Padres e clássicosTertuliano, À Esposa, Design of the Treatise.  Disavowal of Personal Motives in Writing It.

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Obra patrística

À Esposa

Tertuliano · c. 160–225

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Desígnio do tratado. Repúdio a motivos pessoais ao escrevê-lo.

Achei por bem, minha caríssima conserva no Senhor, desde já prover para o curso que deveis seguir após a minha partida deste mundo, se eu for chamado antes de vós; e confiar à vossa honra a observância desta provisão. Pois nas coisas mundanas somos bastante diligentes, e desejamos que o bem de cada um de nós seja consultado. Se fazemos testamentos para tais matérias, por que não havemos muito mais de prover para a nossa posteridade nas coisas divinas e celestiais, e, de certo modo, legar uma herança a ser recebida antes que a herança seja dividida — a herança, digo, de admoestação e demonstração acerca daqueles legados que são distribuídos dos bens imortais e da herança dos céus? Somente, para que possais receber em sua totalidade esta doação em confiança da minha admoestação, Deus o conceda; a quem seja honra, glória, louvor, dignidade e poder, agora e pelos séculos dos séculos!

O preceito, portanto, que vos dou é que, com toda a constância que puderdes, depois da minha partida renuncieis às núpcias; não que por isso me confirais algum benefício, exceto no que a vós mesma aproveitareis. Mas aos cristãos, após a sua partida deste mundo, nenhuma restauração do matrimônio é prometida no dia da ressurreição, transladados que serão para a condição e santidade dos anjos. Portanto, nenhuma solicitude oriunda de ciúmes carnais ferirá, no dia da ressurreição, nem mesmo no caso daquela que escolheram representar como tendo sido casada sucessivamente com sete irmãos, qualquer um dos seus muitos maridos; nem nenhum marido a espera para confundi-la. A questão levantada pelos saduceus cedeu à sentença do Senhor. Não penseis que é para preservar até o fim para mim a inteira devoção da vossa carne que eu, suspeitoso da dor de (antecipada) desconsideração, já desde agora vos incuto o conselho da viuvez perpétua. Naquele dia não haverá retomada da voluptuosa desonra entre nós. Tais frivolidades, tais impurezas, Deus não promete aos Seus (servos). Mas se a vós, ou a qualquer outra mulher que pertença a Deus, o conselho que damos será proveitoso, permitimo-nos tratá-lo amplamente.

Matrimônio lícito, mas não a poligamia.

Não proibimos, de fato, a união do homem e da mulher, abençoada por Deus como o seminário do gênero humano e ideada para o repovoamento da terra e o provimento do mundo, e portanto permitida, contanto que única. Pois Adão foi o único marido de Eva, e Eva a sua única esposa, uma mulher, uma costela. Concedemos que entre os nossos antepassados, e os próprios patriarcas, era lícito não só casar, mas até multiplicar as esposas. Havia também concubinas (naqueles dias). Mas, embora a Igreja tenha vindo figurativamente na sinagoga, todavia (para interpretar simplesmente) foi necessário instituir (certas coisas) que depois mereceriam ser ou eliminadas ou modificadas. Pois a Lei haveria (a seu tempo) de sobrevir. (Nem isso bastou:) pois era justo que causas para suprir as deficiências da Lei tivessem precedido (Aquele que havia de suprir essas deficiências). E assim, à Lei logo havia de suceder o Verbo de Deus introduzindo a circuncisão espiritual. Portanto, por meio da ampla licença daqueles dias, materiais para emendas posteriores foram fornecidos de antemão, materiais dos quais o Senhor pelo Seu Evangelho, e depois o apóstolo nos últimos dias da era (judaica), ou cortou as redundâncias ou regulou as desordens.

O matrimônio é bom: preferível o celibato.

Mas não se pense que a razão de eu premir assim tanto acerca da liberdade concedida aos antigos e da restrição imposta ao tempo posterior é que eu queira lançar um fundamento para ensinar que a vinda de Cristo se destinava a dissolver o matrimónio, a abolir os laços nupciais; como se a partir deste período eu estivesse a prescrever um fim ao casar. Vejam eles, aqueles que, entre o restante das suas perversidades, ensinam a disjunção da "uma carne em duas"; negando Aquele que, após tomar a fêmea do macho, recombinou entre si, no cômputo matrimonial, os dois corpos tirados da consorcialidade da mesma substância material. Em suma, não há lugar algum onde leiamos que as núpcias são proibidas; obviamente, com base em que são "uma coisa boa". O que, porém, é melhor do que este "bem", aprendemos do apóstolo, que permite realmente casar, mas prefere a abstinência; aquilo por causa das insídias das tentações, isto por causa das angústias dos tempos. Ora, examinando a razão assim dada para cada proposição, facilmente se discerne que o fundamento sobre o qual se concede o poder de casar é a necessidade; mas tudo o que a necessidade concede, ela, pela sua própria natureza, deprecia. De fato, pois está escrito: "Melhor é casar do que abrasar-se", que natureza, pergunto, tem este "bem" que é (apenas) recomendado por comparação com o "mal", de modo que a razão pela qual "casar" é mais bem é (meramente) que "abrasar-se" é menos? Não, mas quanto melhor é nem casar nem abrasar-se? Por quê, mesmo nas perseguições é melhor aproveitar a permissão concedida e "fugir de cidade em cidade", do que, quando apanhado e atormentado, negar (a fé). E portanto mais bem-aventurados são aqueles que têm força para partir (desta vida) em bendita confissão do seu testemunho. Posso dizer: O que é permitido não é bom. Pois como se coloca a questão? Devo necessariamente morrer (se for apanhado e confessar a minha fé). Se considero (esse destino) deplorável, (então a fuga) é boa; mas se tenho medo da coisa que é permitida, (a coisa permitida) tem alguma suspeita ligada à causa da sua permissão. Mas aquilo que é "melhor" ninguém (jamais) "permitiu", por ser indubitável e manifesto pela sua própria pureza inerente. Há algumas coisas que não devem ser desejadas meramente porque não são proibidas, embora de certo modo sejam proibidas quando outras lhes são preferidas; pois a preferência dada às coisas mais altas é uma dissuasão das mais baixas. Uma coisa não é "boa" meramente porque não é "má", nem é "má" meramente porque não é "nociva". Além disso: aquilo que é plenamente "bom" sobressai por este fundamento, que não só não é nocivo, mas também proveitoso. Pois deveis preferir o que é proveitoso ao que é (meramente) não nocivo. Pois o primeiro lugar é o que toda luta visa; o segundo tem consolação ligada a ele, mas não vitória. Mas se ouvirmos o apóstolo, esquecendo o que fica para trás, estendamo-nos para o que está diante, e sejamos seguidores dos melhores prémios. Assim, embora ele não "lance laço sobre nós", aponta o que tende à utilidade quando diz: "A mulher solteira cuida das coisas do Senhor, para ser santa tanto no corpo como no espírito; mas a casada cuida de como agradar ao marido." Mas em parte alguma permite ele o casamento de tal modo que não prefira antes que nos esforcemos ao máximo na imitação do seu próprio exemplo. Feliz o homem que se mostrar semelhante a Paulo!

Referência atual: Tertuliano, À Esposa, Design of the Treatise.  Disavowal of Personal Motives in Writing It.