Dei Filius, proem.
Promulgado na 3ª Sessão do Santo Concílio Ecuménico do Vaticano NOSSO Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus e Redentor do gênero humano, antes de regressar ao Pai celestial, prometeu que estaria com a Igreja Militante na terra todos os dias, até a consumação dos séculos. Por isso, jamais cessou de estar presente junto à sua amada Esposa, para assisti-la quando ensina, abençoá-la quando trabalha e socorrê-la quando se encontra em perigo. E esta Sua salutar providência, que se tem manifestado continuamente por inúmeros outros benefícios, ficou de modo especialíssimo comprovada pelos abundantes frutos que a cristandade colheu dos Concílios Ecumênicos, e em particular do de Trento, ainda que celebrado em tempos adversos. Pois, em consequência disso, as sagradas doutrinas da fé foram definidas com maior precisão e expostas com maior plenitude; os erros foram condenados e refreados; a disciplina eclesiástica foi restaurada e mais solidamente assegurada; o amor ao saber e à piedade foi promovido entre o clero; foram fundados colégios para educar a juventude para o sagrado combate; e os costumes do mundo cristão foram renovados pela mais cuidadosa formação dos fiéis e pelo uso mais frequente dos sacramentos. Resultou ainda uma comunhão mais estreita dos membros com o chefe visível e um acréscimo de vigor em todo o corpo místico de Cristo; a multiplicação das congregações religiosas e de outras instituições de piedade cristã; e um ardor tão intenso em estender o reino de Cristo por todo o mundo, que persevera constantemente até ao sacrifício da própria vida. Mas, ao recordarmos com a devida gratidão estes e outros insígnies benefícios que a divina misericórdia outorgou à Igreja, em especial pelo último Concílio Ecumênico, não podemos reprimir a nossa amarga dor pelos graves males que decorrem principalmente do fato de a autoridade daquele sagrado Sínodo ter sido desprezada, ou os seus sábios decretos negligenciados, por muitos. Ninguém ignora que as heresias proscritas pelos Padres de Trento, pelas quais o ensinamento divino (magistério) da Igreja foi rejeitado e todas as matérias relativas à religião foram abandonadas ao juízo de cada indivíduo, foram gradualmente se dissolvendo em numerosas seitas que entre si discordavam e contendiam, até que por fim não poucos perderam toda a fé em Cristo. Até as Sagradas Escrituras, que antes haviam sido declaradas a única fonte e árbitro da doutrina cristã, começaram a ser consideradas não mais como divinas, mas a ser classificadas entre as ficções da mitologia. Surgiu então, e demasiado amplamente se difundiu pelo mundo, aquela doutrina do racionalismo ou naturalismo, que em tudo se opõe à religião cristã como instituição sobrenatural, e trabalha com o mais intenso empenho para que, excluído Cristo, nosso único Senhor e Salvador, das mentes dos homens e da vida e dos atos morais das nações, se estabeleça o reinado daquilo que chamam de pura razão ou natureza. E, após haverem abandonado e rejeitado a religião cristã e negado o verdadeiro Deus e o Seu Cristo, o espírito de muitos afundou no abismo do Panteísmo, do Materialismo e do Ateísmo, até que, negando a própria natureza racional e toda norma sã do reto, se esforçam por destruir os fundamentos mais profundos da sociedade humana. Infelizmente, chegou-se ainda mais longe: enquanto esta impiedade prevalecia em toda parte, muitos, mesmo dentre os filhos da Igreja Católica, se desviaram do caminho da verdadeira piedade; e, pela diminuição gradual das verdades que professavam, o sentido católico foi neles enfraquecido. Pois, seduzidos por doutrinas várias e estranhas, confundindo erroneamente natureza e graça, ciência humana e fé divina, são levados a corromper o verdadeiro sentido das doutrinas que nossa santa Mãe Igreja sustenta e ensina, e a pôr em perigo a integridade e a solidez da fé. Considerando estas coisas, como poderia a Igreja deixar de se sentir profundamente agitada? Pois, assim como Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade; assim como Cristo veio salvar o que estava perdido e reunir os filhos de Deus que estavam dispersos; assim também a Igreja, constituída por Deus mãe e mestra de todas as nações, conhece o seu dever de devedora para com todos, e está sempre pronta e vigilante para erguer os caídos, amparar os que estão a cair, abraçar os que retornam, confirmar os bons e conduzi-los a coisas melhores. Por isso, jamais pode abster-se de testemunhar e proclamar a verdade de Deus, que tudo sara, sabendo as palavras que lhe foram dirigidas: "O meu Espírito que está em vós, e as minhas palavras que pus na vossa boca, não se afastarão da vossa boca, daqui em diante e para sempre." Nós, portanto, seguindo as pegadas dos nossos predecessores, jamais cessamos, como convém ao nosso supremo ofício apostólico, de ensinar e defender a verdade católica e de condenar as doutrinas errôneas. E agora, reunidos em torno de Nós e julgando conosco os Bispos do mundo inteiro, congregados por Nossa autoridade e no Espírito Santo neste Concílio Ecumênico, Nós, apoiados na Palavra de Deus escrita e transmitida, tal como a recebemos da Igreja Católica, guardada com sagrado cuidado e exposta segundo a verdade, determinamos professar e declarar desta Cátedra de Pedro, e à vista de todos, o salutar ensinamento de Cristo, proscrevendo e condenando, pelo poder que Deus Nos conferiu, todos os erros a ele contrários.