MagistérioConcílio de Éfeso, Carta de Cirilo a Nestório

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Documento conciliar

Concílio de Éfeso

Concílio de Éfeso, Carta de Cirilo a Nestório

Ao religiosíssimo e amado de Deus, companheiro de ministério Nestório, Cirilo envia saudação no Senhor. Ouço que alguns falam temerariamente da estima em que tenho a vossa santidade, e que isto acontece com frequência, especialmente nas ocasiões em que se realizam reuniões dos que estão em autoridade. E talvez pensem que, agindo assim, digam algo que vos agrade, mas falam insensatamente, pois de mim não sofreram injustiça alguma, mas foram por mim expostos apenas para seu proveito; este como opressor dos cegos e necessitados, aquele como quem feriu sua mãe com uma espada. Outro, porque roubou, em conluio com sua criada, o dinheiro alheio, e sempre laborou sob a imputação de tais crimes como ninguém desejaria que nem mesmo um de seus mais acerbos inimigos estivessem carregados. Pouco me importam as palavras de tais pessoas, pois o discípulo não está acima do seu Mestre, nem eu esticaria a medida do meu estreito entendimento acima dos Padres, pois qualquer caminho de vida que se siga, dificilmente se escapa da mácula dos maus, cujas bocas estão cheias de maldição e amargura, e que por fim hão de dar contas ao Juiz de todos.

Mas volto ao ponto que especialmente tinha em mente. E agora exorto-vos, como irmão no Senhor, a propor ao povo a palavra do ensino e a doutrina da fé com toda a exatidão, e a considerar que o escândalo dado a um dos pequeninos que creem em Cristo expõe um corpo à insuportável indignação de Deus. E de quão grande diligência e habilidade há necessidade quando a multidão dos que se magoam é tão grande, para que possamos administrar a palavra curativa da verdade aos que a buscam. Mas isto conseguiremos otimamente se meditarmos nas palavras dos santos Padres e nos empenharmos em obedecer aos seus mandamentos, examinando-nos a nós mesmos se estamos na fé, segundo o que está escrito, e conformando os nossos pensamentos ao seu reto e irrepreensível ensino.

Diz, portanto, o santo e grande Sínodo, que o Filho unigênito, nascido segundo a natureza de Deus Pai, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, Luz da Luz, pelo qual o Pai fez todas as coisas, desceu, e se encarnou, e se fez homem, padeceu, e ressuscitou ao terceiro dia, e subiu aos céus. A estas palavras e a estes decretos devemos seguir, considerando o que significa o Verbo de Deus ter-se encarnado e feito homem. Pois não dizemos que a natureza do Verbo se mudou e se fez carne, ou que se converteu num homem completo consistindo de alma e corpo; mas antes que o Verbo, tendo unido pessoalmente a si a carne animada por alma racional, se fez homem de modo inefável e inconcebível, e foi chamado Filho do Homem, não apenas por querer ou comprazer-se em ser assim chamado, nem por ter assumido uma pessoa, mas porque, tendo sido as duas naturezas reunidas em verdadeira união, há de ambas um só Cristo e um só Filho; pois a diferença das naturezas não é suprimida pela união, mas antes a divindade e a humanidade nos aperfeiçoam o único Senhor Jesus Cristo pela sua inefável e inexprimível união. Assim, pois, aquele que existia antes de todos os séculos e nasceu do Pai, diz-se que nasceu segundo a carne de uma mulher, não como se a sua natureza divina tivesse recebido o princípio da sua existência na santa Virgem (pois não necessitava de uma segunda geração depois da do Pai, porque seria absurdo e insensato dizer que aquele que existia antes de todos os séculos, coeterno com o Pai, necessitava de um segundo princípio de existência), mas porque, para nós e para a nossa salvação, uniu pessoalmente a si um corpo humano, e saiu de uma mulher, por isso se diz que nasceu segundo a carne; pois não nasceu primeiro um homem comum da santa Virgem, e depois o Verbo desceu e entrou nele, mas, tendo-se feito a união no próprio seio, diz-se que sofreu um nascimento segundo a carne, atribuindo a si o nascimento da sua própria carne. Por isso dizemos que padeceu e ressuscitou; não como se Deus Verbo padecesse na sua própria natureza açoites, ou a perfuração dos cravos, ou quaisquer outras feridas, pois a natureza divina é incapaz de sofrimento, porquanto é incorpórea, mas porque aquilo que se tornara seu próprio corpo padeceu desta maneira, também se diz que ele padeceu por nós; pois aquele que em si mesmo é incapaz de sofrer estava num corpo sofredor. Do mesmo modo também pensamos acerca da sua morte; pois o Verbo de Deus é por natureza imortal e incorruptível, e vida e vivificante; contudo, porque o seu próprio corpo, como diz Paulo, pela graça de Deus provou a morte por todos, ele mesmo se diz que sofreu a morte por nós, não como se tivesse tido qualquer experiência da morte na sua própria natureza (pois seria loucura dizer ou pensar isto), mas porque, como acabo de dizer, a sua carne provou a morte. Do mesmo modo, a sua carne sendo ressuscitada, fala-se da sua ressurreição, não como se ele tivesse caído na corrupção (Deus nos livre!), mas porque o seu próprio corpo foi ressuscitado. Nós, portanto, confessamos um só Cristo e Senhor, não adorando um homem juntamente com o Verbo (para que esta expressão "juntamente com o Verbo" não sugira à mente a ideia de divisão), mas adorando-O como um só e o mesmo, porquanto o corpo do Verbo, com o qual está sentado com o Pai, não está separado do próprio Verbo, não como se dois filhos estivessem sentados com Ele, mas um só pela união com a carne. Se, porém, rejeitamos a união pessoal como impossível ou inconveniente, caímos no erro de falar de dois filhos, pois será necessário distinguir e dizer que aquele que era propriamente homem foi honrado com a denominação de Filho, e que aquele que é propriamente o Verbo de Deus tem por natureza tanto o nome como a realidade da filiação. Não devemos, portanto, dividir o único Senhor Jesus Cristo em dois filhos. Nem de nada servirá para uma fé sã sustentar, como alguns fazem, uma união de pessoas; pois a Escritura não disse que o Verbo uniu a si a pessoa do homem, mas que se fez carne. Esta expressão, porém, "o Verbo se fez carne", não pode significar outra coisa senão que ele se tornou participante de carne e sangue como nós; fez nosso corpo seu, e saiu homem de uma mulher, não despojando-se da sua existência como Deus, nem da sua geração de Deus Pai, mas mesmo ao assumir a carne permanecendo o que era. Isto a declaração da reta fé proclama por toda a parte. Este era o sentimento dos santos Padres; por isso ousaram chamar à santa Virgem, Mãe de Deus, não como se a natureza do Verbo ou a sua divindade tivesse princípio da santa Virgem, mas porque dela nasceu aquele santo corpo com alma racional, ao qual o Verbo, unido pessoalmente, se diz que nasceu segundo a carne. Estas coisas, portanto, vos escrevo agora por amor de Cristo, suplicando-vos como irmão e testemunhando-vos diante de Cristo e dos anjos eleitos, que penseis e ensineis estas coisas conosco, para que a paz das Igrejas seja preservada e o vínculo da concórdia e do amor permaneça íntegro entre os Sacerdotes de Deus.

Ao reverendíssimo e amadíssimo de Deus comministro Nestório, Cirilo e o sínodo reunido em Alexandria, da província do Egito, saudação no Senhor.

Quando o nosso Salvador diz claramente: "Quem ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama filho ou filha mais do que a mim não é digno de mim," o que será de nós, de quem Vossa Santidade exige que vos amemos mais do que a Cristo, Salvador de todos nós? Quem nos socorrerá no dia do juízo, ou que espécie de desculpa encontraremos por termos guardado tanto tempo silêncio diante das blasfêmias que proferistes contra ele? Se vós somente a vós mesmos vos prejudicásseis, ensinando e sustentando tais coisas, talvez fosse menos grave; porém escandalizastes grandemente toda a Igreja e lançastes entre o povo o fermento de uma heresia estranha e nova. E não somente àqueles de lá [isto é, em Constantinopla], mas também a todos os que estão em toda parte [foram enviados os livros da vossa explicação]. Como poderemos ainda, nestas circunstâncias, defender o nosso silêncio, ou como não seremos compelidos a recordar que Cristo disse: "Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Porque vim separar o homem do seu pai, e a filha da sua mãe." Pois se a fé for lesada, pereça a honra devida aos pais, como algo caduco e vacilante; cale-se também a lei do terno amor para com os filhos e os irmãos; seja a morte melhor para os piedosos do que a vida, "para que obtenham uma ressurreição melhor," como está escrito.

Vede, portanto, como nós, juntamente com o santo sínodo reunido na grande Roma, presidido pelo santíssimo e reverendíssimo irmão e comministro Celestino, Bispo, vos testemunhamos por esta terceira carta e vos aconselhamos a absterdes-vos desses dogmas perniciosos e pervertidos que sustentais e ensinais, e a receberdes a fé reta, transmitida às igrejas desde o princípio pelos santos Apóstolos e Evangelistas, que "foram testemunhas oculares e ministros da Palavra." E se Vossa Santidade não tiver disposição para isso, nos termos fixados nos escritos de nosso irmão de santa memória e reverendíssimo comministro Celestino, Bispo da Igreja de Roma, ficai bem certo de que não tendes parte conosco, nem lugar nem posição (λόγον) entre os sacerdotes e bispos de Deus. Pois não nos é possível negligenciar as igrejas assim perturbadas, e o povo escandalizado, e a fé reta posta de lado, e as ovelhas dispersadas por vós, que deveríeis salvá-las, se de fato somos nós próprios adeptos da fé reta e seguidores da devoção dos santos padres. E estamos em comunhão com todos os leigos e clérigos expulsos ou depostos por Vossa Santidade em razão da fé; pois não é justo que aqueles que resolveram crer retamente sofram por vossa escolha, pois procedem bem ao vos oporem-se. Isso mesmo mencionastes na vossa epístola escrita ao nosso santíssimo e comministro Celestino da grande Roma.

Mas não seria suficiente que Vossa Reverência confessasse conosco somente o símbolo da fé outrora estabelecido pelo Espírito Santo no grande e santo sínodo reunido em Niceia; pois não o haveis mantido nem interpretado retamente, mas antes de modo perverso, ainda que confesseis com a voz a forma das palavras. Mas, além disso, por escrito e sob juramento, deveis confessar que anatemizais também aqueles vossos dogmas impuros e ímpios, e que haveis de sustentar e ensinar o que todos nós, bispos, doutores e guias do povo tanto do Oriente como do Ocidente, sustentamos. O santo sínodo de Roma e todos nós concordamos em que a epístola escrita a Vossa Santidade pela Igreja de Alexandria é reta e irrepreensível. A estas acrescentamos as nossas próprias cartas e o que vos é necessário sustentar e ensinar, e o que deveis ter cuidado de evitar. Ora, esta é a fé da Igreja Católica e Apostólica, com a qual concordam todos os bispos ortodoxos, tanto do Oriente como do Ocidente:

"Cremos em um só Deus, Pai Todo-poderoso, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis; e em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus, gerado de seu Pai, isto é, da substância do Pai; Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai, por quem todas as coisas foram feitas, tanto as do céu como as da terra. Que por nós homens e pela nossa salvação desceu, e se encarnou, e se fez homem. Padeceu, e ressuscitou ao terceiro dia. Subiu aos céus, donde há de vir julgar os vivos e os mortos. E no Espírito Santo. Quanto aos que dizem: Houve um tempo em que ele não existia; e: Antes de ser gerado, não existia; e que foi feito do que antes não existia; ou que é de outra substância ou essência; e que o Filho de Deus é suscetível de mudança ou alteração; a esses a Igreja Católica e Apostólica anatematiza."

Seguindo em tudo as confissões dos santos Padres, que eles fizeram falando neles o Espírito Santo, e seguindo o alcance de suas opiniões, e caminhando, por assim dizer, pela via real, confessamos que o Verbo Unigênito de Deus, gerado da mesma substância do Pai, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, Luz de Luz, por quem todas as coisas foram feitas, tanto as do céu como as da terra, descendo para a nossa salvação e tendo-se despojado a si mesmo (καθεὶς ἑαυτὸν εἰς κένωσιν), se encarnou e se fez homem; isto é, tomando carne da santa Virgem e tornando-a sua desde o seio materno, submeteu-se ao nascimento por nós e veio ao mundo como homem nascido de mulher, sem abandonar o que era; pois, ainda que assumiu carne e sangue, permaneceu o que era, Deus em essência e em verdade. Nem dizemos que a sua carne foi transformada na natureza da divindade, nem que a natureza inefável do Verbo de Deus foi posta de lado em favor da natureza da carne; pois ele é imutável e absolutamente inalterável, sendo sempre o mesmo, segundo as Escrituras. Pois, ainda que visível e menino em panos de linho, e mesmo no seio de sua Mãe Virgem, enchia toda a criação como Deus e coreina com aquele que o gerou, pois a Divindade é sem quantidade e sem dimensão e não pode ter limites.

Confessando que o Verbo se fez um com a carne segundo a substância, adoramos um só Filho e Senhor Jesus Cristo; não separamos o Deus do homem, nem o dividimos em partes, como se as duas naturezas estivessem mutuamente unidas nele somente por uma comunhão de dignidade e de autoridade — pois isso é uma novidade e nada mais —, nem atribuímos separadamente ao Verbo de Deus o nome de Cristo e o mesmo nome separadamente a outro nascido de mulher; mas conhecemos somente um Cristo, o Verbo do Deus Pai com a sua própria Carne. Pois como homem foi ungido conosco, ainda que seja ele próprio quem dá o Espírito sem medida aos que são dignos, segundo o dito do bem-aventurado Evangelista João.

Porém não dizemos que o Verbo de Deus habitou nele como em um homem comum nascido da santa Virgem, para que Cristo não seja considerado como um homem portador de Deus; pois, embora o Verbo haja tabernaculado entre nós, também se diz que em Cristo "habitou toda a plenitude da Divindade corporalmente"; mas entendemos que ele se fez carne, não apenas como se diz que habita nos santos, e definimos que aquele tabernacular nele foi segundo a igualdade (κατὰ τον ἴσον ἐν αὐτῷ τρόπον). Mas, feito uno κατὰ φύσιν, e não convertido em carne, fez sua habitação de tal modo que, por assim dizer, é como a alma do homem faz no seu próprio corpo.

Um, portanto, é Cristo, Filho e Senhor, não como se um homem tivesse alcançado apenas uma tal conjunção com Deus que consista somente numa unidade de dignidade ou de autoridade. Pois não é a igualdade de honra que une as naturezas; de outro modo, Pedro e João, que eram de igual honra entre si, sendo ambos Apóstolos e santos discípulos [teriam sido um só, e] contudo os dois não são um. Nem entendemos que o modo da conjunção seja aposição, pois isso não basta para a unidade natural (πρὸς ἕνωσον φυσικήν). Nem tampouco por participação relativa, como nós também estamos unidos ao Senhor, como está escrito: "somos um só espírito nele." Antes depreciamos o termo "conjunção" (συναφείας) por não ter significado suficientemente a unidade. Mas não chamamos ao Verbo de Deus Pai o Deus nem o Senhor de Cristo, para não dividirmos abertamente em dois o único Cristo, Filho e Senhor, e não cairmos sob a acusação de blasfêmia, tornando-o Deus e Senhor de si mesmo. Pois o Verbo de Deus, como já dissemos, fez-se hipostaticamente uno com a carne, mas é Deus de todos e governa tudo; porém não é servo de si mesmo, nem seu próprio Senhor. Pois é insensato, ou antes ímpio, pensar ou ensinar assim. Pois ele disse que Deus era seu Pai, ainda que fosse Deus por natureza e de sua substância. Contudo não ignoramos que, permanecendo Deus, tornou-se também homem e sujeito a Deus, segundo a lei conveniente à natureza da humanidade. Mas como poderia ele tornar-se Deus ou Senhor de si mesmo? Consequentemente, como homem, e no que respeita à medida de sua humilhação, diz-se que ele está igualmente conosco sujeito a Deus; assim ele se fez sob a Lei, ainda que como Deus haja promulgado a Lei e fosse o Legislador.

Também somos cuidadosos quanto ao modo de dizer sobre Cristo: "Adoro o Revestido por causa d'Aquele que o reveste, e por causa do Invisível adoro o Visível." É horrível dizer nessa conexão o seguinte: "O assumido e o assuminte têm o nome de Deus." Pois essa afirmação divide novamente Cristo em dois, e coloca o homem separadamente por si e Deus também por si. Pois essa afirmação nega abertamente a Unidade, segundo a qual um não é adorado no outro, nem Deus existe juntamente com o outro; mas Jesus Cristo é considerado como Um, o Filho Unigênito, a ser honrado com uma só adoração juntamente com a sua própria carne.

Confessamos que ele é o Filho, gerado de Deus Pai, e Deus Unigênito; e que, embora por sua própria natureza fosse incapaz de sofrer, padeceu por nós na carne segundo as Escrituras, e que, sendo impassível, fez seus, em seu Corpo crucificado, os sofrimentos da sua própria carne; e que pela graça de Deus provou a morte por todos: entregou a ela o seu próprio Corpo, ainda que fosse por natureza ele mesmo a vida e a ressurreição, para que, tendo pisoteado a morte pelo seu poder inefável, primeiro em sua própria carne, se tornasse o primogênito dentre os mortos e as primícias dos que dormiam. E para que abrisse caminho para que a natureza do homem atingisse a incorruptibilidade, pela graça de Deus (como há pouco dissemos) provou a morte por todo homem, e após três dias ressuscitou, havendo espoliado o inferno. Assim, ainda que se diga que a ressurreição dos mortos se deu por meio de um homem, entendemos que esse homem foi o Verbo de Deus, e que por ele foi desatado o poder da morte, e que ele virá na plenitude dos tempos como o único Filho e Senhor, na glória do Pai, para julgar o mundo em justiça, como está escrito.

Necessariamente acrescentaremos também isto. Proclamando a morte, segundo a carne, do Filho Unigênito de Deus, isto é, Jesus Cristo, confessando a sua ressurreição dentre os mortos e a sua ascensão ao céu, oferecemos o Sacrifício Incruento nas igrejas, e assim nos aproximamos das místicas ações de graças, e somos santificados, tendo recebido a sua santa Carne e o Precioso Sangue de Cristo, Salvador de todos nós. E não como carne comum o recebemos — isso longe de nós —, nem como de um homem santificado e associado ao Verbo segundo a unidade de mérito, ou como tendo uma habitação divina, mas como verdadeiramente a Carne vivificante e própria do próprio Verbo. Pois ele é a Vida segundo a sua natureza como Deus, e quando se uniu à sua Carne, fez-a também vivificante, como também nos disse: "Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu Sangue." Pois não devemos pensar que é a carne de um homem semelhante a nós — pois como poderia a carne de um homem ser vivificante por sua própria natureza? —, mas como tendo-se tornado verdadeiramente a própria carne d'Aquele que por nós se fez e foi chamado Filho do Homem. Além disso, o que os Evangelhos dizem que o nosso Salvador disse de si mesmo, não o dividimos entre duas hipóstases ou pessoas. Pois nem o único e único Cristo deve ser considerado duplo, ainda que seja de dois (ἐκ δύο) e diversos, porém ele os uniu em união indivisível, assim como todos sabem que o homem não é duplo, embora seja constituído de alma e corpo, mas é um de ambos. Pelo que, pensando retamente, atribuímos o humano e o divino à mesma pessoa (παρ' ἑνὸς εἰρῆσθαι).

Pois quando como Deus fala de si mesmo: "Quem me viu, viu o Pai," e "Eu e o Pai somos um," consideramos a sua natureza divina inefável, segundo a qual é Um com seu Pai pela identidade de essência — "a imagem e o cunho e o esplendor da sua glória." Mas quando, não desprezando a medida da sua humanidade, disse aos judeus: "Mas agora procurais matar-me, a mim, um homem que vos disse a verdade," não menos do que antes o reconhecemos como Verbo de Deus pela sua identidade e semelhança com o Pai e pelas circunstâncias da sua humanidade. Pois se é necessário crer que, sendo Deus por natureza, se fez carne, isto é, homem dotado de alma racional, que razão têm alguns para envergonharem-se desta linguagem a respeito dele, que lhe é própria como homem? Pois se ele rejeitasse as palavras que lhe são próprias como homem, quem o compeliu a tornar-se homem como nós? E tendo-se humilhado a um rebaixamento voluntário (κένωσιν) por nós, por que motivo poderia alguém rejeitar as palavras próprias de tal rebaixamento? Portanto, todas as palavras que se leem nos Evangelhos devem ser aplicadas a uma só Pessoa, a uma só hipóstase do Verbo Encarnado. Pois o Senhor Jesus Cristo é um só, segundo as Escrituras, ainda que seja chamado "Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa profissão de fé," como aquele que oferece a Deus e ao Pai a confissão de fé que lhe fazemos, e por meio dele a Deus e ao Pai e também ao Espírito Santo; contudo dizemos que ele é, por natureza, o Unigênito de Deus. E não a nenhum homem diferente dele atribuímos o nome e a realidade do sacerdócio, pois ele se tornou "o Mediador entre Deus e os homens," e Reconciliador para a paz, tendo-se oferecido a si mesmo como hóstia de suave odor a Deus e ao Pai. Por isso também disse: "Sacrifício e oblação não quiseste; mas um corpo me preparaste; em holocaustos e sacrifícios pelo pecado não te comprazeste. Então disse: Eis que venho (no volume do livro está escrito a meu respeito) para fazer a tua vontade, ó Deus." Pois por causa de nós ofereceu o seu corpo como hóstia de suave odor, e não por si mesmo; pois que oferenda ou sacrifício era necessário para si mesmo, ele que como Deus existia acima de todos os pecados? Pois "todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus," de modo que nos tornamos propensos a cair e a natureza do homem caiu no pecado, mas não assim ele (e por isso ficamos aquém da sua glória). Como pode então ainda haver dúvida de que o verdadeiro Cordeiro morreu por nós e em nosso favor? E dizer que ele se ofereceu por si mesmo e por nós não poderia de modo algum escapar da acusação de impiedade. Pois jamais cometeu falta alguma, nem pecou. Que oferenda precisava então, não tendo pecado pelo qual os sacrifícios são legitimamente oferecidos? Mas quando falou acerca do Espírito, disse: "Ele me glorificará." Se pensamos retamente, não dizemos que o único Cristo e Filho, como necessitando de glória de outro, recebeu glória do Espírito Santo; pois nem maior do que ele nem superior a ele é o seu Espírito, mas porque ele se serviu do Espírito Santo para manifestar a sua própria divindade em suas obras poderosas, por isso se diz que foi glorificado por ele, assim como se alguém de nós dissesse, por exemplo, a respeito de sua força interior ou de seu conhecimento de alguma coisa: "Eles me glorificaram." Pois ainda que o Espírito seja da mesma essência, pensamos nele por si mesmo, pois ele é o Espírito e não o Filho; mas não é diferente dele; pois é chamado Espírito da verdade e Cristo é a Verdade, e é enviado por ele, assim como também procede de Deus e do Pai. Quando, portanto, o Espírito operou milagres pelas mãos dos santos Apóstolos após a Ascensão do nosso Senhor Jesus Cristo ao céu, glorificou-o. Pois crê-se que aquele que opera por meio do seu próprio Espírito é Deus por natureza. Por isso disse: "Ele receberá do meu e vo-lo anunciará." Mas não dizemos isso como se o Espírito fosse sábio e poderoso por alguma participação em outro; pois ele é todo perfeito e não necessita de nenhum bem. Uma vez, portanto, que ele é o Espírito do Poder e da Sabedoria do Pai (isto é, do Filho), é evidentemente Sabedoria e Poder.

E porque a santa Virgem trouxe ao mundo corporalmente o Deus feito uno com a carne segundo a natureza, por esta razão também a chamamos Mãe de Deus (Θεοτόκος), não como se a natureza do Verbo houvesse tido o princípio de sua existência a partir da carne.

Pois "No princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus, e o Verbo estava com Deus," e ele é o Criador dos séculos, coeterno com o Pai e Criador de todas as coisas; mas, como já dissemos, visto que uniu a si hipostaticamente a natureza humana do seu seio, submeteu-se também ao nascimento como homem, não por necessitar em sua própria natureza de um nascimento no tempo e nestes últimos tempos do mundo, mas a fim de abençoar o início da nossa existência e para que aquilo que enviou os corpos terrestres de toda a nossa raça à morte perdesse seu poder no futuro por ele haver nascido de uma mulher na carne. E este: "Em dores darás à luz filhos," sendo removido por ele, mostrou a verdade do que foi dito pelo profeta: "A morte forte os engoliu, e de novo Deus enxugou toda lágrima de todos os rostos." Por esta causa também dizemos que ele assistiu, tendo sido convidado, e abençoou as bodas de Caná da Galileia, com os seus santos Apóstolos, segundo a economia. Fomos ensinados a sustentar estas coisas pelos santos Apóstolos e Evangelistas, e por todas as Escrituras divinamente inspiradas, e nas verdadeiras confissões dos bem-aventurados Padres.

A tudo isso deverá Vossa Reverência também concordar e prestar atenção, sem qualquer artifício. E o que é necessário que Vossa Reverência anatematize, anexamo-lo à nossa epístola.

Se alguém não confessar que o Emanuel é verdadeiramente Deus e que, por isso, a santa Virgem é Mãe de Deus (Θεοτόκος), pois gerou segundo a carne o Verbo de Deus feito carne [como está escrito: "O Verbo se fez carne"], seja anátema.

Se alguém não confessar que o Verbo de Deus Pai está unido hipostaticamente à carne, e que com essa carne que é sua, ele é um só Cristo, ao mesmo tempo Deus e homem: seja anátema.

Se alguém, após a união [hipostática], dividir as hipóstases no único Cristo, unindo-as apenas por aquela conexão que se dá segundo a dignidade, ou ainda a autoridade e o poder, e não antes por uma convergência (συνόδῳ) que se opera mediante a união natural (ἕνωσιν φυσικὴν): seja anátema.

Se alguém dividir entre duas pessoas ou subsistências as expressões (φωνάς) contidas nos escritos evangélicos e apostólicos, ou que foram ditas a respeito de Cristo pelos Santos, ou por Ele mesmo, e aplicar algumas a Ele como a um homem separado do Verbo de Deus, e aplicar outras ao único Verbo de Deus Pai, sob o fundamento de que são próprias de Deus: seja anátema.

Se alguém ousar dizer que Cristo é um homem Theophorus [isto é, portador de Deus] e não antes que Ele é verdadeiro Deus, como Filho único por natureza, porque "o Verbo se fez carne" e "participou da carne e do sangue como nós": seja anátema.

Se alguém ousar dizer que o Verbo de Deus Pai é o Deus de Cristo ou o Senhor de Cristo, e não confessar antes que Ele é ao mesmo tempo Deus e Homem, visto que, segundo as Escrituras, "o Verbo se fez carne": seja anátema.

Se alguém disser que Jesus, enquanto homem, é apenas movido pela energia do Verbo de Deus, e que a glória do Unigênito lhe é atribuída como algo que não lhe pertence propriamente: seja anátema.

Se alguém ousar dizer que o homem assumido (ἀναληφθέντα) deve ser adorado juntamente com Deus o Verbo, e glorificado juntamente com ele, e reconhecido juntamente com ele como Deus, e contudo como duas coisas distintas, uma da outra (pois este "juntamente com" é acrescentado [isto é, pelos nestorianos] para exprimir tal sentido); e não adorar antes com uma única adoração o Emanuel e lhe tributar uma única glorificação, como [está escrito] "O Verbo se fez carne": seja anátema.

Se alguém disser que o único Senhor Jesus Cristo foi glorificado pelo Espírito Santo, como se se servisse por meio d'Ele de um poder que lhe era alheio e d'Ele tivesse recebido poder contra os espíritos imundos e poder para realizar milagres diante dos homens, e não confessar antes que é o seu próprio Espírito por meio do qual realizou esses sinais divinos; seja anátema.

Se alguém disser que não é o próprio Verbo divino, quando Se fez carne e Se tornou homem como nós, mas outro além d'Ele, um homem nascido de mulher, todavia distinto d'Ele (ἰδικῶς ἄνθρωπον), quem Se tornou nosso Sumo Sacerdote e Apóstolo; ou se alguém disser que Ele Se ofereceu em sacrifício por Si mesmo e não antes por nós, visto que, sendo sem pecado, não tinha necessidade de oblação nem de sacrifício: seja anátema.

Se alguém não confessar que a carne do Senhor é vivificante e que pertence ao próprio Verbo de Deus Pai como sua própria carne, mas pretender que ela pertence a outra pessoa que está unida a Ele [isto é, ao Verbo] somente segundo a honra, e que serviu de habitação à divindade; e não confessar antes, como nós dizemos, que essa carne é vivificante porque é a carne do Verbo que vivifica a todos: seja anátema.

Se alguém não reconhecer que o Verbo de Deus sofreu na carne, que foi crucificado na carne, e que igualmente nessa mesma carne provou a morte e que se tornou o primogênito dos mortos, pois, sendo Deus, é a vida e é ele que dá a vida: seja anátema.

Além de tudo o mais, o ímpio Nestório não obedeceu à nossa citação e não recebeu os santos bispos que lhe enviámos; fomos, pois, compelidos a examinar as suas ímpias doutrinas. Verificámos que ele havia sustentado e divulgado doutrinas ímpias nas suas cartas e tratados, bem como em discursos que proferiu nesta cidade e que foram testemunhados. Compelidos a isso pelos cânones e pela carta (ἀναγκαίως κατεπειχθέντες ἀπό τε τῶν κανόνων, καὶ ἐκ τὴς ἐπιστολῆς, κ.τ.λ.) do nosso santíssimo pai e co-servo Celestino, bispo de Roma, chegámos, com muitas lágrimas, a esta dolorosa sentença contra ele, a saber: que o nosso Senhor Jesus Cristo, a quem ele blasfemou, decreta, pelo santo Sínodo, que Nestório seja excluído da dignidade episcopal e de toda a comunhão sacerdotal.

Visto que é necessário que aqueles que foram retidos longe do santo Sínodo e permaneceram em sua própria diocese ou cidade, por qualquer motivo, seja eclesiástico ou pessoal, não ignorem as matérias que por ele foram decretadas; notificamos, portanto, a vossa santidade e caridade que, se algum Metropolita de uma Província, abandonando o santo e Ecumênico Sínodo, houver aderido à assembleia dos apóstatas, ou a ela vier a aderir no futuro; ou se houver adotado, ou vier a adotar, as doutrinas de Celéstio, não lhe assiste nenhum poder para agir de qualquer modo em oposição aos bispos da província, pois já foi expulso de toda a comunhão eclesiástica e declarado incapaz de exercer o seu ministério; mas ele próprio ficará sujeito em tudo àqueles mesmos bispos da província e aos metropolitas ortodoxos vizinhos, e será degradado de sua dignidade episcopal.

Se alguns bispos provinciais não estiveram presentes no santo Sínodo e aderiram ou tentaram aderir à apostasia; ou se, após subscreverem a deposição de Nestório, regressaram à assembleia dos apóstatas; esses homens, segundo o decreto do santo Sínodo, devem ser depostos do sacerdócio e degradados de sua ordem.

Se alguns clérigos das cidades ou do campo tiverem sido impedidos por Nestório ou pelos seus sequazes do exercício do sacerdócio, por causa de sua ortodoxia, declaramos ser justo que estes sejam restituídos ao seu próprio grau. E em geral proibimos a todos os clérigos que aderem ao Santo e Ecumênico Sínodo que se submetam de qualquer modo aos bispos que já apostataram ou venham a apostatar no futuro.

Se algum clérigo apostatar e, pública ou privadamente, presumir sustentar as doutrinas de Nestório ou de Celestino, o santo Sínodo declara justo que estes também sejam depostos.

Se alguns tiverem sido condenados por práticas malignas pelo santo Sínodo ou pelos seus próprios bispos, e se Nestório (ou os seus seguidores), com a sua habitual falta de discernimento, houver tentado ou tentar no futuro restituir canonicamente tais pessoas à comunhão e à sua posição anterior, declaramos que tal restituição em nada os aproveitará, mas permanecerão depostos.

Da mesma forma, se quaisquer pessoas tentarem, de algum modo, anular as decisões tomadas em cada caso pelo santo Sínodo de Éfeso, o santo Sínodo decreta que, se forem bispos ou clérigos, perderão absolutamente o seu ofício; e, se forem leigos, serão excomungados.

Lidas estas coisas, o santo Sínodo decretou que é ilícito a qualquer homem propor, escrever ou compor uma Fé diferente (ἑτέραν) como rival àquela estabelecida pelos santos Padres reunidos com o Espírito Santo em Niceia.

Aqueles que ousarem compor uma fé diferente, ou introduzi-la ou oferecê-la a pessoas que desejem converter-se ao reconhecimento da verdade, seja do paganismo, seja do judaísmo, seja de qualquer heresia, serão depostos, se forem bispos ou clérigos; os bispos, do episcopado, e os clérigos, do clero; e se forem leigos, serão anatemizados.

De igual modo, se quaisquer pessoas, sejam bispos, clérigos ou leigos, forem encontradas sustentando ou ensinando as doutrinas contidas na Exposição introduzida pelo Presbítero Carísio acerca da Encarnação do Filho Unigênito de Deus, ou as abomináveis e profanas doutrinas de Nestório, que se encontram anexadas, ficarão sujeitas à sentença deste santo e ecumênico Sínodo. De sorte que, se for bispo, será removido de seu bispado e degradado; se for clérigo, será igualmente excluído do clero; e se for leigo, será anatemizado, conforme acima foi dito.

Nosso irmão bispo Regino, amado de Deus, e seus colegas, igualmente amados de Deus, os bispos Zenão e Evágrio, da Província de Chipre, reportaram-nos uma inovação introduzida contrariamente às constituições eclesiásticas e aos Cânones dos Santos Apóstolos, e que atinge as liberdades de todos. Ora, como as injúrias que a todos afetam requerem tanto maior atenção quanto maior o dano que causam, e particularmente quando constituem transgressões de um costume antigo, e como aqueles excelentes varões que peticionaram o Sínodo nos comunicaram por escrito e de viva voz que o Bispo de Antioquia procedera desse modo a ordenações em Chipre, os Governantes das igrejas santas em Chipre hão de gozar, sem contestação nem dano, conforme os Cânones dos bem-aventurados Padres e o costume antigo, do direito de realizarem por si mesmos a ordenação de seus excelentes Bispos. A mesma norma será observada nas demais dioceses e províncias em toda parte, de modo que nenhum dos Bispos amados de Deus se arrogue o governo de qualquer província que não haja estado, desde o início, sob sua própria jurisdição ou a de seus predecessores. Se alguém, porém, tomou e submeteu uma Província pela força, deverá restituí-la, para que não sejam transgredidos os Cânones dos Padres, nem as vaidades da honra mundana sejam introduzidas sob pretexto do sagrado ministério, nem percamos, sem o perceber, pouco a pouco, a liberdade que Nosso Senhor Jesus Cristo, Redentor de todos os homens, nos concedeu pelo seu próprio Sangue.

Por isso, este santo e ecuménico Sínodo decretou que em cada província sejam preservados os direitos que, desde o início, lhe pertenceram, conforme o costume antigo vigente, de modo inalterado e ileso, sendo facultado a cada Metropolita tirar, para sua própria segurança, uma cópia destes atos. E se alguém apresentar uma norma contrária ao que aqui foi determinado, este santo e ecuménico Sínodo decreta unanimemente que ela seja de nenhum efeito.

Referência atual: Concílio de Éfeso, Carta de Cirilo a Nestório