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Mt 5, 48

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Matos Soares

48Sede pois perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito.

Matos Soares · domínio público

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Comentário direto

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Trechos em que os Padres comentam diretamente esta passagem ou o seu contexto imediato.

Santo Agostinho

E as almas dos que foram mortos clamam por vingança; assim como o sangue de Abel clamava da terra não com voz, mas em espírito. Como se diz que a obra louva o operário, quando este se deleita ao contemplá-la; pois os santos não são tão impacientes a ponto de apressar aquilo que sabem haver de cumprir-se ao tempo determinado.

Hil. Quaest. V. and N. Test. q. 68 · Hil. Quaest. V. and N. Test. q. 68 · séc. V

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Santo Agostinho

Que pelo mandamento «Amarás o teu próximo» se entendesse todo o gênero humano, mostrou-o o Senhor na parábola do homem que foi deixado meio morto, a qual nos ensina que nosso próximo é todo aquele que a qualquer tempo possa vir a necessitar de nossos ofícios de misericórdia; e quem não vê que isto a ninguém deve ser negado, quando o Senhor diz: «Fazei bem aos que vos aborrecem.»

de Doctr. Christ. · de Doctr. Christ., i, 30 · séc. V

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São Gregório Magno

O amor ao inimigo observa-se então, quando não nos entristecemos com o seu êxito, nem nos alegramos com a sua queda. Odiamos aquele a quem não desejamos ver melhorado, e perseguimos com más vontades a prosperidade do homem em cuja queda nos regozijamos. Contudo, pode amiúde acontecer que, sem nenhum sacrifício da caridade, a queda de um inimigo nos alegre, e novamente a sua exaltação nos entristeça, sem suspeita alguma de inveja; isto é, quando, por sua queda, algum homem digno é elevado, ou, por seu êxito, algum imerecidamente é abatido. Mas nisto há de observar-se estrita medida de discernimento, para que, seguindo os nossos próprios ódios, não os ocultemos de nós mesmos sob o especioso pretexto do benefício alheio. Devemos pesar quanto devemos à queda do pecador, e quanto à justiça do Juiz. Pois, quando o Onipotente fere algum pecador endurecido, devemos ao mesmo tempo engrandecer a sua justiça como Juiz, e condoer-nos do sofrimento do outro que perece.

Mor. · Mor., xxii, 11 · séc. VII

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Santo Agostinho

Estes, em verdade, são exemplos dos filhos perfeitos de Deus; contudo, a isto deve aspirar todo crente, e buscar, pela oração a Deus e pela luta consigo mesmo, elevar o seu espírito humano a esse alvo. Todavia, este tão grande benefício não é concedido a todas aquelas multidões que cremos serem ouvidas quando oram: "Perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores."

Enchir. · Enchir., 73 · séc. V

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Santo Agostinho

Mas, assim como O louvamos pelos seus dons, consideremos também como Ele castiga aqueles a quem ama. Pois nem todo aquele que poupa é amigo, nem todo aquele que castiga é inimigo; é melhor amar com severidade do que usar de brandura com que se engana.

Epist. · Epist., 93, 2 · séc. V

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Santo Agostinho

Pergunto aos maniqueus por que quereriam ser próprio da Lei Mosaica aquilo que foi dito pelos antigos: "Odiarás o teu inimigo." Não disse Paulo de certos homens que eram odiosos a Deus? Devemos, pois, indagar como podemos entender que, segundo o exemplo de Deus, a quem o Apóstolo aqui afirma serem alguns homens odiosos, os nossos inimigos hão de ser odiados; e novamente, segundo o mesmo modelo daquele "Que faz nascer o seu sol sobre os maus e os bons," os nossos inimigos hão de ser amados. Eis, pois, a regra pela qual podemos ao mesmo tempo odiar o nosso inimigo por causa do mal que nele há, isto é, a sua iniquidade, e amá-lo por causa do bem que nele há, isto é, a sua parte racional. Isto, pois, assim proferido pelos antigos, sendo ouvido, mas não entendido, arrastou os homens ao ódio dos homens, quando nada deveriam odiar senão o vício. A tais corrige o Senhor, ao prosseguir, dizendo: "Eu vos digo: Amai os vossos inimigos." Aquele que acabara de declarar que viera "não para subverter a Lei, mas para a cumprir," mandando-nos amar os nossos inimigos, conduziu-nos ao entendimento de como podemos ao mesmo tempo odiar pelos seus pecados o mesmo homem a quem amamos pela sua natureza humana.

cont. Faust. · cont. Faust., xix, 24 · séc. V

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Santo Agostinho

Pois o homem bom não se ensoberbece com os bens mundanos, nem se abate com a calamidade mundana. Mas o homem mau é punido nas perdas temporais, porque se corrompe com os ganhos temporais. Ou, por outra razão, quereria Ele que os bens e os males fossem comuns a ambos os gêneros de homens, para que os bens não fossem buscados com veemente desejo, sendo eles gozados ainda pelos ímpios; nem os males vergonhosamente evitados, quando ainda os justos por eles são afligidos.

City of God · City of God, book 1, ch. 8 · séc. V

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Santo Agostinho

Que havia graus na justiça dos fariseus, a qual estava sob a antiga Lei, vê-se nisto, que muitos odiavam mesmo aqueles por quem eram amados. Aquele, pois, que ama o seu próximo, subiu um grau, ainda que odeie o seu inimigo; o que se exprime naquilo: "e odiarás o teu inimigo;" o que não se deve entender como mandamento aos justificados, mas como concessão aos fracos.

Serm. in Mont. · Serm. in Mont., i, 21 · séc. V

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Santo Agostinho

Aqui surge uma questão, a saber, que este mandamento do Senhor, pelo qual nos manda orar pelos nossos inimigos, parece oposto por muitas outras partes da Escritura. Nos Profetas acham-se muitas imprecações sobre os inimigos; tal como aquela do Salmo 108: "Tornem-se órfãos os seus filhos." Mas deve saber-se que os Profetas costumam predizer as coisas futuras sob a forma de oração ou desejo. Tem maior peso, como dificuldade, o dizer João: "Há um pecado para a morte, e por esse não digo que ele ore;" mostrando claramente que há alguns irmãos por quem não nos manda orar; pois o que precedia era: "Se alguém sabe que o seu irmão comete um pecado, etc." Contudo, o Senhor manda-nos orar pelos nossos perseguidores. Esta questão só pode resolver-se se admitirmos que há nos irmãos alguns pecados mais graves do que o pecado da perseguição em nossos inimigos. Pois assim Estêvão ora por aqueles que o apedrejavam, porque ainda não haviam crido em Cristo; mas o Apóstolo Paulo não ora por Alexandre, ainda que fosse irmão, mas havia pecado, atacando a fraternidade por inveja. Mas por quem não orais, nem por isso orais contra ele. Que diremos, então, daqueles contra os quais sabemos que os santos oraram, e não para que fossem corrigidos (pois isso seria antes orar por eles), mas para a sua eterna condenação; não como aquela oração do Profeta contra o traidor do Senhor, pois essa é uma profecia do futuro, não uma imprecação de castigo; mas como, quando lemos no Apocalipse a oração dos Mártires, para que sejam vingados? Mas não devemos deixar que isto nos abale. Pois quem ousará afirmar que oraram contra aquelas próprias pessoas, e não contra o reino do pecado? Pois isso seria uma vingança ao mesmo tempo justa e misericordiosa dos Mártires, derrubar aquele reino do pecado, sob cuja continuação suportaram todos aqueles males. E ele é derrubado pela correção de alguns, e pela condenação dos que permanecem no pecado. Não vos parece que Paulo vingou Estêvão no seu próprio corpo, quando diz: "Castigo o meu corpo, e o reduzo à servidão"?

Serm. in Mont. · Serm. in Mont., i, 21 · séc. V

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Santo Agostinho

Segundo aquela regra devemos aqui entender, de que fala João: "Deu-lhes poder de serem feitos filhos de Deus." Um é seu Filho por natureza; nós somos feitos filhos pelo poder que recebemos; isto é, na medida em que cumprimos aquelas coisas que nos são mandadas. Por isso não diz: Fazei estas coisas porque sois filhos; mas, fazei estas coisas para que vos torneis filhos. Chamando-nos, pois, a isto, chama-nos à sua semelhança, pois diz: "Faz nascer o seu sol sobre os justos e os injustos." Pelo sol podemos entender não este visível, mas aquele de que se diz: "A vós, que temeis o nome do Senhor, nascerá o Sol da justiça;" e pela chuva, a água da doutrina da verdade; pois Cristo foi visto, e foi pregado tanto aos bons como aos maus.

Serm. in Mont. · Serm. in Mont., i, 23 · séc. V

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Glossa Ordinária

Mas deve saber-se que em todo o corpo da Lei em parte alguma está escrito: Odiarás o teu inimigo. Mas isto há de referir-se à tradição dos Escribas, que julgaram bom acrescentar isto à Lei, porque o Senhor mandou aos filhos de Israel que perseguissem os seus inimigos, e destruíssem a Amalec debaixo do céu.

Glossa Ordinaria · ord

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Glossa Ordinária

Os que se levantam contra a Igreja a combatem de três modos: com ódio, com palavras e com tormentos corporais. A Igreja, por sua vez, ama-os, como aqui se diz: "Amai os vossos inimigos;" faz-lhes o bem, como se diz: "Fazei bem aos que vos odeiam;" e ora por eles, como se diz: "Orai pelos que vos perseguem e vos acusam falsamente."

Glossa Ordinaria · ord

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Santo Hilário de Poitiers

Ou então, o sol e a chuva referem-se ao batismo pela água e pelo Espírito.

séc. IV

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Beato Rabano Mauro

Se, pois, os pecadores são levados pela natureza a mostrar bondade para com os que os amam, com quanto maior demonstração de afeto não deveis vós abraçar mesmo aqueles que não vos amam? Porque segue-se: "Não fazem os publicanos também isto?" "Os publicanos" são aqueles que recolhem os impostos públicos; ou talvez aqueles que perseguem os negócios públicos ou o lucro deste mundo.

séc. IX

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Beato Rabano Mauro

Ethnici, isto é, os gentios, pois a palavra grega é traduzida por 'gens' em latim; aqueles, isto é, que permanecem tais quais nasceram, a saber, sob o pecado.

séc. IX

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Santo Agostinho

Ou podemos tomá-lo deste sol visível, e da chuva pela qual os frutos são nutridos, como lamentam os ímpios no livro da Sabedoria: "O sol não nasceu para nós." E da chuva se diz: "Mandarei às nuvens que não chovam sobre ela." Mas, seja isto ou aquilo, é da grande bondade de Deus, que se apresenta para nossa imitação. Não diz "o sol", mas "o seu sol", isto é, o sol que Ele mesmo fez, para que daqui sejamos admoestados de quão grande liberalidade devemos suprir aquelas coisas que não criamos, mas recebemos como dádiva dele.

séc. V

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Glossa Ordinária

O Senhor ensinou acima que não devemos resistir a quem nos faz alguma injúria, mas devemos estar prontos a sofrer ainda mais; agora exige, além disso, que mostremos aos que nos fazem mal tanto o amor como os seus efeitos. E assim como as coisas que precederam pertencem à consumação da justiça da Lei, do mesmo modo este último preceito há de referir-se à consumação da lei do amor, que, segundo o Apóstolo, é o cumprimento da Lei.

Glossa · non occ

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Glossa Ordinária

Amar aquele que nos ama é da natureza, mas amar o nosso inimigo é da caridade. "Se amais os que vos amam, que recompensa tereis?" a saber, no céu. Nenhuma, em verdade, pois de tais se diz: "Recebestes a vossa recompensa." Mas estas coisas devemos fazer, e não deixar as outras por fazer.

Glossa · non occ

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Glossa Ordinária

Mas se orais somente pelos que são vossos parentes, que mais tem a vossa benevolência do que a dos incrédulos? A saudação é uma espécie de oração.

Glossa · non occ

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São Jerônimo

Muitos, medindo os mandamentos de Deus por sua própria fraqueza, e não pela força dos santos, têm estes preceitos por impossíveis, e dizem que é virtude bastante não odiar os nossos inimigos; mas amá-los é um mandamento que excede a natureza humana cumprir. Cumpre, porém, entender que Cristo não impõe impossibilidades, mas a perfeição. Tal foi a disposição de Davi para com Saul e Absalão; o mártir Estêvão também orou por seus inimigos enquanto o apedrejavam, e Paulo desejava ser ele mesmo anátema pelos seus perseguidores. Jesus tanto ensinou como praticou o mesmo, dizendo: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem."

séc. V

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São Jerônimo

Pois quem guarda os mandamentos de Deus por isso se torna filho de Deus; aquele, pois, de quem aqui fala não é por natureza seu filho, mas pela sua própria vontade.

séc. V

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Remígio de Auxerre

Porquanto a suma perfeição do amor não pode ir além do amor aos inimigos, por isso, logo que o Senhor nos manda amar os nossos inimigos, prossegue: "Sede pois perfeitos, assim como vosso Pai celestial é perfeito." Ele, na verdade, é perfeito por ser onipotente; o homem, por ser ajudado pelo Onipotente. Pois a palavra "assim como" emprega-se na Escritura ora para exprimir identidade e igualdade, como naquilo: "Assim como estive com Moisés, assim estarei contigo;" ora para exprimir somente semelhança, como aqui.

séc. X

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São João Crisóstomo

Nota por quais degraus subimos agora até aqui, e como Ele nos colocou no próprio cume da virtude. O primeiro degrau é não começar a fazer mal a ninguém; o segundo, que ao vingar um mal que nos foi feito nos contentemos em retribuir igual; o terceiro, nada devolver do que sofremos; o quarto, oferecer-se ao suporte do mal; o quinto, estar pronto a sofrer ainda mais mal do que o opressor deseja infligir; o sexto, não odiar aquele de quem tais coisas sofremos; o sétimo, amá-lo; o oitavo, fazer-lhe o bem; o nono, orar por ele. E porque grande é o mandamento, grande também é a recompensa proposta, a saber, ser feito semelhante a Deus: "Sereis filhos de vosso Pai que está nos céus."

séc. V

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São João Crisóstomo

Assim como aquilo, Não cobiçarás, não foi dito à carne, mas ao espírito, assim também neste preceito a carne não é capaz de amar o seu inimigo, mas o espírito o é; porque o amor e o ódio da carne estão no sentido, mas os do espírito estão no entendimento. Se pois sentimos ódio para com aquele que nos fez agravo, e contudo não queremos proceder segundo esse sentimento, saibamos que a nossa carne odeia o nosso inimigo, mas a nossa alma o ama.

Opus Imperfectum in Matthaeum · séc. V

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São João Crisóstomo

Teve o cuidado de dizer: "Sobre os justos e os injustos;" porque Deus concede todos os bens não por amor dos homens, mas por amor dos santos, assim como também os castigos por causa dos pecadores. Ao outorgar os seus bens, não separa os pecadores dos justos, para que não desesperem; assim como nos seus castigos, não separa os justos dos pecadores, para que não se ensoberbeçam; e tanto mais, quanto os maus não tiram proveito dos bens que recebem, mas os convertem em seu prejuízo pela sua vida iníqua; nem os bons são prejudicados pelos males, mas antes deles tiram proveito para acréscimo de justiça.

Opus Imperfectum in Matthaeum · séc. V

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São João Crisóstomo

Pois assim como os nossos filhos segundo a carne se assemelham a seus pais nalguma parte da figura corporal, assim os filhos espirituais se assemelham a seu pai Deus na santidade.

Opus Imperfectum in Matthaeum · séc. V

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Citações internas

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Trechos em que este versículo aparece citado dentro de outro argumento patrístico.

Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1.** Parece que a perfeição não convém a Deus. Pois dizemos que uma coisa é perfeita quando é completamente feita. Ora, não convém a Deus ser feito. Logo, não é perfeito. **Objeção 2.** Demais, Deus é o primeiro princípio das coisas. Ora, os princípios das coisas parecem ser imperfeitos, como a semente é o princípio da vida animal e vegetal. Logo, Deus é imperfeito. **Objeção 3.** Demais, como se mostrou acima (Q. 3, A. 4), a essência de Deus é a existência (o ser). Ora, a existência parece imperfeitíssima, porquanto é universalíssima e receptiva de toda determinação. Logo, Deus é imperfeito. **Em contrário,** está escrito: "Sede vós perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito" (Mt 5,48). **Respondo.** Como relata o Filósofo (Metafísica, XII), alguns filósofos antigos, a saber, os Pitagóricos e Leucipo, não predicaram "o melhor" nem "o perfeitíssimo" do primeiro princípio. A razão é que os filósofos antigos consideravam apenas um princípio material; e um princípio material é imperfeitíssimo. Pois, assim como a matéria, enquanto tal, é mera potência, o primeiro princípio material deve ser simplesmente potencial e, portanto, imperfeitíssimo. Ora, Deus é o primeiro princípio, não material, mas na ordem da causa eficiente, a qual deve ser perfeitíssima. Pois, assim como a matéria, enquanto tal, é mera potência, o agente, enquanto tal, está em ato. Logo, o primeiro princípio ativo deve ser necessariamente atualíssimo e, por conseguinte, perfeitíssimo; porque uma coisa é perfeita na proporção do seu ato, pois chamamos perfeito aquilo a que nada falta segundo o modo da sua perfeição. **Resposta à primeira objeção.** Como diz Gregório (Moralia V, 26,29): "Embora nossos lábios apenas possam balbuciar, todavia cantamos as grandezas de Deus." Pois aquilo que não é feito é impropriamente chamado perfeito. No entanto, porque as criaturas se chamam perfeitas quando são levadas da potência ao ato, este termo "perfeito" significa tudo aquilo a que não falta o ato, quer isso se dê por via de perfeição, quer não. **Resposta à segunda objeção.** O princípio material, que entre nós se encontra imperfeito, não pode ser absolutamente primeiro; mas deve ser precedido por algo perfeito. Pois a semente, embora seja o princípio da vida animal reproduzida mediante a semente, tem antes de si o animal ou a planta donde proveio. Porque, antes do que é potencial, deve existir o que é atual; já que um ser potencial só pode ser reduzido ao ato por um ser já em ato. **Resposta à terceira objeção.** A existência (o ser) é o mais perfeito de todas as coisas, pois se compara a todas elas como aquilo pelo qual são feitas atuais; nada tem atualidade senão na medida em que existe. Logo, a existência é o que atualiza todas as coisas, até mesmo as suas formas. Portanto, não se compara às outras coisas como o recipiente ao recebido, mas antes como o recebido ao recipiente. Quando, pois, falo da existência do homem, ou do cavalo, ou de qualquer outra coisa, a existência é considerada como princípio formal e como algo recebido; e não como aquilo que existe.

Summa Theologiae — First Part · Article. 1 - Whether God is perfect? · séc. XIII

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Santo Thomas Aquinas

**Objeção 1:** Parece que estas quatro virtudes são divididas de modo inadequado em virtudes exemplares, virtudes aperfeiçoadoras, virtudes perfeitas e virtudes sociais. Pois, como diz Macróbio (Super Somn. Scip. I), “as virtudes exemplares são tais como existem na mente de Deus”. Ora, o Filósofo diz (Ética X, 8) que “é absurdo atribuir justiça, fortaleza, temperança e prudência a Deus”. Logo, estas virtudes não podem ser exemplares. **Objeção 2:** Ademais, as virtudes “perfeitas” são aquelas que estão sem qualquer paixão; pois Macróbio diz (Super Somn. Scip. I) que “numa alma purificada, a temperança não precisa refrear os desejos mundanos, pois já os esqueceu completamente; a fortaleza nada sabe sobre as paixões; não precisa vencê-las”. Ora, foi dito acima (Q. 59, A. 5) que as referidas virtudes não podem existir sem paixões. Logo, não existe virtude “perfeita”. **Objeção 3:** Ademais, ele diz (Macróbio: Super Somn. Scip. I) que as virtudes “aperfeiçoadoras” são as daquele homem “que foge dos assuntos humanos e se dedica exclusivamente às coisas de Deus”. Mas parece errado fazer isso, pois Cícero diz (De Officiis I): “Considero que não só é indigno de louvor, mas também ímpio, que um homem diga que despreza o que a maioria admira, isto é, o poder e o cargo”. Logo, não existem virtudes “aperfeiçoadoras”. **Objeção 4:** Ademais, ele diz (Macróbio: Super Somn. Scip. I) que as virtudes “sociais” são aquelas “pelas quais os homens bons trabalham para o bem de sua pátria e para a segurança da cidade”. Ora, é apenas a justiça legal que se ordena ao bem comum, como diz o Filósofo (Ética V, 1). Logo, as outras virtudes não deveriam ser chamadas de “sociais”. **Em contrário,** Macróbio diz (Super Somn. Scip. I): “Plotino, juntamente com Platão, o primeiro entre os mestres de filosofia, afirma: ‘Os quatro tipos de virtude são quádruplos: Em primeiro lugar, há as virtudes sociais [*Virtutes purgatoriae: literalmente, virtudes purificadoras]; em segundo lugar, as virtudes aperfeiçoadoras [*Virtutes purgatoriae: literalmente, virtudes purificadoras]; em terceiro lugar, as virtudes perfeitas [*Virtutes purgati animi: literalmente, virtudes da alma pura]; e em quarto lugar, as virtudes exemplares.’” [*Cf. Homilia XV de Crisóstomo sobre São Mateus, onde diz: “O manso, o modesto, o misericordioso, o justo não encerra suas boas obras dentro de si mesmo... Aquele que é limpo de coração e pacífico, e sofre perseguição por causa da verdade, vive para o bem comum.”] **Respondo:** Como diz Agostinho (De Moribus Eccl. VI), “a alma precisa seguir algo para dar à luz a virtude: este algo é Deus; se O seguimos, viveremos retamente”. Consequentemente, o exemplar da virtude humana deve preexistir em Deus, assim como nEle preexistem os tipos de todas as coisas. Portanto, a virtude pode ser considerada como existindo originalmente em Deus, e assim falamos de virtudes “exemplares”: de modo que, em Deus, a própria Mente Divina pode ser chamada prudência; enquanto a temperança é a conversão do olhar de Deus sobre Si mesmo, assim como em nós é aquilo que conforma o apetite à razão. A fortaleza de Deus é a Sua imutabilidade; a Sua justiça é a observância da Lei Eterna em Suas obras, como afirma Plotino (Cf. Macróbio, Super Somn. Scip. I). Novamente, visto que o homem, por sua natureza, é um animal social [*Vide nota acima sobre Crisóstomo], essas virtudes, enquanto estão nele segundo a condição de sua natureza, são chamadas virtudes “sociais”; pois é por meio delas que o homem se comporta bem no governo dos assuntos humanos. É neste sentido que temos falado dessas virtudes até agora. Mas, como convém ao homem esforçar-se ao máximo para avançar até as coisas divinas, como também o Filósofo declara na Ética X, 7, e como a Escritura frequentemente nos admoesta — por exemplo: “Sede vós... perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito” (Mat. V, 48) —, é necessário colocar algumas virtudes entre as virtudes sociais ou humanas e as virtudes exemplares, que são divinas. Ora, estas virtudes diferem por razão de uma diferença de movimento e termo: de modo que algumas são virtudes de homens que estão a caminho e tendendo para a semelhança divina; e estas são chamadas virtudes “aperfeiçoadoras”. Assim, a prudência, contemplando as coisas de Deus, considera como nada todas as coisas do mundo e dirige todos os pensamentos da alma somente a Deus; a temperança, tanto quanto a natureza permite, descuida das necessidades do corpo; a fortaleza impede a alma de temer descuidar do corpo e elevar-se às coisas celestiais; e a justiça consiste na alma dar um consentimento de todo o coração para seguir o caminho assim proposto. Além destas, há as virtudes daqueles que já alcançaram a semelhança divina: estas são chamadas virtudes “perfeitas”. Assim, a prudência não vê senão as coisas de Deus; a temperança não conhece desejos terrenos; a fortaleza não tem conhecimento da paixão; e a justiça, imitando a Mente Divina, une-se a Ela por uma aliança eterna. Tais são as virtudes atribuídas aos Bem-aventurados ou, nesta vida, a alguns que estão no cume da perfeição. **Resposta à Objeção 1:** O Filósofo fala dessas virtudes conforme se relacionam com os assuntos humanos; por exemplo, a justiça, sobre comprar e vender; a fortaleza, sobre o medo; a temperança, sobre os desejos; pois, neste sentido, é absurdo atribuí-las a Deus. **Resposta à Objeção 2:** As virtudes humanas, isto é, as virtudes dos homens que vivem juntos neste mundo, referem-se às paixões. Mas as virtudes daqueles que alcançaram a bem-aventurança perfeita são sem paixões. Por isso Plotino diz (Cf. Macróbio, Super Somn. Scip. I) que “as virtudes sociais refreiam as paixões”, isto é, trazem-nas ao meio termo relativo; “o segundo tipo”, isto é, as virtudes aperfeiçoadoras, “as extirpam”; “o terceiro tipo”, isto é, as virtudes perfeitas, “as esquecem; enquanto é ímpio mencioná-las em conexão com virtudes do quarto tipo”, isto é, as virtudes exemplares. Pode-se também dizer que aqui ele fala de paixões como denotando emoções desordenadas. **Resposta à Objeção 3:** Desprezar os assuntos humanos quando a necessidade o proíbe é ímpio; caso contrário, é virtuoso. Por isso Cícero diz um pouco antes: “Talvez se deva fazer concessões àqueles que, por causa de seus talentos excepcionais, se dedicaram ao estudo; como também àqueles que se retiraram da vida pública por motivo de saúde debilitada, ou por alguma outra razão ainda mais forte; quando tais homens cederam a outros o poder e a renome da autoridade.” Isto concorda com o que diz Agostinho (De Civ. Dei XIX, 19): “O amor da verdade exige um ócio sagrado; a caridade necessita de boas obras. Se ninguém nos impõe este fardo, podemos nos dedicar ao estudo e à contemplação da verdade; mas, se o fardo nos é imposto, deve ser assumido sob a pressão da caridade.” **Resposta à Objeção 4:** A justiça legal considera diretamente o bem comum; mas, comandando as outras virtudes, atrai todas elas ao serviço do bem comum, como declara o Filósofo (Ética V, 1). Pois devemos notar que compete às virtudes humanas, conforme as entendemos aqui, fazer o bem não só para a comunidade, mas também para as partes da comunidade, isto é, para a família, ou mesmo para um indivíduo.

Summa Theologiae — First Part of the Second Part · Article. 5 - Whether the cardinal virtues are fittingly divided into social virtues, perfecting, perfect, and exemplar virtues? · séc. XIII

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