Padres e clássicosSanto Agostinho, Solilóquios, II

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Obra patrística

Solilóquios

Santo Agostinho · c. 354–430

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Prefácio aos Solilóquios.

Prefácio aos Solilóquios.

Os dois livros dos Solilóquios foram, conforme declaração do próprio autor (Lib. I. 17), escritos em seu trigésimo terceiro ano. Foram, portanto, escritos imediatamente após seu batismo, evidentemente no retiro rural de Cassíaco, na Alta Itália, propriedade de seu amigo Verecundo, para o qual sabemos que se retirou por algum tempo depois de ter sido recebido na Igreja. É, pois, sua obra cristã mais antiga. E sendo antiga, é também ainda informe. Sua fé recentemente descoberta esforça-se por justificar-se através de um curso intrincado de raciocínios, no qual confunde desastradamente as formas da lógica com a substância da verdade. Contudo, embora rude, suas características essenciais aparecem nela distintamente: seu poder de raciocínio, sua ampla observação dos fatos fundamentais e dos processos e experiências mentais, seu amor pelos amigos e acima de tudo por Alípio, suas ardentes aspirações pela luz superna, sua profunda devoção, que, porém, não logrou subjugar as artificialidades da retórica à simplicidade infantil.

Exprime na obra um anseio pelo contínuo apoio à sua tenra fé por parte de Ambrósio, que, contudo, é descrito como tendo-se temporariamente retirado para alguma reclusão transalpina, de donde Agostinho se queixa que mal sabe como alcançá-lo nem mesmo por carta.

Aparece na obra ainda indeterminado quanto à forma e curso de sua vida futura. Os vastos serviços que havia de prestar à Igreja não parecem nem sequer brilhar aos seus olhos. Com efeito, a vida de ócio, dedicada apenas, com alguns amigos escolhidos, à contemplação abstrata de Deus, que forma seu ideal, mostra como muito fracamente penetrado estava ele ainda pela ideia cristã da utilidade, pois na verdade há nos Solilóquios muito pouco que seja distintivamente cristão, quer na doutrina quer na experiência. Mas toda a grandeza de sua vida posterior encontra-se encerrada em sua docilidade à vontade de Deus, aqui expressa, e em sua convicção de que o Deus que Cristo revela é o único e verdadeiro Deus.

Em suas Retratações recorda algumas sentenças desta obra; uma, que parece lhe parecer ter sido expressa inadvertidamente de maneira capaz de um sentido sabeliano; outra, que lhe parece ter o sabor de um horror gnóstico ou neoplatônico à matéria; e outra ainda, na qual trata os efeitos da disciplina mental como Platão o faz, supondo que ela traga à luz, em distinção, o conhecimento já possuído e esquecido. Nas Retratações dá a verdadeira explicação, a saber, que a mente é constituída de tal modo que, pela luz da Razão Eterna presente nela, é capaz, conforme sua medida, de apreender verdades das quais nunca antes havia lançado mão.

Esforcei-me, na tradução, por valer-me, onde necessário, dos idiomatismos mais antigos de nossa língua, que parecem mais germinantes, tanto à matéria como ao modo de Santo Agostinho, do que o inglês não temperado do século dezenove.

Referência atual: Santo Agostinho, Solilóquios, II