Padres e clássicosSanto Agostinho, A Predestinação dos Santos, I, 1

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Obra patrística

A Predestinação dos Santos

Santo Agostinho · c. 354–430

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I, 1–I, 20

Introdução.

Sabemos que na Epístola aos Filipenses disse o Apóstolo: «Escrever-vos as mesmas coisas a mim, na verdade, não é molesto, mas para vós é seguro»; contudo, o mesmo Apóstolo, escrevendo aos Gálatas, quando viu que já havia feito o suficiente entre eles daquilo que considerava necessário para eles, pelo ministério da sua pregação, disse: «Quanto ao mais, ninguém me cause trabalho», ou, como se lê em muitos códices: «Ninguém me seja molesto». Mas, ainda que confesse que me causa trabalho o não se ceder à palavra divina em que se prega a graça de Deus (a qual absolutamente não é graça se é dada segundo os nossos merecimentos), por grande e manifesta que seja, contudo, meus caríssimos filhos, Próspero e Hilário, o vosso zelo e a vossa afeição fraterna — que vos torna tão relutantes em ver algum dos irmãos no erro, a ponto de desejardes que, depois de tantos livros e cartas minhas sobre este assunto, eu escreva novamente daqui — eu amo mais do que posso dizer, embora não ouse afirmar que o amo tanto quanto deveria. Portanto, eis que vos escrevo novamente. E, ainda que não convosco, todavia por meio de vós continuo a fazer o que julgava ter feito suficientemente.

Até que ponto os massilianos se afastam dos pelagianos.

Porquanto, considerando as vossas cartas, parece-me ver que aqueles irmãos por quem mostrais piedoso cuidado, para que não sustenham a opinião poética em que se afirma: “Cada um é esperança para si mesmo”, e assim caiam sob aquela condenação que, não poeticamente, mas profeticamente, é declarada: “Maldito todo aquele que põe a sua esperança no homem”, devem ser tratados daquela maneira com que o Apóstolo tratou aqueles a quem disse: “E se em alguma coisa sentis de outro modo, Deus também vo-lo revelará.” Pois ainda estão em trevas acerca da questão da predestinação dos santos, mas têm aquilo pelo qual, “se em alguma coisa sentem de outro modo, Deus lhes revelará também isso”, se andam naquilo a que já chegaram. Por esta razão, o Apóstolo, depois de ter dito: “Se em alguma coisa sentis de outro modo, Deus também vo-lo revelará”, acrescenta: “Todavia, naquilo a que já chegámos, andemos segundo a mesma norma.”

Ora, esses nossos irmãos, por quem o vosso piedoso amor está solícito, chegaram, com a Igreja de Cristo, a crer que o género humano nasce réu do pecado do primeiro homem, e que ninguém pode ser libertado desse mal senão pela justiça do Segundo Homem. Além disso, chegaram a confessar que as vontades dos homens são prevenidas pela graça de Deus, e a concordar que ninguém pode bastar a si mesmo, nem para começar nem para completar qualquer boa obra. Estas coisas, portanto, às quais chegaram, retendo-as firmemente, distinguem-nos abundantemente do erro dos pelagianos. Demais, se andam nelas e suplicam Àquele que dá o entendimento, se em alguma coisa acerca da predestinação sentem de outro modo, Ele lhes revelará também isso. Contudo, empreguemos também sobre eles a influência do nosso amor e o ministério da nossa palavra, segundo o dom d’Aquele a quem pedimos que, nestas cartas, disséssemos o que lhes fosse conveniente e proveitoso. Pois donde sabemos se, por este nosso serviço, no qual os servimos no amor livre de Cristo, nosso Deus não queira porventura efetuar esse propósito?

O próprio início da fé é dom de Deus.

Capítulo III [II.]—Mesmo o início da fé é dom de Deus.

Portanto, devo primeiro mostrar que a fé pela qual somos cristãos é dom de Deus, se posso fazê-lo mais cabalmente do que já fiz em tantos e tão grandes volumes. Mas vejo que devo agora responder àqueles que dizem que os testemunhos divinos que aduzi acerca desta matéria valem para este fim, para nos assegurar que temos a fé mesma de nós mesmos, mas que o seu aumento vem de Deus; como se a fé não nos fosse dada por Ele, mas apenas aumentada em nós por Ele, com base no mérito de ter começado de nós. Assim, não há aqui afastamento daquela opinião que o próprio Pelágio foi constrangido a condenar no julgamento dos bispos da Palestina, como é testemunhado nas mesmas Atas: «Que a graça de Deus é dada segundo nossos merecimentos», se não é da graça de Deus que começamos a crer, mas antes que, por causa deste início, nos é feita uma adição de uma crença mais plena e perfeita; e assim nós damos primeiro a Deus o início da nossa fé, para que o seu suplemento também nos seja dado de volta, e tudo o mais que fielmente pedirmos.

Continuação do precedente.

Mas por que não ouvimos antes, em oposição a isto, as palavras: “Quem primeiro lhe deu, e lhe será retribuído? Porque d’Ele, e por Ele, e n’Ele são todas as coisas.” E de quem é, então, esse próprio começo da nossa fé, senão d’Ele? Pois isto não é excetuado quando se fala das outras coisas como sendo d’Ele; mas “d’Ele, e por Ele, e n’Ele são todas as coisas”. Mas quem pode dizer que aquele que já começou a crer não merece nada d’Aquele em quem creu? Donde resulta que, àquele que já merece, outras coisas se diz que são acrescentadas por uma retribuição divina, e assim que a graça de Deus é dada segundo os nossos merecimentos. E esta afirmação, quando lhe foi apresentada, o próprio Pelágio a condenou, para não ser condenado. Quem, pois, quiser de todo evitar esta condenável opinião, entenda que o que o Apóstolo diz é dito com toda a verdade: “A vós foi dado por Cristo não só crer n’Ele, mas também padecer por Ele.” Ele mostra que ambos são dons de Deus, porque disse que ambos foram dados. E não diz: “crer n’Ele mais plena e perfeitamente”, mas “crer n’Ele”. Nem diz que ele mesmo alcançou misericórdia para ser mais fiel, mas “para ser fiel”, porque sabia que não dera primeiro a Deus o princípio da sua fé, e recebera d’Ele o seu aumento; mas que tinha sido feito fiel por Deus, que também o fizera apóstolo. Pois os princípios da sua fé estão registados, e são muito conhecidos por serem lidos na igreja numa ocasião própria para os distinguir: como, sendo desviado da fé que destruía, e opondo-se-lhe veementemente, foi subitamente por uma graça mais poderosa convertido a ela, pela conversão d’Aquele a quem, como Aquele que havia de fazer isto mesmo, foi dito pelo profeta: “Tu te voltarás e nos vivificarás”; de modo que não só de quem recusava crer foi feito crente voluntário, mas, além disso, de perseguidor passou a sofrer perseguição em defesa daquela fé que perseguira. Porque lhe foi dado por Cristo “não só crer n’Ele, mas também padecer por Ele”.

Crer é pensar com assentimento.

E, portanto, recomendando aquela graça que não é dada segundo nenhuns merecimentos, mas é a causa de todos os bons merecimentos, diz: “Não que sejamos suficientes para pensar alguma coisa de nós mesmos, mas a nossa suficiência vem de Deus.” Atentem para isto, e ponderem bem estas palavras, aqueles que pensam que o princípio da fé é de nós mesmos, e o complemento da fé é de Deus. Pois quem não vê que o pensar é anterior ao crer? Porque ninguém crê em alguma coisa a menos que primeiro tenha pensado que se deve crer nela. Por mais subitamente, por mais rapidamente, alguns pensamentos voem antes da vontade de crer, e esta logo se siga de tal modo que os acompanhe, por assim dizer, na mais estreita conjunção, é contudo necessário que tudo o que se crê seja crido depois de o pensamento ter precedido; embora até o próprio crer não seja senão pensar com assentimento. Pois nem todo o que pensa crê, visto que muitos pensam para não crer; mas todo o que crê, pensa — tanto pensa crendo como crê pensando. Portanto, no que diz respeito à religião e à piedade (da qual o Apóstolo falava), se não somos capazes de pensar alguma coisa como de nós mesmos, mas a nossa suficiência vem de Deus, certamente não somos capazes de crer em alguma coisa como de nós mesmos, pois não podemos fazer isto sem pensar; mas a nossa suficiência, pela qual começamos a crer, vem de Deus. Por isso, como ninguém é suficiente para si mesmo, para o princípio ou para a consumação de qualquer boa obra — e isto esses vossos irmãos, como o que escrevestes indica, já concordam ser verdade, donde, tanto no princípio como na execução de toda a boa obra, a nossa suficiência vem de Deus —, assim ninguém é suficiente para si mesmo, quer para começar, quer para aperfeiçoar a fé; mas a nossa suficiência vem de Deus. Porque se a fé não é uma questão de pensamento, é de nenhum valor; e não somos suficientes para pensar alguma coisa como de nós mesmos, mas a nossa suficiência vem de Deus.

A presunção e a arrogância devem ser evitadas.

É preciso ter cuidado, irmãos, amados de Deus, que um homem não se levante em oposição a Deus, quando diz que ele faz o que Deus prometeu. Não foi prometida a fé das nações a Abraão, “e ele, dando glória a Deus, crê plenissimamente que o que Ele prometeu também é poderoso para cumprir”? Logo, ele faz a fé das nações, quem é poderoso para fazer o que prometeu. Além disso, se Deus opera a nossa fé, agindo de modo maravilhoso nos nossos corações para que creiamos, há alguma razão para temer que Ele não possa fazer o todo; e por isso o homem arroga para si os seus primeiros elementos, para que mereça receber os seus últimos de Deus? Considerai se de tal modo se obtém algum outro resultado senão que a graça de Deus é dada de alguma maneira segundo o nosso merecimento, e assim a graça já não é graça. Pois por este princípio é-lhe prestada como dívida, não é dada gratuitamente; porque é devido ao crente que a sua própria fé seja aumentada pelo Senhor, e que a fé aumentada seja o salário da fé começada; e não se observa, quando isto se diz, que este salário é atribuído aos crentes, não da graça, mas da dívida. E não vejo de modo algum por que o todo não deva ser atribuído ao homem — pois aquele que pôde originar para si o que não tinha anteriormente, pode ele mesmo aumentar o que originou —, a não ser que é impossível resistir aos mais manifestos testemunhos divinos pelos quais a fé, de onde a piedade toma o seu princípio, é mostrada também ser dom de Deus: tais como são aquele testemunho que “Deus repartiu a cada um a medida da fé”; e aquele: “Paz seja com os irmãos, e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo”, e outras passagens semelhantes. O homem, portanto, não querendo resistir a testemunhos tão claros como estes, e desejando contudo ter ele o mérito de crer, faz como que um acordo com Deus para reclamar para si uma parte da fé, e deixar uma parte para Ele; e, o que é ainda mais arrogante, toma a primeira parte para si e dá a subsequente a Ele; e assim, naquilo que diz pertencer a ambos, faz-se a si mesmo o primeiro, e a Deus o segundo!

Referência atual: Santo Agostinho, A Predestinação dos Santos, I, 1