Veja o que os Padres da Igreja escreveram sobre esta passagem.
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Texto do Evangelho
22acrescentando: "E’ necessário que o Filho do homem padeça muitas coisas, que seja rejeitado pelos anciães, pelos príncipes doe sacerdotes e pelos escribas, que seja morto, e ressuscite ao terceiro dia. 23Depois, dirigindo-se a todos: "Se alguém quer vir após de mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias, e siga-me. 24Porque o que quiser salvar a sua vida (abandonando-me), a perderá; e quem perder a sua vida por causa de mim, salvá-la-á. 25Que aproveita o homem ganhar todo o mundo, se se perde a si mesmo, e se faz dano a si?
Agora pode levantar-se uma questão: que Lucas diz que o Senhor perguntou a seus discípulos: Quem dizem os homens que eu sou? ao mesmo tempo que orava sozinho, e eles também estavam com Ele; ao passo que Marcos diz que lhes foi feita esta pergunta pelo Senhor no caminho; mas isto é difícil somente para quem nunca orou no caminho.
Santo Agostinho · Augustinus de Cons. Evang · séc. V
Tendo o Senhor Se retirado da multidão e estando num lugar à parte, estava entregue à oração. Como está dito: *E aconteceu que, estando Ele a sós em oração.* Pois a Si mesmo Se constituiu como exemplo disto, instruindo os Seus discípulos por um método fácil de ensinamento. Porque suponho que os governantes do povo devem ser superiores também nas boas obras àqueles que lhes estão sujeitos, conservando sempre com eles o trato em todas as coisas necessárias, e tratando daquelas coisas em que Deus Se compraz.
São Cirilo de Alexandria · séc. V
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Ora, o facto de Ele Se entregar à oração poderia perturbar os Seus discípulos. Pois O viam orar como homem, a Ele que antes haviam visto realizar milagres com poder divino. A fim, pois, de dissipar toda perturbação desta ordem, faz-lhes esta pergunta, não porque ignorasse os rumores que haviam recolhido de fora, mas para os libertar da opinião do vulgo e infundir neles a fé verdadeira. Daí o que se segue: *E interrogou-os, dizendo: Quem diz o povo que Eu sou?*
São Cirilo de Alexandria · séc. V
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Mas notai a subtil habilidade da pergunta. Pois dirige-os primeiro aos elogios dos estranhos, para que, derrubando estes, pudesse engendrar neles a opinião reta. Assim, quando os discípulos expuseram a opinião do povo, Ele lhes pergunta a opinião deles próprios; como se acrescenta: *E disse-lhes: E vós, quem dizeis que Eu sou?* Quão significativo é este *vós*! Exclui-os dos outros, para que se afastem das suas opiniões; como se dissesse: vós, que por meu decreto sois chamados ao Apostolado, testemunhas dos meus milagres, quem dizeis que Eu sou? Mas Pedro antecipou-se aos demais e se faz porta-voz de toda a assembleia, e lançando-se na eloquência do amor divino, profere a confissão de fé, como se acrescenta: *Respondendo Pedro, disse: O Cristo de Deus.* Não diz simplesmente que Ele era Cris…
São Cirilo de Alexandria · séc. V
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Devemos contudo observar que Pedro confessou com suma sabedoria que Cristo é um só, contra aqueles que presumiam dividir Emanuel em dois Cristos. Pois Cristo não lhes perguntou, dizendo: *Quem dizem os homens que é o Verbo divino?* mas o Filho do homem, a quem Pedro confessou ser o Filho de Deus. Nisto, pois, Pedro é digno de admiração e merecedor de tão suprema honra, vendo que Aquele a quem admirava em nossa forma, creia ser o Cristo do Pai, isto é, que o Verbo que procedeu da Substância do Pai Se havia feito homem.
São Cirilo de Alexandria · séc. V
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Era então dever dos discípulos pregá-Lo por todo o mundo. Pois esta era a obra daqueles que foram por Ele escolhidos para o ofício do Apostolado. Mas como a sagrada Escritura atesta: *Há um tempo para cada coisa.* Pois convinha que a cruz e a ressurreição se consumassem, e depois se seguisse a pregação dos Apóstolos; como está dito: *O Filho do homem deve necessariamente padecer muitas coisas.*
São Cirilo de Alexandria · séc. V
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Os grandes e nobres chefes incitam os poderosos em armas a feitos de valor, não somente prometendo-lhes as honras da vitória, mas declarando que o próprio sofrimento é em si glorioso. Tal é, como vemos, o ensinamento do Senhor Jesus Cristo. Pois havia predito aos seus discípulos que lhe era necessário sofrer as acusações dos judeus, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. A fim de que não pensassem que Cristo havia de sofrer a perseguição pela vida do mundo, mas que eles próprios poderiam levar uma vida suave, mostra-lhes que necessariamente hão de passar por semelhantes combates, se desejam obter a sua glória. Daí dizer-se: *E disse a todos*.
São Cirilo de Alexandria · séc. V
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Mas aquele incomparável exercício da paixão de Cristo, que supera as delícias e as coisas preciosas do mundo, é evocado quando acrescenta: *De que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se a si mesmo se perde ou se arruína?* Como se dissesse: Quando um homem, por se voltar para as delícias presentes, alcança o prazer e recusa de fato sofrer, escolhendo antes viver esplendidamente nas suas riquezas, que proveito lhe virá então, quando tiver perdido a sua alma? Porque a aparência deste mundo passa, e as coisas agradáveis se vão como sombra. Pois os tesouros da impiedade não aproveitam, mas a justiça arrebata o homem da morte.
São Cirilo de Alexandria · séc. V
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Agora infunde temor nos seus corações, ao dizer que descerá do céu, não na sua anterior humildade e condição proporcionada à nossa capacidade de recebê-lo, mas na glória do Pai, com os Anjos que lhe assistem. Pois se segue: *Quando vier na sua glória, e na do Pai, e dos santos anjos*. Tremendo e funesto será, pois, ser marcado como inimigo e negligente nos negócios, quando tão grande Juiz descer com os exércitos dos Anjos que o cercam. Mas disto podeis perceber que, ainda que haja tomado para si a nossa carne e o nosso sangue, o Filho não é por isso menos Deus, visto que promete vir na glória de Deus Pai, e que os Anjos lhe assistirão como ao Juiz de todos, que se fez homem semelhante a nós.
Oportuno foi também o mandamento do Senhor de que ninguém dissesse que Ele era o Cristo, para que, removidos os escândalos e completados os sofrimentos da cruz, uma opinião correta a seu respeito se arraigasse firmemente nas mentes dos ouvintes. Pois aquilo que uma vez se arraigou e depois foi arrancado, quando novamente plantado dificilmente se conservará. Mas aquilo que, uma vez plantado, permanece sem perturbação, cresce seguramente. Porque se Pedro se escandalizou apenas com o que ouviu, que sentimento teriam aqueles muitos que, depois de terem ouvido que Ele era o Filho de Deus, o viram crucificado e cuspido?
São João Crisóstomo · Chrysostomus in Matthaeum · séc. V
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Ora, o Salvador, da sua grande misericórdia e benignidade, não quer que ninguém o sirva de má vontade e por constrangimento, mas somente aqueles que vêm por sua própria vontade e são gratos por lhes ser permitido servi-lo. E assim, não compelindo os homens e impondo-lhes um jugo, mas por persuasão e bondade, atrai para si por toda parte os que estão dispostos, dizendo: Se alguém quiser, etc.
São João Crisóstomo · Chrysostomus in Matthaeum · séc. V
Mas não é opinião leviana da multidão a que os discípulos mencionam, quando se acrescenta: E eles, respondendo, disseram: João Batista, (a quem sabiam ter sido decapitado), mas alguns dizem: Elias, (a quem pensavam que havia de vir), mas outros dizem que um dos antigos profetas ressuscitou. Mas fazer esta indagação pertence a uma sabedoria diferente da nossa, pois se bastava ao Apóstolo Paulo não saber senão a Jesus Cristo, e este crucificado, que mais posso desejar saber senão a Cristo?
Santo Ambrósio de Milão · séc. IV
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Neste único nome há a expressão tanto da Sua Divindade como da Sua encarnação, e a crença na Sua paixão. Compreendeu portanto tudo, tendo expresso tanto a natureza como o nome em que reside toda a virtude.
Santo Ambrósio de Milão · séc. IV
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Mas o Senhor Jesus Cristo não queria a princípio ser pregado, para que não se suscitasse tumulto; como se segue: *E ordenou-lhes com insistência, mandando-lhes que a ninguém dissessem coisa alguma.* Por muitas razões manda Ele aos Seus discípulos que se calem: para iludir o príncipe deste mundo, para rejeitar a vanaglória, para ensinar a humildade. Cristo, pois, não Se glorificava — e tu, que és de nascimento ignóbil, ousas gloriar-te? Igualmente o fez para impedir que discípulos rudes e ainda imperfeitos fossem oprimidos pela admiração deste anúncio tremendo. São proibidos, portanto, de O pregarem como Filho de Deus, para que O pregassem depois como crucificado.
Santo Ambrósio de Milão · séc. IV
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Talvez porque o Senhor soubesse que os discípulos haviam de crer até no difícil mistério da Paixão e da Ressurreição, quis Ele mesmo ser o proclamador de Sua própria Paixão e Ressurreição.
Santo Ambrósio de Milão · séc. IV
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Ora, o nosso Senhor, ao mesmo tempo que sempre nos eleva a contemplar a recompensa futura da virtude e nos ensina quão bom é desprezar as coisas mundanas, sustenta também a fraqueza do espírito humano com uma recompensa presente. Pois é coisa árdua tomar a cruz e expor a vida ao perigo e o corpo à morte; renunciar ao que se é, quando se deseja ser o que ainda não se é; e mesmo a mais elevada virtude raramente troca as coisas presentes pelas futuras. O bom Mestre, então, para que nenhum homem se quebrasse pelo desânimo ou pelo cansaço, logo promete que será visto pelos fiéis, nestas palavras: *Mas digo-vos: Alguns dos que aqui estão não provarão a morte até verem o reino de Deus*.
Santo Ambrósio de Milão · séc. IV
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Se também nós quisermos não temer a morte, estejamos onde Cristo está. Porque somente aqueles que são capazes de estar com Cristo não podem provar a morte; e nisto podemos considerar, pela própria natureza da palavra, que não experimentarão sequer a mínima percepção da morte aqueles que são julgados dignos de obter a união com Cristo. Suponhamos ao menos que a morte do corpo é provada pelo tato, e a vida da alma preservada pela posse; pois aqui não se nega a morte do corpo, mas a da alma.
Os discípulos estavam com o Senhor, mas Ele sozinho orava ao Pai, porquanto os santos podem estar unidos ao Senhor pelo vínculo da fé e do amor, mas só o Filho é capaz de penetrar os insondáveis segredos da vontade do Pai. Em todo lugar, pois, ora Ele a sós, porque os desejos humanos não compreendem o conselho de Deus, nem pode alguém ser participante com Cristo das coisas profundas de Deus.
São Beda, o Venerável · séc. VIII
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Com razão o nosso Senhor, estando prestes a inquirir acerca da fé dos discípulos, indaga primeiro a opinião das multidões, a fim de que a confissão deles não parecesse determinada não pelo próprio conhecimento, mas formada pela opinião do vulgo, e não fossem tidos por crentes por experiência própria, mas, à semelhança de Herodes, perturbados pelos diversos rumores que ouviam.
São Beda, o Venerável · séc. VIII
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Com razão se dirigiu a todos, visto que trata separadamente com os seus discípulos das coisas mais elevadas, as que se referem à crença no seu nascimento e na sua paixão.
São Beda, o Venerável · séc. VIII
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Ora, se o homem não se renunciar a si mesmo, não se aproxima dAquele que está acima dele; por isso se diz: *negue-se a si mesmo*.
São Beda, o Venerável · séc. VIII
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Somos, pois, ordenados a tomar a cruz de que acima falamos, e, havendo-a tomado, a seguir a nosso Senhor, que carregou a sua própria cruz. Donde se segue: *E siga-me*.
Ele deixou a Sua própria vida como exemplo de irrepreensível conversação para aqueles que se dispõem a obedecê-Lo; como diz: Vinde após mim, entendendo por isso não uma sequência corporal, pois isso seria impossível a todos, visto que nosso Senhor está nos céus, mas uma devida imitação de Sua vida segundo as capacidades de cada um.
São Basílio Magno · séc. IV
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A negação de si mesmo é, com efeito, um esquecimento total das coisas passadas e um abandono da própria vontade e afeição.
São Basílio Magno · séc. IV
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Ora, o desejo de sofrer a morte por Cristo, a mortificação dos próprios membros que estão sobre a terra, a resolução varonil de enfrentar todo perigo por Cristo e a indiferença em relação à vida presente — eis o que significa tomar a própria cruz. Daí acrescenta-se: E tome cada dia a sua cruz.
São Basílio Magno · séc. IV
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Consiste, portanto, a perfeição do homem em ter os afetos endurecidos até mesmo em relação à própria vida, e em trazer sempre consigo a sentença de morte, de modo a não confiar de maneira alguma em si mesmo. Mas a perfeição tem o seu começo no abandono das coisas que lhe são estranhas; como sejam as riquezas, a vanaglória ou o apego às coisas que não aproveitam.
De duas maneiras também se toma a cruz: ou quando o corpo é afligido pela abstinência, ou a mente é tocada pela compaixão.
São Gregório Magno · Gregorius in Evang · séc. VII
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Visto que a santa Igreja tem um tempo de perseguição e outro de paz, o Senhor atentou para ambos os tempos no seu mandamento a nós. Pois no tempo de perseguição devemos entregar a nossa alma, isto é, a nossa vida, o que Ele significou dizendo: Quem perder a sua vida. Mas no tempo de paz, aquelas coisas que têm o maior poder para nos subjugar, os nossos desejos terrenos, devem ser vencidos; o que Ele significou dizendo: Que aproveita ao homem, etc. Ora, nós comumente desprezamos todas as coisas transitórias, mas ainda assim somos tão refreados por aquele sentimento de vergonha tão comum ao homem, que ainda não podemos expressar em palavras a retidão que conservamos em nossos corações. Mas a esta chaga o Senhor acrescenta um remédio adequado, dizendo: Porque quem se envergonhar de mim e das…
São Gregório Magno · Gregorius in Evang · séc. VII
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Ou, pelo reino de Deus neste lugar, entende-se a Igreja presente; e alguns dos seus discípulos haviam de viver no corpo até aquele tempo, quando contemplariam a Igreja de Deus edificada e levantada contra a glória do mundo.
O homem também se nega a si mesmo quando, por uma suficiente mudança de costumes ou por uma boa conversação, muda uma vida de habitual perversidade. Aquele que por longo tempo viveu na luxúria abandona o seu eu lascivo quando se torna casto; e da mesma forma, o abandono de quaisquer crimes é uma negação de si mesmo.
Orígenes · séc. III
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Ele atribui a causa disto quando acrescenta: Porque quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; isto é, quem, segundo a presente vida, quiser conservar a sua alma fixa nas coisas sensíveis, esse a perderá, jamais alcançando os limites da bem-aventurança. Mas, por outro lado, acrescenta: mas quem perder a sua vida por amor de mim, a salvará. Isto é, quem abandona as coisas sensíveis, olhando para a verdade, e se expõe à morte, como que perdendo a sua vida por Cristo, antes a salvará. Se então é coisa bem-aventurada salvar a nossa vida (quanto àquela segurança que está em Deus), deve haver também uma certa boa entrega da vida que se faz pelo olhar para Cristo. Parece-me também, pela semelhança com aquela negação de si mesmo de que antes se falou, que convém perdermos uma certa vida pecaminosa…