Obra patrística
A Virgindade Perpétua de Santa Maria
São Jerônimo · c. 347–420
A Perpétua Virgindade da Bem-aventurada Maria, Parágrafo 1
A Perpétua Virgindade da Bem-aventurada Maria, Parágrafo 1
Fui rogado há pouco por alguns dos irmãos que respondesse a um opúsculo escrito por um certo Helvidius. Diferiu-se de fazê-lo, não porque seja matéria difícil manter a verdade e refutar um ignorante boçal que mal conhece o primeiro vislumbre do saber, mas porque temia que a minha resposta o fizesse parecer digno de ser refutado. Havia ainda a consideração de que um sujeito turbulento, único no mundo que se julga simultaneamente sacerdote e leigo, aquele que, como se disse, crê que a eloquência consiste em loquacidade e considera falar mal de alguém como testemunho de uma boa consciência, começaria a blasfemar ainda pior se lhe fosse proporcionada ocasião de discussão. Estaria como que sobre um pedestal, e publicaria suas opiniões por toda parte. Havia razão também para temer que, faltando-lhe a verdade, investisse contra seus adversários com a arma do abuso. Mas todos estes motivos para o silêncio, embora justos, mais justamente deixaram de influir-me, por causa do escândalo causado aos irmãos que se indignavam com seus delírios. A machadinha do Evangelho deve portanto ser agora posta à raiz da árvore estéril, e tanto ela como sua folhagem infrutífera sejam lançadas no fogo, para que Helvidius, que nunca aprendeu a falar, enfim aprenda a calar-se.
A perpétua virgindade da Bem-aventurada Maria, Parágrafo 2
Devo invocar o Espírito Santo para que pela minha boca expresse o Seu sentido e defenda a virgindade da Bem-aventurada Maria. Devo invocar o Senhor Jesus para que guarde o sagrado repouso do seio materno em que habitou por dez meses de toda suspeita de comércio carnal. E devo também suplicar a Deus Pai que mostre que a mãe de Seu Filho, que foi mãe antes de ser esposa, permaneceu Virgem após o nascimento de seu filho. Não temos desejo algum de correr pelos campos da eloquência, não recorremos aos artifícios dos lógicos nem às selvas de Aristóteles. Apresentaremos as palavras mesmas da Escritura. Que ele seja refutado pelas mesmas provas que usou contra nós, para que veja que foi possível ler o que está escrito e contudo ser incapaz de discernir a conclusão estabelecida de uma fé sã.
A perpétua virgindade da bem-aventurada Maria, Parágrafo 3
Sua primeira afirmação foi: "Mateus diz: Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Tendo sua mãe Maria sido desposada a José, antes de coabitarem, achou-se que havia concebido do Espírito Santo. E José, seu esposo, sendo homem justo e não querendo infamá-la publicamente, intentava repudiá-la secretamente. Mas, enquanto assim pensava, eis que lhe apareceu em sonho um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua esposa; pois o que nela foi concebido é do Espírito Santo." Nota bem, diz ele, que a palavra usada é desposada, não confiada como vós dizeis, e decerto a única razão pela qual foi desposada era para que um dia fosse casada. E o Evangelista não teria dito antes de coabitarem se não fossem coabitar, pois ninguém usaria a frase antes de jantar a respeito de um homem que não fosse jantar. Depois, novamente, o anjo a chama esposa e fala dela como unida a José. Somos em seguida convidados a ouvir a declaração da Escritura: "E José, despertando do sono, fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado, e recebeu sua esposa; e não a conheceu até que ela houvesse dado à luz seu filho."
A perpétua virgindade da Bem-aventurada Maria. Parágrafo 4
Tomemos os pontos um a um, e sigamos as pegadas desta impiedade para que possamos mostrar que ele se contraditou a si mesmo. Admite que ela foi desposada, e no mesmo instante quer que seja esposa de um homem que ele admitiu ser seu desposado. Novamente, chama-a esposa, e depois diz que a única razão pela qual ela foi desposada era que um dia pudesse ser casada. E, para que não pensássemos que fosse suficiente, "a palavra usada," diz ele, "é desposada e não confiada, isto é, ainda não esposa, ainda não unida pelo vínculo do matrimônio." Mas quando ele prossegue, "o Evangelista nunca teria aplicado as palavras, antes de virem juntos, a pessoas que não iam vir juntas, mais do que se alguém diz, antes de cear, quando o homem não vai ceiar," não sei se hei de prantear ou rir. Hei de convencê-lo de ignorância, ou acusá-lo de temeridade? Assim como se, supondo alguém dizer, "Antes de cear no porto naveguei para a África," suas palavras não poderiam valer a menos que fosse obrigado algum dia a ceiar no porto. Se eu escolher dizer, "o apóstolo Paulo, antes de ir para a Espanha, foi posto em ferros em Roma," ou (como certamente pudesse) "Helvídio, antes de se arrepender, foi arrebatado pela morte," deve Paulo, sendo libertado, logo ir para a Espanha, ou deve Helvídio arrepender-se após a morte, embora a Escritura diga "No sheol, quem te dará graças?" Não devemos entender antes que a preposição antes, ainda que frequentemente denote ordem no tempo, algumas vezes se refere apenas a ordem no pensamento? De sorte que não há necessidade, se causa suficiente interviesse para impedi-lo, de nossos pensamentos serem realizados. Quando, portanto, o Evangelista diz antes de virem juntos, ele indica o tempo imediatamente precedente ao matrimônio, e mostra que as coisas tinham chegado tão longe que aquela que tinha sido desposada estava a ponto de tornar-se esposa. Como se dissesse, antes de se beijarem e abraçarem, antes da consumação do matrimônio, achou-se que estava grávida. E foi achada assim por ninguém outro senão José, que observava o ventre intumescido de sua desposada com os olhares ansiosos, e, nesta época, quase o privilégio de um esposo. Todavia não se segue, como os exemplos anteriores mostraram, que tivesse relação com Maria após seu parto, quando seus desejos tinham sido extintos pelo fato de que ela já tinha concebido. E ainda que encontremos dito a José num sonho, "Não temas receber Maria, tua esposa"; e novamente, "José despertou de seu sono, e fez como o anjo do Senhor lhe tinha mandado, e recebeu para si sua esposa," ninguém deve ser perturbado por isto, como se, visto que é chamada esposa, deixe de ser desposada, pois sabemos que é usual na Escritura dar tal título aos que são desposados. A seguinte evidência do Deuteronômio estabelece o ponto. "Se o homem," diz o escritor, "encontrar a donzela que é desposada no campo, e o homem a forçar, e se deitar com ela, morrerá certamente, porque humilhou a esposa de seu próximo." E em outro lugar, "Se houver uma donzela virgem desposada a um marido, e um homem a encontrar na cidade, e se deitar com ela; então levareis ambos à porta daquela cidade, e os apedrejareis com pedras até que morram; a donzela, porque não clamou, estando na cidade; e o homem, porque humilhou a esposa de seu próximo: assim removei o mal do meio de vós." Noutro lugar também, "E qual é o homem que desposou mulher, e não a recebeu? deixe-o ir e volte a sua casa, para que não morra na batalha, e outro homem a receba." Mas se alguém sente dúvida quanto ao porquê a Virgem concebeu após ser desposada em vez de quando ninguém fosse desposado a ela, ou, para usar a frase da Escritura, nenhum marido, deixai-me explicar que havia três razões. Primeiro, que pela genealogia de José, de cujas parentelas Maria era, também a origem de Maria pudesse ser mostrada.
Em segundo lugar, para que não fosse apedrejada conforme a lei de Moisés, como adúltera. Em terceiro lugar, para que na sua fuga para o Egito tivesse algum consolo, ainda que fosse o de um guardião mais do que o de um esposo. Pois quem naquele tempo teria acreditado na palavra da Virgem de que havia concebido do Espírito Santo, e de que o anjo Gabriel havia vindo e anunciado o desígnio de Deus? e não teria todos condenado contra ela como adúltera, à semelhança de Susana? pois até nos dias presentes, agora que o mundo inteiro abraçou a fé, os judeus argumentam que quando Isaías diz, "Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho," a palavra hebraica denota uma jovem mulher, não uma virgem, isto é, a palavra é Almá, não Betulá, posição que, mais adiante, disputaremos com maior detalhe. Finalmente, excetuando José, e Isabel, e Maria mesma, e alguns poucos outros que, podemos supor, ouviram a verdade deles, todos consideravam Jesus como filho de José. E tanto foi assim que até os Evangelistas, expressando a opinião prevalecente, que é a regra correta para um historiador, o chamam pai do Salvador, como, por exemplo, "E ele (isto é, Simeão) veio pelo Espírito ao templo: e quando os pais apresentaram o menino Jesus, para fazerem conforme o costume da Lei;" e em outro lugar, "E seus pais iam todos os anos a Jerusalém na festa da Páscoa." E depois, "E tendo eles cumprido os dias, ao regressarem, o menino Jesus ficou em Jerusalém; e seus pais não sabiam disso." Observa também o que Maria mesma, que havia respondido a Gabriel com as palavras, "Como será isto, vendo que não conheço varão?" diz a respeito de José, "Filho, por que assim nos trataste? eis que teu pai e eu te procurávamos com dor." Não temos aqui, como muitos sustentam, a palavra de judeus ou de escarnecedores. Os Evangelistas chamam pai a José: Maria confessa que era pai. Não (como disse antes) que José fosse realmente o pai do Salvador: mas que, para preservar a reputação de Maria, era considerado por todos como seu pai, ainda que, antes de ouvir a admoestação do anjo, "José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua esposa: pois o que nela foi concebido é do Espírito Santo," tivesse pensamento de repudiá-la secretamente; o que mostra que bem sabia que o filho concebido não era seu. Mas dissemos o bastante, mais com o fim de instruir do que de responder a um adversário, para mostrar por que José é chamado pai de nosso Senhor, e por que Maria é chamada esposa de José. Isto também logo responde à questão de por que certos homens são chamados seus irmãos.
A perpétua virgindade da bem-aventurada Maria, parágrafo 5
Isto, porém, é ponto que terá seu devido lugar mais adiante. Importa-nos agora apressar-nos para outros assuntos. A passagem que agora se há de discutir é: "E José, levantando-se do sono, fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado, e recebeu sua esposa, e não a conheceu até que ela houvesse parido um filho, e chamou o seu nome Jesus." Aqui, em primeiro lugar, é totalmente desnecessário que nosso adversário demonstre tão elaboradamente que a palavra conhecer diz respeito à cópula carnal, antes que à apreensão intelectual; como se alguém o negasse, ou como se alguma pessoa em seu juízo pudesse jamais imaginar a loucura que Helvidio se esmera em refutar. Depois ele nos ensinaria que o advérbio até implica um tempo fixo e determinado, e quando esse se cumpre, diz ele que ocorre o evento que antes não tinha lugar, como no caso que nos ocupa: "e não a conheceu até que ela houvesse parido um filho." É claro, diz ele, que ela foi conhecida depois que pariu, e que esse conhecimento foi somente adiado pelo fato de ela gerar um filho. Para defender sua posição, ele acumula texto sobre texto, agita sua espada como um gladiador de olhos vendados, faz soar sua língua barulhenta, e termina ferindo a ninguém senão a si mesmo.