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Magistério da Igreja

Catecismo Romano do Concílio de Trento

São Pio V · 1566

1034 parágrafos no totalTexto oficialArquivo
  1. §1

    PREFÁCIO

  2. §2

    AO CATECISMO

  3. §3

    DO

  4. §4

    CONCÍLIO DE TRENTO.

  5. §5

    INTENÇÃO DO CONCÍLIO — OBJETO E AUTORIDADE DA OBRA — SEU USO E DIVISÃO.

  6. §6

    Insuficiência da razão humana. Tal é a natureza do espírito humano, tão limitadas são as suas faculdades intelectuais, que, embora por meio de investigação diligente e laboriosa lhe tenha sido possível, por si mesmo, pesquisar e descobrir muitas verdades divinas, guiado unicamente pelas suas próprias luzes jamais poderia conhecer nem compreender a maior parte daquelas coisas pelas quais se alcança a salvação eterna — fim principal da criação do homem e da sua formação à imagem e semelhança de Deus. Necessidade da revelação. "As coisas invisíveis de Deus, desde a criação do mundo, são", como ensina o Apóstolo, "claramente vistas e compreendidas por meio das coisas criadas: assim como o seu eterno poder e divindade." Porém "o mistério que esteve oculto desde os séculos e gerações" transcende de tal modo o alcance do entendimento humano, que, se não tivesse sido "manifestado aos seus santos, aos quais Deus", pelo dom da fé, "quis dar a conhecer as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo", jamais teria sido dado à pesquisa humana aspirar a tão sublime sabedoria.

  7. §7

    E de mestres autorizados. Mas, como "a fé vem pelo ouvir", é manifesta a necessidade do trabalho assíduo e do ministério fiel de um mestre legítimo, em todo tempo, para a consecução da salvação eterna, pois está escrito: "Como ouvirão sem pregador? E como pregarão se não forem enviados?" Com efeito, desde a própria criação do mundo, Deus, misericordioso e benigno, jamais abandonou os seus; antes, "em muitas e variadas ocasiões falou outrora aos Pais pelos Profetas", e indicou, de modo adaptado aos tempos e às circunstâncias, um caminho seguro e reto para a felicidade do céu. Mas, tendo Ele predito que daria um mestre "para ser luz das nações e salvação até os confins da terra", "nestes últimos dias nos falou pelo Filho", a quem também, por uma voz vinda do céu, "da glória excelsa", mandou a todos ouvir e obedecer; e o Filho "constituiu uns apóstolos, outros profetas, outros evangelistas, outros pastores e doutores", para anunciar a palavra da vida, a fim de que não sejamos agitados como crianças por todo vento de doutrina, mas, firmados no sólido fundamento da fé, "sejamos edificados juntos em morada de Deus no Espírito Santo".

  8. §8

    Os pastores da Igreja devem ser ouvidos. Para que ninguém receba dos ministros da Igreja a palavra de Deus como palavra de homem, mas como palavra de Cristo, qual verdadeiramente é, o mesmo Salvador ordenou que o ministério deles fosse revestido de tal autoridade, que lhes diz: "Quem vos ouve, a mim ouve; e quem vos despreza, a mim despreza" — declaração que Ele não quis limitar somente àqueles a quem então se dirigia, mas igualmente a todos os que, por legítima sucessão, exercessem o ministério da palavra, prometendo estar com eles "todos os dias, até a consumação dos séculos".

  9. §9

    Peculiar necessidade da instrução pastoral nestes dias. Como esta pregação da palavra divina jamais deve ser interrompida na Igreja de Deus, assim em nossos dias torna-se necessário trabalhar com zelo e piedade acima do ordinário para nutrir e fortalecer os fiéis com a sã e salutar doutrina, como com o alimento da vida: pois "falsos profetas saíram pelo mundo" "com doutrinas variadas e estranhas" para corromper os espíritos dos fiéis; acerca dos quais disse o Senhor Atividade dos "Reformadores": "Eu não os enviei, e eles correram; eu não lhes falei, e eles profetizaram." Nesta obra ímpia, tão longe chegou a sua impiedade, exercitada em todas as artes de Satanás, que pareceria quase impossível contê-la dentro de limites; e se não nos apoiássemos nas esplêndidas promessas do Salvador, que declarou haver "edificado sua Igreja sobre fundamento tão sólido que as portas do inferno jamais prevaleceriam contra ela", seríamos tomados de alarme gravíssimo, temendo que a Igreja de Deus, cercada por todos os lados por tão numerosa hoste de inimigos e assaltada por tantos e tão formidáveis instrumentos, sucumbisse nestes dias sob seus esforços reunidos. Para não falar daqueles ilustres Estados que outrora professaram, com piedade e santidade, a fé católica que lhes foi transmitida por seus antepassados, mas que agora se desviaram, errando pelos caminhos da verdade, e declarando abertamente que os seus maiores títulos de piedade se fundam no abandono total da fé de seus pais: não há região por mais remota que seja, não há lugar por mais seguramente guardado, não há recanto algum da república cristã aonde esta pestilência não tenha procurado insinuar-se secretamente. Aqueles que se propuseram a corromper os espíritos dos fiéis, conscientes de que não podiam manter contacto pessoal imediato com todos e assim infundir em seus ouvidos as doutrinas envenenadas, adotando plano diferente, disseminaram o erro e a impiedade de modo mais fácil e extenso. Além das obras volumosas, pelas quais buscavam a subversão da fé católica — contra as quais, todavia, por conterem heresia manifesta, era talvez necessário pouco esforço ou circunspecção —, compuseram também inumeráveis livros menores que, velando seus erros sob a aparência de piedade, enganavam com incrível facilidade os simples e os incautos.

  10. §10

    Os Padres, portanto, do Concílio Geral de Trento, ansiosos por aplicar algum remédio salutar a um mal de tão grande magnitude, não se contentaram com haver decidido os pontos mais importantes da doutrina católica contra as heresias do nosso tempo, mas julgaram necessário, além disso, fornecer uma forma determinada de instruir os fiéis nas verdades da religião desde os próprios rudimentos do conhecimento cristão; forma a ser seguida por aqueles a quem estão legitimamente confiados os deveres de pastor e mestre. Em obras deste gênero, muitos, é verdade, já empenharam suas penas e alcançaram reputação de grande piedade e doutrina. Os Padres, porém, julgaram da mais alta importância que aparecesse uma obra sancionada pela autoridade do Santo Sínodo, da qual os pastores e todos os demais a quem compete o dever de transmitir o ensinamento possam haurir com segurança preceitos para a edificação dos fiéis; a fim de que, assim como há "um só Senhor, uma só fé", haja também uma norma única e uma forma prescrita de propor os dogmas da fé e de instruir os cristãos em todos os deveres da piedade.

  11. §11

    Quanto à sua matéria. Sendo, pois, tão variado o conteúdo desta obra, não se pode supor que o Santo Concílio tenha pretendido reunir em um só volume todos os dogmas do Cristianismo, com aquela minúcia de pormenores que se encontra nas obras de quantos se propõem a tratar de todas as instituições e doutrinas da religião. Tal empresa seria de labor quase interminável e manifestamente inadequada para alcançar o fim proposto. Tendo, porém, empreendido instruir os pastores e os que têm cura de almas naquelas coisas que pertencem propriamente ao ministério pastoral e se acham acomodadas à capacidade dos fiéis, o Santo Concílio determinou que se tratasse somente do que pudesse auxiliar o piedoso zelo dos pastores no cumprimento do dever de instruir, no caso de não estarem muito familiarizados com as questões mais abstrusas da disputação teológica.

  12. §12

    Principais aspectos a serem observados pelo Pastor na transmissão do ensino. Sendo tal a natureza e o objeto da presente obra, a sua ordem requer que, antes de passarmos a desenvolver separadamente as coisas que compõem um sumário desta doutrina, premitamos algumas observações explicativas das considerações que devem constituir o objeto primário da atenção do pastor, e que ele deve ter continuamente diante dos olhos, a fim de saber a que fim, por assim dizer, devem ser dirigidas todas as suas intenções, trabalhos e estudos, e de que modo esse fim, que ele se propõe, pode ser facilitado e alcançado.

  13. §13

    Primeiro. O primeiro é sempre ter presente que em isto consiste todo o conhecimento cristão, ou melhor, para usar as palavras do Apóstolo: "esta é a vida eterna, que vos conheçam a vós, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviastes." Um pastor na Igreja há de, portanto, envidar todos os seus esforços para que os fiéis desejem ardentemente "conhecer a Jesus Cristo e a este crucificado", que estejam firmemente convictos e, com a mais sentida piedade e devoção, creiam que "não há outro nome dado aos homens debaixo do céu pelo qual possamos ser salvos", pois ele é a propiciação pelos nossos pecados.

  14. §14

    Segundo. Mas como "nisto conhecemos que o conhecemos, se guardarmos os seus mandamentos", a consideração seguinte, intimamente ligada à precedente, é inculcar também nos fiéis que suas vidas não devem ser desperdiçadas na ociosidade e na indolência, mas que "devemos andar como Cristo andou" e "perseguir", com incansável empenho, "a justiça, a piedade, a fé, a caridade, a paciência, a mansidão"; pois "ele se entregou por nós, para nos resgatar de toda iniquidade e purificar para si um povo aceitável, zeloso de boas obras". Essas coisas o Apóstolo manda que os pastores falem e exortem.

  15. §15

    Terceiro. Porém, como Nosso Senhor e Salvador não somente declarou, mas também demonstrou com o próprio exemplo, que "a Lei e os Profetas dependem do amor", e como, segundo o Apóstolo, a caridade é o fim dos mandamentos e o cumprimento da lei, é indubitavelmente dever primordial do pastor empregar a maior diligência possível para inflamar os fiéis no amor da bondade infinita de Deus para conosco; a fim de que, ardendo com uma espécie de ardor divino, sejam poderosamente atraídos ao sumo e perfeito bem, cuja posse constitui a verdadeira e sólida felicidade, como experimenta plenamente aquele que pode dizer com o Profeta: "Que tenho eu no céu senão a vós? E fora de vós, que desejo sobre a terra?" Este é, sem dúvida, o caminho mais excelente apontado pelo Apóstolo, quando refere todas as suas doutrinas e ensinamentos à caridade, que jamais perece; pois, seja qual for o assunto proposto pelo pastor — o exercício da fé, da esperança ou de alguma virtude moral —, o amor de Deus deve ser por ele inculcado com tal vigor, que se mostre claramente que todas as obras da perfeita virtude cristã não podem ter outra origem nem outro fim senão o amor divino.

  16. §16

    Quarto. Porém, assim como em qualquer modalidade de instrução o modo de transmiti-la é de considerável importância, também na instrução ao povo deve ser tido como de suma relevância. A idade, a capacidade, os costumes e a condição exigem atenção, a fim de que aquele que instrui se faça tudo para todos e possa ganhar todos para Cristo, e se mostre ministro e mordomo fiel e, como servo bom e fiel, seja encontrado digno de ser posto pelo seu Senhor sobre muitas coisas. Não pense ele que todos os confiados ao seu cuidado possuem igual capacidade ou semelhantes disposições, de modo que lhe seja possível aplicar o mesmo método de instrução para conduzir a todos ao conhecimento e à piedade; pois alguns são, por assim dizer, "recém-nascidos", outros crescidos em Cristo, e outros, em certo sentido, de maturidade plena. Daí a necessidade de considerar quais são aqueles que têm necessidade de leite, e quais de alimento mais sólido, e de oferecer a cada um o nutrimento de doutrina capaz de proporcionar crescimento espiritual, "até que todos cheguemos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo". Isso nos aponta o exemplo do Apóstolo para ser seguido por todos, pois ele é devedor aos gregos e aos bárbaros, aos sábios e aos insensatos: dando assim a todos os que são chamados a este ministério a entender que, ao anunciar os mistérios da fé e inculcar os preceitos da moral, a instrução deve ser acomodada à capacidade e à inteligência dos ouvintes; para que, enquanto as mentes dos fortes se saciam de alimento espiritual, os pequeninos não sejam deixados a perecer de fome, "pedindo pão, sem que haja quem lho parta".

  17. §17

    Quinto. Tampouco se deve relaxar o nosso zelo em comunicar o conhecimento cristão pelo fato de que é necessário, por vezes, exercê-lo na exposição de matérias aparentemente humildes e de pouca importância, e, por isso, relativamente pouco interessantes para espíritos habituados ao repouso na contemplação das verdades mais sublimes da religião. Se a sabedoria do Pai eterno desceu à terra na humildade da nossa carne para nos ensinar as máximas de uma vida celestial, quem haverá a quem o amor de Cristo não obrigue a tornar-se pequeno no meio de seus irmãos e, à semelhança de uma ama que acaricia os seus filhos, a desejar tão ardentemente a salvação do próximo que, como o Apóstolo testifica de si mesmo, deseje entregar-lhes não somente o Evangelho de Jesus Cristo, mas até a própria vida por eles.

  18. §18

    Onde se encontram as doutrinas do Cristianismo. Mas todas as doutrinas do Cristianismo, nas quais os fiéis devem ser instruídos, derivam da palavra de Deus, que compreende a Escritura e a Tradição. A estas, portanto, o pastor deve consagrar seus dias e suas noites, tendo sempre presente a admoestação de São Paulo a Timóteo, que todos os que têm a cura das almas devem considerar dirigida a si mesmos: "Aplica-te à leitura, à exortação e à doutrina, pois toda a Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, para arguir, para corrigir, para instruir na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, apto para toda boa obra."

  19. §19

    Divisão da obra. Mas como as verdades reveladas por Deus Todo-Poderoso são tão numerosas e tão variadas que não é tarefa fácil compreendê-las todas, nem, uma vez compreendidas, conservar delas memória tão distinta que se possa explicá-las com facilidade e prontidão quando a ocasião o exija, os nossos predecessores na fé reduziram-nas, com grande sabedoria, a estas quatro partes: o Símbolo dos Apóstolos, os Sacramentos, os dez Mandamentos e a Oração do Senhor. Primeira parte. O Símbolo contém tudo o que deve ser crido segundo a disciplina da fé cristã, quer se refira ao conhecimento de Deus, à criação e ao governo do mundo, quer à redenção do homem, às recompensas dos bons e aos castigos dos ímpios. Segunda parte. A doutrina dos sete Sacramentos abrange os sinais e, por assim dizer, os instrumentos da graça. Terceira parte. O Decálogo encerra tudo o que se refere à lei, «cujo fim é a caridade». Quarta parte. Por fim, a Oração do Senhor contém tudo o que pode ser objeto dos desejos, das esperanças ou das súplicas do cristão. A exposição, portanto, destes lugares-comuns, por assim dizer, da Sagrada Escritura abrange quase tudo o que um cristão precisa conhecer.

  20. §20

    Aplicação do Catecismo ao Evangelho do Domingo. Julgamos, portanto, oportuno advertir os pastores de que, sempre que tiverem ocasião, no exercício ordinário de seu ministério, de expor alguma passagem do Evangelho ou qualquer outra parte da Sagrada Escritura, encontrarão a sua substância sob uma das quatro partes já enumeradas, às quais recorrerão como à fonte de onde há de ser extraída a exposição. Assim, se se há de explicar o Evangelho do primeiro Domingo do Advento — "Haverá sinais no sol e na lua, etc." —, tudo o que diz respeito à sua explicação está contido no artigo do Símbolo: "Há de vir a julgar os vivos e os mortos"; e incorporando a substância desse artigo em sua exposição, o pastor instruirá ao mesmo tempo o seu povo no Credo e no Evangelho. Sempre que, portanto, tiver de transmitir um ensinamento e expor as Escrituras, observará a mesma regra de referir tudo a essas quatro partes principais, que, como já dissemos, encerram toda a força e a doutrina da Sagrada Escritura.

  21. §21

    Por que começa pela explicação do Credo. Observará, porém, a ordem que julgar mais adequada às pessoas, aos tempos e às circunstâncias. Seguindo as pegadas dos Padres, que para iniciar os homens em Cristo Senhor e instruí-los na sua doutrina começam pelo ensinamento da fé, julgamos útil expor em primeiro lugar o que diz respeito à fé.

  22. §22

    A fé, como aqui se entende. Como a palavra fé tem uma variedade de significados nas Sagradas Escrituras, não será inútil observar que aqui falamos daquela fé pela qual damos pleno assentimento a tudo quanto foi revelado por Deus Todo-Poderoso. Que a fé assim entendida é necessária para a salvação nenhum homem pode razoavelmente duvidar; especialmente porque as Sagradas Escrituras declaram que "Sem fé é impossível agradar a Deus." Pois como o fim proposto ao homem como sua felicidade última está muito além do alcance do entendimento humano, foi, portanto, necessário que lhe fosse manifestado por Deus Todo-Poderoso. Este conhecimento não é outra coisa senão a fé, pela qual damos assentimento inabalável a tudo quanto a autoridade de nossa Santa Madre a Igreja nos ensina ter sido revelado por Deus Todo-Poderoso; pois os fiéis não podem duvidar daquelas coisas de que Deus, que é a própria verdade, é o autor. Daí se vê a grande diferença que existe entre esta fé que damos a Deus e a credibilidade que concedemos aos historiadores profanos. Mas a fé, embora ampla e variável em grau e dignidade — pois lemos nas Escrituras estas palavras: "Ó homem de pouca fé, por que duvidaste?" e "grande é a tua fé" e "aumentai-nos a fé", bem como "a fé sem obras é morta" e "a fé que opera pela caridade" —, é contudo a mesma em sua natureza, e a plena força de sua definição se aplica igualmente a todos os seus graus. Seus frutos e vantagens para nós serão indicados ao explicarmos os artigos do Credo. Os primeiros, pois, e mais importantes pontos da fé cristã são aqueles que os santos Apóstolos, os grandes guias e mestres da fé, homens inspirados pelo Espírito Santo, dividiram nos doze artigos do Credo. O Credo composto pelos Apóstolos. Pois, tendo recebido do Senhor a missão de ir "por todo o mundo" como seus embaixadores e "pregar o Evangelho a toda criatura", julgaram conveniente compor uma fórmula da fé cristã, "para que todos falem e pensem a mesma coisa" e para que, entre os que haviam chamado à unidade da fé, não houvesse cismas; mas que fossem perfeitos no mesmo espírito e na mesma mente. A esta profissão de fé e esperança cristã, por eles mesmos redigida, os Apóstolos chamaram de "símbolo", seja porque era um agregado dos sentimentos combinados de todos, seja porque, por ele, como por um sinal comum e palavra de ordem, pudessem facilmente distinguir os falsos irmãos, desertores da fé, "introduzidos sub-repticiamente", "que adulteravam a palavra de Deus", daqueles que haviam prestado juramento de fidelidade para servir sob o estandarte de Cristo.

  23. §23

    A

  24. §24

    CATECISMO

  25. §25

    DE

  26. §26

    O CONCÍLIO DE TRENTO

  27. §27

    PARTE I.

  28. §28

    DOS DOZE ARTIGOS DO SÍMBOLO DA FÉ.

  29. §29

    ARTIGO I.

  30. §30

    "CREIO EM DEUS, PAI TODO-PODEROSO, CRIADOR DO CÉU E DA TERRA."

  31. §31

    Divisão do Credo. Entre as muitas verdades que o Cristianismo propõe à nossa crença, e das quais, separada ou conjuntamente, é necessária uma fé certa e firme, a primeira e essencial a ser crida por todos é aquela que o próprio Deus nos ensinou como fundamento da verdade, e que é um sumário da unidade da essência divina, da distinção das três Pessoas e das ações que peculiarmente se atribuem a cada uma. O pastor informará o povo que o Símbolo dos Apóstolos compreende brevemente a doutrina deste mistério. Pois, como observaram nossos predecessores na fé, os quais, ao tratar este assunto, deram provas ao mesmo tempo de piedade e de exatidão, o Credo parece dividir-se em três partes principais: uma que descreve a primeira Pessoa da natureza divina e a estupenda obra da criação; outra, a segunda Pessoa e o mistério da redenção do homem; e uma terceira, que abrange em várias sentências muito apropriadas a doutrina da terceira Pessoa, princípio e fonte de nossa santificação. Essas sentenças chamam-se artigos, por uma espécie de comparação frequentemente usada por nossos antepassados; pois, assim como os membros do corpo são divididos pelas juntas (articulis), assim também, nesta profissão de fé, tudo o que deve ser crido distinta e separadamente de qualquer outra coisa é aptamente denominado artigo.

  32. §32

    Significado das palavras "Creio em Deus." "Creio em Deus."] O sentido destas palavras é o seguinte: creio com certeza e, sem a sombra de uma dúvida, professo minha fé em Deus Pai, primeira Pessoa da Trindade, que pela sua onipotência criou do nada, conserva e governa os céus e a terra, e todas as coisas que neles se contêm; e não apenas creio nele de todo o coração e professo esta fé com os lábios, mas com o mais ardente e piedoso afeto me inclino para Ele como para o sumo e mais perfeito bem. Baste assim expor brevemente a substância deste primeiro artigo; mas como sob quase cada palavra se ocultam grandes mistérios, o pároco deve agora considerá-los com mais detida atenção, a fim de que, na medida em que Deus o permitiu, os fiéis possam aproximar-se, com temor e tremor, da contemplação da glória da divina Majestade.

  33. §33

    A palavra "crer", portanto, não significa aqui "pensar", "imaginar" ou "ser de opinião", mas, como ensinam as Sagradas Escrituras, exprime a mais profunda convicção da mente, pela qual damos um assentimento firme e sem hesitação a Deus que revela as suas verdades misteriosas. No que diz respeito, pois, ao uso da palavra: aquele que está firmemente e sem hesitação convicto de alguma coisa diz-se que "crê". Certeza da Fé. Nem o conhecimento derivado da fé deve ser considerado menos certo pelo fato de os seus objetos não serem claramente compreendidos; pois a luz divina na qual os contemplamos, ainda que não os torne evidentes, lhes difunde ao redor tal resplendor que não deixa na mente qualquer dúvida a seu respeito. "Porque Deus, que ordenou que das trevas brilhasse a luz, resplandeceu em nossos corações", "para que o Evangelho não esteja velado para nós, como para aqueles que se perdem."

  34. §34

    Exclui a curiosidade. Do que foi dito se segue que aquele que é dotado deste celeste conhecimento da fé está livre de uma curiosidade indiscreta; pois quando Deus nos manda crer, não nos propõe perscrutar os seus divinos juízos, nem indagar as suas razões e causas, mas exige uma fé imutável, por cuja eficácia a mente repousa no conhecimento da verdade eterna. E, com efeito, se, tendo o testemunho do Apóstolo de que "Deus é verdadeiro e todo homem mentiroso", seria arrogância e presunção não dar crédito à afirmação de um homem grave e sensato que assevera algo como verdadeiro e exigir que fundamente sua asseveração com razões e autoridades; que temeridade e loucura não denota, naqueles que ouvem as próprias palavras de Deus, exigir razões para as doutrinas celestes e salvíficas que Ele revela? A fé, portanto, exclui não somente toda dúvida, mas até mesmo o desejo de submeter suas verdades à demonstração.

  35. §35

    Profissão aberta da fé. Deve, porém, o pastor ensinar também que aquele que diz «Creio», além de declarar o assentimento interior da mente, que é um ato interno de fé, deve igualmente professar aberta e prontamente, e proclamar o que interiormente e em seu coração crê; pois os fiéis devem ser animados pelo mesmo espírito que falou pelos lábios do profeta, quando este disse: «Cri, e por isso falei», e devem seguir o exemplo dos Apóstolos, que responderam aos príncipes da terra: «Não podemos deixar de falar do que vimos e ouvimos.» Este espírito deve ser suscitado em nós por estas admiráveis palavras de São Paulo:

  36. §36

    "Não me envergonho do Evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê"; sentimentos que recebem força ainda maior destas palavras do mesmo Apóstolo: "Com o coração se crê para a justiça; mas com a boca se faz a confissão para a salvação."

  37. §37

    A filosofia cristã superior à sabedoria humana. ["Em Deus"] Destas palavras podemos aprender quão elevadas são a dignidade e a excelência da filosofia cristã, e quão grande é a dívida de gratidão que devemos à bondade divina; nós, a quem é dado elevar-nos de imediato nas asas da fé ao conhecimento de um ser que supera em excelência todos os outros e em quem devem concentrar-se todos os nossos desejos. Pois nisto diferem muito a filosofia cristã e a sabedoria humana: guiada unicamente pela luz da natureza e progredindo gradualmente mediante o raciocínio sobre os objetos e os efeitos sensíveis, a sabedoria humana, após longa e laboriosa investigação, chega por fim com dificuldade à contemplação das coisas invisíveis de Deus e descobre e compreende a causa primeira e o autor de todas as coisas; ao passo que, pelo contrário, a filosofia cristã tanto ilumina e dilata a mente humana que, de imediato e sem dificuldade, ela penetra os céus e, iluminada pelos esplendores da divindade, contempla em primeiro lugar a fonte eterna da luz e, no seu fulgor, todas as coisas criadas; de tal modo que, com o Apóstolo, experimentamos com o mais exquisito prazer, "e crendo nos alegramos com alegria inefável", que "fomos chamados das trevas para a sua luz admirável." Com razão, portanto, professam os fiéis crer primeiro em Deus, cuja majestade, com o profeta Jeremias, declaramos "incompreensível", pois, como diz o Apóstolo, "Ele habita em luz inacessível, que nenhum homem viu nem pode ver"; e falando a Moisés, ele mesmo disse: "Nenhum homem verá a minha face e viverá." A mente, para ser capaz de elevar-se à contemplação da Divindade, à qual nada se iguala em sublimidade, deve estar inteiramente desligada dos sentidos; e isso a condição natural do homem na presente vida torna impossível.

  38. §38

    A razão humana, porém, capaz de alcançar o conhecimento de Deus por meio de suas obras. "Deus", todavia, "não se deixou a si mesmo sem testemunho, fazendo o bem desde o céu, dando chuvas e estações frutíferas, enchendo nossos corações de alimento e de alegria." Daí vem que os filósofos conceberam uma ideia não pequena da Divindade; nada lhe atribuíram de corpóreo, de grosseiro, de composto; consideraram-no a perfeição e a plenitude de todo bem; d'ele, como de uma fonte eterna e inesgotável de bondade e benignidade, flui todo dom perfeito a todas as criaturas; chamaram-no sábio, autor da verdade, amoroso, justo, sumamente benéfico; deram-lhe também muitas outras denominações expressivas de perfeição suprema e absoluta; e disseram que sua imensidade enche todos os lugares e sua onipotência se estende a todas as coisas. As Sagradas Escrituras exprimem isso com maior clareza e maior plenitude, como nas seguintes passagens: "Deus é espírito"; "Sede perfeitos, como também vosso Pai, que está nos céus, é perfeito"; "todas as coisas estão nuas e abertas aos seus olhos"; "Ó profundidade das riquezas da sabedoria e da ciência de Deus!"; "Deus é verdadeiro"; "Eu sou o caminho, a verdade e a vida"; "Tua mão direita está cheia de justiça"; "Abres a tua mão e enches de bênção todo ser vivente"; e, finalmente: "Para onde irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, tu estás lá; se descer ao inferno, tu estás lá; se tomar as asas da manhã e habitar nas extremidades do mar, mesmo lá a tua mão me guiará e a tua mão direita me susterá" etc., e "Acaso não encho eu o céu e a terra, diz o Senhor?" São estas verdades grandes e sublimes acerca da natureza de Deus; e a estas verdades chegaram os filósofos por um conhecimento que, ao mesmo tempo que concorda com a autoridade do volume inspirado, resulta da investigação das coisas criadas.

  39. §39

    O conhecimento derivado da fé, mais fácil e seguro. Deve-se considerar ainda a necessidade da revelação divina, se refletirmos que a fé não somente torna conhecidas de imediato aos rudes e incultos — como já observamos — aquelas verdades a cujo conhecimento os filósofos só chegavam após longo e laborioso estudo, mas também imprime esse conhecimento com muito maior certeza e segurança contra todo erro do que se fosse fruto da investigação filosófica. E quanto mais elevado não deve ser considerado aquele conhecimento da Divindade que não pode ser adquirido por todos em comum mediante a contemplação da natureza, mas é privilégio peculiar daqueles que são iluminados pela luz da fé?

  40. §40

    Unidade de Deus. Este conhecimento está contido nos artigos do Credo, que nos revelam a unidade da essência divina e a distinção das três Pessoas; e também que Deus é o fim último do nosso ser, de quem havemos de esperar a fruição da felicidade eterna do céu: pois aprendemos com São Paulo que "Deus é remunerador daqueles que o buscam". A grandeza destas recompensas, e se são de tal natureza que o conhecimento humano poderia aspirar a alcançá-las, aprendemo-lo nestas palavras de Isaías, proferidas muito antes das do Apóstolo: "Desde o princípio do mundo não se ouviu, nem se percebeu pelos ouvidos; sem Ti, ó Deus, olho algum viu o que preparaste para aqueles que em Ti esperam."

  41. §41

    Do que foi dito, deve-se igualmente confessar que há um só Deus, e não muitos deuses; pois, ao atribuirmos a Deus a suma bondade e a perfeição infinita, é impossível que o que é sumo e perfeitíssimo possa ser comum a muitos. Se um ser carece de algo que constitui essa suma perfeição, é portanto imperfeito e não pode estar dotado da natureza de Deus. Isto é também comprovado por muitas passagens da Sagrada Escritura; pois está escrito: "Ouve, ó Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor;" e ainda: "Não terás deuses estranhos diante de mim," é o mandamento de Deus; e de novo ele nos adverte muitas vezes pelo profeta: "Eu sou o primeiro e eu sou o último, e além de mim não há Deus." O Apóstolo também declara expressamente: "um só Senhor, uma só fé, um só Batismo." Não deve, porém, causar-nos admiração o fato de as Sagradas Escrituras darem às vezes o nome de Deus às criaturas; pois quando chamam os profetas e os juízes de deuses, fazem-no não à maneira dos gentios, que, em sua loucura e impiedade, formaram para si mesmos muitos deuses, mas a fim de exprimir, por uma forma de falar então corrente, alguma qualidade ou função eminente conferida a eles pela munificência divina. A fé cristã, portanto, crê e professa — como é declarado no Credo Niceno em confirmação desta verdade — que Deus é uno em natureza, substância e essência; mas, elevando-se ainda mais alto, compreende-o de tal modo como uno que adora a unidade na trindade e a trindade na unidade. Deste mistério passamos agora a tratar, pois é o que vem a seguir na ordem do Credo.

  42. §42

    Conveniência da palavra "Pai" aplicada a Deus. "O PAI"] Sendo Deus chamado "Pai" por mais de uma razão, devemos primeiro determinar o sentido estritamente próprio da palavra na presente passagem. Alguns, sobre quem a luz da fé jamais brilhou, conceberam Deus como uma substância eterna da qual todas as coisas tiveram o seu princípio, e por cuja providência são governadas e conservadas na sua ordem e estado de existência. Assim como, portanto, aquele a quem uma família deve a sua origem, e pela cuja sabedoria e autoridade é governada, é chamado pai; da mesma forma, por analogia com as coisas humanas, Deus foi chamado Pai, por ser reconhecido como criador e governador do universo. As Sagradas Escrituras usam igualmente esta denominação quando, falando de Deus, declaram que a ele se devem atribuir a criação de todas as coisas, o poder e a admirável providência: pois lemos: "Não é ele o teu Pai que te possuiu, te fez e te criou?" E ainda: "Não temos todos um só Pai? Não nos criou um só Deus?"

  43. §43

    Deus, de modo especial, "Pai" dos cristãos. Deus, porém, particularmente no Novo Testamento, é muito mais frequentemente, e em certo sentido de modo próprio, chamado Pai dos cristãos, que "não receberam o espírito de servidão para viver no temor, mas receberam o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Abba, Pai!"; "porque o Pai nos outorgou tamanha caridade, que nos chamemos e sejamos filhos de Deus"; "e se filhos, também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo", "que é o primogênito entre muitos irmãos, pelo que não se envergonha de chamá-los irmãos". Quer, portanto, consideremos o título comum da criação e conservação, quer o título especial da adoção espiritual, o termo "Pai", aplicado a Deus pelos cristãos, é igualmente apropriado.

  44. §44

    O pastor ensinará aos fiéis que, ao ouvir a palavra "Pai", além das ideias já desenvolvidas, suas mentes devem elevar-se à contemplação de mistérios mais sublimes. Sob o nome de "Pai", os oráculos divinos começam a revelar-nos uma verdade misteriosa, mais abstrata e mais profundamente oculta naquela luz inacessível em que Deus habita — uma verdade misteriosa que a razão humana não só não conseguia alcançar, mas nem sequer conceber que existisse. Este nome implica que, na única essência da Divindade, se propõe à nossa fé não apenas uma pessoa, mas uma distinção de pessoas: pois em uma única natureza divina há três pessoas; o Pai, que não é gerado de ninguém; o Filho, gerado do Pai antes de todos os séculos; e o Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho desde toda a eternidade.

  45. §45

    Mas, na única substância da Divindade, o Pai é a primeira Pessoa, que com o seu Filho Unigênito e o Espírito Santo é um só Deus e um só Senhor, não na singularidade de uma só pessoa, mas na Trindade de uma só substância. Estas três Pessoas — pois seria impiedade afirmar que entre elas existe alguma dessemelhança ou desigualdade — são entendidas como distintas somente pelas suas relações peculiares. O Pai é ingênito, o Filho é gerado do Pai, e o Espírito Santo procede de ambos; e confessamos que a essência das três Pessoas, a sua substância, é de tal modo a mesma, que cremos dever adorar, com piedade e religião, na confissão do verdadeiro e eterno Deus, a distinção nas Pessoas, a unidade na essência e a igualdade na Trindade. Quando dizemos que o Pai é a primeira Pessoa, não se deve entender que na Trindade haja algo de primeiro ou de último, de maior ou de menor — nenhum cristão incorra em tal impiedade, pois o Cristianismo proclama a mesma eternidade e a mesma majestade de glória nas três Pessoas —; mas o Pai, por ser o princípio sem princípio, afirmamos verdadeira e indubitavelmente ser a primeira Pessoa, o qual, assim como se distingue dos demais pela sua relação peculiar de paternidade, assim só d'Ele é verdade que gerou o Filho desde a eternidade; pois quando no Credo pronunciamos juntas as palavras "Deus" e "Pai", isso nos indica que Ele é Deus e Pai desde a eternidade.

  46. §46

    Mas como em nenhuma outra coisa uma investigação demasiado curiosa é mais perigosa, nem o erro mais funesto, do que no conhecimento e na exposição deste, o mais profundo e difícil dos mistérios, instrua o pároco o povo a reter religiosamente os termos usados para exprimir este mistério, que são próprios da essência e da pessoa; e saibam os fiéis que a unidade pertence à essência, e a distinção, às Pessoas. São, porém, verdades que não devem ser objeto de indagação demasiado subtil, quando nos lembramos de que "quem perscrutar a majestade será oprimido pela glória". Devemos contentar-nos com a certeza que a fé nos dá de que estas verdades nos foram ensinadas pelo próprio Deus; e dissentir dos seus oráculos é o cúmulo da loucura e da miséria. Ele disse: "Ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo"; e ainda: "Três são os que dão testemunho no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo; e estes três são um." Aquele, porém, que pela divina bondade crê nestas verdades, suplique e implore continuamente a Deus e ao Pai, que fez todas as coisas do nada e as governa com suavidade, que nos deu o poder de nos tornarmos filhos de Deus e nos revelou o mistério da Santíssima Trindade; para que, admitido um dia nos tabernáculos eternos, seja digno de contemplar quão grande é a fecundidade do Pai, que, contemplando-se e compreendendo-se a Si mesmo, gerou o Filho semelhante e igual a Si; como um amor de caridade em ambos, inteiramente o mesmo e igual, que é o Espírito Santo, procedendo do Pai e do Filho, une o que gera e o gerado por um vínculo eterno e indissolúvel; e como assim a essência da Trindade é una e a distinção das três Pessoas, perfeita.

  47. §47

    As Sagradas Escrituras, para exprimir a piedade e a devoção com que deve ser adorado o Deus de santidade, costumam manifestar de diversas maneiras o seu poder supremo e a sua infinita majestade; mas o pároco deve imprimir de modo especial nas mentes dos fiéis que o atributo da onipotência é aquele pelo qual ele é designado com maior frequência. Assim, diz de si mesmo: "Eu sou o Deus Todo-Poderoso;" e também Jacó, ao enviar seus filhos a José, assim orou por eles: "Que o meu Deus Todo-Poderoso o torne favorável a vós." No Apocalipse está igualmente escrito: "O Senhor Deus, que é, que era e que há de vir, o Todo-Poderoso;" e em outro lugar o último dia é chamado "o dia do Deus Todo-Poderoso." Por vezes o mesmo atributo é expresso com muitas palavras; assim: "Nenhuma palavra será impossível a Deus;" "Acaso a mão do Senhor é impotente?" "O teu poder está à mão quando o quiseres." Muitas outras passagens de igual alcance poderiam ser aduzidas, todas as quais transmitem a mesma ideia claramente compreendida nesta única palavra "Todo-Poderoso." Por ela entendemos que não existe, nem se pode imaginar, coisa alguma que Deus não possa fazer; pois ele pode não só aniquilar todas as coisas criadas e convocar do nada à existência, num instante, muitos outros mundos — exercício de poder que, por mais grandioso que seja, está em certa medida ao alcance de nossa compreensão —, mas pode fazer ainda muitas outras coisas maiores, das quais a mente humana não é capaz de formar nenhuma concepção. Porém, embora Deus possa fazer todas as coisas, ele não pode mentir, nem enganar, nem ser enganado; não pode pecar, nem ignorar coisa alguma, nem deixar de existir. Estas coisas são compatíveis somente com os seres cujos atos são imperfeitos, e são inteiramente incompatíveis com a natureza de Deus, cujos atos são todos perfeitos. Ser capaz dessas coisas é sinal de fraqueza, não de poder supremo e infinito, atributo peculiar de Deus. Assim, ao crermos que Deus é onipotente, excluímos dele tudo aquilo que não está intimamente ligado e plenamente conforme à perfeição de sua natureza.

  48. §48

    O pastor deve apontar a propriedade e a sabedoria de se haverem omitido no Credo todos os demais nomes de Deus, propondo-nos como objeto de nossa fé apenas o nome de "Onipotente"; pois, ao reconhecermos que Deus é onipotente, necessariamente o reconhecemos também como onisciente e como senhor de todas as coisas, que submete à sua suprema autoridade e domínio. Quando não duvidamos de que ele é onipotente, devemos igualmente estar convictos de tudo o mais que lhe diz respeito, cuja ausência tornaria a sua onipotência inteiramente incompreensível. Além disso, nada contribui mais para confirmar a nossa fé e animar a nossa esperança do que a profunda convicção de que tudo é possível a Deus; pois tudo o que depois se propuser como objeto de fé, por maior, por mais admirável, por mais elevado acima da ordem natural que seja, é fácil e prontamente crido quando o espírito já está imbuído do conhecimento da onipotência de Deus. Antes, quanto maiores são as verdades que os oráculos divinos anunciam, tanto mais prontamente o espírito as considera dignas de crença; e se esperamos alguma graça do céu, não nos deixamos desanimar pela grandeza do bem desejado, mas nos alentamos e nos fortalecemos, considerando com frequência que nada há que um Deus onipotente não possa realizar.

  49. §49

    Com esta fé, pois, devemos estar particularmente fortalecidos sempre que somos chamados a prestar algum serviço extraordinário ao próximo, ou buscamos obter pela oração alguma graça de Deus. A necessidade dela no primeiro caso aprendemo-la do próprio Redentor, que, ao repreender a incredulidade dos Apóstolos, lhes disse: "Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: passa daqui para lá, e ele passará; e nada vos será impossível;" e no segundo caso, destas palavras de São Tiago: "Peça com fé, sem hesitar; pois quem hesita assemelha-se à onda do mar, agitada e levada pelo vento. Não pense, pois, tal homem que receberá coisa alguma do Senhor." Esta fé traz consigo também muitas vantagens. Forma-nos, em primeiro lugar, a toda humildade e baixeza de espírito, segundo estas palavras do Príncipe dos Apóstolos: "Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus." Ensina-nos também a não temer onde não há motivo de temor, mas a temer somente a Deus, em cujo poder estamos nós mesmos e tudo o que temos; pois o nosso Salvador diz: "Mostrar-vos-ei a quem deveis temer; temei aquele que, depois de matar, tem poder de lançar no inferno." Esta fé é igualmente útil para nos fazer conhecer e exaltar as misericórdias infinitas de Deus para conosco: quem reflete sobre a onipotência de Deus não pode ser tão ingrato a ponto de não exclamar frequentemente: "O Poderoso fez em mim grandes coisas."

  50. §50

    Quando, porém, neste artigo chamamos ao Pai "Onipotente", que ninguém se deixe induzir ao erro de excluir daí a participação do Filho e do Espírito Santo. Assim como dizemos que o Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus, e contudo não são três Deuses, mas um só Deus; da mesma forma confessamos que o Pai é Onipotente, o Filho é Onipotente e o Espírito Santo é Onipotente, e contudo não são três Onipotentes, mas um só Onipotente. Ao Pai, em particular, chamamos Onipotente, porque ele é a fonte de toda a origem; assim como atribuímos a sabedoria ao Filho, por ser o Verbo eterno do Pai; e a bondade ao Espírito Santo, por ser o amor de ambos. Estas, porém, e outras denominações semelhantes, podem ser atribuídas indistintamente às três Pessoas, segundo a regra da fé católica.