Obra patrística
Exposição da Fé Ortodoxa
São João Damasceno · c. 675–749
Nota.
Nota.
Na difícil tarefa de traduzir o De Fide Orthodoxa — tarefa tornada ainda mais difícil por vezes pelo estado do texto —, devo muito a meu filho, James L. Salmond, M.A. M.B., outrora membro do Balliol College, Oxford. Ainda restam passagens de interpretação duvidosa. Tencionava-se fornecer um conjunto maior de Notas e também uma exposição sobre João e seus escritos. Considerou-se oportuno, contudo, completar o volume sem estes.
S. D. F. Salmond.
Aberdeen, 1 de Setembro de 1898.
Prólogo.
Da Edição Latina de Miguel Lequien, Conforme Publicada na Patrologia de Migne.
Após as regras da dialética cristã e o exame dos erros das antigas heresias vem enfim o livro "Sobre a Fé Ortodoxa." Neste livro, João de Damasco segue a mesma ordem adotada por Teodoreto na sua "Epítome dos Dogmas Divinos," mas emprega um método diverso. Pois aquele, pela força mesma do seu próprio gênio, construiu vários tipos de argumentos contra os hereges, aduzindo o testemunho da Sagrada Escritura, e assim compôs um tratado conciso de Teologia. Nosso autor, porém, não se circunscreve à Escritura, mas recolheu também as opiniões dos santos Padres, e produziu uma obra marcada pela mesma perspicuidade e brevidade, formando um tesouro inesgotável da tradição em que nada se encontra que não tenha sido sancionado pelos sínodos ecumênicos ou aceito pelos mestres aprovados da Igreja.
Seguiu, com efeito, principalmente a Gregório de Nazianzo, que, pela grande exatidão de sua erudição nas coisas divinas, mereceu o título de "O Teólogo," e que deixou quase nenhum capítulo do ensinamento cristão intocado em suas obras que nos restam, sendo livre de qualquer mácula ou suspeita do menor erro. João havia lido seus livros com tanta assiduidade que parecia tê-los todos abraçados em sua memória fiel. Portanto, ao longo de toda esta obra podeis ouvir não tanto João de Damasco quanto Gregório o Teólogo expondo os mistérios da fé ortodoxa. João utilizou-se ainda de Basílio Magno, de Gregório de Nissa, e especialmente de Nemésio, bispo de Emesa na Síria, o mais querido de todos; assim também de Cirilo de Alexandria, Leão Magno, Leôncio de Bizâncio, o mártir Máximo: e ainda de Atanásio, Crisóstomo, Epifânio, e, para não mencionar outros, daquele escritor que tomou o nome de Dionísio o Areopagita. De todos estes colheu de todos os lados a flor de suas opiniões, e preparou a mais doce mel da doutrina mais saudável. Pois seu intento não era forjar opiniões suas ou algo novo, mas antes recolher numa única obra teológica as opiniões dos antigos que se encontravam esparsas por diversos volumes. E, com efeito, para que o leitor possa mais facilmente perceber o método deste mestre tão cuidadoso, anotaremos cuidadosamente à margem os nomes dos autores e dos livros de onde colheu cada opinião em particular.
A João Damasceno, portanto, pertence o mérito de ter sido o primeiro a compor um volume repleto das sentenças dos mestres católicos. Por conseguinte, sua autoridade entre os teólogos foi sempre ponderosa, não somente no Oriente, mas ainda no Ocidente e entre os Latinos: tanto mais quanto à tradução para o latim do seu livro "Sobre a Fé Ortodoxa," feita por Burgundião, cidadão de Pisa, durante o Pontificado de Eugênio Terceiro. Além disso, foi esta tradução que foi usada por aquele mestre das Sentenças, Santo Tomás, e outros teólogos posteriores, até ao tempo em que no princípio do século XVI Tiago Faber Stapulense tentou produzir uma tradução mais perfeita do que a antiga, com sua linguagem rude e bárbara. Mas como esta também tinha muitos defeitos, Tiago Bílio, no decorrer do mesmo século, completou uma versão de maior elegância, porém ainda destituída de cuidado e concisão. Pois, como observou Combefis, "ao traduzir o Damasceno, Bílio mostrou a inexperiência de um recruta."
Mas o próprio Combefis considerou de não pequeno valor a tradução de Bílio; pois quando se ocupava de uma nova edição das obras de João Damasceno, não julgou necessário fazer mais uma vez uma nova tradução, mas ficou totalmente contente em emendar a anterior. Pois com razão estava ciente de que todos os intérpretes mais eruditos de longas obras caem em muitos erros, e que é muito mais fácil melhorar os erros alheios do que descobrir os próprios. Assim pois a nossa tradução representará a de Bílio purificada de seus defeitos e reduzida a um estilo mais conciso. Porém, para que a nossa edição saísse com mais exatidão do que as demais, além de usar as antigas traduções e vários exemplares em número de vinte ou mais códices, colacionados pela minha própria mão, revidi outrossim a fraseologia e a dicção grega naqueles lugares dos Padres gregos que o Damasceno reuniu. Mais ainda, omitindo tanto os comentários mais breves de Faber sobre cada capítulo como também os mais longos de Judoco Clictoveu de Neópolis, nenhum dos quais contribui muito, se algo contribui, para a inteligência clara dos Padres gregos, tentei por meio de anotações mais plenas colocar diante dos olhos de todos uma amostra da teologia oriental, tirada tanto daqueles mestres que o Damasceno copiou como de gregos de época posterior que tive o privilégio de consultar.
A divisão costumeira entre os Latinos da obra "Sobre a Fé Ortodoxa" em quatro livros não se encontra em nenhum códice grego, nem na edição grega de Verona. E, além disso, essa divisão não se vê nos antigos manuscritos da tradução latina original, senão como uma nota ocasional escrita a tinta por mão segunda e posterior nas margens de alguns deles. Por conseguinte, Marcus Hopperus parece estar enganado ao atribuir, na epístola dedicatória da edição greco-latina de Basílio, a divisão em quatro livros ao tradutor latino: isto é, se não me engano, a Faber, cuja edição ele publicou. Vestígios disto, porém, existem nos livros de Santo Tomás de Aquino. Sustento, portanto, que este modo de divisão foi engendrado e introduzido pelos Latinos em imitação dos quatro livros das "Sentenças" de Pedro Lombardo.
Somente o Códice Régius n. 3445, que é um muito tardio, parece dividir o "De Fide Orthodoxa" em duas partes: a primeira, ou περὶ τῆς Θεολογίας, tratando de facto do único Deus triuno, Criador e Providente, e a segunda, περὶ τῆς οἰκονομίας, com Deus Encarnado, o Redentor e Galardoador. Porém uma objeção a esta divisão é a clara conexão entre o capítulo 43, no qual a Encarnação, ou "Economia Divina", é discutida, e as palavras que imediatamente a precedem no fim do capítulo 42, que é intitulado "Sobre a Predestinação", tornando um e outro capítulo parte de uma discussão contínua. Este defeito não pode ser imputado à outra divisão em quatro partes. Mas, para não alarmar o leitor acostumado à divisão anterior com demasiada novidade, seguindo Hopperus, atribuí aos capítulos gregos os mesmos números que se marcavam nos códices gregos, mas não hesitei em dividir a tradução latina em quatro livros.
Não deparei com nenhuma edição da antiga tradução latina; mas a versão de Jacobus Faber foi publicada em Paris por Judocus Clictoveus da prensa de Henry Stephen no ano de 1512, juntamente com comentários. Depois, no ano de 1535, Henry Pet, o impressor de Basileia, publicou as obras existentes de São João de Damasco, e entre elas os quatro livros "Sobre a Fé Ortodoxa, traduzido por Jacobus Faber de Stapula", porém sem nenhum comentário. Após alguns anos o mesmo Henry numa segunda edição adicionou os comentários mais breves de Clictoveus, e novamente na edição publicada no ano de 1537. No prefácio a estas edições ocorre entre outras a seguinte sentença: "Agora pela primeira vez se adicionam as anotações explicando todas as dificuldades e as passagens difíceis e elevadas." Por certo não conheço edição mais antiga em que tais explicações, quais forem, sejam dadas. Além disso, o autor destas é asseverado por Henricus Gravius, da ordem dos Pregadores, em sua própria edição latina das obras do santo João de Damasco, que ele publicou em Colônia da prensa de Peter Quentel, no ano de 1546, ter sido Jacobus Faber, e com certeza em certos lugares, e especialmente onde o mistério santíssimo da Eucaristia está sob discussão, as anotações são de algum modo frígidas em caráter e não exprimem com suficiente plenitude a fé católica. E isto não pode ser dito sem dor, por causa de um homem a quem de outra maneira deveria venerar como digno de veneração, quase como um dos meus, se não se houvesse provado traidor à sua religião ancestral ou ao menos demasiado favorável aos inovadores. Quanto à edição de nosso Gravius, versado como era em ambas as línguas latina e grega, ele reviu a tradução de Jacobus Faber e a comparou com o texto grego e a ilustrou com escolias brevíssimos, "por causa dos hereges", como disse na carta dedicatória a Oswald, especialmente onde eles mesmos tentam em vão abalar a doutrina da Igreja conforme enunciada pelo Damasceno.
O livro "Sobre a Fé Ortodoxa" Donato Veronense mandou imprimir em Verona primeiro somente em grego, e o apresentou a Clemente Sétimo no ano de 1531. Somente no ano de 1548 produziu uma versão contendo tanto o texto grego quanto o latino, e novamente no ano de 1575. Depois, no ano de 1577, Tiago Billy publicou em Paris sua própria tradução sem o texto grego: e foi impresso novamente naquela mesma cidade nos anos de 1603 e 1617.
Aqui não será supérfluo recordar que a maior parte do primeiro livro, conforme dizem, da obra "Sobre a Fé Ortodoxa" existe como o sexto volume das obras de Cirilo de Alexandria, inscrito no nome daquele mestre, resultado que deve ser atribuído, sem dúvida, à negligência de algum copista que encontrou estes escritos do Damasceno juntamente com outros de Cirilo.
Que a Divindade é incompreensível, e que não devemos perscrutar nem nos imiscuir nas coisas que não nos foram transmitidas pelos santos Profetas, Apóstolos e Evangelistas.
Exposição Exacta da Fé Ortodoxa.
Livro I.
Capítulo I.—Que a Divindade é incompreensível, e que não devemos esquadrinhar e intrometer-nos nas coisas que não nos foram transmitidas pelos santos Profetas, e Apóstolos, e Evangelistas.
Ninguém viu jamais a Deus; o Filho Unigênito, que está no seio do Pai, esse O deu a conhecer. A Divindade, portanto, é inefável e incompreensível. Porque ninguém conhece o Pai, senão o Filho, nem o Filho, senão o Pai. E também o Espírito Santo conhece as coisas de Deus, assim como o espírito do homem conhece as coisas que estão nele. Além disso, depois da primeira e bendita natureza, ninguém, não só dos homens, mas até das potestades supramundanas, e dos Querubins, digo, e dos próprios Serafins, jamais conheceu a Deus, senão aquele a quem Ele Se revelou.
Deus, contudo, não nos deixou em absoluta ignorância. Porque o conhecimento da existência de Deus foi por Ele implantado em todos por natureza. Esta criação também, e a sua conservação, e o seu governo, proclamam a majestade da natureza Divina. Além disso, pela Lei e pelos Profetas nos tempos antigos, e depois pelo Seu Filho Unigênito, nosso Senhor e Deus e Salvador Jesus Cristo, Ele nos manifestou o conhecimento de Si mesmo, conforme nos era possível. Portanto, todas as coisas que nos foram transmitidas pela Lei e pelos Profetas e Apóstolos e Evangelistas, nós as recebemos, e conhecemos, e honramos, nada mais buscando além destas. Porque Deus, sendo bom, é a causa de todo o bem, não sujeito à inveja nem a qualquer paixão. Pois a inveja está longe da natureza Divina, que é tanto impassível como somente boa. Conhecendo, pois, todas as coisas, e provendo o que é proveitoso para cada um, revelou aquilo que nos era proveitoso saber; mas o que não podíamos suportar, manteve oculto. Com estas coisas contentemo-nos, e permaneçamos nelas, não removendo os limites eternos, nem ultrapassando a divina tradição.
Sobre as coisas dizíveis e indizíveis, e as coisas cognoscíveis e incognoscíveis.
É necessário, portanto, que aquele que deseja falar ou ouvir acerca de Deus entenda claramente que, tanto na doutrina da Divindade como na da Encarnação, nem todas as coisas são indizíveis nem todas dizíveis; nem todas incognoscíveis nem todas cognoscíveis. Mas o cognoscível pertence a uma ordem, e o dizível a outra; assim como uma coisa é falar e outra coisa é conhecer. Muitas das coisas relativas a Deus, portanto, que são obscuramente compreendidas, não podem ser postas em termos adequados; mas sobre as coisas que estão acima de nós, não podemos fazer outra coisa senão exprimir-nos segundo a nossa capacidade limitada; como, por exemplo, quando falamos de Deus usamos os termos sono, e ira, e desatenção, também mãos, e pés, e tais expressões.
Nós, portanto, tanto conhecemos como confessamos que Deus é sem princípio, sem fim, eterno e perpétuo, incriado, imutável, invariável, simples, incomposto, incorpóreo, invisível, impalpável, incircunscrito, infinito, incognoscível, indefinível, incompreensível, bom, justo, Criador de todas as coisas criadas, onipotente, onirregente, onividente, de todas as coisas supervisor, soberano, juiz; e que Deus é Um, isto é, uma essência; e que Ele é conhecido, e tem o Seu ser em três subsistências, no Pai, digo, e no Filho e no Espírito Santo; e que o Pai e o Filho e o Espírito Santo são um em todos os respeitos, exceto no de não ser gerado, no de ser gerado, e no de proceder; e que o Unigênito Filho e Verbo de Deus e Deus, nas Suas entranhas de misericórdia, para a nossa salvação, pelo beneplácito de Deus e a cooperação do Espírito Santo, sendo concebido sem semente, nasceu incorruptamente da Santa Virgem e Mãe de Deus, Maria, pelo Espírito Santo, e fez-Se dela varão perfeito; e que o Mesmo é ao mesmo tempo perfeito Deus e perfeito homem, de duas naturezas, Divindade e Humanidade, e em duas naturezas possuindo inteligência, vontade e energia, e liberdade, e, numa palavra, perfeito segundo a medida e proporção própria de cada uma, ao mesmo tempo da divindade, digo, e da humanidade, contudo numa só pessoa composta; e que sofreu fome e sede e cansaço, e foi crucificado, e por três dias sujeitou-Se à experiência da morte e sepultura, e subiu aos céus, de onde também veio a nós, e virá novamente. E a Sagrada Escritura disto é testemunha, e todo o coro dos Santos.
Mas nem sabemos, nem podemos dizer, o que é a essência de Deus, ou como está em todas as coisas, ou como o Unigênito Filho e Deus, tendo-Se esvaziado a Si mesmo, Se fez homem do sangue virginal, feito por outra lei contrária à natureza, ou como andou com pés secos sobre as águas. Não está, portanto, dentro da nossa capacidade dizer algo acerca de Deus ou mesmo pensar n'Ele, além das coisas que nos foram divinamente reveladas, seja por palavra, seja por manifestação, pelos divinos oráculos tanto do Antigo Testamento como do Novo.