Trechos em que os Padres comentam diretamente esta passagem ou o seu contexto imediato.
A
Santo Agostinho
E as almas dos que foram mortos clamam por vingança; assim como o sangue de Abel clamava da terra não com voz, mas em espírito. Como se diz que a obra louva o operário, quando este se deleita ao contemplá-la; pois os santos não são tão impacientes a ponto de apressar aquilo que sabem haver de cumprir-se ao tempo determinado.
Hil. Quaest. V. and N. Test. q. 68 · Hil. Quaest. V. and N. Test. q. 68 · séc. V
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A
Santo Agostinho
Que pelo mandamento «Amarás o teu próximo» se entendesse todo o gênero humano, mostrou-o o Senhor na parábola do homem que foi deixado meio morto, a qual nos ensina que nosso próximo é todo aquele que a qualquer tempo possa vir a necessitar de nossos ofícios de misericórdia; e quem não vê que isto a ninguém deve ser negado, quando o Senhor diz: «Fazei bem aos que vos aborrecem.»
de Doctr. Christ. · de Doctr. Christ., i, 30 · séc. V
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GM
São Gregório Magno
O amor ao inimigo observa-se então, quando não nos entristecemos com o seu êxito, nem nos alegramos com a sua queda. Odiamos aquele a quem não desejamos ver melhorado, e perseguimos com más vontades a prosperidade do homem em cuja queda nos regozijamos. Contudo, pode amiúde acontecer que, sem nenhum sacrifício da caridade, a queda de um inimigo nos alegre, e novamente a sua exaltação nos entristeça, sem suspeita alguma de inveja; isto é, quando, por sua queda, algum homem digno é elevado, ou, por seu êxito, algum imerecidamente é abatido. Mas nisto há de observar-se estrita medida de discernimento, para que, seguindo os nossos próprios ódios, não os ocultemos de nós mesmos sob o especioso pretexto do benefício alheio. Devemos pesar quanto devemos à queda do pecador, e quanto à justiça do Juiz. Pois, quando o Onipotente fere algum pecador endurecido, devemos ao mesmo tempo engrandecer a sua justiça como Juiz, e condoer-nos do sofrimento do outro que perece.
Mor. · Mor., xxii, 11 · séc. VII
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A
Santo Agostinho
Estes, em verdade, são exemplos dos filhos perfeitos de Deus; contudo, a isto deve aspirar todo crente, e buscar, pela oração a Deus e pela luta consigo mesmo, elevar o seu espírito humano a esse alvo. Todavia, este tão grande benefício não é concedido a todas aquelas multidões que cremos serem ouvidas quando oram: "Perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores."
Enchir. · Enchir., 73 · séc. V
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A
Santo Agostinho
Mas, assim como O louvamos pelos seus dons, consideremos também como Ele castiga aqueles a quem ama. Pois nem todo aquele que poupa é amigo, nem todo aquele que castiga é inimigo; é melhor amar com severidade do que usar de brandura com que se engana.
Epist. · Epist., 93, 2 · séc. V
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A
Santo Agostinho
Pergunto aos maniqueus por que quereriam ser próprio da Lei Mosaica aquilo que foi dito pelos antigos: "Odiarás o teu inimigo." Não disse Paulo de certos homens que eram odiosos a Deus? Devemos, pois, indagar como podemos entender que, segundo o exemplo de Deus, a quem o Apóstolo aqui afirma serem alguns homens odiosos, os nossos inimigos hão de ser odiados; e novamente, segundo o mesmo modelo daquele "Que faz nascer o seu sol sobre os maus e os bons," os nossos inimigos hão de ser amados. Eis, pois, a regra pela qual podemos ao mesmo tempo odiar o nosso inimigo por causa do mal que nele há, isto é, a sua iniquidade, e amá-lo por causa do bem que nele há, isto é, a sua parte racional. Isto, pois, assim proferido pelos antigos, sendo ouvido, mas não entendido, arrastou os homens ao ódio dos homens, quando nada deveriam odiar senão o vício. A tais corrige o Senhor, ao prosseguir, dizendo: "Eu vos digo: Amai os vossos inimigos." Aquele que acabara de declarar que viera "não para subverter a Lei, mas para a cumprir," mandando-nos amar os nossos inimigos, conduziu-nos ao entendimento de como podemos ao mesmo tempo odiar pelos seus pecados o mesmo homem a quem amamos pela sua natureza humana.
cont. Faust. · cont. Faust., xix, 24 · séc. V
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A
Santo Agostinho
Pois o homem bom não se ensoberbece com os bens mundanos, nem se abate com a calamidade mundana. Mas o homem mau é punido nas perdas temporais, porque se corrompe com os ganhos temporais. Ou, por outra razão, quereria Ele que os bens e os males fossem comuns a ambos os gêneros de homens, para que os bens não fossem buscados com veemente desejo, sendo eles gozados ainda pelos ímpios; nem os males vergonhosamente evitados, quando ainda os justos por eles são afligidos.
City of God · City of God, book 1, ch. 8 · séc. V
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A
Santo Agostinho
Que havia graus na justiça dos fariseus, a qual estava sob a antiga Lei, vê-se nisto, que muitos odiavam mesmo aqueles por quem eram amados. Aquele, pois, que ama o seu próximo, subiu um grau, ainda que odeie o seu inimigo; o que se exprime naquilo: "e odiarás o teu inimigo;" o que não se deve entender como mandamento aos justificados, mas como concessão aos fracos.
Serm. in Mont. · Serm. in Mont., i, 21 · séc. V
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A
Santo Agostinho
Aqui surge uma questão, a saber, que este mandamento do Senhor, pelo qual nos manda orar pelos nossos inimigos, parece oposto por muitas outras partes da Escritura. Nos Profetas acham-se muitas imprecações sobre os inimigos; tal como aquela do Salmo 108: "Tornem-se órfãos os seus filhos." Mas deve saber-se que os Profetas costumam predizer as coisas futuras sob a forma de oração ou desejo. Tem maior peso, como dificuldade, o dizer João: "Há um pecado para a morte, e por esse não digo que ele ore;" mostrando claramente que há alguns irmãos por quem não nos manda orar; pois o que precedia era: "Se alguém sabe que o seu irmão comete um pecado, etc." Contudo, o Senhor manda-nos orar pelos nossos perseguidores. Esta questão só pode resolver-se se admitirmos que há nos irmãos alguns pecados mais graves do que o pecado da perseguição em nossos inimigos. Pois assim Estêvão ora por aqueles que o apedrejavam, porque ainda não haviam crido em Cristo; mas o Apóstolo Paulo não ora por Alexandre, ainda que fosse irmão, mas havia pecado, atacando a fraternidade por inveja. Mas por quem não orais, nem por isso orais contra ele. Que diremos, então, daqueles contra os quais sabemos que os santos oraram, e não para que fossem corrigidos (pois isso seria antes orar por eles), mas para a sua eterna condenação; não como aquela oração do Profeta contra o traidor do Senhor, pois essa é uma profecia do futuro, não uma imprecação de castigo; mas como, quando lemos no Apocalipse a oração dos Mártires, para que sejam vingados? Mas não devemos deixar que isto nos abale. Pois quem ousará afirmar que oraram contra aquelas próprias pessoas, e não contra o reino do pecado? Pois isso seria uma vingança ao mesmo tempo justa e misericordiosa dos Mártires, derrubar aquele reino do pecado, sob cuja continuação suportaram todos aqueles males. E ele é derrubado pela correção de alguns, e pela condenação dos que permanecem no pecado. Não vos parece que Paulo vingou Estêvão no seu próprio corpo, quando diz: "Castigo o meu corpo, e o reduzo à servidão"?
Serm. in Mont. · Serm. in Mont., i, 21 · séc. V
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A
Santo Agostinho
Segundo aquela regra devemos aqui entender, de que fala João: "Deu-lhes poder de serem feitos filhos de Deus." Um é seu Filho por natureza; nós somos feitos filhos pelo poder que recebemos; isto é, na medida em que cumprimos aquelas coisas que nos são mandadas. Por isso não diz: Fazei estas coisas porque sois filhos; mas, fazei estas coisas para que vos torneis filhos. Chamando-nos, pois, a isto, chama-nos à sua semelhança, pois diz: "Faz nascer o seu sol sobre os justos e os injustos." Pelo sol podemos entender não este visível, mas aquele de que se diz: "A vós, que temeis o nome do Senhor, nascerá o Sol da justiça;" e pela chuva, a água da doutrina da verdade; pois Cristo foi visto, e foi pregado tanto aos bons como aos maus.
Serm. in Mont. · Serm. in Mont., i, 23 · séc. V
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GO
Glossa Ordinária
Mas deve saber-se que em todo o corpo da Lei em parte alguma está escrito: Odiarás o teu inimigo. Mas isto há de referir-se à tradição dos Escribas, que julgaram bom acrescentar isto à Lei, porque o Senhor mandou aos filhos de Israel que perseguissem os seus inimigos, e destruíssem a Amalec debaixo do céu.
Glossa Ordinaria · ord
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GO
Glossa Ordinária
Os que se levantam contra a Igreja a combatem de três modos: com ódio, com palavras e com tormentos corporais. A Igreja, por sua vez, ama-os, como aqui se diz: "Amai os vossos inimigos;" faz-lhes o bem, como se diz: "Fazei bem aos que vos odeiam;" e ora por eles, como se diz: "Orai pelos que vos perseguem e vos acusam falsamente."
Glossa Ordinaria · ord
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HP
Santo Hilário de Poitiers
Ou então, o sol e a chuva referem-se ao batismo pela água e pelo Espírito.
séc. IV
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RM
Beato Rabano Mauro
Se, pois, os pecadores são levados pela natureza a mostrar bondade para com os que os amam, com quanto maior demonstração de afeto não deveis vós abraçar mesmo aqueles que não vos amam? Porque segue-se: "Não fazem os publicanos também isto?" "Os publicanos" são aqueles que recolhem os impostos públicos; ou talvez aqueles que perseguem os negócios públicos ou o lucro deste mundo.
séc. IX
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RM
Beato Rabano Mauro
Ethnici, isto é, os gentios, pois a palavra grega é traduzida por 'gens' em latim; aqueles, isto é, que permanecem tais quais nasceram, a saber, sob o pecado.
séc. IX
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A
Santo Agostinho
Ou podemos tomá-lo deste sol visível, e da chuva pela qual os frutos são nutridos, como lamentam os ímpios no livro da Sabedoria: "O sol não nasceu para nós." E da chuva se diz: "Mandarei às nuvens que não chovam sobre ela." Mas, seja isto ou aquilo, é da grande bondade de Deus, que se apresenta para nossa imitação. Não diz "o sol", mas "o seu sol", isto é, o sol que Ele mesmo fez, para que daqui sejamos admoestados de quão grande liberalidade devemos suprir aquelas coisas que não criamos, mas recebemos como dádiva dele.
séc. V
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GO
Glossa Ordinária
O Senhor ensinou acima que não devemos resistir a quem nos faz alguma injúria, mas devemos estar prontos a sofrer ainda mais; agora exige, além disso, que mostremos aos que nos fazem mal tanto o amor como os seus efeitos. E assim como as coisas que precederam pertencem à consumação da justiça da Lei, do mesmo modo este último preceito há de referir-se à consumação da lei do amor, que, segundo o Apóstolo, é o cumprimento da Lei.
Glossa · non occ
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GO
Glossa Ordinária
Amar aquele que nos ama é da natureza, mas amar o nosso inimigo é da caridade. "Se amais os que vos amam, que recompensa tereis?" a saber, no céu. Nenhuma, em verdade, pois de tais se diz: "Recebestes a vossa recompensa." Mas estas coisas devemos fazer, e não deixar as outras por fazer.
Glossa · non occ
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GO
Glossa Ordinária
Mas se orais somente pelos que são vossos parentes, que mais tem a vossa benevolência do que a dos incrédulos? A saudação é uma espécie de oração.
Glossa · non occ
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J
São Jerônimo
Muitos, medindo os mandamentos de Deus por sua própria fraqueza, e não pela força dos santos, têm estes preceitos por impossíveis, e dizem que é virtude bastante não odiar os nossos inimigos; mas amá-los é um mandamento que excede a natureza humana cumprir. Cumpre, porém, entender que Cristo não impõe impossibilidades, mas a perfeição. Tal foi a disposição de Davi para com Saul e Absalão; o mártir Estêvão também orou por seus inimigos enquanto o apedrejavam, e Paulo desejava ser ele mesmo anátema pelos seus perseguidores. Jesus tanto ensinou como praticou o mesmo, dizendo: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem."
séc. V
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J
São Jerônimo
Pois quem guarda os mandamentos de Deus por isso se torna filho de Deus; aquele, pois, de quem aqui fala não é por natureza seu filho, mas pela sua própria vontade.
séc. V
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RA
Remígio de Auxerre
Porquanto a suma perfeição do amor não pode ir além do amor aos inimigos, por isso, logo que o Senhor nos manda amar os nossos inimigos, prossegue: "Sede pois perfeitos, assim como vosso Pai celestial é perfeito." Ele, na verdade, é perfeito por ser onipotente; o homem, por ser ajudado pelo Onipotente. Pois a palavra "assim como" emprega-se na Escritura ora para exprimir identidade e igualdade, como naquilo: "Assim como estive com Moisés, assim estarei contigo;" ora para exprimir somente semelhança, como aqui.
séc. X
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JC
São João Crisóstomo
Nota por quais degraus subimos agora até aqui, e como Ele nos colocou no próprio cume da virtude. O primeiro degrau é não começar a fazer mal a ninguém; o segundo, que ao vingar um mal que nos foi feito nos contentemos em retribuir igual; o terceiro, nada devolver do que sofremos; o quarto, oferecer-se ao suporte do mal; o quinto, estar pronto a sofrer ainda mais mal do que o opressor deseja infligir; o sexto, não odiar aquele de quem tais coisas sofremos; o sétimo, amá-lo; o oitavo, fazer-lhe o bem; o nono, orar por ele. E porque grande é o mandamento, grande também é a recompensa proposta, a saber, ser feito semelhante a Deus: "Sereis filhos de vosso Pai que está nos céus."
séc. V
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JC
São João Crisóstomo
Assim como aquilo, Não cobiçarás, não foi dito à carne, mas ao espírito, assim também neste preceito a carne não é capaz de amar o seu inimigo, mas o espírito o é; porque o amor e o ódio da carne estão no sentido, mas os do espírito estão no entendimento. Se pois sentimos ódio para com aquele que nos fez agravo, e contudo não queremos proceder segundo esse sentimento, saibamos que a nossa carne odeia o nosso inimigo, mas a nossa alma o ama.
Opus Imperfectum in Matthaeum · séc. V
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JC
São João Crisóstomo
Teve o cuidado de dizer: "Sobre os justos e os injustos;" porque Deus concede todos os bens não por amor dos homens, mas por amor dos santos, assim como também os castigos por causa dos pecadores. Ao outorgar os seus bens, não separa os pecadores dos justos, para que não desesperem; assim como nos seus castigos, não separa os justos dos pecadores, para que não se ensoberbeçam; e tanto mais, quanto os maus não tiram proveito dos bens que recebem, mas os convertem em seu prejuízo pela sua vida iníqua; nem os bons são prejudicados pelos males, mas antes deles tiram proveito para acréscimo de justiça.
Opus Imperfectum in Matthaeum · séc. V
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JC
São João Crisóstomo
Pois assim como os nossos filhos segundo a carne se assemelham a seus pais nalguma parte da figura corporal, assim os filhos espirituais se assemelham a seu pai Deus na santidade.
Opus Imperfectum in Matthaeum · séc. V
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Citações internas
4
Trechos em que este versículo aparece citado dentro de outro argumento patrístico.
J
São Jerônimo
Ou «boca de lâmpada», isto é, aquele que pode lançar luz pela sua boca sobre o que concebeu no coração, a quem o Senhor deu a abertura da boca, que difundia luz. Sabemos que este modo de falar pertence à Santa Escritura; pois os nomes hebraicos são postos a fim de insinuar um mistério.
Segue-se: «E Bartolomeu», que significa «filho daquele que suspende as águas»; daquele, isto é, que disse: «Eu também mandarei às nuvens que não derramem chuva sobre ela» [Is 5,6]. Mas o nome de filho de Deus obtém-se pela paz e pelo amor ao inimigo; pois: «Bem-aventurados os pacíficos, porque eles serão chamados filhos de Deus» [Mt 5,9]. E: «Amai os vossos inimigos, para que sejais filhos de vosso Pai» [cf. Mt 5,44-45].
Segue-se: «E Mateus», isto é, «dado»; a quem foi dado pelo Senhor não só obter a remissão dos pecados, mas também ser inscrito no número dos Apóstolos. «E Tomé», que significa «abismo»; pois os homens que têm conhecimento pelo poder de Deus propõem muitas coisas profundas.
Prossegue: «E Tiago, filho de Alfeu», isto é, «do douto» ou «do milésimo», ao lado do qual cairão mil [Sl 91,7]. Este outro Tiago é aquele cuja luta não é contra a carne e o sangue, mas contra as potestades espirituais da maldade [Ef 6,12].
Segue-se: «E Tadeu», isto é, «corculum», que significa «o que guarda o coração»; aquele que guarda o seu coração com toda a vigilância.
séc. V
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TA
Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que a Igreja deve em todos os casos receber os que voltam da heresia. Porque está escrito (Jer 3,1) na pessoa do Senhor: «Prostituíste-te a muitos amantes; todavia, volta para Mim, diz o Senhor.» Ora, a sentença da Igreja é a sentença de Deus, conforme Dt 1,17: «Ouvireis tanto o pequeno como o grande; nem respeitareis a pessoa de ninguém, porque é o juízo de Deus.» Portanto, até mesmo os culpados da prostituição da incredulidade, que é a prostituição espiritual, devem ser recebidos da mesma forma.
Objeção 2: Além disso, Nosso Senhor ordenou a Pedro (Mt 18,22) que perdoasse a seu irmão ofensor «não» apenas «até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes», o que Jerônimo expõe como significando que «um homem deve ser perdoado, quantas vezes houver pecado». Portanto, deve ser recebido pela Igreja quantas vezes houver pecado, recaindo na heresia.
Objeção 3: Além disso, a heresia é uma espécie de incredulidade. Ora, os outros incrédulos que desejam converter-se são recebidos pela Igreja. Logo, também os hereges devem ser recebidos.
Em contrário, a Decretal *Ad abolendam* (*De Haereticis*, cap. ix) diz que «os que forem encontrados a ter recaído no erro que já haviam abjurado, devem ser deixados ao tribunal secular». Portanto, não devem ser recebidos pela Igreja.
Respondo que, em obediência à instituição de Nosso Senhor, a Igreja estende a sua caridade a todos, não só aos amigos, mas também aos inimigos que a perseguem, conforme Mt 5,44: «Amai vossos inimigos; fazei bem aos que vos odeiam.» Ora, é próprio da caridade que devamos querer e obrar o bem do próximo. Ademais, o bem é duplo: um é espiritual, a saber, a saúde da alma, bem que é principalmente objeto da caridade, pois é este principalmente que devemos desejar uns para os outros. Consequentemente, deste ponto de vista, os hereges que voltam após cair, não importa quantas vezes, são admitidos pela Igreja à Penitência, pela qual se lhes abre o caminho da salvação.
O outro bem é o que a caridade considera secundariamente, isto é, o bem temporal, como a vida do corpo, os bens mundanos, a boa reputação, a dignidade eclesiástica ou secular, pois não somos obrigados pela caridade a desejar aos outros este bem, exceto em relação à salvação eterna deles e dos outros. Portanto, se a presença de um destes bens em um indivíduo puder ser um obstáculo para a salvação eterna de muitos, não somos obrigados por caridade a desejar tal bem a essa pessoa, antes devemos desejar que dela esteja ausente, tanto porque a salvação eterna precede o bem temporal, como porque o bem de muitos deve ser preferido ao bem de um só.
Ora, se os hereges fossem sempre recebidos ao voltar, para salvar suas vidas e outros bens temporais, isto poderia ser prejudicial à salvação dos outros, tanto porque infectariam outros se recaíssem novamente, como porque, se escapassem sem castigo, outros se sentiriam mais seguros em cair na heresia. Pois está escrito (Ecl 8,11): «Porque a sentença não é pronunciada prontamente contra os maus, os filhos dos homens cometem males sem nenhum temor.»
Por esta razão, a Igreja não só admite à Penitência os que voltam da heresia pela primeira vez, mas também lhes protege a vida, e às vezes por dispensa, os restitui às dignidades eclesiásticas que antes possuíam, se a sua conversão parecer sincera: lemos que isto foi feito frequentemente para o bem da paz. Mas quando caem novamente, depois de terem sido recebidos, isto parece provar que são inconstantes na fé, pelo que, quando voltam de novo, são admitidos à Penitência, mas não são livrados da pena de morte.
Resposta à Objeção 1: No tribunal de Deus, os que voltam são sempre recebidos, porque Deus é esquadrinhador dos corações e conhece os que voltam com sinceridade. Mas a Igreja não pode imitar a Deus nisto, pois presume que os que recaem depois de recebidos uma vez não são sinceros no seu retorno; por isso não lhes fecha o caminho da salvação, mas também não os protege da sentença de morte.
Resposta à Objeção 2: Nosso Senhor falava a Pedro dos pecados cometidos contra si mesmo, pois devemos sempre perdoar tais ofensas e poupar nosso irmão quando se arrepende. Estas palavras não devem ser aplicadas aos pecados cometidos contra o próximo ou contra Deus, pois não fica ao nosso arbítrio perdoar tais ofensas, como diz Jerônimo sobre Mt 18,15: «Se teu irmão pecar contra ti.» Contudo, mesmo nesta matéria, a lei prescreve limites segundo o que exige a honra de Deus ou o bem do próximo.
Resposta à Objeção 3: Quando outros incrédulos, que nunca receberam a fé, se convertem, ainda não mostram sinais de inconstância na fé, como fazem os hereges recaídos; logo, a comparação não procede.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 4 - Whether the Church should receive those who return from heresy? · séc. XIII
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TA
Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a caridade não é amizade. Pois nada é tão próprio da amizade como conviver com o amigo, segundo o Filósofo (Ética, VIII, 5). Ora, a caridade é do homem para com Deus e os anjos, "cuja morada não está com os homens" (Dn 2,11). Logo, a caridade não é amizade.
**Objeção 2:** Além disso, não há amizade sem reciprocidade de amor (Ética, VIII, 2). Mas a caridade estende-se até aos inimigos, conforme Mt 5,44: "Amai a vossos inimigos". Logo, a caridade não é amizade.
**Objeção 3:** Ademais, segundo o Filósofo (Ética, VIII, 3), há três espécies de amizade: a que visa o deleitável, a que visa o útil e a que visa o virtuoso. Ora, a caridade não é amizade pelo útil ou deleitável; pois Jerônimo, na sua carta a Paulino que se encontra no princípio da Bíblia, diz: "A verdadeira amizade, consolidada por Cristo, é aquela em que os homens são atraídos, não por interesses domésticos, não pela mera presença corporal, não por lisonja astuta e enganosa, mas pelo temor de Deus e pelo estudo das Divinas Escrituras." Tampouco é amizade pelo virtuoso, pois pela caridade amamos até os pecadores, ao passo que a amizade fundada na virtude só existe entre os virtuosos (Ética, VIII). Logo, a caridade não é amizade.
**Em contrário,** está escrito (Jo 15,15): "Já vos não chamarei servos... mas amigos". Ora, isto lhes foi dito unicamente por causa da caridade. Portanto, a caridade é amizade.
**Respondo que,** segundo o Filósofo (Ética, VIII, 2.3), nem todo amor tem o caráter de amizade, mas somente o amor que é acompanhado de benevolência, a saber, quando amamos alguém de modo a lhe querer o bem. Se, porém, não queremos o bem àquilo que amamos, mas queremos o seu bem para nós (assim como se diz que amamos o vinho, ou um cavalo, ou algo semelhante), tal amor não é de amizade, mas de uma espécie de concupiscência. Pois seria absurdo falar de amizade para com o vinho ou para com um cavalo.
Contudo, a benevolência não basta para a amizade, pois é necessário um amor mútuo, já que a amizade se dá entre amigo e amigo; e essa benevolência se funda em alguma comunicação.
Assim, visto haver uma comunicação entre o homem e Deus, na medida em que Ele nos comunica a sua felicidade, é necessário que sobre essa mesma comunicação se funde alguma amizade, da qual está escrito (1Cor 1,9): "Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados à comunhão de seu Filho." O amor que se funda nesta comunicação é a caridade; donde é evidente que a caridade é a amizade do homem para com Deus.
**Resposta à objeção 1:** Dupla é a vida do homem. Uma é a vida exterior, relativa à sua natureza sensível e corpórea; e, no que respeita a esta vida, não há comunicação ou sociedade entre nós e Deus ou os anjos. A outra é a vida espiritual do homem, relativa ao seu espírito; e, no que respeita a esta vida, há sociedade entre nós e Deus e os anjos, imperfeitamente, decerto, no estado presente da vida; por isso está escrito (Fl 3,20): "A nossa conversação está nos céus." Mas essa "conversação" será perfeita no céu, quando "os seus servos o servirão e verão a sua face" (Ap 22,3-4). Portanto, a caridade é imperfeita aqui, mas será perfeita no céu.
**Resposta à objeção 2:** A amizade se estende a uma pessoa de dois modos: primeiro, por respeito a ela mesma, e, assim, a amizade nunca se estende senão aos amigos; segundo, estende-se a alguém por respeito a outrem, como quando alguém tem amizade por uma certa pessoa e, por amor dela, ama todos os que lhe pertencem, sejam filhos, servos ou a ela ligados de qualquer maneira. De fato, tanto amamos os nossos amigos que, por amor deles, amamos todos os que lhes pertencem, ainda que nos ofendam ou odeiem; de modo que, assim, a amizade da caridade se estende até aos nossos inimigos, a quem, por caridade, amamos em relação a Deus, a quem a amizade da caridade principalmente se dirige.
**Resposta à objeção 3:** A amizade fundada na virtude não se dirige senão ao homem virtuoso como pessoa principal; mas, por amor dele, amamos aqueles que lhe pertencem, ainda que não sejam virtuosos. Desse modo, a caridade, que é acima de tudo amizade fundada na virtude, estende-se aos pecadores, a quem, por caridade, amamos por amor de Deus.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 1 - Whether charity is friendship? · séc. XIII
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TA
Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a caridade exige que o homem mostre ao seu inimigo os sinais ou efeitos do amor. Porque está escrito (1 Jo 3,18): "Não amemos de palavra nem de língua, mas por obras e em verdade." Ora, o homem ama por obras quando mostra àquele que ama os sinais e efeitos do amor. Logo, a caridade requer que o homem mostre a seus inimigos tais sinais e efeitos de amor.
**Objeção 2:** Demais, Nosso Senhor disse no mesmo passo (Mt 5,44): "Amai os vossos inimigos" e "Fazei bem aos que vos odeiam". Ora, a caridade exige que amemos os nossos inimigos. Logo, exige também que "façamos bem" a eles.
**Objeção 3:** Ademais, não só Deus, mas também o próximo é objeto da caridade. Ora, Gregório diz numa homilia de Pentecostes (In Evang. xxx) que "o amor de Deus não pode ser ocioso, porque onde quer que esteja, faz grandes coisas, e se cessa de obrar, já não é amor." Portanto, a caridade para com o próximo não pode existir sem produzir obras. Mas a caridade exige que amemos o próximo sem exceção, ainda que seja inimigo. Logo, a caridade exige que mostremos os sinais e efeitos de amor para com os nossos inimigos.
**Em contrário,** uma glosa sobre Mt 5,44, "Fazei bem aos que vos odeiam", diz: "Fazer bem aos inimigos é o cume da perfeição" [*Agostinho, Enquirídio lxxiii]. Ora, a caridade não exige que façamos aquilo que pertence à sua perfeição. Logo, a caridade não exige que mostremos os sinais e efeitos de amor a nossos inimigos.
**Respondo:** Os efeitos e sinais da caridade procedem do amor interior e lhe são proporcionais. Ora, é absolutamente necessário, para o cumprimento do preceito, que amemos interiormente os nossos inimigos *em geral*, mas não individualmente, a não ser quanto à disposição do ânimo para assim o fazer, como se explicou acima (A[8]).
Devemos, pois, aplicar isto à manifestação dos efeitos e sinais de amor. Porque alguns dos sinais e benefícios do amor se mostram aos nossos próximos *em geral*, como quando oramos por todos os fiéis, ou por todo um povo, ou quando alguém concede um favor a toda uma comunidade: e o cumprimento do preceito requer que mostremos tais benefícios ou sinais de amor para com os nossos inimigos. Porque, se não o fizéssemos, seria prova de rancor vingativo e contrário ao que está escrito (Lv 19,18): "Não busques vingança, nem te lembres da injúria dos teus concidadãos." Mas há outros benefícios ou sinais de amor, que se mostram a certas pessoas *em particular*: e não é necessário para a salvação que mostremos a nossos inimigos tais benefícios e sinais de amor, a não ser quanto à prontidão do ânimo, por exemplo, para lhes acudir em caso de urgência, conforme Pv 25,21: "Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber." Fora dos casos de urgência, mostrar tais benefícios a um inimigo pertence à perfeição da caridade, pela qual não só nos acautelamos, como somos obrigados, de ser vencidos pelo mal, mas também desejamos vencer o mal com o bem [*Rm 12,21], o que pertence à perfeição: porque então não só nos acautelamos de ser arrastados ao ódio por causa do dano recebido, mas também nos propomos a induzir o nosso inimigo a nos amar por causa da nossa benignidade.
**Isto basta para as respostas às objeções.**
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 9 - Whether it is necessary for salvation that we should show our enemies the signs and effects of love? · séc. XIII