Decreto sobre as sagradas imagens
O santo, grande e Ecumênico Sínodo, que pela graça de Deus e pela vontade dos piedosos e cristófilos imperadores Constantino e Irene, sua mãe, se reuniu pela segunda vez em Niceia, ilustre metrópole da Bitínia, na santa igreja de Deus chamada Sofia, tendo seguido a tradição da Igreja Católica, definiu o seguinte: Cristo nosso Senhor, que nos concedeu a luz do conhecimento de si mesmo e nos resgatou das trevas da loucura idolátrica, tendo desposado consigo a Santa Igreja Católica sem mácula nem defeito, prometeu preservá-la assim; e deu sua palavra a esse respeito aos seus santos discípulos, quando disse: "Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos" — promessa que fez não somente a eles, mas também a nós, que haveremos de crer em seu nome por meio de sua palavra. Mas alguns, não considerando este dom, e tendo-se tornado inconstantes pela tentação do astuto inimigo, caíram da reta fé; pois, afastando-se das tradições da Igreja Católica, erraram da verdade e, como diz o provérbio: "Os lavradores desviaram-se em sua própria lavoura e recolheram em suas mãos o nada", porque certos sacerdotes, sacerdotes apenas de nome e não de fato, ousaram falar contra o ornamento aprovado por Deus dos sagrados monumentos, dos quais Deus clama pelo profeta: "Muitos pastores corromperam a minha vinha, contaminaram a minha herança." E, com efeito, seguindo homens profanos, seduzidos pelo seu senso carnal, caluniaramm a Igreja de Cristo nosso Deus, que ele desposou consigo, e deixaram de distinguir entre o santo e o profano, dando às imagens de nosso Senhor e de seus Santos o mesmo nome que às estátuas dos ídolos diabólicos. Vendo tais coisas, o Senhor nosso Deus, não querendo ver seu povo corrompido por tal espécie de flagelo, em sua boa vontade nos reuniu a nós, os principais de seus sacerdotes, de todos os cantos, movidos por um zelo divino e trazidos aqui pela vontade de nossos príncipes Constantino e Irene, a fim de que as tradições da Igreja Católica recebam estabilidade por meio de nosso decreto comum. Portanto, com toda diligência, fazendo um exame e análise minuciosos e seguindo a orientação da verdade, nada diminuímos, nada acrescentamos, mas preservamos inalteradas todas as coisas que pertencem à Igreja Católica, seguindo os Seis Concílios Ecumênicos, especialmente o que se reuniu nesta ilustre metrópole de Niceia, bem como o que foi depois congregado na Cidade Real protegida por Deus. Cremos… na vida do século vindouro. Amém. Detestamos e anatemizamos Ário e todos os que compartilham de sua absurda opinião; também Macedônio e aqueles que, seguindo-o, são justamente chamados "Inimigos do Espírito" (Pneumatômacos). Confessamos que nossa Senhora Santa Maria é própria e verdadeiramente Mãe de Deus, porque foi mãe segundo a carne de uma das Pessoas da Santíssima Trindade, a saber, Cristo nosso Deus, conforme o Concílio de Éfeso já definiu ao expulsar da Igreja o ímpio Nestório e seus cúmplices, por haver ensinado que havia duas Pessoas [em Cristo]. Com os Padres deste sínodo confessamos que aquele que se encarnou da imaculada Mãe de Deus e sempre Virgem Maria possui duas naturezas, reconhecendo-o como Deus perfeito e homem perfeito, conforme também o Concílio de Calcedônia proclamou, expulsando do átrio divino [αὐλῆς], como blasfemadores, Eutiques e Dióscoro; e colocando na mesma categoria Severo, Pedro e vários outros, que blasfemaram de diversas maneiras. Além disso, com estes anatemizamos as fábulas de Orígenes, Evágrio e Dídimo, conforme a decisão do Quinto Concílio realizado em Constantinopla. Afirmamos que em Cristo há duas vontades e duas operações, de acordo com a realidade de cada natureza, conforme também o Sexto Sínodo, realizado em Constantinopla, ensinou, expulsando Sérgio, Honório, Ciro, Pirro, Macário e os que com eles concordam, e todos os que não querem ser reverentes. Para que nossa confissão seja breve, conservamos inalteradas todas as tradições eclesiásticas que nos foram transmitidas, seja por escrito, seja verbalmente, uma das quais é a feitura de representações pictóricas, conforme à história da pregação do Evangelho, tradição útil sob muitos aspectos, mas especialmente por isso: que assim a encarnação do Verbo de Deus se mostra como real e não meramente fantasiosa, pois estas têm entre si indicações mútuas e, sem dúvida, têm também significações mútuas. Nós, portanto, seguindo o caminho régio e a autoridade divinamente inspirada de nossos Santos Padres e as tradições da Igreja Católica — pois, como todos sabemos, o Espírito Santo nela habita —, definimos com toda certeza e precisão que, assim como a figura da preciosa e vivificante Cruz, também as veneráveis e santas imagens, tanto em pintura e mosaico como de outros materiais adequados, devem ser expostas nas santas igrejas de Deus, nos sagrados vasos e nos paramentos e nos véus e em pinturas tanto nas casas como nas vias públicas, a saber: a figura de nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo, de nossa imaculada Senhora a Mãe de Deus, dos honrados Anjos, de todos os Santos e de todos os piedosos. Pois quanto mais frequentemente são contempladas em representação artística, tanto mais prontamente os homens são elevados à memória de seus protótipos e ao desejo deles; e a estas deve ser dada a devida saudação e a honrosa reverência (ἀσπασμὸν καὶ τιμητικὴν προσκύνησιν), não, porém, aquela verdadeira adoração de fé (λατρείαν) que pertence unicamente à natureza divina; mas a estas, como à figura da preciosa e vivificante Cruz e ao Livro dos Evangelhos e aos demais objetos sagrados, podem ser oferecidos incenso e luzes segundo o antigo piedoso costume. Pois a honra que se presta à imagem passa àquele que a imagem representa, e quem venera a imagem venera nela o sujeito representado. Assim se fortalece o ensinamento de nossos santos Padres, isto é, a tradição da Igreja Católica, que de uma extremidade a outra da terra recebeu o Evangelho. Assim seguimos Paulo, que falou em Cristo, e toda a divina companhia apostólica e os santos Padres, conservando firmemente as tradições que recebemos. Assim cantamos profeticamente os hinos triunfais da Igreja: "Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém. Alegra-te e regozia-te de todo o teu coração. O Senhor afastou de ti a opressão dos teus adversários; foste resgatada da mão dos teus inimigos. O Senhor é Rei no meio de ti; não verás mais o mal, e a paz seja contigo para sempre." Aqueles, portanto, que ousam pensar ou ensinar de outro modo, ou como ímpios hereges desprezar as tradições da Igreja e inventar alguma novidade, ou ainda rejeitar alguma das coisas que a Igreja recebeu — por exemplo, o Livro dos Evangelhos, ou a imagem da cruz, ou os ícones pictóricos, ou as santas relíquias de um mártir —, ou perversa e asperamente tramar qualquer coisa subversiva das legítimas tradições da Igreja Católica, ou destinar a usos comuns os vasos sagrados ou os veneráveis mosteiros: se forem Bispos ou Clérigos, ordenamos que sejam depostos; se religiosos ou leigos, que sejam cortados da comunhão. [Após as assinaturas de todos, começaram as aclamações (col. 576).] O santo Sínodo clamou: Assim cremos todos, assim pensamos todos, todos damos nosso consentimento e assinamos. Esta é a fé dos Apóstolos, esta é a fé dos ortodoxos, esta é a fé que consolidou o mundo inteiro. Crendo em um só Deus, a ser celebrado em Trindade, saudamos as honradas imagens! Os que não assim sustentam, sejam anátema. Os que não assim pensam, sejam expulsos para longe da Igreja. Pois seguimos a legislação mais antiga da Igreja Católica. Guardamos as leis dos Padres. Anatemizamos os que acrescentam ou subtraem qualquer coisa à Igreja Católica. Anatemizamos a novidade introduzida pelos caluniadores dos cristãos. Saudamos as veneráveis imagens. Colocamos sob anátema os que não o fazem. Anátema aos que ousam aplicar às veneráveis imagens as palavras da Sagrada Escritura acerca dos ídolos. Anátema aos que não saúdam as santas e veneráveis imagens. Anátema aos que chamam de ídolos as sagradas imagens. Anátema aos que dizem que os cristãos recorrem às sagradas imagens como a deuses. Anátema aos que dizem que outro senão Cristo nosso Deus nos libertou dos ídolos. Anátema aos que ousam dizer que em algum tempo a Igreja Católica recebeu ídolos. Muitos anos aos imperadores, etc., etc.