Padres e clássicosSanto Agostinho, A Trindade, I, 1, 1

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Obra patrística

A Trindade

Santo Agostinho · c. 354–430

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I, 1, 1–I, 1, 6, 13

Ensaio introdutório, 1

Justiça mais plena é feita à Escritura por este método. A Revelação denomina a primeira pessoa trinitária o Pai, a segunda o Filho, a terceira o Espírito. Estes termos são literais, não metafóricos; porque as relações denotadas por eles estão eternamente na essência. A Escritura claramente ensina que o Pai é tal desde a eternidade. Consequentemente, "paternidade" (implícita no nome Pai) não pode mais ser atribuída à primeira pessoa da Divindade num sentido figurado, do que pode ser a eternidade. Porque uma pessoa que é pai deve sê-lo em relação a um filho. Sem filho, sem pai. Consequentemente, um Pai eterno implica um Filho eterno. E o mesmo raciocínio se mantém verdadeiro quanto à relação do Pai e do Filho ao Espírito. Os termos Pai, Filho e Espírito, na fórmula batismal e na bênção apostólica, devem designar distinções primárias e eternas. O rito que inicia no reino de Deus, certamente não seria administrado em três nomes que denotem apenas relações assumidas e temporais de Deus; nem bênçãos para o tempo e a eternidade seriam invocadas de Deus sob tais nomes secundários.

Por isso mesmo, estes nomes trinais conferidos a Deus na fórmula batismal e na bênção apostólica obrigam necessariamente o teólogo trinitário a formar as ideias de paternidade, geração, filiação, expiração e processão. Ele não pode refletir sobre a implicação destes nomes sem formar estas ideias, e encontrar-se necessitado a conceder sua validade literal e realidade objetiva. Não pode dizer que a primeira pessoa é o Pai, e então negar que ele "gera". Não pode dizer que a segunda pessoa é o Filho, e então negar que é "gerado". Não pode dizer que a terceira pessoa é o Espírito, e então negar que "procede" por "expiração" (spiritus quia spiratus) do Pai e do Filho. Quando, portanto, Agostinho, como os Padres primitivos em geral, se esforça por ilustrar esta energeia eterna, necessária e constitucional e atividade (opera ad intra) na Essência Divina, pela qual o Filho emana do Pai e o Espírito do Pai e do Filho, pela emanação do raio solar do sol, da luz da luz, do rio da fonte, do pensamento da mente, da palavra do pensamento — quando os ternários tirados da natureza e da mente humana são introduzidos para elucidar a Trindade — nada mais se faz do que quando por outras analogias bem conhecidas e comumente adotadas procura-se ilustrar a unidade Divina, ou a onisciência, ou a onipresença. Não há analogia tirada do finito que esclareça o mistério do infinito — seja o mistério da eternidade de Deus, ou o de sua trindade. Mas, ao mesmo tempo, pelo uso destas analogias a mente se mantém próxima ao termo ou à declaração Bíblica, e não lhe é permitido contentar-se com apenas uma compreensão pela metade dela. Este método introduz completude e clareza na interpretação da Palavra de Deus.

Ensaio introdutório, 2

Uma segunda vantagem neste método é que demonstra a doutrina da Trindade ser inseparável daquela da Unidade de Deus. A concepção deísta da unidade Divina é inteiramente diversa da cristã. A primeira é a da religião natural, formada pela mente humana sem auxílio em sua reflexão sobre o Ser Supremo. A segunda é a da religião revelada, conferida à mente humana pela inspiração. A unidade deísta é mera singularidade. A unidade cristã é uma trinidade. A primeira é uma unidade. A segunda uma verdadeira unidade e união. A primeira é pobre, tendo poucos conteúdos. A segunda é uma plenitude — o que São Paulo denomina "a plenitude da Divindade" (πλήρωμα τῆς θεότητος). Colossenses i. 9.

Segue-se, por conseguinte, que a unidade Divina não pode ser discutida por si mesma sem referência à trinidade, como o deísta e o sociniano se esforçam por fazer. A trinidade pertence à unidade Divina com a mesma necessidade e intrínseca relação que a eternidade pertence à essência Divina. "Se," diz Atanásio (Oração I. 17) "não houvesse uma Bem-aventurada Trindade desde a eternidade, mas apenas uma unidade existisse primeiramente, a qual posteriormente se tornasse Trindade, segue-se que a Santíssima Trindade deve ter sido num tempo imperfeita, e noutro tempo inteira: imperfeita até que o Filho viesse a ser criado, como sustentam os arianos, e então inteira depois." Se seguirmos os ensinamentos da Revelação, e adotarmos a ideia revelada de Deus, não podemos discutir mera e simples unidade, nem mera e simples trinidade; mas devemos discutir unidade em trinidade, e trinidade em unidade.

Não podemos pensar numa mônada que originariamente, e na ordem seja da natureza seja do tempo, não é trina, mas se torna assim. No instante em que há uma mônada, há uma tríade; no instante em que há uma unidade, há Pai, Filho e Espírito Santo. A Trindade Cristã não é a de Sabélio: a saber, uma mônada originariamente não-trina que subsequentemente, na ordem da natureza se não do tempo, se torna tríade; pela qual quatro fatores se introduzem no problema. Deus não é um e três, mas um em três.

Não há mônada primária, como tal, e sem trinidade, à qual as três distinções sejam adjuntos secundários. A mônada, ou essência, nunca existe em e por si mesma como não-trinizada, como no esquema sabelliano. Ela existe somente como nas três Pessoas; somente como trinizada. A Essência, por conseguinte, não é anterior às Pessoas, seja na ordem da natureza seja do tempo, nem posterior a elas, mas simultânea e eternamente em e com elas.

A Igreja Primitiva tomou este terreno com confiança. Unidade e trinidade eram inseparáveis na sua visão. O termo Deus significava para eles a Trindade. Um "teólogo," na sua nomenclatura, era um trinitário. Chamavam ao Apóstolo João ὁ θεόλογος, porque foi iluminado pelo Espírito Santo para fazer revelações mais plenas, no preâmbulo do seu Evangelho, respeitando a divindade do Verbo e a doutrina da Trindade, do que os outros evangelistas. E deram o mesmo epíteto a Gregório Nazianzeno, por causa da acuidade e penetração dos seus tratados trinitários. Esta obra de Agostinho adota a mesma posição, e a defende com uma capacidade segunda a nenhuma.

Referência atual: Santo Agostinho, A Trindade, I, 1, 1