Padres e clássicosSanto Hipólito de Roma, Obras de Hipólito, II, 1

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Obra patrística

Obras de Hipólito

Santo Hipólito de Roma · c. 170–235

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II, 1–III, 1, 6

Nota introdutória, 1

Que nem Hipólito nem seu mestre tivessem qualquer concepção de que a Sé de Roma possui qualquer autoridade preeminente, à qual outras são obrigadas a deferir, é manifestamente evidente da história de ambos. Igualmente convenceram bispos romanos de erro, e igualmente os repreenderam por sua má conduta.

Nota introdutória, 2

Hipólito é o autor de uma obra chamada o Pequeno Labirinto, que, como a recentemente descoberta Philosophumena, atribui à Sé Romana qualquer coisa menos a "infalibilidade" que a citação de Irineu é tão engenhosamente distorcida para sustentar. Como ele não compreendeu a passagem é, portanto, suficientemente aparente. Perguntemos a seguir o que aparece, de sua conduta, ser a verdadeira inteligência de Irineu.

Nota introdutória, 3

Mostrei, na elucidação já referida, como Ireneu afirma que Roma é a cidade que todos visitam de todas as partes, e que os cristãos, recorrendo a ela, porque é a Cidade Imperial, levam para dentro dela o testemunho de todas as outras igrejas. Assim ela se torna uma testemunha competente do quod ab omnibus, porque não pode ignorar o que todas as igrejas ensinam com uma só voz. Este argumento, portanto, inverte o dogma romano moderno; a Roma primitiva recebeu a ortodoxia em vez de prescrevê-la. Ela acolheu em seu seio o testemunho católico trazido para dentro dela de todas as igrejas, e o proferiu como luz refletida; não primariamente seu próprio, mas o que ela fielmente preservou em concordância com igrejas mais antigas e mais eruditas do que ela mesma. Sem dúvida ela havia sido plantada e regada por São Paulo e São Pedro; mas sem dúvida também ela havia sido expressamente advertida pelo primeiro de sua responsabilidade pelo erro e pela separação final da comunhão apostólica. Hipólito viveu em um momento crítico, quando esta terrível admoestação parecia estar prestes a se realizar.

Nota introdutória, 4

Agora, pois, de Porto e de Lião, Hipólito trouxe para Roma a doutrina católica, e condenou dois de seus bispos por heresias perniciosas e vida perversa. E assim, como Ireneu ensina, a fé foi preservada em Roma pelo testemunho daqueles de todas as partes que para lá recorriam, não por nenhuma prerrogativa da própria Sé. Tudo isto aparecerá com clareza suficiente à medida que o estudioso prosseguir no exame deste volume. Mas é agora tempo de nos valermos da informação que nos foi dada pelo tradutor em sua Introdução, como se segue:— A totalidade da Refutação de todas as Heresias, com exceção do livro i., foi descoberta num manuscrito trazido de um convento do Monte Athos tão recentemente quanto o ano de 1842. O descobridor deste tesouro—pois tesouro ele é verdadeiramente—foi Minóides Mynas, um erudito grego, que havia visitado sua pátria em busca de antigos manuscritos sob a direção de M. Abel Villemain, Ministro da Instrução Pública sob Luís Filipe. O Governo francês tem assim o mérito de ter sido instrumental em trazer à luz esta obra valiosa, enquanto a Universidade de Oxford partilha a distinção de ser sua primeira editora. A Refutação foi impressa na Clarendon Press em 1851, sob a editoria de M. Emmanuel Miller, cujos trabalhos se mostraram úteis a todos os comentadores subsequentes. Um erro geralmente reconhecido foi cometido por Miller ao atribuir a obra a Orígenes. Ele estava certo em afirmar que o manuscrito descoberto era a continuação do fragmento, a Philosophumena, inserida na cópia beneditina das obras de Orígenes. No volume, porém, que contém a Philosophumena, temos dissertações de Huet, nas quais ele questiona a autoria de Orígenes em favor de Epifânio. Heuman atribuiu a Philosophumena a Dídimo de Alexandria, Gale a Aécio; e ela, juntamente com o resto da Refutação, Fessler e Baur a atribuíram a Caio, porém o Abade Jellabert a Tertuliano. A última hipótese é insustentável, se por nenhuma outra razão senão porque a obra está em grego. Em muitos respeitos, Caio, que era presbítero de Roma no tempo de Vítor e Zeferino, pareceria o autor provável; mas um argumento fatal—um que se aplica àqueles nomeados acima, exceto Epifânio—contra Caio é o não ser ele, como o autor da Refutação no Proêmio se declara ser, bispo. Epifânio sem dúvida desempenhou o ofício episcopal; mas quando temos uma grande obra sua sobre as heresias, com um sumário, pareceria dificilmente provável que ele compusesse igualmente, sobre o mesmo tópico, um tratado extenso como o presente, com dois sumários. Qualquer que fosse a diversidade de opinião, porém, existisse quanto a estes candidatos, a maioria dos críticos, ainda que nem todos, agora concorda em negar a autoria de Orígenes. Nem o estilo nem o tom da Refutação são origenistas. Seu processo compilatório é estranho ao plano de composição de Orígenes; enquanto a matéria mesma, por muitas razões, não seria provável que tivesse ocupado a pena do Pai Alexandrino. É quase impossível que Orígenes não tivesse feito algumas alusões na Refutação a seus outros escritos, ou neles a ela. Não somente, porém, não existe tal alusão, mas a derivação da palavra "Ebionitas" na Refutação, e uma crença expressa na doutrina (ortodoxa) do castigo eterno, estão em desacordo com a autoria de Orígenes. Novamente, nenhuma obra respondendo à descrição é atribuída a Orígenes nos catálogos de seus escritos existentes ou perdidos. Estes argumentos são fortalecidos pelos fatos de que Orígenes nunca foi bispo, e que ele não residiu por tempo algum considerável em Roma. Ele uma vez pagou uma visita apressada à capital do Ocidente, enquanto o autor da Refutação asserta sua presença em Roma durante a ocorrência de eventos que ocuparam um período de cerca de vinte anos. E não somente foi ele uma testemunha, mas tomou parte nessas transações de tal maneira oficial e autoritária como Orígenes nunca poderia ter assumido, quer em Roma quer em outra parte alguma.

Neste estado da controvérsia, os comentadores voltaram sua atenção para Hipólito, em favor de cuja autoria a maioria dos estudiosos modernos se decidiu. Os argumentos que conduziram a esta conclusão, e aqueles alegados por outros contra ela, não poderiam ser adequadamente discutidos em um aviso como o presente. Basta dizer que nomes como Jacobi, Gieseler, Duncker, Schneidewin, Bernays, Bunsen, Wordsworth e Döllinger apoiam as pretensões de Hipólito. O testemunho do Dr. Döllinger, considerando a extensão de seu saber teológico, e em particular sua íntima familiaridade com o período apostólico na história da Igreja, virtualmente, nos submetemos, decide a questão.

Quanto à biografia de Hipólito não possuímos muitos materiais autênticos. Não pode haver dúvida razoável acerca de que ele foi um bispo, e passou a maior parte de sua vida em Roma e em suas proximidades. Esta asserção corresponde com a conclusão adotada pelo Dr. Döllinger, que, contudo, recusa reconhecer que Hipólito foi, como geralmente se mantém, Bispo de Portos, um porto de Roma na boca setentrional do Tibre, oposto a Óstia. Porém, é satisfatório estabelecer, e especialmente sobre tão eminente autoridade como a do Dr. Döllinger, o fato da conexão de Hipólito com a Igreja Ocidental, não somente porque isto se relaciona com a investigação da autoria de A Refutação, cujo autor afirma sua observação pessoal do que registra como ocorrido em seu próprio tempo em Roma, mas também porque derruba a hipótese daqueles que sustentam que houve mais de um Hipólito—o Dr. Döllinger demonstra que há apenas um Hipólito histórico—ou que o Oriente, e não a Itália, foi a esfera de seus labores episcopais. Assim Le Moyne, no século dezessete, um escritor francês residente em Leyden, argumenta engenhosamente que Hipólito foi bispo de Portos Romanorum (Aden), na Arábia. A teoria de Le Moyne foi adotada por algumas celebridades, a saber, Dupin, Tillemont, Spanheim, Basnage, e nosso próprio Dr. Cave. A esta posição se opõem, entre outros, os nomes de Nicéforo, Sincelo, Barônio, Belarmino, Dodwell, Beveridge, Bull e o Arcebispo Usher. O julgamento e a acuidade crítica de Usher é, em ponto desta natureza, de valor supremo. Portanto, a questão de Hipólito ser bispo de Portos perto de Roma também apareceria estabelecida, pelas razões expostas nas Cartas de Bunsen ao Arquidiácono Hare, e em Santo Hipólito de Canon Wordsworth. A mente dos investigadores parece ter sido primariamente perturbada em consequência de Eusébio mencionar Hipólito (Hist. Eclesiást. vi. 10) em companhia de Berilo (de Bostra), um árabe, expressando ao mesmo tempo sua incerteza quanto ao lugar em que Hipólito foi bispo. Esta indecisão é facilmente explicada, e não pode invalidar a tradição e o testemunho histórico que atribuem o bispado de Portos perto de Roma a Hipólito, santo e mártir da Igreja. De seu martírio, ainda que o fato em si seja certo, os detalhes fornecidos no hino de Prudêncio não são históricos. Assim o modo da morte de Hipólito é afirmado por Prudêncio ter sido idêntico ao de Hipólito, filho de Teseu, que foi despedaçado por ser amarrado a cavalos selvagens. Santo Hipólito, porém, é conhecido por testemunho histórico ter sido lançado num canal e afogado; mas se a cena de seu martírio foi a Sardenha, para a qual ele foi indubitavelmente banido juntamente com o bispo romano Pontiano, ou Roma, ou Portos, não foi ainda definitivamente provado. O tempo de seu martírio, contudo, é provavelmente um ano ou dois, talvez menos ou mais, após o comêço do reinado de Maximino, o Trácio, isto é, em algum lugar por volta de d.C. 235–39. Isto nos permite determinar a idade de Hipólito; e como algumas afirmações em A Refutação evidenciam ser a obra a composição de um homem idoso, e como a obra mesma foi escrita após a morte de Calisto em d.C. 222, isto transferiria o período de seu nascimento para não muito tempo após a segunda metade do segundo século.

O conteúdo da Refutação, conforme originariamente se apresentava, parece ter sido assim disposto: O primeiro livro (que possuímos) continha uma exposição das diferentes escolas dos filósofos antigos; o segundo (que falta), as doutrinas e mistérios dos Egípcios; o terceiro (igualmente perdido), a ciência caldeia e a astrologia; e o quarto (cujo princípio falta), o sistema do horóscopo caldeu, e os ritos mágicos e incantações dos Taumaturgistas Babilônicos. Seguia-se a porção da obra que se referia mais imediatamente às heresias da Igreja, contida nos livros v.–ix. O décimo livro é o resumo de toda a obra, juntamente com a exposição das opiniões religiosas do próprio autor. As heresias enumeradas por Hipólito compreendem um período que tem início numa época anterior à composição do Evangelho de São João, e termina com a morte de Calisto. As heresias são explicadas segundo o desenvolvimento cronológico, e podem ser reduzidas a cinco escolas principais: (1) Os Ofitas; (2) Os Simonistas; (3) Os Basilidianos; (4) Os Docetas; (5) Os Noecianistas. Hipólito remonta à origem da heresia, não somente atribuindo à heterodoxia uma natureza derivada do paganismo, mas também apontando na Gnose elementos de opiniões anormais anteriores à promulgação do Cristianismo. Possuímos assim uma narração da maior relevância sobre as primeiras heresias, a qual sob alguns aspectos supre muitas lacunas na história eclesiástica desta época.

Dificilmente poderemos superestimar o valor da Refutação, pela proximidade de seu autor com a idade apostólica. Hipólito foi discípulo de Santo Irineu, Santo Irineu de São Policarpo, São Policarpo de São João. Com efeito, um fato de grave importância relacionado aos escritos de São João é elucidado pela Refutação de Hipólito. A passagem extraída da obra de Basílides, contendo uma citação do herege de São João i. 9, estabelece o período da composição do quarto Evangelho como de antiguidade bem maior, por pelo menos trinta anos, do que aquela atribuída pela escola de Tübingen. É portanto manifesto que Basílides formou seu sistema a partir do prólogo do Evangelho de São João; assim pondo fim para sempre à alegação desses críticos de que o Evangelho de São João foi escrito numa época posterior, e lhe foi atribuído um autor apostólico, a fim de silenciar os Gnósticos Basilidianos.

No caso também de Irineu, a Refutação restituiu o texto grego de muita parte de seu livro Contra as Heresias, até então conhecido apenas na versão latina. Nem o valor da obra de Hipólito é seriamente prejudicado, ainda que se suponha não estar provada a autoria,—uma concessão, porém, de modo nenhum justificada pelas evidências. Quem quer que seja o escritor da Refutação, pertencia à primeira porção do terceiro século, formou suas compilações a partir de fontes primitivas, dedicou-se com consciência a seu empreendimento, apresentou afirmações confirmadas por escritores antigos de renome, e finalmente, na execução de sua tarefa, forneceu marcas incontestáveis de conhecimento e investigação, e de haver dominado completamente as relações e afinidades mútuas das várias heresias dos primeiros dois séculos e um quarto. Essas heresias, quer procedam de tentativas de cristianizar a filosofia do paganismo, quer de interpretar as Doutrinas e a Vida de nosso Senhor pelos princípios do Gnosticismo e da especulação Oriental em geral, quer de criar um compromisso com as pretensões do Judaísmo,—essas heresias, em toda sua complexidade e diversidade, Santo Hipólito reduz a um fundamento comum de censura—a antagonismo à Sagrada Escritura. A heresia, assim marcada, ele a deixa murchar sob a sentença condenatória da Igreja.

Referência atual: Santo Hipólito de Roma, Obras de Hipólito, II, 1