 2:** Assim como pela abstinência os outros homens adquirem o poder de se conter, assim Cristo, em Si mesmo e nos que são seus, subjugou a carne pelo poder da sua Divindade. Por isso, como lemos em Mat. 9,14, os fariseus e os discípulos de João jejuavam, mas não os discípulos de Cristo. Sobre o que comenta Beda, dizendo que "João não bebeu vinho nem bebida forte; porque a abstinência é meritória onde a natureza é fraca. Mas por que nosso Senhor, que tem por direito natural o poder de perdoar pecados, evitaria aqueles a quem podia tornar mais santos do que os que se abstêm?" **Resposta à Objeção 3:** Como diz Crisóstomo (Hom. 13 sobre Mat.), "para que aprendesses quão grande bem é o jejum, e como é um escudo contra o demônio, e que depois do batismo deves entregar-te, não à luxúria, mas ao jejum — por isso jejuou Ele, não porque precisasse disso, mas ensinando-nos... E por isso não foi além de Moisés e Elias, para que a sua assunção da nossa carne não parecesse incrível." O sentido místico, como diz Gregório (Hom. 16 sobre os Evangelhos), é que pelo exemplo de Cristo se observa o número "quarenta" no seu jejum, porque "o poder do decálogo se cumpre através dos quatro livros do santo Evangelho; pois dez multiplicado por quatro perfaz quarenta." Ou, porque "vivemos neste corpo mortal composto dos quatro elementos, e pelas suas concupiscências transgredimos os mandamentos do Senhor, que se expressam no decálogo." Ou, segundo Agostinho (QQ. LXXXIII, q. 81): "Conhecer o Criador e a criatura é todo o ensinamento da sabedoria. O Criador é a Trindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Ora, a criatura é em parte invisível, como a alma, à qual se pode atribuir o número três, pois somos mandados amar a Deus de três modos: 'com todo o nosso coração, com toda a nossa alma e com toda a nossa mente'; e em parte visível, como o corpo, ao qual se aplica o número quatro por estar sujeito ao calor, à umidade, ao frio e à secura. Por isso, se multiplicarmos dez, que pode referir-se a todo o código moral, por quatro, número que se aplica ao corpo, porque é o corpo que executa a lei, resulta o número quarenta: no qual," consequentemente, "se mostra o tempo em que suspiramos e nos afligimos." E, contudo, não havia incoerência em que Cristo voltasse ao modo comum de viver, depois de jejuar e (de se retirar para o) deserto. Pois é próprio daquele gênero de vida, que cremos Cristo ter abraçado, no qual um homem comunica aos outros os frutos da sua contemplação, que se dedique primeiro à contemplação e depois desça à publicidade da vida ativa, convivendo com outros homens. Donde diz Beda sobre Marc. 2,18: "Cristo jejuou, para que não desobedeças ao mandamento; comeu com os pecadores, para que discernisses a sua santidade e reconhecesses o seu poder."
Summa Theologiae — Third Part (Christology & Sacraments) · Article. 2 - Whether it was becoming that Christ should lead an austere life in this world? · séc. XIII
tradução automática**Objeção 1:** Parece que não pode haver virtude e vício em relação ao traje exterior. Pois o adorno exterior não nos pertence por natureza, donde varia segundo os tempos e lugares. Por isso diz Agostinho (De Doctr. Christ. III, 12) que “entre os antigos romanos era vergonhoso alguém usar uma capa com mangas e que descesse até os tornozelos, ao passo que agora é vergonhoso para quem vem de um lugar respeitável não usá-la.” Ora, segundo o Filósofo (Ética II, 1), há em nós uma aptidão natural para as virtudes. Logo, não há virtude ou vício acerca de tais coisas. **Objeção 2:** Ademais, se houvesse virtude e vício em relação ao traje exterior, o excesso nessa matéria seria pecaminoso. Ora, o excesso no traje exterior não parece ser pecaminoso, visto que até os ministros do altar usam vestes preciosíssimas no sagrado ministério. Do mesmo modo, pareceria não ser pecaminoso a falta disso, pois é dito em louvor de alguns (Heb 11,37): “Andaram errantes em peles de ovelhas e em peles de cabras.” Portanto, parece que não pode haver virtude e vício nessa matéria. **Objeção 3:** Ademais, toda virtude é ou teologal, ou moral, ou intelectual. Ora, a virtude intelectual não se ocupa com matéria deste gênero, pois é perfeição no conhecimento da verdade. Nem há virtude teologal aí conexa, pois esta tem a Deus por objeto; nem nenhuma das virtudes morais enumeradas pelo Filósofo (Ética II, 7) está conexa com isso. Logo, parece que não pode haver virtude e vício em relação a este gênero de traje. **Em contrário,** a honestidade (*Cf. Q[145]*) pertence à virtude. Ora, uma certa honestidade é observada no traje exterior; pois Ambrósio diz (De Offic. I, 19): “O corpo deve ser adornado naturalmente e sem afetação, com simplicidade, com negligência antes que com apuro, não com vestes custosas e vistosas, mas com roupas comuns, de modo que nada falte à honestidade e necessidade, nem se acrescente nada para aumentar sua beleza.” Logo, pode haver virtude e vício no traje exterior. **Respondo:** Não é nas próprias coisas exteriores que o homem usa que há vício, mas da parte do homem que as usa desordenadamente. Esta desordem ocorre de duas maneiras. Primeiro, em comparação com os costumes daqueles entre os quais se vive; por isso diz Agostinho (Confiss. III, 8): “Aquelas ofensas que são contrárias aos costumes dos homens devem ser evitadas segundo os costumes geralmente vigentes, de modo que aquilo que foi acordado e confirmado pelo costume ou lei de qualquer cidade ou nação não seja violado pelo prazer desregrado de qualquer pessoa, seja cidadão ou estrangeiro. Pois toda parte que não se harmoniza com o seu todo é ofensiva.” Segundo, a falta de moderação no uso dessas coisas pode provir do apego desordenado do usuário, resultando que o homem às vezes se compraz demasiadamente em usá-las, seja segundo o costume daqueles entre os quais habita, seja contra tal costume. Daí diz Agostinho (De Doctr. Christ. III, 12): “Devemos evitar o prazer excessivo no uso das coisas, pois leva não somente a abusar perversamente do costume daqueles entre os quais vivemos, mas frequentemente a exceder seus limites, de modo que, enquanto esteve oculto sob a restrição da moral estabelecida, manifesta sua deformidade em uma erupção desregradíssima.” Em se tratando do excesso, este apego desordenado ocorre de três modos. Primeiro, quando alguém busca glória do cuidado excessivo com o traje; na medida em que o traje e tais coisas são um ornamento. Por isso Gregório diz (Hom. XL in Ev.): “Há alguns que pensam que o cuidado com a elegância e o traje custoso não é pecado. Certamente, se isto não fosse uma falta, a palavra de Deus não diria tão expressamente que o rico que foi atormentado no inferno se vestia de púrpura e linho fino. Ninguém, com efeito, busca vestes custosas” (tais que excedam sua condição) “senão por vanglória.” Segundo, quando alguém busca prazer sensual do cuidado excessivo com o traje; na medida em que o traje se ordena ao conforto do corpo. Terceiro, quando alguém é demasiado solícito (*Cf. Q[55], A[6]*) em seu cuidado com o traje exterior. Por conseguinte, Andrónico (*De Affect.*) enumera três virtudes em relação ao traje exterior: a saber, “humildade”, que exclui a busca da glória; por isso diz que a humildade é “o hábito de evitar despesas excessivas e ostentação”; “contentamento” (*Cf. Q[143], OBJ[4]*), que exclui a busca do prazer sensual; por isso diz que “o contentamento é o hábito que torna o homem satisfeito com o que é adequado e o capacita a determinar o que é decoroso em seu modo de vida” (segundo a palavra do Apóstolo, 1 Tim 6,8): “Tendo alimento e com que nos cobrir, contentemo-nos com isso”; — e “simplicidade”, que exclui a solicitude excessiva acerca de tais coisas; por isso diz que “a simplicidade é o hábito que torna o homem contente com o que tem.” Em se tratando da deficiência, pode haver apego desordenado de dois modos. Primeiro, pela negligência do homem em dar o estudo ou trabalho necessário ao uso do traje exterior. Por isso o Filósofo diz (Ética VII, 7) que “é sinal de efeminação deixar o manto arrastar no chão para evitar o trabalho de levantá-lo.” Segundo, buscando glória da própria falta de cuidado com o traje exterior. Daí diz Agostinho (De Serm. Dom. in Monte II, 12) que “não só o brilho e a pompa das coisas exteriores, mas até a sujeira e as vestes de luto podem ser objeto de ostentação, tanto mais perigosa quanto é uma isca sob o disfarce do serviço de Deus”; e o Filósofo diz (Ética IV, 7) que “tanto o excesso como o defeito desordenado são objeto de ostentação.” **Resposta à Objeção 1:** Embora o traje exterior não venha da natureza, pertence à razão natural moderá-lo; de modo que somos naturalmente inclinados a ser receptores da virtude que modera o vestuário exterior. **Resposta à Objeção 2:** Aqueles que são colocados em posição de dignidade, ou ainda os ministros do altar, vestem-se com trajes mais custosos que os outros, não por causa de sua própria glória, mas para indicar a excelência de seu ofício ou do culto divino; por isso não é pecaminoso neles. Daí diz Agostinho (De Doctr. Christ. III, 12): “Quem usa as coisas exteriores de modo a exceder os limites observados pelas pessoas boas entre as quais habita, ou significa algo com isso, ou é culpado de pecado, na medida em que usa essas coisas para prazer sensual ou ostentação.” Da mesma forma, pode haver pecado por parte da deficiência, embora nem sempre seja pecado usar roupas mais grosseiras que as dos outros. Pois, se isto é feito por ostentação ou soberba, para se colocar acima dos outros, é pecado de superstição; ao passo que, se for feito para domar a carne ou humilhar o espírito, pertence à virtude da temperança. Daí diz Agostinho (De Doctr. Christ. III, 12): “Quem usa as coisas transitórias com maior moderação do que é costume entre aqueles entre os quais habita, ou é temperante ou supersticioso.” Especialmente, porém, o uso de vestes grosseiras é conveniente para aqueles que, por palavra e exemplo, exortam outros à penitência, como fizeram os profetas de quem o Apóstolo fala na passagem citada. Por isso uma glosa sobre Mt 3,4 diz: “Quem prega a penitência, usa a veste da penitência.” **Resposta à Objeção 3:** Este traje exterior é uma indicação da condição do homem; por isso o excesso, a deficiência e o meio-termo referem-se à virtude da veracidade, que o Filósofo (Ética II, 7) atribui às ações e palavras, que são indícios de algo relacionado à condição do homem.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether there can be virtue and vice in connection with outward apparel? · séc. XIII
tradução automáticaObjeção 1: Parece que não é lícito aos religiosos usar vestes mais grosseiras que os outros. Pois, segundo o Apóstolo (1 Ts 5,22), devemos “abster-nos de toda aparência do mal”. Ora, a grosseria das vestes tem aparência do mal; pois o Senhor disse (Mt 7,15): “Acautelai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós vestidos como ovelhas”; e uma glosa sobre Apoc 6,8: “Eis um cavalo pálido”, diz: “O diabo, vendo que não pode ter êxito nem por aflições exteriores nem por heresias manifestas, envia adiante falsos irmãos, que sob o disfarce da religião assumem as características dos cavalos preto e vermelho, corrompendo a fé.” Portanto, parece que os religiosos não devem usar vestes grosseiras. Objeção 2: Além disso, Jerônimo diz (Ep. lii a Nepociano): “Evita o sombrio, isto é, o preto, igualmente com as vestes brilhantes. As vestes finas e as grosseiras devem ser igualmente evitadas, pois umas exalam prazer, as outras vanglória.” Ora, como a vanglória é pecado mais grave que o uso do prazer, parece que os religiosos, que devem visar ao que é mais perfeito, deveriam evitar antes as vestes grosseiras do que as finas. Objeção 3: Além disso, os religiosos devem visar especialmente a fazer obras de penitência. Ora, nas obras de penitência devemos usar não sinais exteriores de tristeza, mas antes sinais de alegria; pois o Senhor disse (Mt 6,16): “Quando jejuares, não sejas como os hipócritas, tristes”, e depois acrescentou: “Porém tu, quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto.” Agostinho, comentando estas palavras (Do Sermão do Senhor no Monte, ii, 12): “Neste capítulo devemos observar que não só o brilho e a pompa das coisas exteriores, mas até mesmo as vestes de luto podem ser objeto de ostentação, tanto mais perigosa quanto é um engodo sob o disfarce do serviço de Deus.” Portanto, aparentemente os religiosos não devem usar vestes grosseiras. Em contrário, diz o Apóstolo (Hb 11,37): “Andaram errantes em peles de ovelhas e em peles de cabras”, e acrescenta uma glosa: “como Elias e outros”. Além disso, diz-se no Decretal XXI, qu. iv, cân. Omnis jactantia: “Se algumas pessoas forem encontradas a zombar daqueles que usam vestes grosseiras e religiosas, devem ser repreendidas. Pois nos primeiros tempos todos os que eram consagrados a Deus andavam com vestes comuns e grosseiras.” Respondo que, como diz Agostinho (Da Doutrina Cristã, iii, 12), “em todas as coisas exteriores, não é o uso, mas a intenção do usuário que está em falta”. Para julgar isto, é necessário observar que a veste grosseira e humilde pode ser considerada de dois modos. Primeiro, como sinal da disposição ou condição do homem, porque segundo Eclo 19,27, “o traje do homem mostra o que ele é”. Deste modo, a grosseria do traje é às vezes sinal de tristeza; por isso os que são afligidos pela tristeza costumam usar vestes mais grosseiras, assim como, por outro lado, em tempos de festa e alegria usam vestes mais finas. Por isso os penitentes usam vestes grosseiras, por exemplo, o rei (Jn 3,6) que “se vestiu de saco”, e Acabe (3 Rs 21,27) que “pôs cilício sobre a sua carne”. Às vezes, porém, é sinal de desprezo das riquezas e da ostentação mundana. Por isso Jerônimo diz (Ep. cxxv a Rústico Monge): “Que teu traje sombrio indique a pureza de tua mente, tua veste grosseira prove teu desprezo do mundo, contanto que tua mente não se infle com isso, para que tuas palavras não desmintam o teu hábito.” Em ambas estas maneiras é conveniente que os religiosos usem vestes grosseiras, pois a religião é um estado de penitência e de desprezo da glória mundana. Mas que uma pessoa queira significar isto a outros nasce de três motivos. Primeiro, para se humilhar: pois assim como a mente do homem se eleva com vestes finas, assim se humilha com vestes humildes. Por isso, falando de Acabe que “pôs cilício sobre a sua carne”, disse o Senhor a Elias: “Não viste Acabe humilhado diante de mim?” (3 Rs 21,29). Segundo, para dar exemplo aos outros; por isso uma glosa sobre Mt 3,4: “(João) tinha as suas vestes de pelos de camelo”, diz: “Aquele que prega a penitência está vestido com o hábito da penitência.” Terceiro, por causa da vanglória; assim Agostinho diz (cf. OBJ[3]) que “até as vestes de luto podem ser objeto de ostentação.” Portanto, nas duas primeiras maneiras é louvável usar vestes humildes, mas na terceira maneira é pecaminoso. Segundo, a veste grosseira e humilde pode ser considerada como resultado da avareza ou negligência, e assim também é pecaminosa. Resposta à primeira objeção: A grosseria do traje não tem por si mesma a aparência do mal; antes, tem mais a aparência do bem, ou seja, do desprezo da glória mundana. Por isso é que os ímpios escondem a sua maldade sob vestes grosseiras. Por isso Agostinho diz (Do Sermão do Senhor no Monte, ii, 24) que “as ovelhas não devem desgostar de sua veste pelo fato de que os lobos às vezes se escondem debaixo dela.” Resposta à segunda objeção: Jerônimo fala ali da veste grosseira que é usada por causa da glória humana. Resposta à terceira objeção: Segundo o ensinamento do Senhor, os homens não devem fazer obras de santidade para serem vistos; e isto é especialmente o caso quando se faz algo estranho. Por isso Crisóstomo [*Hom. xiii in Matth. no Opus Imperfectum, falsamente atribuído a São João Crisóstomo] diz: “Enquanto ora, um homem não deve fazer nada de estranho, para atrair o olhar dos outros, seja gritando, batendo no peito ou levantando as mãos”, porque a própria estranheza chama a atenção das pessoas para ele. No entanto, a culpa não se atribui a todo comportamento estranho que atrai a atenção das pessoas, pois pode ser bem ou mal feito. Por isso Agostinho diz (Do Sermão do Senhor no Monte, ii, 12) que “na prática da religião cristã, quando um homem chama a atenção para si por uma incomum sujidade e desalinho, visto que age assim voluntariamente e não por necessidade, podemos deduzir de suas outras ações se seu comportamento é motivado pelo desprezo do vestuário excessivo ou por afetação.” Os religiosos, porém, parecem especialmente não agir assim por afetação, pois usam um hábito grosseiro como sinal de sua profissão, pela qual professam o desprezo do mundo.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 6 - Whether it is lawful for religious to wear coarser clothes than others? · séc. XIII
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