Padres e clássicosSanto Agostinho, A Graça e o Livre-Arbítrio, II

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Obra patrística

A Graça e o Livre-Arbítrio

Santo Agostinho · c. 354–430

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II–IV, 8

Extrato das Retratações de Agostinho.

Livro II, Cap. 66,

Sobre o Tratado Seguinte,

“Da Graça e do Livre Arbítrio”.

Há pessoas que supõem que a liberdade da vontade é negada sempre que a graça de Deus é defendida, e que, por seu lado, defendem a sua liberdade de vontade de modo tão peremptório que negam a graça de Deus. Esta graça, como afirmam, é concedida segundo os nossos próprios méritos. É em consequência das suas opiniões que escrevi o livro intitulado Da Graça e do Livre Arbítrio. Esta obra dirigi aos monges de Adrumeto, em cujo mosteiro surgiu primeiro a controvérsia sobre este assunto, e de tal modo que alguns deles foram obrigados a consultar-me a respeito. A obra começa com estas palavras: “Com referência àquelas pessoas que assim pregam a liberdade da vontade humana.”

Carta I

[A 214ª das Epístolas de Agostinho.]

Ao meu caríssimo senhor e honradíssimo irmão entre os membros de Cristo, Valentino, e aos irmãos que convosco estão, Agostinho envia saudações no Senhor.

1. Dois moços, Crescônio e Félix, chegaram até nós, e, apresentando-se como pertencentes à vossa fraternidade, comunicaram-nos que o vosso mosteiro foi perturbado com não pequena comoção, porque alguns dentre vós pregam a graça de tal modo que negam ser livre a vontade do homem; e sustentam — coisa de maior gravidade — que no dia do juízo Deus não retribuirá a cada um segundo as suas obras.

Ao mesmo tempo, indicaram-nos que muitos de vós não nutrem tal opinião, mas reconhecem que a vontade livre é assistida pela graça de Deus, de sorte que possamos pensar e agir retamente; e que, quando o Senhor vier para retribuir a cada um segundo as suas obras, há de achar aquelas obras nossas boas que Deus preparou a fim de que nelas andássemos. Os que assim pensam, pensam retamente.

2. "Rogo-vos, pois, irmãos," como rogou o apóstolo aos coríntios, "pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos digais a mesma coisa, e que não haja divisões entre vós." Porque, em primeiro lugar, o Senhor Jesus, como está escrito no Evangelho do Apóstolo João, "não veio para condenar o mundo, mas para que o mundo por Ele fosse salvo." Depois, como escreve o Apóstolo Paulo, "Deus há de julgar o mundo quando vier," conforme toda a Igreja confessa no Símbolo, "para julgar vivos e mortos." Ora, eu pergunto: se não há graça de Deus, como salva Ele o mundo? e se não há vontade livre, como julga Ele o mundo? Aquele livro meu, pois, ou epístola, que os sobreditos irmãos vos trouxeram, quero que entendais conforme esta fé, para que nem negueis a graça de Deus, nem sustenteis a vontade livre de tal modo que a separeis da graça de Deus, como se sem ela pudéssemos de qualquer modo ou pensar ou fazer algo segundo Deus,— o que está inteiramente acima de nossa potência. Por esta razão é que o Senhor, quando falava dos frutos da justiça, disse: "Sem mim nada podeis fazer."

3. Disto podereis compreender por que escrevi a epístola que foi mencionada, a Sixto, presbítero da Igreja em Roma, contra os novos heréticos pelagianos, que dizem ser a graça de Deus dispensada segundo nossos próprios méritos, de sorte que quem se gloria tem de gloriar-se não no Senhor, mas em si mesmo,— isto é, no homem, não no Senhor. Isto, porém, o apóstolo proíbe nestas palavras: "Ninguém se glorie no homem;" ao passo que em outro lugar diz: "Quem se gloria, glorie-se no Senhor." Ora, estes heréticos, pensando estarem justificados por si mesmos, como se Deus não lhes tivesse conferido este dom, mas eles mesmos o tivessem obtido por si, gloriam-se certamente em si mesmos, e não no Senhor. Ora, o apóstolo diz a tais: "Quem te faz diferente de outro?" e isto o faz fundado em que da massa de perdição que surgiu de Adão, ninguém senão Deus distingue um homem para fazê-lo vaso para honra, e não para desonra. Contudo, para que o homem carnal em seu néscia soberba, ouvindo a pergunta "Quem te faz diferente de outro?" nem em pensamento nem em palavra responda e diga: Minha fé, ou minha oração, ou minha justiça me faz diferente de outros homens, o apóstolo logo acrescenta estas palavras à pergunta, e assim refuta todas as tais noções, dizendo: "Que tens tu que não tenhas recebido? ora, se o recebeste, por que te glórias como se não o houveras recebido?" Ora, gloriam-se como se não recebessem seus dons pela graça, aqueles que pensam estar justificados por si mesmos, e que por isso se gloriam em si mesmos, e não no Senhor.

4. Portanto, nesta carta que vos chegou, demonstrei por passagens da Sagrada Escritura, que podeis examinar por vós mesmos, que as nossas boas obras, e piedosas orações, e reta fé não poderiam de modo algum estar em nós se não as tivéssemos recebido todas Dele, acerca de quem o Apóstolo Tiago diz: "Todo dom excelente e todo presente perfeito vem do alto, e desce do Pai das luzes." E assim nenhum homem pode dizer que é pelo mérito de suas próprias obras, ou pelo mérito de suas próprias orações, ou pelo mérito de sua própria fé, que a graça de Deus lhe foi conferida; nem suponha que é verdadeira a doutrina que aqueles hereges sustentam, a saber, que a graça de Deus nos é dada na proporção do nosso próprio mérito. Esta é absolutamente uma opinião muito errônea; não, deveras, porque não haja mérito, bem nos piedosos, ou mal nos ímpios (pois como de outro modo Deus há de julgar o mundo?), mas porque o homem é convertido por aquela misericórdia e graça de Deus, da qual o Salmista diz: "Quanto a mim, a minha Deus, a sua misericórdia me prevenirá;" de sorte que o homem injusto é justificado, isto é, se torna justo em lugar de ímpio, e começa a possuir aquele bom mérito que Deus há de coroar quando o mundo for julgado.

5. Muitas coisas havia eu que vos queria enviar, pela leitura das quais vós teríeis podido ganhar um conhecimento mais exato e pleno de tudo quanto foi feito pelos bispos em seus concílios contra estes hereges pelagianos. Mas os irmãos que vieram a nós da vossa companhia tinham pressa. Por eles vos enviamos esta carta; a qual, porém, não é resposta a nenhuma comunicação, porque, na verdade, nenhuma epístola nos trouxeram da vossa parte amada. Contudo não tivemos hesitação em recebê-los; pois seus costumes simples nos demonstraram claramente que nada houve de falso ou enganoso em sua visita a nós. Eles, porém, tinham muita pressa, desejando passar a Páscoa em casa convosco; e minha oração instante é que um dia tão sagrado, com a ajuda do Senhor, vos traga paz, e não dissensão.

6. Vós, deveras, tomareis o melhor partido (como vos peço insistentemente), se não recusardes enviar-me a mesma pessoa por quem dizem ter sido perturbados. Pois ou ele não compreende meu livro, ou talvez seja ele mesmo incompreendido, quando se empenha em resolver e explicar uma questão que é muito difícil, e inteligível a poucos. Pois não é outra senão a questão da graça de Deus que fez com que pessoas sem entendimento pensassem que o Apóstolo Paulo nos prescreve como regra: "Façamos males para que venham bens." É em referência a estes que o Apóstolo Pedro escreve em sua segunda Epístola: "Portanto, bem-amados, como esperais estas coisas, procurai ser achados diante Dele em paz, sem mancha e irrepreensíveis, e considerai que a longanimidade do nosso Senhor é salvação; assim como também vosso amado irmão Paulo, segundo a sabedoria que lhe foi dada, vos escreveu; como também em todas as suas epístolas, falando nelas destas coisas: nas quais há certas coisas difíceis de entender, as quais os indoutos e inconstantes tortamente interpretam, como fazem também com as outras Escrituras, para sua própria perdição."

7. Atendei bem, pois, a estas palavras terríveis do grande apóstolo; e quando sentirdes que não compreendeis, depositai vossa fé entrementes na palavra inspirada de Deus, e crede que tanto a vontade do homem é livre, como também existe a graça de Deus, sem cujo auxílio a livre vontade do homem não pode nem se voltar para Deus, nem fazer algum progresso em Deus. E o que piedosamente credes, isto pedi em oração que possais entender com sabedoria. E, na verdade, é para este mesmo fim,—isto é, para que tenhamos entendimento sábio, que existe a livre vontade. Pois se não compreendêssemos e não fôssemos sábios com vontade livre, não nos seria prescrito nas palavras da Escritura: "Entendei agora, vós simples do povo; e vós insensatos, por fim sede sábios." O próprio preceito e mandamento que nos chama a ser inteligentes e sábios, requer também nossa obediência; e não poderíamos exercer obediência alguma sem livre vontade. Mas se estivesse em nosso poder obedecer a este preceito de ser inteligentes e sábios por livre vontade, sem o auxílio da graça de Deus, seria desnecessário dizer a Deus: "Concede-me entendimento, para que aprenda Teus mandamentos;" nem teria sido escrito no evangelho: "Então abriu-lhes o entendimento, para que compreendessem as Escrituras;" nem deveria o Apóstolo Tiago dirigir-se a nós com estas palavras: "Se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e não lança em rosto; e ser-lhe-á dada." Mas o Senhor é poderoso para vos conceder, a vós e a nós, que nos regozijemos com as novas muito alegres de vossa paz e unanimidade piedosa. Vos saúdo, não só em meu próprio nome, mas também dos irmãos que estão comigo; e vos peço que orei por nós com um acordo e com toda a diligência. O Senhor seja convosco.

Carta II

[A 215.ª das Epístolas de Agostinho.]

Ao meu mui caro senhor e mui honrado irmão entre os membros de Cristo, Valentino, e aos irmãos que estão convosco, Agostinho envia saudação no Senhor.

Carta II, 1

Que Crescônio e Félix, e outro Félix, servos de Deus, que vieram a nós da vossa irmandade, passaram a Páscoa connosco, é do conhecimento do vosso Amor. Retivemo-los por mais algum tempo, a fim de que voltassem para vós melhor instruídos contra os novos hereges pelagianos, em cujo erro cai todo aquele que supõe que é segundo quaisquer méritos humanos que a graça de Deus nos é dada, a qual só livra o homem por Jesus Cristo, nosso Senhor. Mas também não erra menos quem pensa que, quando o Senhor vier a julgamento, o homem não será julgado segundo as suas obras, se pôde usar durante toda a vida do livre arbítrio da vontade. Pois apenas os infantes, que ainda não fizeram obras próprias, nem boas nem más, serão condenados somente por causa do pecado original, quando não forem livrados pela graça do Salvador no lavacro da regeneração. Quanto a todos os outros que, no uso do seu livre arbítrio, acrescentaram ao pecado original pecados próprios de sua comissão, mas que não foram livrados pela graça de Deus do poder das trevas e transferidos para o reino de Cristo, receberão julgamento segundo os merecimentos não só do seu pecado original, mas também dos atos da sua própria vontade. Os bons, na verdade, receberão a sua recompensa segundo os merecimentos da sua própria boa vontade, mas receberam esta mesma boa vontade pela graça de Deus; e assim se cumpre aquela sentença da Escritura: «Indignação e ira, tribulação e angústia, sobre toda a alma do homem que faz o mal, do judeu primeiro e também do gentio; mas glória, honra e paz a todo o homem que obra o bem, ao judeu primeiro e também ao gentio.»

Carta II, 2

Tocante à mui difícil questão da vontade e da graça, não senti necessidade de tratá-la mais nesta carta, por lhes haver dado também outra carta quando estavam prestes a regressar com maior pressa. Escrevi também um livro para vós; e se, com a ajuda do Senhor, o lerdes e o compreenderdes vivamente, penso que não surgirá entre vós mais dissensão sobre este assunto. Levam consigo além disso outros documentos, que, segundo supusemos, deviam ser enviados a vós, para que por estes possais averiguar quais os meios que a Igreja Católica adotou para repelir, pela misericórdia de Deus, o veneno da heresia pelagiana. Pois as cartas ao Papa Inocêncio, Bispo de Roma, do Concílio da província de Cartago e do Concílio da Numídia, e uma escrita com sumo cuidado por cinco bispos, e o que ele respondeu a estas três; a nossa carta também ao Papa Zósimo acerca do Concílio Africano, e a sua resposta dirigida a todos os bispos do mundo; e uma breve constituição, que redigimos contra o próprio erro num posterior Concílio plenário de toda a África; e o meu livro acima mencionado, que acabo de escrever para vós — tudo isto lemos com eles, enquanto estavam connosco, e agora o despachamos pelas suas mãos para vós.

Carta II, 3

Além disso, lemos-lhes a obra do bem-aventurado mártir Cipriano sobre a Oração Dominical, e mostrámos-lhes como ele ensinou que todas as coisas pertencentes aos nossos costumes, que constituem o reto viver, devem ser pedidas ao nosso Pai que está nos céus, para que, presumindo do livre arbítrio, não caiamos da graça divina. Do mesmo tratado também lhes mostrámos como o mesmo glorioso mártir nos ensinou que nos cumpre orar até pelos nossos inimigos que ainda não creram em Cristo, para que creiam; o que seria certamente vão, se a Igreja não cresse que até as vontades más e incrédulas dos homens podem, pela graça de Deus, ser convertidas ao bem. Este livro de São Cipriano, todavia, não vo-lo enviamos, porque nos disseram que já o possuíais entre vós. A minha carta também, que havia sido enviada a Sixto, presbítero da Igreja de Roma, e que eles trouxeram consigo a nós, lemo-la com eles e mostrámos como tinha sido escrita em oposição àqueles que dizem que a graça de Deus é concedida segundo os nossos merecimentos — isto é, em oposição aos mesmos pelagianos.

Carta II, 4

Quanto, pois, nos foi possível, influenciámo-los, tanto como vossos irmãos como nossos, com vista a perseverarem na sã doutrina da fé católica, que nem nega o livre arbítrio, seja para uma vida má ou boa, nem lhe atribui tanto poder que possa valer alguma coisa sem a graça de Deus, quer para ser mudado do mal para o bem, quer para perseverar na busca do bem, quer para alcançar o bem eterno quando não houver mais receio de falhar. A vós mesmos também, meus mui amados, exorto nesta carta com a mesma exortação que o Apóstolo dirige a todos nós: «que não penseis de vós mais altamente do que convém pensar, mas que penseis com moderação, segundo Deus repartiu a cada um a medida da fé.»

Carta II, 5

Atentai bem no conselho que o Espírito Santo nos dá por Salomão: «Faze direito o caminho para os teus pés e ordena retamente as tuas veredas. Não declines nem para a direita nem para a esquerda; mas desvia o teu pé do caminho do mal; porque o Senhor conhece os caminhos da direita, mas os da esquerda são perversos. Ele mesmo endireitará os teus caminhos e dirigirá os teus passos em paz.» Considerai, pois, irmãos meus, que nestas palavras da Sagrada Escritura, se não houvesse livre arbítrio, não se diria: «Faze direito o caminho para os teus pés e ordena as tuas veredas; não declines nem para a direita nem para a esquerda.» Nem, contudo, se fosse isto possível de realizar sem a graça de Deus, se acrescentaria depois: «Ele endireitará os teus caminhos e dirigirá os teus passos em paz.»

Referência atual: Santo Agostinho, A Graça e o Livre-Arbítrio, II