Obra patrística

Cartas

Santo Agostinho · c. 354–430

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III–X

A Nebrídio

(387 d.C.)

A Nebrídio, Agostinho Envia Saudações.

A Nebrídio, 1

Se devo considerar isto como efeito do que posso chamar vossa linguagem lisonjeira, ou se a coisa é realmente assim, é ponto que não posso decidir. Pois a impressão foi súbita, e ainda não resolvi até que ponto merece crédito. Maravilhais-vos do que isto possa ser. Que pensais? Quase me fizestes crer, não na verdade que sou feliz – porque essa é a herança só dos sábios –, mas que ao menos sou feliz em certo sentido: assim como aplicamos a designação de homem a seres que só em certo sentido merecem o nome, se comparados com o homem ideal de Platão, ou falamos de coisas que vemos como redondas ou quadradas, embora difiram muito da figura perfeita que é discernida pela mente de poucos. Li vossa carta à luz do candeeiro depois da ceia; logo após deitei-me, mas não para dormir logo; pois no leito meditei longamente, e falei assim comigo mesmo – Agostinho interrogando e respondendo a Agostinho: «Não é verdade, como afirma Nebrídio, que sou feliz?» «Absolutamente verdade não pode ser, porque ainda estou longe da sabedoria, ele mesmo não o negaria.» «Mas a vida feliz não pode ser a sorte mesmo daqueles que não são sábios?» «Isso é dificilmente possível; porque, nesse caso, a falta de sabedoria seria uma pequena desgraça, e não, como é de fato, a única e exclusiva fonte de infelicidade.» «Como, então, veio Nebrídio a estimar-me feliz? Foi que, depois de ler estes meus pequenos livros, ousou declarar-me sábio? Por certo a veemência da alegria não o poderia tornar tão temerário, especialmente vendo que ele é homem a cujo juízo bem sei quanto peso se deve atribuir. Já o sei: escreveu o que pensava ser-me mais grato, porque fora grato pelo que eu escrevera naqueles tratados; e escreveu em ânimo alegre, sem pesar exatamente os sentimentos confiados à sua pena jubilosa. Que teria dito, pois, se lesse meus Solilóquios? Alegrar-se-ia com muito maior exultação, e contudo não poderia achar nome mais elevado para me outorgar do que este que já deu, chamando-me feliz. De súbito, pois, prodigalizou-me o mais alto nome possível, e não reservou uma só palavra para acrescentar aos meus louvores, se alguma vez por mim fosse feito mais alegre do que agora. Vede o que faz a alegria.»

A Nebrídio, 2

Mas onde está aquela vida verdadeiramente feliz? onde? ah, onde? Oh! se fosse alcançada, desprezar-se-ia a teoria atômica de Epicuro. Oh! se fosse alcançada, saber-se-ia que não há nada aqui abaixo senão o mundo visível. Oh! se fosse alcançada, saber-se-ia que na rotação de um globo sobre seu eixo, o movimento dos pontos próximos aos polos é menos rápido que o daqueles que jazem a meio caminho entre eles – e outras coisas tais que igualmente sabemos. Mas agora, como ou em que sentido posso ser chamado feliz, eu que não sei por que o mundo tem o tamanho que tem, quando as proporções das figuras segundo as quais é formado de modo algum impedem que seja aumentado até qualquer extensão desejada? Ou como não me poderia ser dito – mais, não seríamos obrigados a admitir que a matéria é infinitamente divisível; de modo que, partindo de qualquer base dada (por assim dizer), um número definido de corpúsculos deve elevar-se a uma quantidade definida e averiguável? Por onde, visto que não admitimos que haja partícula tão pequena que não seja suscetível de maior diminuição, que nos obriga a admitir que haja agrupamento de partes tão grande que não possa possivelmente ser aumentado? Haverá porventura alguma verdade importante no que outrora sugeri confidencialmente a Alípio: que, visto que o número, como cognoscível pelo entendimento, é suscetível de aumento infinito, mas não de diminuição infinita, porque não podemos reduzi-lo mais abaixo das unidades, o número, como cognoscível pelos sentidos (e isto, é claro, significa apenas quantidade de partes materiais ou corpos), é, ao contrário, suscetível de diminuição infinita, mas tem um limite para seu aumento? Esta é talvez a razão por que os filósofos justamente proclamam que as riquezas se encontram nas coisas sobre as quais o entendimento se exercita, e a pobreza naquelas coisas com que os sentidos têm de lidar. Pois que há mais pobre do que ser suscetível de diminuição sem fim? e que há mais verdadeiramente rico do que aumentar quanto quiserdes, ir para onde quiserdes, voltar quando quiserdes e até onde quiserdes, e ter como objeto de vosso amor aquilo que é grande e não pode ser diminuído? Pois quem quer que entende estes números não ama nada tanto como a unidade; e não admira, visto que é por ela que todos os outros números podem ser por ele amados. Mas para voltar: Por que o mundo tem o tamanho que tem, visto que poderia ser maior ou menor? Não sei: suas dimensões são o que são, e não posso ir mais além. De novo: Por que o mundo está no lugar que agora ocupa, e não em outro? Aqui também é melhor não fazer a pergunta; pois qualquer que seja a resposta, outras questões permaneceriam. Isto só me perturbava grandemente: que os corpos pudessem ser infinitamente subdivididos. A isto talvez se tenha dado resposta, contrapondo-lhe a propriedade inversa do número abstrato [isto é, sua suscetibilidade de multiplicação infinita].

A Nebrídio, 3

Mas esperai: vejamos o que é esse objeto indefinível que é sugerido à mente. Este mundo de que os sentidos nos dão conhecimento é por certo a imagem de algum mundo que o entendimento apreende. Ora, é estranho fenômeno o que observamos nas imagens que os espelhos nos refletem – que, por grandes que sejam os espelhos, não tornam as imagens maiores do que os objetos diante deles colocados, por pequenos que sejam; mas em espelhos pequenos, como a pupila do olho, embora uma grande superfície lhes seja posta defronte, forma-se uma imagem muito pequena, proporcionada ao tamanho do espelho. Portanto, se os espelhos forem reduzidos de tamanho, as imagens neles refletidas também se reduzem; mas não é possível que as imagens sejam aumentadas aumentando-se os espelhos. Certamente há nisto algo que mereceria investigação mais aprofundada; mas entretanto, preciso dormir. Além disso, se a Nebrídio pareço feliz, não é porque busco, mas porque porventura achei alguma coisa. Que é, então, essa coisa? É aquela cadeia de raciocínio que costumo tanto acariciar como se fosse meu único tesouro, e na qual talvez me deleito demasiado?

A Nebrídio, 4

«De que partes somos compostos?» «De alma e corpo.» «Qual destes é o mais nobre?» «Sem dúvida a alma.» «Que louvam os homens no corpo?» «Nada que eu veja senão a formosura.» «E que é a formosura do corpo?» «Harmonia das partes na forma, juntamente com certa agradabilidade de cor.» «É esta formosura melhor onde é verdadeira ou onde é ilusória?» «Sem questão, é melhor onde é verdadeira.» «E onde se acha ela verdadeira? Na alma.» «A alma, portanto, deve ser amada mais do que o corpo; mas em que parte da alma reside esta verdade?» «Na mente e no entendimento.» «Com que tem o entendimento de contender?» «Com os sentidos.» «Devemos, pois, resistir aos sentidos com todas as nossas forças?» «Certamente.» «Que, então, se as coisas de que os sentidos nos dão conhecimento nos dão prazer?» «Devemos impedi-las de o fazer.» «Como?» «Adquirindo o hábito de passar sem elas e desejar coisas melhores.» «Mas se a alma morrer, que então?» «Por quê, então a verdade morre, ou a inteligência não é verdade, ou a inteligência não é parte da alma, ou aquilo que tem alguma parte imortal é passível de morrer: conclusões todas as quais demonstrei há muito em meus Solilóquios serem absurdas por impossíveis; e estou firmemente persuadido que assim é, mas de algum modo, pela influência do costume na experiência dos males, nos aterrorizamos e hesitamos. Mas mesmo concedendo, finalmente, que a alma morre, o que não vejo ser de modo algum possível, permanece todavia verdadeiro que a vida feliz não consiste na alegria evanescente que os objetos sensíveis podem produzir: isto ponderei deliberadamente e provei.»

Talvez seja por causa de raciocínios como estes que fui julgado por meu próprio Nebrídio, se não absolutamente feliz, ao menos feliz em certo sentido. Julgue-me também eu feliz: pois que perco com isso, ou por que recusaria pensar bem de meu próprio estado? Assim falei comigo mesmo, depois orei segundo meu costume, e adormeci.

A Nebrídio, 5

Estas coisas julguei bem escrever-vos. Pois me é grato que me agradeçais quando escrevo livremente o que me vem à mente; e a quem posso escrever tolices mais de boa vontade que àquele a quem não posso desagradar? Mas se depende da fortuna que um homem ame outro ou não, olhai, peço-vos, como posso ser justamente chamado feliz quando me exalto tanto de alegria com os favores da fortuna, e abertamente desejo que meu cabedal de tais bens seja grandemente aumentado? Pois aqueles que são mais verdadeiramente sábios, e a quem só é justo chamar felizes, sustentaram que os favores da fortuna não devem ser objeto nem de temor nem de desejo.

Ora, aqui usei a palavra «cupi»: quereis dizer-me se deve ser «cupi» ou «cupiri»? E folgo que isto tenha vindo a propósito, porque desejo que me instruais sobre a flexão deste verbo «cupio», pois, quando o comparo com verbos semelhantes, minha incerteza sobre a flexão própria aumenta. Porque «cupio» é semelhante a «fugio», «sapio», «jacio», «capio»; mas se o modo infinitivo é «fugiri» ou «fugi», «sapiri» ou «sapi», não sei. Poderia considerar «jaci» e «capi» como exemplos paralelos que respondem à minha pergunta quanto aos outros, não fosse o receio de que algum gramático me «apanhasse» e «lançasse» como uma bola em joguete para onde quisesse, lembrando-me que a forma dos supinos «jactum» e «captum» é diferente da que se encontra nos outros verbos «fugitum», «cupitum» e «sapitum». Quanto a estas três palavras, além disso, igualmente ignoro se a penúltima deve ser pronunciada longa e com acento circunflexo, ou sem acento e breve. Gostaria de provocar-vos a escrever uma carta razoavelmente longa. Rogo-vos que me envieis algo que leve algum tempo a ler. Pois está muito além do meu poder exprimir o prazer que acho em ler o que escreveis.

A Nebrídio

(ano 387.)

Agostinho a Nebridius envia saudação.

1. É coisa verdadeiramente admirável quão de improviso fui surpreendido quando, ao examinar quais das vossas cartas permaneciam ainda sem resposta, encontrei somente uma que me retinha como vosso devedor, — a saber, aquela em que me pedis que vos diga até onde, neste meu ócio, que supondes grande e do qual desejais participar comigo, tenho progredido no aprender a discernir as coisas da natureza com que os sentidos se ocupam daquelas de que se ocupa o entendimento. Mas suponho que não vos é desconhecido que, se alguém se impregna cada vez mais completamente de opiniões falsas, quanto mais plena e intimamente se exercita nelas, tanto mais facilmente se produz no espírito o efeito correspondente pelo contato com a verdade. Contudo, o meu progresso, à semelhança do nosso desenvolvimento corporal, é tão gradual que é difícil definir os seus passos com distinção, tal como, ainda que haja diferença muito grande entre um menino e um jovem, ninguém, se fosse interrogado diariamente desde a infância, poderia em algum dia determinado dizer que já não era mais menino, mas jovem.

2. Não quero, porém, que apliqueis esta comparação de tal modo que supunhais que, com o vigor de um entendimento mais poderoso, cheguei como que ao início da virilidade da alma. Pois sou ainda um menino, ainda que, como se costuma dizer, um menino de esperanças, antes que um inútil. Porque, ainda que os olhos do meu espírito sejam na maior parte perturbados e oprimidos pelas distrações produzidas pelos golpes que as coisas sensíveis neles infligem, são todavia reavivados e erguidos de novo por este breve raciocínio: «O espírito e a inteligência são superiores aos olhos e à faculdade comum da visão; o que não poderia ser, se as coisas que percebemos pela inteligência não fossem mais reais do que as que percebemos pela faculdade da visão.» Peço-vos que me auxilieis a examinar se alguma objeção válida pode ser oposta a este raciocínio. Por ele, entretanto, me sinto restaurado e reanimado; e quando, após invocar o socorro de Deus, começo a elevar-me a Ele e àquelas coisas que são no mais alto sentido reais, fico por vezes saciado de tal apreensão e gozo das coisas que eternamente permanecem, que às vezes me maravilho de ter necessidade de um tal raciocínio como o que acima expus para me persuadir da realidade daquelas coisas que em minha alma me estão tão verdadeiramente presentes como eu o estou a mim mesmo.

Examinai vós mesmo as vossas cartas, pois reconheço que nisso tereis mais trabalho do que eu, a fim de certificardes que não estou porventura ainda sem saber devendo resposta a alguma delas: pois dificilmente posso crer que me tenha tão cedo livrado do peso das dívidas que costumava considerar tão numerosas; ainda que, ao mesmo tempo, não possa duvidar de que tendes algumas cartas minhas às quais ainda não recebi qualquer resposta.

Nebrídio a Agostinho

(ano 388.)

Nebridius envia saudação a Agostinho.

É verdade, meu amado Agostinho, que consumes tua força e paciência nos negócios dos teus concidadãos (em Tagaste), e que o repouso das distracções, que tão ardentemente desejaste, ainda te é negado? Quem são, quero eu saber, os homens que assim abusam da tua bondade e invadem o teu tempo? Creio que não sabem o que mais amas e anseias. Não tens à mão algum amigo que lhes diga a que aspira o teu coração? Não farão isso nem Romaniano nem Luciniano? Ouçam-me ao menos. Proclamarei em voz alta; protestarei que Deus é o supremo objecto do teu amor, e que o desejo do teu coração é ser servo d'Ele e a Ele se unir. De bom grado te persuadiria a vir à minha casa no campo, e aqui repousar; não temerei ser denunciado como salteador por aqueles teus patrícios, a quem amas em demasia, e pelos quais és amado em excesso.

Referência atual: Santo Agostinho, Cartas, III