25Portanto vos digo: Não vos preocupeis (demasiadamente), nem com a vossa vida, acerca do que haveis de comer, nem com o vosso corpo, acerca do que haveis de vestir. Porventura não vaie mais a vida qué o alimento, e o corpo mais que o vestido?
Trechos em que os Padres comentam diretamente esta passagem ou o seu contexto imediato.
A
Santo Agostinho
Pois dizem eles que o Apóstolo não falava do trabalho corporal, tal como o dos lavradores ou dos artífices, quando disse: «Quem não quer trabalhar, também não coma.» Porque ele não poderia ser tão contrário ao Evangelho, onde se diz: «Por isso vos digo: Não andeis solícitos.» Portanto, naquela sentença do Apóstolo, havemos de entender obras espirituais, das quais se diz noutro lugar: «Eu plantei, Apolo regou.» E assim cuidam ser obedientes ao preceito apostólico, interpretando que o Evangelho fala de não cuidar das necessidades do corpo, e que o Apóstolo fala do labor e do alimento espirituais. Primeiramente, provemos que o Apóstolo entendia que os servos de Deus deviam trabalhar com o corpo. Ele dissera: «Vós mesmos sabeis como deveis imitar-nos, pois não fomos importunos entre vós, nem comemos de graça o pão de ninguém; mas, com trabalho e fadiga, dia e noite trabalhando, para não sermos pesados a nenhum de vós. Não que não tivéssemos poder para isso, mas para vos oferecermos a nós mesmos por exemplo, que devêsseis imitar. Pois, quando estávamos entre vós, isto vos ensinávamos: que, se alguém não quisesse trabalhar, também não comesse.» Que diremos a isto, visto que ensinou pelo seu exemplo o que entregou em preceito, porquanto ele mesmo trabalhava com as próprias mãos? Isto se prova pelos Atos, onde se diz que permaneceu com Áquila e sua mulher Priscila, «trabalhando com eles, porque eram fabricantes de tendas». E contudo ao Apóstolo, como pregador do Evangelho, soldado de Cristo, plantador da vinha, pastor do seu rebanho, o Senhor estabelecera que vivesse do Evangelho; mas ele recusou aquele pagamento que justamente lhe era devido, para se apresentar como exemplo àqueles que exigiam o que lhes não era devido. Ouçam isto aqueles que não têm aquele poder que ele tinha, a saber, de comer pão de graça e de laborar somente com o labor espiritual. Se na verdade forem Evangelistas, se ministros do Altar, se dispensadores dos Sacramentos, têm este poder. Ou se tivessem neste mundo possessões pelas quais pudessem, sem trabalho, sustentar-se, e, ao converterem-se a Deus, as houvessem distribuído aos necessitados, então sua fraqueza haveria de ser crida e tolerada. E não importaria em que lugar fizesse a distribuição, visto que há uma só república de todos os cristãos. Mas aqueles que entram na profissão do serviço de Deus vindos da vida campestre, do ofício de operário ou do labor comum, se não trabalham, não hão de ser escusados. Pois de modo algum convém que, naquela vida em que os senadores se fazem trabalhadores, os homens de trabalho se tornem ociosos; ou que, ali aonde acodem os senhores de fazendas, deixados os seus luxos, venham os escravos rústicos a encontrar o luxo. Mas, quando o Senhor diz «Não andeis solícitos», não quer dizer que não procurem as coisas de que têm necessidade, onde quer que honestamente o possam, mas que não ponham nelas o seu olhar, e que por amor delas não deixem de fazer o que lhes é mandado na pregação do Evangelho; e foi com esta intenção que, um pouco antes, chamou ao olho.
De Op. Monach. 1 et seq · De Op. Monach. 1 et seq · séc. V
tradução automática
A
Santo Agostinho
Há certos hereges chamados Euquitas, que sustentam que um monge não pode fazer obra alguma, nem mesmo para o seu sustento; e que abraçam esta profissão para se verem livres da necessidade do labor cotidiano.
De Haeres. · De Haeres., 57 · séc. V
tradução automática
GO
Glossa Ordinária
Isto é: Não sejais apartados das coisas eternas pelos cuidados temporais.
Glossa Interlinearis · interlin
tradução automática
A
Santo Agostinho
O Senhor ensinara acima que quem deseja amar a Deus, e atender a não O ofender, não cuide que possa servir a dois senhores; para que, ainda que porventura não busque o supérfluo, contudo o seu coração não se torne dúplice por causa das próprias coisas necessárias, e os seus pensamentos não se inclinem a obtê-las. «Por isso vos digo: Não andeis solícitos pela vossa vida, sobre o que haveis de comer, nem pelo vosso corpo, sobre o que haveis de vestir.»
Serm. in Mont. · Serm. in Mont., ii, 15 · séc. V
tradução automática
HP
Santo Hilário de Poitiers
De outro modo: Porque os pensamentos dos incrédulos andavam mal ocupados acerca do cuidado das coisas futuras, cavilando sobre qual há de ser a aparência dos nossos corpos na ressurreição, qual o alimento na vida eterna, por isso prossegue: «Porventura não é a vida mais do que o alimento?» Ele não suportará que a nossa esperança fique suspensa no cuidado da comida, da bebida e do vestido que hão de ser na ressurreição, para que não se faça afronta Àquele que nos deu as coisas mais preciosas, andando nós ansiosos para que Ele nos dê também as menores.
séc. IV
tradução automática
A
Santo Agostinho
Ou podemos entender que a alma, neste lugar, seja posta pela vida animal.
séc. V
tradução automática
J
São Jerônimo
Alguns manuscritos acrescentam aqui: "nem o que haveis de beber". Aquilo que pertence naturalmente a todos os animais igualmente, aos brutos e às bestas de carga bem como ao homem, de todo pensamento disso não somos libertos. Mas somos ordenados a não estar ansiosos pelo que havemos de comer, porque com o suor do nosso rosto ganhamos o pão; o trabalho deve ser empreendido, a ansiedade posta de lado. Este "Não vos inquieteis" deve ser entendido do alimento e vestuário corporal; pois do alimento e vestuário do espírito convém que estejamos sempre cuidadosos.
séc. V
tradução automática
J
São Jerônimo
O mandamento é, portanto, «não andar ansiosos sobre o que havemos de comer». Pois também é mandado que com o suor do nosso rosto havemos de comer o pão. O labor, pois, é imposto; a inquietação angustiosa é proibida.
séc. V
tradução automática
J
São Jerônimo
Aquele que deu o maior, porventura não dará também o menor?
séc. V
tradução automática
JC
São João Crisóstomo
Não quer ele com isto dizer que o espírito necessite de alimento, pois é incorpóreo, mas fala segundo o uso comum, porquanto a alma não pode permanecer no corpo se o corpo não for alimentado.
séc. V
tradução automática
JC
São João Crisóstomo
Ou podemos ligar o contexto de outro modo: tendo o Senhor inculcado o desprezo do dinheiro, para que ninguém pudesse dizer: Como, pois, poderemos viver, se houvermos abandonado tudo o que temos?, acrescenta Ele: "Portanto, vos digo: Não andeis solícitos pela vossa vida."
séc. V
tradução automática
JC
São João Crisóstomo
O pão não se ganha pela solicitude do espírito, mas pelo labor do corpo; e aos que querem trabalhar, ele abunda, dando-o Deus como recompensa de sua diligência; e falta aos ociosos, retirando-o Deus como castigo de sua preguiça. O Senhor também confirma a nossa esperança, e, descendo primeiro do maior ao menor, diz: "Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestido?"
Opus Imperfectum in Matthaeum · séc. V
tradução automática
JC
São João Crisóstomo
Pois se Ele não tivesse querido que aquilo que existe fosse conservado, não o teria criado; mas o que assim criou para que fosse conservado pelo alimento, é necessário que lhe dê alimento, enquanto quiser que seja conservado.
Opus Imperfectum in Matthaeum · séc. V
tradução automática
Citações internas
3
Trechos em que este versículo aparece citado dentro de outro argumento patrístico.
TA
Santo Thomas Aquinas
Objeção 1: Parece que o homem não deve pedir a Deus bens temporais em suas orações. Buscamos o que pedimos na oração. Mas não devemos buscar bens temporais, pois está escrito (Mt 6,33): «Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas», isto é, os bens temporais, os quais, diz Ele, não devemos buscar, mas nos serão acrescentados ao que buscamos. Logo, não se devem pedir a Deus bens temporais na oração.
Objeção 2: Além disso, ninguém pede senão aquilo de que está solícito. Ora, não devemos ter solicitude pelos bens temporais, conforme a palavra de Mt 6,25: «Não andeis cuidadosos da vossa vida, pelo que haveis de comer». Logo, não devemos pedir bens temporais quando oramos.
Objeção 3: Além disso, pela oração nossa mente deve elevar-se a Deus. Mas, pedindo bens temporais, ela desce a coisas inferiores a si, contra o dito do Apóstolo (2 Cor 4,18): «Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, mas as que se não veem são eternas». Logo, o homem não deve pedir a Deus bens temporais quando ora.
Objeção 4: Além disso, o homem não deve pedir a Deus senão coisas boas e úteis. Mas os bens temporais, quando os possuímos, às vezes são nocivos, não só espiritualmente, mas também materialmente. Logo, não os devemos pedir a Deus em nossas orações.
Em contrário, está escrito (Pr 30,8): «Dá-me só o necessário para viver».
Respondo que, como diz Agostinho (a Proba, sobre orar a Deus, Ep. cxxx, 12): «É lícito pedir na oração aquilo que é lícito desejar». Ora, é lícito desejar bens temporais, não como fim principal, colocando neles o nosso termo, mas como auxílios pelos quais somos ajudados a tender para a beatitude, na medida em que servem para sustentar a vida do corpo e nos são úteis como instrumentos para praticar atos de virtude, como também diz o Filósofo (Ética i, 8). Também Agostinho diz o mesmo a Proba (a Proba, sobre orar a Deus, Ep. cxxx, 6,7) quando afirma que «não é inconveniente que alguém deseje o suficiente para viver, e nada mais; pois essa suficiência é desejada, não por si mesma, mas pelo bem do corpo, ou que desejemos vestir-nos de modo condizente com a própria condição, para não destoar daqueles entre os quais havemos de viver. Por conseguinte, devemos orar para conservar essas coisas, se as temos, e, se não as temos, para alcançá-las».
Resposta à Objeção 1: Os bens temporais devem ser buscados não em primeiro lugar, mas em segundo. Por isso Agostinho diz (Do Sermão do Senhor no Monte ii, 16): «Quando Ele diz que isto» (isto é, o reino de Deus) «deve ser buscado primeiro, dá a entender que o outro» (isto é, os bens temporais) «deve ser buscado depois, não em tempo, mas em importância: aquele como nosso bem, este como nossa necessidade».
Resposta à Objeção 2: Não é proibida toda solicitude pelos bens temporais, mas aquela que é supérflua e desordenada, como se disse acima (Q. 55, A. 6).
Resposta à Objeção 3: Quando nossa mente se ocupa dos bens temporais para neles repousar, permanece imersa neles; mas quando se ocupa deles em relação à aquisição da beatitude, não se abaixa por eles, antes os eleva a um nível mais alto.
Resposta à Objeção 4: Pelo próprio fato de pedirmos bens temporais não como objeto principal de nossa petição, mas como subordinados a outra coisa, pedimo-los a Deus no sentido de que nos sejam concedidos na medida em que são convenientes para a salvação.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 6 - Whether man ought to ask God for temporal things when he prays? · séc. XIII
tradução automática
TA
Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que os religiosos são obrigados ao trabalho manual. Pois os religiosos não estão isentos da observância dos preceitos. Ora, o trabalho manual é matéria de preceito, segundo 1 Tessalonicenses 4,11: «Trabalhai com vossas próprias mãos, como vos mandamos»; donde Agostinho diz (Das Obras dos Monges, XXX): «Mas quem pode tolerar estes homens insolentes» — a saber, os religiosos que não trabalham, dos quais ali fala — «que desprezam a salutaríssima admoestação do Apóstolo, não para serem tolerados como mais fracos, mas até para pregar como se fossem mais santos que os outros?» Logo, parece que os religiosos são obrigados ao trabalho manual.
**Objeção 2:** Além disso, uma glosa [Santo Agostinho, Das Obras dos Monges, XXI] sobre 2 Tessalonicenses 3,10: «Se alguém não quer trabalhar, não coma também», diz: «Alguns afirmam que este mandamento do Apóstolo se refere a obras espirituais, e não ao trabalho corporal do lavrador ou do artífice»; e adiante: «Mas é inútil que tentem esconder de si mesmos e dos outros que não querem não só cumprir, mas nem mesmo entender as úteis admoestações da caridade»; e ainda: «Ele quer que os servos de Deus vivam trabalhando com seus corpos». Ora, os religiosos são chamados especialmente servos de Deus, porque se entregam totalmente ao serviço de Deus, como afirma Dionísio (Hierarquia Eclesiástica, VI). Logo, parece que são obrigados ao trabalho manual.
**Objeção 3:** Além disso, Agostinho diz (Das Obras dos Monges, XVII): «Gostaria de saber como se ocupariam os que não querem trabalhar com o corpo. Dizem: Ocupamo-nos com orações, salmos, leitura e a palavra de Deus.» Todavia, estas coisas não são desculpa, e ele o prova, quanto a cada uma em particular. Pois, em primeiro lugar, acerca da oração, diz: «Mais depressa é ouvida uma oração do homem obediente do que dez mil orações do desprezador»: querendo dizer que são desprezadores e indignos de serem ouvidos os que não trabalham com as mãos. Em segundo lugar, acerca dos louvores divinos, acrescenta: «Mesmo trabalhando com as mãos, podem facilmente cantar hinos a Deus.» Em terceiro lugar, sobre a leitura, prossegue: «Aqueles que dizem que se ocupam na leitura, não encontram ali o que o Apóstolo mandou? Que espécie de perversidade é esta: querer ler e não obedecer ao que se lê?» Em quarto lugar, acrescenta acerca da pregação [Cap. XVIII]: «Se alguém tem de falar, e está tão ocupado que não pode dispor de tempo para o trabalho manual, poderá fazer isto todo o mosteiro? E, visto que todos não podem, por que razão fazem todos deste pretexto para se isentarem? E, ainda que todos pudessem, deveriam fazê-lo por turnos, não só para que os outros se ocupassem em outras obras, mas também porque basta que um fale enquanto muitos ouvem.» Logo, parece que os religiosos não devem desistir do trabalho manual por causa de tais obras espirituais a que se dedicam.
**Objeção 4:** Além disso, uma glosa sobre Lucas 12,33: «Vendei o que possuís», diz: «Não só dai vossas vestes aos pobres, mas vendei o que possuís, para que, tendo renunciado de uma vez a todos os vossos bens por amor do Senhor, de agora em diante trabalheis com o labor de vossas mãos, a fim de terdes com que viver ou dar esmola.» Ora, pertence propriamente aos religiosos renunciar a tudo quanto têm. Logo, parece que também lhes pertence viver e dar esmola mediante o trabalho de suas mãos.
**Objeção 5:** Além disso, os religiosos, porque professam o estado de perfeição, parecem estar especialmente obrigados a imitar a vida dos apóstolos. Ora, os apóstolos trabalhavam com suas próprias mãos, segundo 1 Coríntios 4,12: «Trabalhamos, obrando com nossas próprias mãos.» Logo, parece que os religiosos são obrigados ao trabalho manual.
**Em sentido contrário,** Aqueles preceitos que são comumente impostos a todos obrigam igualmente os religiosos e os seculares. Ora, o preceito do trabalho manual é imposto a todos em comum, como se vê em 2 Tessalonicenses 3,6: «Apartai-vos de todo irmão que anda desordenadamente», etc. (pois por irmão significa todo cristão, conforme 1 Coríntios 7,12: «Se algum irmão tem mulher incrédula»). E no mesmo passo está escrito (2 Tessalonicenses 3,10): «Se alguém não quer trabalhar, não coma também.» Portanto, os religiosos não são obrigados ao trabalho manual mais do que os seculares.
**Respondo** que o trabalho manual se ordena a quatro coisas. Primeira e principalmente, a obter o alimento; por isso foi dito ao primeiro homem (Gênesis 3,19): «Comerás o pão com o suor do teu rosto»; e está escrito (Salmo 127,2): «Comerás do trabalho das tuas mãos.» Segundamente, ordena-se a afastar a ociosidade, de que nascem muitos males; por isso está escrito (Eclesiástico 33,28-29): «Envia o teu servo ao trabalho, para que não esteja ocioso, porque a ociosidade ensinou muitos males.» Terceiramente, ordena-se a refrear a concupiscência, enquanto é meio de afligir o corpo; por isso está escrito (2 Coríntios 6,5-6): «Em trabalhos, em vigílias, em jejuns, em castidade.» Quartamente, ordena-se à esmola; por isso está escrito (Efésios 4,28): «O que furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha que dar ao que padece necessidade.» Por conseguinte, enquanto o trabalho manual se ordena a obter o alimento, cai sob necessidade de preceito na medida em que é necessário para aquele fim: pois o que se ordena a um fim deriva desse fim a sua necessidade, sendo, na verdade, tão necessário quanto o fim não pode ser alcançado sem ele. Consequentemente, aquele que não tem outro meio de vida é obrigado a trabalhar com as mãos, qualquer que seja a sua condição. Isto é significado pelas palavras do Apóstolo: «Se alguém não quer trabalhar, não coma também», como se dissesse: «A necessidade do trabalho manual é a necessidade do alimento.» De modo que, se alguém pudesse viver sem comer, não seria obrigado a trabalhar com as mãos. O mesmo se aplica àqueles que não têm outros meios lícitos de vida: pois entende-se que não pode fazer o que não pode fazer licitamente. Por isso encontramos que o Apóstolo prescreveu o trabalho manual apenas como remédio para o pecado daqueles que obtinham o sustento por meios ilícitos. Pois o Apóstolo ordenou o trabalho manual, antes de tudo, para evitar o furto, como se vê em Efésios 4,28: «O que furtava, não furte mais; antes trabalhe com as mãos.» Em segundo lugar, para evitar a cobiça do alheio, por isso está escrito (1 Tessalonicenses 4,11): «Trabalhai com vossas próprias mãos, como vos mandamos, e andai honestamente para com os que estão de fora.» Em terceiro lugar, para evitar as ocupações desonestas com que alguns buscam o sustento. Por isso diz (2 Tessalonicenses 3,10-12): «Quando estávamos convosco, isto vos declaramos: que se alguém não quer trabalhar, não coma também. Porque ouvimos que há entre vós alguns que andam desordenadamente, não trabalhando nada, mas intrometendo-se curiosamente» (a saber, como explica a glosa, «que vivem da intromissão em coisas ilícitas»). «Ora, a esses tais mandamos e exortamos . . . que, trabalhando em silêncio, comam o seu próprio pão.» Por isso Jerônimo afirma (Sobre a Epístola aos Gálatas [Prefácio ao Livro II do Comentário]) que o Apóstolo disse isto «não tanto na sua qualidade de mestre, mas por causa dos defeitos do povo.»
Deve-se, porém, notar que sob trabalho manual se compreendem todas as ocupações humanas mediante as quais o homem pode licitamente ganhar a vida, seja usando as mãos, os pés ou a língua. Pois os vigias, os correios e outros que vivem do seu trabalho entende-se que vivem da obra de suas mãos: porque, sendo a mão «o órgão dos órgãos» [Da Alma, III, 8], o trabalho manual designa toda espécie de obra com que o homem pode licitamente ganhar a vida.
Na medida em que o trabalho manual se ordena a afastar a ociosidade ou a afligir o corpo, não cai sob necessidade de preceito, se o consideramos em si mesmo, pois há muitos outros meios, além do trabalho manual, de afligir o corpo ou de afastar a ociosidade: a carne é afligida por jejuns e vigílias, e a ociosidade é afastada pela meditação das Sagradas Escrituras e pelos louvores divinos. Por isso uma glosa sobre o Salmo 118,82: «Os meus olhos desfaleceram pela Tua palavra», diz: «Não está ocioso aquele que só medita na palavra de Deus; nem o que trabalha fora é melhor do que aquele que se dedica ao estudo de conhecer a verdade.» Consequentemente, por estas razões, os religiosos não são obrigados ao trabalho manual, como também não o são os seculares, exceto quando são obrigados pelos estatutos da sua ordem. Assim Jerônimo diz (Epístola CXXV a Rústico, Monge): «Os mosteiros egípcios costumam não admitir ninguém que não trabalhe ou labute, não tanto pelas necessidades da vida, como pela saúde da alma, para que não seja desviada por maus pensamentos.» Mas, na medida em que o trabalho manual se ordena à esmola, não cai sob necessidade de preceito, salvo talvez em algum caso particular, quando alguém está obrigado a dar esmola e não tem outro meio de ter com que socorrer os pobres: pois nesse caso os religiosos seriam obrigados, assim como os seculares, ao trabalho manual.
**Resposta à Objeção 1:** Este mandamento do Apóstolo é de direito natural; por isso uma glosa sobre 2 Tessalonicenses 3,6: «Que vos aparteis de todo irmão que anda desordenadamente», diz: «de outra maneira do que exige a ordem natural», e fala daqueles que se abstinham do trabalho manual. Por isso a natureza proveu o homem de mãos, em vez de armas e vestes, com que proveu os outros animais, para que com as mãos pudesse obter estas e todas as outras coisas necessárias. Donde é claro que este preceito, como todos os preceitos da lei natural, obriga igualmente os religiosos e os seculares. Contudo, nem todo aquele que não trabalha com as mãos peca, porque aqueles preceitos da lei natural que dizem respeito ao bem comum não obrigam cada indivíduo, mas basta que uma pessoa se ocupe deste ofício e outra daquele; por exemplo, que uns sejam artífices, outros lavradores, outros juízes, outros mestres, e assim por diante, segundo as palavras do Apóstolo (1 Coríntios 12,17): «Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde estaria o olfato?»
**Resposta à Objeção 2:** Esta glosa é tirada de Agostinho, Das Obras dos Monges, capítulo 21, onde fala contra certos monges que declaravam ser ilícito para os servos de Deus trabalhar com as mãos, por causa da palavra do Senhor (Mateus 6,25): «Não vos inquieteis pela vossa vida, pelo que haveis de comer.» Contudo, suas palavras não implicam que os religiosos sejam obrigados a trabalhar com as mãos, se tiverem outros meios de vida. Isto é claro do que acrescenta: «Ele quer que os servos de Deus vivam trabalhando com seus corpos.» Ora, isto não se aplica aos religiosos mais do que aos seculares, o que é evidente por duas razões. Primeiro, pela maneira como o Apóstolo se expressa, dizendo: «Que vos aparteis de todo irmão que anda desordenadamente.» Pois chama a todos os cristãos irmãos, visto que então ainda não estavam fundadas as ordens religiosas. Segundo, porque os religiosos não têm outras obrigações senão as que têm os seculares, exceto quando exigidas pela regra que professam: por isso, se a sua regra nada contém acerca do trabalho manual, os religiosos não estão obrigados ao trabalho manual de outro modo que os seculares.
**Resposta à Objeção 3:** Um homem pode dedicar-se de duas maneiras a todas as obras espirituais mencionadas por Agostinho no passo citado: de um modo, tendo em vista o bem comum; de outro, tendo em vista o seu proveito particular. Por conseguinte, aqueles que se dedicam publicamente às referidas obras espirituais estão por isso mesmo isentos do trabalho manual, por duas razões: primeiro, porque lhes convém ocupar-se exclusivamente de tais obras; segundo, porque aqueles que se dedicam a tais obras têm direito de ser sustentados por aqueles para cujo proveito trabalham.
Por outro lado, aqueles que se dedicam a tais obras não publicamente, mas como que privadamente, não devem por isso ser isentos do trabalho manual, nem têm direito de ser sustentados pelas ofertas dos fiéis, e é destes que Agostinho fala. Pois quando diz: «Podem cantar hinos a Deus mesmo enquanto trabalham com as mãos; como os artífices que dão voz à narração de fábulas sem retirar as mãos do trabalho», é claro que não se refere àqueles que cantam as horas canónicas na igreja, mas àqueles que recitam salmos ou hinos como orações privadas. Do mesmo modo, o que diz sobre a leitura e a oração deve referir-se à oração e leitura privadas, que os próprios leigos praticam às vezes, e não àqueles que fazem orações públicas na igreja ou dão lições públicas nas escolas. Por isso não diz: «Aqueles que dizem que se ocupam em ensinar e instruir», mas: «Aqueles que dizem que se ocupam em ler.» Também fala daquela pregação que se dirige, não publicamente ao povo, mas a um ou a poucos em particular, a modo de admoestação privada. Por isso diz expressamente: «Se alguém tem de falar.» Pois, segundo uma glosa sobre 1 Coríntios 2,4, «o discurso dirige-se privadamente; a pregação, a muitos.»
**Resposta à Objeção 4:** Aqueles que desprezam tudo por amor de Deus são obrigados a trabalhar com as mãos, quando não têm outro meio de vida ou de dar esmola (caso ocorra que a esmola seja matéria de preceito), mas não de outro modo, como foi dito no artigo. É neste sentido que se deve entender a glosa citada.
**Resposta à Objeção 5:** O fato de os apóstolos trabalharem com as mãos foi às vezes por necessidade, às vezes por supererrogação. Foi por necessidade quando não recebiam de outros o sustento. Por isso uma glosa sobre 1 Coríntios 4,12: «Trabalhamos, obrando com nossas próprias mãos», acrescenta: «porque ninguém nos dá.» Foi por supererrogação, como se vê em 1 Coríntios 9,12, onde o Apóstolo diz que não usou do poder que tinha de viver do Evangelho. O Apóstolo recorreu a esta supererrogação por três motivos. Primeiro, para tirar aos falsos apóstolos o pretexto de pregar, pois pregavam apenas por vantagem temporal; por isso diz (2 Coríntios 11,12): «O que faço, isso farei, para cortar a ocasião àqueles que a desejam», etc. Segundo, para não sobrecarregar aqueles a quem pregava; por isso diz (2 Coríntios 12,13): «Em que fostes inferiores às outras igrejas, senão em que eu mesmo vos não fui pesado?» Terceiro, para dar exemplo de trabalho aos ociosos; por isso diz (2 Tessalonicenses 3,8-9): «Trabalhámos noite e dia . . . para nos darmos a vós como modelo, para nos imitardes.» Contudo, o Apóstolo não o fez em lugares como Atenas, onde tinha facilidade para pregar diariamente, como observa Agostinho (Das Obras dos Monges, XVIII). Todavia, os religiosos não são por isso obrigados a imitar o Apóstolo neste ponto, pois não são obrigados a todas as obras de supererrogação; por isso também os outros apóstolos não trabalhavam com as mãos.
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 3 - Whether religious are bound to manual labor? · séc. XIII
tradução automática
TA
Santo Thomas Aquinas
**Objeção 1:** Parece que a perfeição religiosa é diminuída por possuir algo em comum. Pois disse o Senhor (Mt 19,21): "Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres". Logo, é manifesto que carecer de bens mundanos pertence à perfeição da vida cristã. Ora, aqueles que possuem algo em comum não carecem de bens mundanos. Portanto, parece que não alcançam plenamente a perfeição da vida cristã.
**Objeção 2:** Ademais, a perfeição dos conselhos exige que se esteja sem solicitude mundana; por isso o Apóstolo, ao dar o conselho da virgindade, disse (1 Cor 7,32): "Quero que estejais sem solicitude". Ora, pertence à solicitude da vida presente que alguns guardem algo para o dia seguinte; e esta solicitude foi proibida a seus discípulos pelo Senhor (Mt 6,34), dizendo: "Não vos inquieteis pelo dia de amanhã". Logo, parece que a perfeição da vida cristã é diminuída por ter algo em comum.
**Objeção 3:** Ademais, os bens possuídos em comum pertencem de algum modo a cada membro da comunidade; por isso Jerônimo (Ep. lx ad Heliod. Episc.), referindo-se a certas pessoas, diz: "São mais ricos no mosteiro do que eram no mundo; servindo ao pobre Cristo, têm riquezas que não tinham quando serviam ao rico diabo; a Igreja os rejeita agora que são ricos, os quais no mundo eram mendigos". Ora, é depreciativo da perfeição religiosa que alguém possua riquezas próprias. Logo, também é depreciativo da perfeição religiosa possuir algo em comum.
**Objeção 4:** Ademais, Gregório (Dial. iii, 14) conta de um homem santíssimo chamado Isaac que, "quando seus discípulos humildemente lhe sugeriram que aceitasse as possessões oferecidas para uso do mosteiro, ele, solícito pela salvaguarda de sua pobreza, manteve firmemente sua opinião, dizendo: 'Um monge que busca possessões terrenas não é monge algum'"; e isto se refere a possessões em comum, que lhe eram oferecidas para uso comum do mosteiro. Logo, parece que possuir algo em comum é destrutivo da perfeição religiosa.
**Objeção 5:** Ademais, o Senhor, ao prescrever a perfeição religiosa a seus discípulos, disse (Mt 10,9-10): "Não possuais ouro, nem prata, nem dinheiro em vossas bolsas, nem alforge para o caminho". Por estas palavras, como diz Jerônimo em seu comentário, "Ele repreende aqueles filósofos que são comumente chamados Bactroperatas [i.e., portadores de bordão e alforge], que, como desprezadores do mundo e avaliando todas as coisas como nada, levavam consigo sua despensa". Portanto, parece que é depreciativo da perfeição religiosa que alguém guarde algo, quer para si, quer para o uso comum.
**Em contrário,** Próspero [Juliano Pomério, entre as obras de Próspero] diz (De Vita Contempl. ix), e suas palavras são citadas (XII, qu. 1, can. Expedit): "É suficientemente claro tanto que, por amor da perfeição, se deve renunciar a ter algo próprio, quanto que a posse de rendas, que são obviamente propriedade comum, não é obstáculo à perfeição da Igreja".
**Respondo.** Como foi dito acima (q. 184, a. 3, ad 1; q. 185, a. 6, ad 1), a perfeição consiste essencialmente, não na pobreza, mas em seguir a Cristo, segundo a palavra de Jerônimo (Super Matth. xix, 27): "Como não basta deixar tudo, Pedro acrescenta o que é perfeito, a saber: 'Nós te seguimos'"; enquanto a pobreza é como um instrumento ou exercício para alcançar a perfeição. Por isso nas Conferências dos Padres (Coll. i, 7), o abade Moisés diz: "Os jejuns, as vigílias, a meditação das Escrituras, a pobreza e a privação de todas as possessões não são a perfeição, mas meios de perfeição".
Ora, a privação das possessões, ou pobreza, é um meio de perfeição na medida em que, eliminando as riquezas, removemos certos obstáculos à caridade; e estes são principalmente três. O primeiro são as solicitudes que as riquezas trazem consigo; por isso o Senhor disse (Mt 13,22): "O que foi semeado entre espinhos é o que ouve a palavra, e a solicitude deste mundo e a sedução das riquezas sufocam a palavra". O segundo é o amor das riquezas, que aumenta com a posse delas; por isso Jerônimo diz (Super Matth. xix, 23) que "como é difícil desprezar as riquezas quando as temos, o Senhor não disse: 'É impossível ao rico entrar no reino dos céus', mas: 'É difícil'". O terceiro é a vanglória ou a soberba que resulta das riquezas, segundo o Sl 48,7: "Os que confiam na sua própria força e se gloriam na multidão das suas riquezas".
Portanto, o primeiro destes três não pode ser totalmente separado das riquezas, sejam grandes ou pequenas. Pois o homem necessita ter certa solicitude em adquirir ou conservar as coisas externas. Mas, enquanto as coisas externas são procuradas ou possuídas apenas em pequena quantidade, e na medida do necessário para o simples sustento, tal solicitude não impede grandemente; e, consequentemente, não é incompatível com a perfeição da vida cristã. Pois o Senhor não proibiu toda solicitude, mas apenas aquela que é excessiva e prejudicial; por isso Agostinho, comentando Mt 6,25: "Não vos inquieteis pela vossa vida, pelo que haveis de comer", diz (De Serm. in Monte): "Ao dizer isto, Ele não lhes proíbe de procurar estas coisas na medida em que delas necessitam, mas de nelas se fixarem e, por causa delas, fazerem o que lhes é mandado fazer na pregação do Evangelho". Contudo, a posse de muitas riquezas aumenta o peso da solicitude, que é grande distração para a mente do homem e o impede de se entregar totalmente ao serviço de Deus. Os outros dois, porém, a saber, o amor das riquezas e o orgulho ou glória nas riquezas, resultam apenas da abundância de riquezas.
No entanto, há diferença nesta matéria se as riquezas, sejam abundantes ou moderadas, são possuídas em particular ou em comum. Pois a solicitude que se tem pelos próprios bens pertence ao amor de si mesmo, pelo qual o homem se ama nas coisas temporais; enquanto a solicitude pelas coisas possuídas em comum pertence ao amor da caridade, que "não busca o que é seu", mas visa o bem comum. E como a religião se ordena à perfeição da caridade, e a caridade se aperfeiçoa no "amor de Deus que chega ao desprezo de si mesmo" (Agostinho, De Civ. Dei xiv, 28), é contrário à perfeição religiosa possuir algo em particular. Mas a solicitude pelos bens comuns pode pertencer à caridade, embora possa ser obstáculo a algum ato mais elevado de caridade, como a contemplação divina ou a instrução do próximo. Donde é evidente que possuir riquezas excessivas em comum, quer em bens móveis, quer em imóveis, é um obstáculo à perfeição, embora não seja absolutamente incompatível com ela; enquanto não é obstáculo à perfeição religiosa ter bens externos suficientes, quer móveis, quer imóveis, para o sustento, se considerarmos a pobreza em relação ao fim comum das ordens religiosas, que é dedicar-se ao serviço de Deus. Mas se considerarmos a pobreza em relação ao fim especial de alguma ordem religiosa, então, pressuposto este fim, um maior ou menor grau de pobreza é adaptado a essa ordem religiosa; e cada ordem religiosa será tanto mais perfeita em relação à pobreza quanto professar uma pobreza mais adaptada ao seu fim. Pois é evidente que, para as obras exteriores e corporais da vida ativa, o homem necessita da ajuda de coisas exteriores, enquanto para a contemplação são necessárias poucas. Por isso o Filósofo diz (Ethic. x, 8) que "muitas coisas são necessárias para a ação, e tanto mais quanto mais grandes e nobres são as ações. Mas o homem contemplativo não necessita de tais coisas para o exercício do seu ato; necessita apenas do necessário; as outras coisas são obstáculo à sua contemplação". Portanto, é claro que uma ordem religiosa dirigida às ações corporais da vida ativa, como a milícia ou a hospitalidade, seria imperfeita se carecesse de riquezas comuns; enquanto as ordens religiosas dirigidas à vida contemplativa são tanto mais perfeitas quanto a pobreza que professam as sobrecarrega com menor solicitude pelas coisas temporais. E a solicitude pelas coisas temporais é tanto maior obstáculo à vida religiosa quanto a vida religiosa requer maior cuidado das coisas espirituais.
Ora, é manifesto que uma ordem religiosa estabelecida para contemplar e dar aos outros os frutos da contemplação mediante o ensino e a pregação, requer maior cuidado das coisas espirituais do que aquela estabelecida apenas para contemplar. Por isso, convém que uma ordem religiosa deste tipo abrace uma pobreza que a sobrecarregue com a menor quantidade de solicitude. E é claro que conservar o que se adquiriu em tempo oportuno para o uso necessário implica o menor ônus de solicitude. Por conseguinte, um tríplice grau de pobreza corresponde aos três graus mencionados de vida religiosa. Pois convém que uma ordem religiosa dirigida às ações corporais da vida ativa tenha abundância de riquezas em comum; que a posse comum de uma ordem religiosa dirigida à contemplação seja mais moderada, a menos que os ditos religiosos sejam obrigados, por si mesmos ou por outros, a exercer a hospitalidade ou a socorrer os pobres; e que aqueles que visam dar aos outros os frutos da sua contemplação tenham a vida mais isenta de cuidados exteriores; o que se consegue acumulando as coisas necessárias para a vida, adquiridas em tempo oportuno. Isto, o Senhor, Fundador da pobreza, ensinou pelo seu exemplo. Pois Ele tinha uma bolsa que confiou a Judas, na qual se guardavam as coisas que Lhe eram ofertadas, como se narra em Jo 12,6.
Nem se deve objetar que Jerônimo (Super Matth. xvii, 26) diz: "Se alguém objetar que Judas levava dinheiro na bolsa, respondemos que Ele considerava ilícito gastar em seu próprio uso os bens dos pobres", a saber, pagando o imposto — porque entre esses pobres seus discípulos ocupavam o primeiro lugar, e o dinheiro na bolsa de Cristo era gasto principalmente para as suas necessidades. Pois está escrito (Jo 4,8) que "seus discípulos foram à cidade comprar alimentos", e (Jo 13,29) que os discípulos "pensavam, como Judas tinha a bolsa, que Jesus lhe dissera: 'Compra as coisas que nos são necessárias para a festa', ou que desse alguma coisa aos pobres". Disto é evidente que guardar dinheiro, ou qualquer outra propriedade comum, para o sustento dos religiosos da mesma ordem ou de outros pobres, está de acordo com a perfeição que Cristo ensinou pelo seu exemplo. Além disso, depois da ressurreição, os discípulos, de quem todas as ordens religiosas tiveram origem, guardavam o preço dos campos e distribuíam conforme a necessidade de cada um (At 4,34-35).
**Resposta à Objeção 1:** Como foi dito acima (q. 184, a. 3, ad 1), esta palavra do Senhor não significa que a pobreza em si seja a perfeição, mas que é o meio da perfeição. Na verdade, como se mostrou acima (q. 186, a. 8), é o menor dos três principais meios de perfeição; pois o voto de continência supera o voto de pobreza, e o voto de obediência supera a ambos. Contudo, como os meios não são procurados por si mesmos, mas por causa do fim, uma coisa não é melhor por ser um instrumento maior, mas por ser mais adaptada ao fim. Assim, um médico não cura tanto quanto mais remédio dá, mas quanto mais o remédio é adaptado à doença. Portanto, não se segue que uma ordem religiosa seja tanto mais perfeita quanto mais perfeita é a pobreza que professa, mas quanto a sua pobreza é mais adaptada ao fim comum e especial. Mesmo que se conceda que a ordem religiosa que excede as outras na pobreza seja mais perfeita enquanto mais pobre, isso não a tornaria simplesmente mais perfeita. Pois possivelmente outra ordem religiosa a ultrapassaria em matérias relativas à continência ou à obediência, e assim seria simplesmente mais perfeita, uma vez que exceder em coisas melhores é ser simplesmente melhor.
**Resposta à Objeção 2:** As palavras do Senhor (Mt 6,34): "Não vos inquieteis pelo dia de amanhã", não significam que não devamos guardar nada para o dia seguinte; pois o Bem-aventurado Antão mostra o perigo de fazê-lo nas Conferências dos Padres (Coll. ii, 2), onde diz: "A nossa experiência mostrou que aqueles que tentaram praticar a privação de todos os meios de subsistência, de modo a não terem com que se prover de alimento por um dia, foram enganados de forma tão insensata que não puderam terminar devidamente a obra que tinham empreendido". E, como diz Agostinho (De oper. Monach. xxiii), "se esta palavra do Senhor, 'Não vos inquieteis pelo dia de amanhã', significa que não devemos guardar nada para o dia seguinte, aqueles que se fecham por muitos dias ao olhar dos homens e aplicam toda a mente à vida de oração não poderão prover-se destas coisas". E mais adiante acrescenta: "Havemos de supor que, quanto mais santos são, menos se assemelham às aves?" E ainda (De oper. Monach. xxiv): "Pois se se argumenta, a partir do Evangelho, que não devem guardar nada, respondem com razão: Por que então o Senhor tinha uma bolsa, onde guardava o dinheiro que era recolhido? Por que, em tempos passados, quando a fome ameaçava, foi enviado trigo aos santos padres? Por que os apóstolos proviam assim às necessidades dos santos?"
Portanto, a palavra: "Não vos inquieteis pelo dia de amanhã", segundo Jerônimo (Super Matth.), é assim interpretada: "Basta que pensemos no presente; sendo o futuro incerto, deixemo-lo a Deus"; segundo Crisóstomo (Hom. xvi in Opus Imperfectum), "Basta suportar o trabalho pelas coisas necessárias; não trabalheis em excesso pelas coisas desnecessárias"; segundo Agostinho (De Serm. Dom. in Monte ii, 17): "Quando praticamos alguma boa ação, devemos ter em mente não as coisas temporais, que são significadas pelo dia de amanhã, mas as coisas eternas".
**Resposta à Objeção 3:** A palavra de Jerônimo se aplica onde há riquezas excessivas, possuídas como que em particular, ou pelo abuso das quais até os membros individuais de uma comunidade se ensoberbecem e se entregam à lascívia. Mas não se aplicam a riquezas moderadas, reservadas para o uso comum, simplesmente como meio de subsistência de que cada um necessita. Pois dá no mesmo que cada um use das coisas pertencentes ao necessário da vida, e que estas coisas sejam reservadas para o uso comum.
**Resposta à Objeção 4:** Isaac recusou aceitar a oferta de possessões, porque temia que isso o levasse a ter riquezas excessivas, cujo abuso seria obstáculo à perfeição religiosa. Por isso Gregório acrescenta (Dial. iii, 14): "Ele temia tanto perder a segurança da sua pobreza, como o rico avarento é cuidadoso da sua riqueza perecível". Não se narra, porém, que se recusasse a aceitar tais coisas como são comumente necessárias para a manutenção da vida.
**Resposta à Objeção 5:** O Filósofo diz (Polit. i, 5-6) que o pão, o vinho e coisas semelhantes são riquezas naturais, enquanto o dinheiro é riqueza artificial. Por isso, certos filósofos se recusaram a usar dinheiro e empregaram outras coisas, vivendo segundo a natureza. Donde Jerônimo mostra, pelas palavras do Senhor, que proibiu igualmente ambas, que é o mesmo ter dinheiro e possuir outras coisas necessárias à vida. E embora o Senhor tenha mandado àqueles que eram enviados a pregar que não levassem essas coisas no caminho, não lhes proibiu que as possuíssem em comum. Como estas palavras do Senhor devem ser entendidas, foi mostrado acima (q. 185, a. 6, ad 2; Ia-IIae, q. 108, a. 2, ad 3).
Summa Theologiae — Second Part of the Second Part · Article. 7 - Whether religious perfection is diminished by possessing something in common? · séc. XIII